NOTAS ESPARSAS

25 \25\UTC junho \25\UTC 2017 at 11:19 Deixe um comentário

Assisto um capítulo da novela das seis na TV Globo. Há muito que novelas não me atraem. Acho-as repetitivas, sem imaginação, repaginando sempre os mesmos enredos com algumas poucas diferenças. A última a que assisti foi “Eta, mundo bom”, baseada em livro de Voltaire. Tinha lances e personagens interessantes e bastante humor. A atual, que se pretende estórica, isto é, baseada em fato histórico, é tão fantasiosa que assombra. D. Pedro I está razoável, embora tenha mandado o Chalaça, seu real companheiro de farras, para as calendas gregas. Novos personagens são criados para movimentar a trama, mas algumas liberdades são imperdoáveis e desnecessárias. A imperatriz Leopoldina ficou linda. O período em que a novela se passa já foi bastante movimentado para precisar dessas liberdades. O pior é que muitos vão pensar que o que ali se conta é a verdade e não um movimentado enredo para tornar a história mais comercial, aumentando a audiência e em consequência o número e o preço dos anúncios inseridos. Será que no final haverá um esclarecimento ao público?

****************************

Que cidade será essa onde transcorrem muitos dos meus sonhos? É uma cidade muito antiga, com belos prédios deteriorados, ruas enlameadas por onde transitam animais, como cavalos, cães, cabritos, galinhas, onde parece ser o centro. Por entre igrejas que lembram o barroco brasileiro, surgem minaretes de evidente inspiração árabe, casas com janelas fechadas por treliça, jardins internos com muros derruídos e chafariz quebrado. Por suas ruas, sempre escuras, escorrem procissões, cujos santos que passeiam de andor não distingo, seguidos por bandas musicais diluídas na neblina. Conheço tudo dessa cidade de sonho. Ando pelas ruas cheias de poças dágua, tábuas para facilitar o acesso, passo por jardins danificados pelo descaso, onde algumas dálias conseguem se equilibrar na ponta de hastes verdes, cercadas por mini cercas vivas de saudades roxas e brancas, subo nas calçadas, de arroxeadas pedras são tome, ouço galos entoando sua música de acordar sol, galinhas excitadas pela presença da multidão de baratas que correm tontas entre os canteiros destroçados, empurro as pesadas portas de madeira pintadas de azul desbotado, entro na sala, casas de maribondos pendem das ripas que seguram o teto, os cômodos são simples, lavados, com móveis velhos, cambetas, desbeiçados, sem graça. As únicas pessoas que vejo são mulheres cansadas que lavam louças e roupas em grandes bacias com grosso fundo de madeira, oscilantes, sobre a calçada suja. Não vejo seus rostos, curvados sobre o trabalho. Uma criança chora num dos cômodos.

Que cidade será essa? Por que ali se passam muitos dos meus sonhos?

*************************************************

 

Passava das sete da manhã e a condessa não havia aparecido, o que era de se estranhar. Sua figura hierática, lembrando uma deusa egípcia, costumava ser pontual. Não sabíamos seu nome e por qualquer nome que a chamássemos mal nos dava um olhar desinteressado, blasé. Ninguém sabia de onde vinha, se aboletava sempre no mesmo lugar, de onde nos enviava, quando lhe dava na telha, seu olhar frio, entre desdenhoso e altivo, daí o apodo de condessa. Não dava a mínima. Também não ligava para qualquer ameaça, nem se impressionava com os chamamentos. Vinha sempre cedo e os primeiros de nós que acordavam fingiam ostensivamente ignorá-la para não lhe dar confiança. Parecia pouco se importar com nossa atitude infantil e da mesma maneira retribuía. Era uma deusa, uma dama da corte, fazia jus ao título de condessa. Bastava o galo estridular os ares com seu campo forte, espantando os pombos aninhados nos beirais, para surgir com seu andar ondulante em preto e branco. Bocejava, acintosa. Sua primeira olhada era panorâmica, circular e desconfiada, ainda de pé. Nada percebendo de diferente ou ameaçador, dava um gracioso saltinho para a ponta do muro e sem se importar com olhares ou piadas, se punha a cuidar de sua minuciosa higiene. Apenas o voo rasante de uma andorinha distraída a fazia interromper o minucioso trabalho e lançar um olhar malévolo à inoportuna ave. Às vezes, com displicência, balançava seu rabo felpudo. Só então, apoiada nas patas da frente se esticava, distendendo o arco do mimoso corpo, e com graça e sem fazer qualquer barulho, caminhava lentamente para a outra ponta do muro, onde havia um ressalto, cerrava olhos verdes e se entregava ao sol. Por duas ou três vezes no dia sumia e imaginávamos que ia comer. Voltava para o mesmo lugar, não olhava para ninguém, embora percebêssemos que nos observava.

Por onde andará essa gata abusada e fascinante?

RDO/SJB-junho. 17

Anúncios

Entry filed under: Crônicas.

QUEM DIRIA QUE UM DIA FOMOS CABO FRIO. Viva São João!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Últimos Posts


%d blogueiros gostam disto: