Viva São João!

1 \01\UTC julho \01\UTC 2017 at 09:18 Deixe um comentário

Neste sábado, 24 de junho, nossa cidade comemora o nascimento de São João Batista, seu padroeiro. Falta, porém, a animação de anos anteriores. Assisto a passagem da procissão, com poucos fieis, e até o andor tem menos flores. Passa um menino vestido como o santo e algumas anjas adolescentes. Ficaram curtas as extensas alas de homens vestidos de ternos, com opas com o símbolo da Irmandade. Também poucas as mulheres na outra ala. A Banda musical toca com o mesmo entusiasmo e maestria.

No andor, a imagem de são João vestido com túnica vermelha e manto, tendo no braço direito, dobrado, um livro grosso, sobre o qual está um cordeiro deitado; o outro braço segura um cajado. Tudo errado. Essa imagem não é do Batista, pode ser a do Evangelista, e a troca aconteceu na reinauguração do prédio da matriz, consumido por um incêndio em julho de 1882. As obras de reconstrução haviam demorado cerca de dois anos, o povo reclamava, uma vez que ajudara seu custo com espórtulas. A imagem para o altar mor havia sido encomendada no exterior e não chegara a tempo; foi colocada outra em seu lugar, e a do santo posta no batistério, a imagem de um homem em tamanho real, vestido com uma pele de camelo. Teve quem se aborrecesse comigo quando contei essa história, retirada de antigos jornais da cidade,

É interessante a história de João Batista, que segundo a Bíblia, nasceu em uma aldeia da Judeia, filho de Isabel e do sacerdote Zacarias, ambos idosos, que sonhavam ter um filho. Assim como a Maria, um anjo anunciou o nascimento do menino, um verdadeiro milagre, dada a idade de seus pais, e mandou que o chamassem João. Avisou ainda que ele seria o precursor de Jesus, seu primo. E assim foi. João, que passou a ter o cognome de Batista por ter batizado Jesus, o Cristo, não era um homem comum. Sabedor de sua missão de pregador, quando adulto retirou-se para o deserto e passou a se cobrir com a pele de um camelo – como a imagem do batistério – e a se alimentar de gafanhotos e mel. Homem de altas virtudes e rigorosas penitências, que pregava abertamente contra Herodes Antipas, um governador corrupto que vivia amasiado com sua cunhada, foi considerado terrorista pelo governo romano, que dominava a região, e aprisionado por meses num calabouço até ser decapitado a pedido de Salomé, instigada por sua mãe, Herodíades, mulher de Herodes, em 29 de agosto.

Como se vê, faz mais sentido a representação do santo do batistério, mais fiel à história que a do altar mor. Voltemos, porém, às festividades que provavelmente são realizadas há mais de 300 anos, desde que o pescador Lourenço do Espírito Santo ergueu a capelinha em honra de São João, mais tarde imortalizada na tela pintada por Uilton Mallet, e que pode ser vista na capa do livro de Fernando José Martins, 2ª edição. São João é um santo requerido por muitas localidades como seu padroeiro. Macaé é uma delas, Meriti outra. Aqui, até o governo de Argeu Oliveira, a prefeitura bancava apenas a decoração das ruas, enfiando bambus enfeitados om bandeiras coloridas no meio-fio.

Fora isso, a Irmandade cuidava da programação e do custeio da festa. A procissão era concorridíssima e a parte profana muito animada, com a praça rodeada de barraquinhas. Não havia shows de cantores breganejos, mas havia os bailes quase de gala dos clubes sociais. Nesses dias ostentava-se o melhor e mais bonito traje. Toda a roupa comprada depois da Semana Santa era estreada na festa de São João. Meu primeiro blazer era de tweed e me pavoneei pelas calçadas da praça para exibi-lo.  O consumo de drogas, se havia, era mínimo, mas consumia-se muito conhaque, uma droga lícita, porque a noite de São João, que marca o solstício de inverno na parte sul do mundo, com sua miríade de estrelas e alguns balões, era a mais longa e fria do ano. Foi assim que bebi conhaque pela primeira vez. Os fogos de artifício, além dos entojados e onipresentes foguetes, eram as rodilhas coloridas acesas na ilha em frente à praça, Pai João e Mãe Maria, para não haver riscos para o imenso tambor que guardava álcool da indústria de bebida, junto ao cais do imperador.

A praça e as ruas que nela desembocavam ficavam cheias de gente. Época de namoros,  que às vezes só duravam aquela noite mágica ou engrenavam em namoro firme, caminho do altar. A moçada andava em torno da praça, em direções opostas, para ver e esbarrar em garotas e rapazes interessantes, enquanto num coreto atrás da matriz um leiloeiro apregoava suas prendas, todas ofertadas por fieis. Tinha de tudo, do bolo e pratos de doces feitos em casa a bezerros e cabritos, oferta dos fazendeiros da região. Com a venda apurada pagava-se a maior parte das despesas da festa.

A noite, apesar de longa, esvaia-se rapidamente e deixava as lembranças dos           furtivos toques de mãos e dedos e dos beijinhos roubados rapidamente, atrás das árvores esculpidas pelos jardineiros da prefeitura. Como era bom!

 

 

 

 

 

 

 

 

Anúncios

Entry filed under: Crônicas.

NOTAS ESPARSAS TEMPOS DIFÍCEIS

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Últimos Posts


%d blogueiros gostam disto: