Capítulo 1

 

   Quando o antigo casarão começou a ser derrubado, Pombel, um pombo cinza-pérola, nascido e criado em seus beirais, ficou apavorado, assim como as dezenas de pombos que tinham no prédio sua moradia. As pombas viram, transtornadas, que junto com os tijolos e o reboco, caíam seus ninhos, com ovos e filhotes. Voaram aflitas, desarvoradas e desesperadas, e tentaram se aproximar dos destroços de seus ninhos e dos borrachos que piavam.

       Pousados nos galhos das árvores próximas, os pombos machos, de olhos arregalados e arfantes, se lamentaram ou imaginaram bravatas, como um ataque de bicadas aos trabalhadores que com suas picaretas e britadeiras iam reduzindo tudo a pó. Aos poucos foram se conformando e voaram para os prédios próximos, onde tentariam recomeçar suas vidas.

     Passados os primeiros tempos de confusão e tumulto, barulho e poeira, Pombel resolveu sair voando, vendo coisas novas, visitando velhos amigos, fazendo novas amizades e azarando pombinhas descomprometidas. Era solteiro, ia gozar sua liberdade.

     Os pombos vivem disseminados pelas cidades, em grupos grandes, concentrados em velhos casarões, igrejas e edifícios, onde possam fazer seus ninhos. Onde via uma dessas comunidades Pombel pousava, ficava alguns dias, depois partia em busca de novos horizontes. A vida o presenteara com a liberdade e queria usufruir dela.

    Voando sobre uma das ruas mais antigas, avistou um bando de pombos que vivia nos beirais de uma velha escola. Encantou-se com o lugar, que lhe lembrava o velho casarão onde nascera. A mesma familiar cor cinzenta, manchada pela chuva e pelo tempo, recantos penumbrosos, enfeitados por teias de aranha e picumãs, árvores antigas pejadas de ninhos de outros pássaros. Gostou até da zoeira dos alunos. Mas o que realmente o prendeu, foi o tímido olhar de uma pombinha.

    Pombita era quase toda branca, com manchas pretas nas pontas das asas e em volta dos olhos doces. Tímida e muito romântica, ainda não escolhera seu par, queria um pombo especial para casar.

    Pombel cercou-a de atenções, conseguia-lhe insetos, grãos de milho quebrados e pedacinhos de casca de pão, rondava os alunos que lanchavam para pegar as sobras. Ela se sentia uma rainha. Pombel elogiava-lhe a elegância, o olhar, o andar, a maneira delicada como se catava, tudo. Estava apaixonado.

   Inflando o majestoso pescoço e arrastando pelo chão a cauda aberta em leque, arrulhou-lhe um pedido de casamento. Ela aceitou, emocionada e disse:

– E vamos morar aqui, no telhado da escola. Assim, nossos filhotes poderão aprender muita coisa. Vou levá-los para o peitoril da janela da sala de aula. Vai ser bom para eles.

– Mas e os meninos? Podem jogar pedras neles, assustá-los e até feri-los.

– Eles se acostumarão, como me acostumei. Não quero filhos analfabetos.

    Escolheram um recanto ventilado e pouco iluminado, ideal para o desenvolvimento dos borrachos. As semanas que se seguiram ao casamento foram utilizadas para levar gravetos, pedaços de papel, folhas secas e fiapos de pano para forrar o ninho.

Dos ovinhos que Pombita depositou no ninho nasceu um casal de filhotes, Columba e Pombote. Mil cuidados os pombos dispensaram aos borrachos, que cresceram fortes e sadios. A pombinha era dócil, um tanto tímida, mas Pombote era muito levado. Era preciso que estivesse sempre sob vigilância, para não fazer muita arte.

    O que mais preocupava Pombita era a travessia da rua em frente à escola, muito movimentada. Como Pombote ainda não tinha segurança em voar, ela temia que ao atravessar a rua, ficasse tonto e pousasse no asfalto, onde poderia ser atropelado. Só em pensar nisso sentia um arrepio.

   E Pombote vivia de olhar comprido nos pombos adultos que passavam o dia na fachada externa da escola, cruzando a rua, brincando nas sacadas e janelas. E não se cansava de pedir aos pais que o deixasse brincar com eles.

– Nem pensar, respondia Pombita, nervosa. Não saia daqui.

– Por que não posso? Tenho asas como eles, e se eles podem eu também posso.

– Eles são adultos, respondia ela, paciente. Dominam a arte de voar. Borrachos como você e seus amiguinhos ainda não sabem escapar dos perigos. Tenha paciência, mais um pouco e você vai poder brincar à vontade.

– Droga, sô! resmungava ele. Aí estarei muito velho. Eu quero é agora!

– Agora não pode e ponto final. Volte para o ninho.

O medo da mãe só aguçava a curiosidade do filho. O que havia de tão perigoso na rua? Pombote ardia de curiosidade. Por diversas vezes, aproveitando-se da distração dos pais, se aproximara da borda do telhado. Era descoberto em segundos e obrigado a voltar ao ninho. Só conseguia uma fugaz visão da rua e o movimento entrevisto aumentava sua curiosidade. Um dia, na ausência prolongada do pai e com a mãe ocupada, ensinando a filha a fazer ninho, voou para a rua.

    Nos primeiros momentos ficou atordoado e assustado. Logo se refez e misturou-se aos outros pombos, cruzando a perigosa rua de um telhado a outro. Viu? pensou, empolgado pela liberdade, sou capaz de voar como os outros. Nada como fazer o que a gente tem vontade. E pousava nos fios, fazia piruetas entre os postes, caía em parafuso ou em queda livre. Um pombo radical. Era demais!

   O ar morno deslocado pelos veículos em movimento acariciavam suas penas. De repente, sem aviso, o vento aumentou de velocidade, sacudindo os galhos das árvores, levantando muita poeira. Os pombos maiores fugiram para os beirais com rapidez. Apanhado em cheio pela ventania, Pombote foi levado de roldão. Visto de longe parecia uma bolota cinzenta, carregada aos trancos e barrancos, dentro de um novelo, onde se misturavam folhas, papéis e lixo de toda a espécie.

    O céu escurecera rapidamente e Pombita, preocupada ao perceber a ausência do arteiro, saiu a sua procura. O vento forte a impediu de sair. Nervosa, procurou o filho nos ninhos vizinhos, onde ele costumava brincar. Ninguém sabia dele. Um pombo velho, que por ter dificuldade em voar passava o dia espiando a rua, lhe contou o sucedido. Pombita desmaiou.

1 Comentário Add your own

  • 1. Emil de Castro  |  13 \13\UTC agosto \13\UTC 2013 às 15:04

    Belíssimo seu romance infantil. Emil.

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