Canaviais

21 \21\UTC maio \21\UTC 2017 at 14:58 Deixe um comentário

Lembro que tudo aqui era coberto pelos sussurrantes canaviais. Apenas a estrada, de barro, e algumas casas escapavam. O verde mar se estendia das cercanias de Macaé, engolfava Quissamã e outras localidades e se esparramava, escalando morretes e quase se atolando nos brejos, até um pouco depois de Barcelos, cuja usina barrava a expansão. Das casas dos trabalhadores, próximo à safra, só se via as tampas e um ou outro pé de genipapo, muito usado para doces e licores. Uma trilha estreita permitia que os moradores saíssem de casa para seus afazeres. Em um livro que li sobre a tragédia do fazendeiro de Carapebus, Mota Coqueiro, acusado de chacinar a família de um de seus empregados e executado e depois considerado inocente, os empregados sequer podiam ter uma horta ou outras plantas comestíveis no entorno de suas casas para não ocupar terras destinadas à cana de açúcar. A execução indevida de Mota Coqueiro e seus escravos, acusados inocentes da chacina, provocou o fim oficial da pena de morte no país. Meu avô Sá plantava cana em Pipeiras e quando minhas férias coincidiam com a época do corte das canas passava dias lá e admirava os trabalhadores vestidos dos pés à cabeça, calças e mangas compridas, sob um sol ardente, cortando canas e só muito depois fui entender que era justamente por causa da solina causticante, que causava câncer de pele, embora eles não soubessem, agiam instintivamente, que as roupas eram assim. Não me lembro de ter visto mulheres cortando cana, só homens magros, escuros, uma agilidade incrível com o facão, a derrubar quilômetros de canas que eram limpas de suas palhas e atiradas para o lado, formando corredores de canas cortadas, que depois seriam depositadas nas cambonas, grandes carros puxados por duas ou três juntas de bois, empilhadas até atingir o alto dos fueiros, que impediam que caíssem. Parece que estou vendo outro empregado, geralmente de pele escura, também coberto pela roupa e pelo chapéu de palha, o carreiro, andando ao lado da cambona, a sacudir o garruchão, uma vara de madeira dura com um agulhão de ferro na ponta com argolas de metal, fazendo as juntas de bois puxarem as toneladas de futuro açúcar, melado e rapadura, por estradas mal cuidadas, de barro ou areia, a gemer, dando voz aos pobres animais. A cambona ia até à balança, onde depois de pesada a carga era transferida para um vagão de trem ou caminhão. Quando o sol atingia o meio do céu, praticamente assando tudo o que tocava, um barulhento bando de garotos surgia de todos os lados levando pequenos embrulhos de pano branco, – lembro o sol reverberando nessa cobertura, – amarrados num nó, e os entregando aos trabalhadores que buscavam logo a sombra de uma árvore, abriam o pacote e devoravam o prato de comida, acompanhado da água da moringa, encerrando a refeição com um gole de café morno que vinha numa garrafa de vidro. Assim como veio, o bando de moleques, cada um com seu estilingue (ou bodoque) metido no cós da calça, bando alegre, palrador, inconsciente do duro futuro que os esperava, pegavam os pratos vazios e corriam pelo meio das palhas, rindo, contando prosa, programando peladas, caçadas a preás, a rolinhas, a outros bichinhos. Barriga cheia, seus pais e amigos se deixavam ficar um tempo derreados, as pernas estendidas, palitando os dentes falhados, a quem matara com o facão certeiro. Na sequência, um maribondo pousara na parte da cobra que fora cortada, sugara seu sangue, ao que parece, depois levantara voo e atraído pelo ir e vir do facão, partia para cima do trabalhador e o picava, provocando sua morte imediata, a cobra era uma das mais venenosas. Outros casos surgiam, alguém fechava os olhos para um cochilo, mas em seguida um grito os faziam se levantar, reclamando, pegar o facão e voltar ao trabalho. Para nós o canavial era um doce mar e corríamos atrás das cambonas e na cidade atrás dos caminhões que levavam as canas para as usinas, e puxávamos as que acaso ficassem penduradas na hora da arrumação. As mais finas eram batidas nos mourões ou postes até poder ser torcidas, o caldo caindo diretamente na boca; as mais grossas descascadas e cortadas em roletes que a gente chupava com gosto enquanto brincava ou caminhava. Á noite o canavial espalhava o medo, tanta coisa escondia, lobisomens e sacis, mulas sem cabeça e aparições, e o vento gemendo e bulindo nas folhas que pareciam amoladas espadas levava outras estórias pavorosas a entrar por baixo da porta, normalmente das cozinhas, arregalar olhos e derrubar queixos, além de provocar indesejáveis calafrios. As lamparinas projetavam sombras malignas nas paredes e os adultos sentiam inefável prazer em acrescentar mais pitadas de horror às narrativas. Com a decadência da indústria sucroalcooleira na região, graças à má administração, ao sucesso de plantações idênticas no estado de São Paulo, muito mais produtivas, à falta das enchentes do combalido rio Paraíba do Sul, que cobriam o massapê de fértil humos, os canaviais foram arrasados e em seu lugar surgiram grandes espaços vazios, ora ocupados por sem-terras que produzem lavoura de subsistência, ora extensos pastos para poucos bois e para nós, que vivemos naquela época, muita saudade. RDO/SJB-maio 2017

Anúncios

Entry filed under: Crônicas.

NOITES DE VÍSPORA AS PONTES INCONCLUSAS

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Últimos Posts


%d blogueiros gostam disto: