AS PONTES INCONCLUSAS

9 \09\UTC junho \09\UTC 2017 at 15:35 Deixe um comentário

Neste ano de 2017 o município de São João da Barra possui duas pontes sobre o rio Paraíba do Sul ligando as duas partes de seu antigo território. Mas não conta com elas, as partes continuam separadas, estão inconclusas. E pelo jeito…

Pouco tempo depois do fim do porto flúvio-marítimo da cidade que a existência de pelo menos uma ponte se fez necessária. A grande largura do leito do rio e suas margens arenosas e a pouca expressão política do município, que depois do fim do porto tornou-se fundo de saco, dificultaram a elaboração de projeto e a construção da ponte. A distância entre os dois lados do município, que era o terceiro maior em extensão territorial do estado do Rio de Janeiro, tornavam a ponte mais que necessária, embora seu custo fosse alto. Os moradores do lado norte só visitavam a sede para pagar impostos e atender convocações judiciais. E a maioria ia de ônibus, precisando passar por Campos dos Goytacazes, dando uma grande volta, pois a navegação fluvial era precária e perigosa, e nunca houve intenção das autoridades de estimular seu desenvolvimento.

A construção da ponte era uma ardorosa aspiração da população. O número comemorativo do primeiro aniversário do jornal O Caranguejo, órgão oficial da Casa de São João da Barra, associação que congregava sanjoanenses que moravam na cidade do Rio de Janeiro, de fevereiro de 1966, realizou e publicou nas páginas de 4 a 6, uma enquete com a seguinte pergunta: Por que a ponte São João da Barra-Gargaú deve ser construída?

Dez moradores, de diferentes segmentos sociais, foram ouvidos. Apenas um não respondeu por estar fora do município no dia do recolhimento do formulário. Todos se mostraram preocupados com a divisão, o escritor e memorialista Célio Aquino chamou a ponte de “tábua de salvação” e José Costa, gerente geral das Indústrias da Bebidas Joaquim Thomaz de Aquino Filho, mostrou-se preocupado com a falta de comunicação entre as duas partes, lembrando que sua ausência era um entrave à economia local, e recomendou que a ponte fosse construída o mais rápido possível. Ecoando o que era dito por muitos, chamou a ponte de Dr. José Gregório, um cidadão com problemas mentais mas de visão clara. Não lhe fizeram essa homenagem, a primeira inconclusa chamou-se ponte presidente Figueiredo e a segunda provavelmente será a ponte Eike Batista.

Em 1983 ou 84, o deputado federal por Campos dos Goytacazes, Alair Ferreira, dono de uma empreiteira, elaborou e fez aprovar a construção de ponte ligando Cacimbas, no lado norte, a Cajueiro, no lado sul, ou seja, ligando nada a lugar nenhum, uma vez que nas cabeceiras projetadas não havia rodovia ou povoado, e batizou de ponte presidente Figueiredo. A construção seguiu célere, os contatos em Brasília permitiam o recebimento das parcelas da subvenção federal em tempo hábil. Em 87, faltando apenas a construção do tabuleiro e dos acessos, faleceu o deputado. A obra foi paralisada e nunca mais retomada. Houve ainda o pagamento de uma parcela que foi usada para obras em Gargaú, do lado norte. Da majestosa ponte restaram os grandes pilares como dramáticas mãos clamando aos céus. Estão cobertos por casas de maribondos e servem para pescadores amadores atravessar redes de um pilar a outro, obstruindo o caminho seguido por robalos e tainhas em épocas de piracema, quando buscam os mansos regatos que desaguam no rio para desovar.

O tempo passou, os pilares continuam a clamar aos céus. Os munícipes dos dois lados ficaram mais distanciados. A divisão das partes do município ensejou a ideia  de emancipação do lado norte, estimulada pelo prazo dado pela Constituição de 1988. Com base num plesbicito onde só os moradores do lado norte foram ouvidos foi feita a emancipação, uma das poucas no país em que a parte que se solta era maior que a que contém a sede. Foi criado o município de São Francisco de Itapaboana, com a extensão de dois terços aproximadamente do território original e o dobro da população. Acabou com o medo dos políticos do lado sul, sempre preocupados com a votação do sertão, como então chamavam o lado norte.

Aí chegou o porto do Açu com suas polêmicas e exigências. Um mineroduto de mais de 400 km foi construído de Alvorada de Minas/RJ ao Açu/SJB. Não precisou de ponte, passou até por baixo do Paraíba do Sul. Para trazer as pedras do Espírito Santo uma estrada boa era necessária e urgente. Uma ponte facilitava o caminho até o porto, que funcionava apesar dos escândalos que afastaram Eike Batista. O governo do estado assumiu o ônus e nova ponte começou a ser construída. Fica bastante longe da sede, mas quem se incomoda com uma velha cidade no fundo do saco? Praticamente tudo relativo ao porto era resolvido em Campos dos Goytacazes, que além de ficar mais perto das novas instalações tem uma boa infraestrutura, tanto que os executivos do porto foram lá morar.

A nova ponte estava sendo construída a todo vapor mas… há sempre um mas na vida sanjoanense, um belo dia parou, os trabalhadores se foram e até a placa com seus dados e data de inauguração foi desbotada pelo tempo. A ponte fazia parte da estrutura de acesso ao chamado “super porto do Açu”, esperança de retorno do município a seus dias de glória, apesar de tão afastado da sede. Desde que anunciado, o porto provocou uma série de atividades de apoio, menos as de infraestrutura. Os empregos anunciados, 100 mil, não sei quantos mil, ficaram no caminho, os casarões de veranistas de Grussaí, tomaram o lugar das pousadas e ao invés de seletos grupos de engenheiros e outros profissionais de nível superior abrigaram agitados grupos de peões, o que aumentou o nível de violência da antiga paradisíaca praia, procurada pelos proprietários rurais que chegavam com família e mobília em cambonas cobertas como nos filmes de faroeste. Os cursos de mandarim ministrados a moradores mostraram inúteis, pois os chineses não arregalaram os olhinhos para o projetos e se voltaram para outros empreendimentos. Prejuízos.

A nova ponte, sem dúvida, assim como as desapropriações que devastaram o 5º distrito foram frutos da ambição de alguns e falta de visão de muitos. Para permitir essas desapropriações, um Plano Diretor do município foi elaborado às pressas para atender aos interesses do Eike Batista. Tanto tempo depois da “carnificina”, onde até a Codin fez papel de polícia, arrancando lavradores de suas terras produtivas para, como declarou Ana Carolina de Araújo, defensora pública de S. João da Barra: uma retirada cruel para colocar nada no lugar. Não houve motivo legítimo nem legal para a criação do decreto. Houve violação de direitos e benefício exclusivo de interesses particulares”, informou.

Em audiência recente na Alerj um deputado lembrou que os trabalhadores rurais ”tiveram suas terras desapropriadas de forma arbitrária pelo governador Sérgio Cabral, e suas vidas desorganizadas.” Não sobrou sequer a ponte como consolo.

SJB, 09.06.2017

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CANAVIAIS Lembro que tudo aqui era coberto pelos sussurrantes canaviais. Apenas a estrada, de barro, e algumas casas escapavam. O verde mar se estendia das cercanias de Macaé, engolfava Quissamã e outras localidades e se esparramava, escalando morretes e quase se atolando nos brejos, até um pouco depois de Barcelos, cuja usina barrava a expansão. Das casas dos trabalhadores, próximo à safra, só se via as tampas e um ou outro pé de genipapo, muito usado para doces e licores. Uma trilha estreita permitia que os moradores saíssem de casa para seus afazeres. Em um livro que li sobre a tragédia do fazendeiro de Carapebus, Mota Coqueiro, acusado de chacinar a família de um de seus empregados e executado e depois considerado inocente, os empregados sequer podiam ter uma horta ou outras plantas comestíveis no entorno de suas casas para não ocupar terras destinadas à cana de açúcar. A execução indevida de Mota Coqueiro e seus escravos, acusados inocentes da chacina, provocou o fim oficial da pena de morte no país. Meu avô Sá plantava cana em Pipeiras e quando minhas férias coincidiam com a época do corte das canas passava dias lá e admirava os trabalhadores vestidos dos pés à cabeça, calças e mangas compridas, sob um sol ardente, cortando canas e só muito depois fui entender que era justamente por causa da solina causticante, que causava câncer de pele, embora eles não soubessem, agiam instintivamente, que as roupas eram assim. Não me lembro de ter visto mulheres cortando cana, só homens magros, escuros, uma agilidade incrível com o facão, a derrubar quilômetros de canas que eram limpas de suas palhas e atiradas para o lado, formando corredores de canas cortadas, que depois seriam depositadas nas cambonas, grandes carros puxados por duas ou três juntas de bois, empilhadas até atingir o alto dos fueiros, que impediam que caíssem. Parece que estou vendo outro empregado, geralmente de pele escura, também coberto pela roupa e pelo chapéu de palha, o carreiro, andando ao lado da cambona, a sacudir o garruchão, uma vara de madeira dura com um agulhão de ferro na ponta com argolas de metal, fazendo as juntas de bois puxarem as toneladas de futuro açúcar, melado e rapadura, por estradas mal cuidadas, de barro ou areia, a gemer, dando voz aos pobres animais. A cambona ia até à balança, onde depois de pesada a carga era transferida para um vagão de trem ou caminhão. Quando o sol atingia o meio do céu, praticamente assando tudo o que tocava, um barulhento bando de garotos surgia de todos os lados levando pequenos embrulhos de pano branco, – lembro o sol reverberando nessa cobertura, – amarrados num nó, e os entregando aos trabalhadores que buscavam logo a sombra de uma árvore, abriam o pacote e devoravam o prato de comida, acompanhado da água da moringa, encerrando a refeição com um gole de café morno que vinha numa garrafa de vidro. Assim como veio, o bando de moleques, cada um com seu estilingue (ou bodoque) metido no cós da calça, bando alegre, palrador, inconsciente do duro futuro que os esperava, pegavam os pratos vazios e corriam pelo meio das palhas, rindo, contando prosa, programando peladas, caçadas a preás, a rolinhas, a outros bichinhos. Barriga cheia, seus pais e amigos se deixavam ficar um tempo derreados, as pernas estendidas, palitando os dentes falhados, a quem matara com o facão certeiro. Na sequência, um maribondo pousara na parte da cobra que fora cortada, sugara seu sangue, ao que parece, depois levantara voo e atraído pelo ir e vir do facão, partia para cima do trabalhador e o picava, provocando sua morte imediata, a cobra era uma das mais venenosas. Outros casos surgiam, alguém fechava os olhos para um cochilo, mas em seguida um grito os faziam se levantar, reclamando, pegar o facão e voltar ao trabalho. Para nós o canavial era um doce mar e corríamos atrás das cambonas e na cidade atrás dos caminhões que levavam as canas para as usinas, e puxávamos as que acaso ficassem penduradas na hora da arrumação. As mais finas eram batidas nos mourões ou postes até poder ser torcidas, o caldo caindo diretamente na boca; as mais grossas descascadas e cortadas em roletes que a gente chupava com gosto enquanto brincava ou caminhava. Á noite o canavial espalhava o medo, tanta coisa escondia, lobisomens e sacis, mulas sem cabeça e aparições, e o vento gemendo e bulindo nas folhas que pareciam amoladas espadas levava outras estórias pavorosas a entrar por baixo da porta, normalmente das cozinhas, arregalar olhos e derrubar queixos, além de provocar indesejáveis calafrios. As lamparinas projetavam sombras malignas nas paredes e os adultos sentiam inefável prazer em acrescentar mais pitadas de horror às narrativas. Com a decadência da indústria sucroalcooleira na região, graças à má administração, ao sucesso de plantações idênticas no estado de São Paulo, muito mais produtivas, à falta das enchentes do combalido rio Paraíba do Sul, que cobriam o massapê de fértil humos, os canaviais foram arrasados e em seu lugar surgiram grandes espaços vazios, ora ocupados por sem-terras que produzem lavoura de subsistência, ora extensos pastos para poucos bois e para nós, que vivemos naquela época, muita saudade. RDO/SJB-maio 2017 QUEM DIRIA QUE UM DIA FOMOS CABO FRIO.

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