NOITES DE VÍSPORA

6 \06\UTC maio \06\UTC 2017 at 15:32 Deixe um comentário

Seu nome era Bernice  – poupo o nome real para não violar sua intimidade – e quando a conheci já passava dos 50 anos. Era baixa e magra, pele lisa, olhos escuros brilhantes, cabelos crespos e grisalhos amarrados num coque frouxo sobre o pescoço. Cheirava a lavanda. Era pobre, mas elegante no falar, no vestir e no caminhar, sem afetação. Sorriso entre tímido e receptivo. Solteirona, vivia com a mãe e a irmã mais nova, Etelvina.

Em sua casa modesta e incrivelmente limpa, num lugar onde o vento constante trazia areia e folhas secas, jogávamos víspora nas noites das férias de verão na praia. Um perfume suave de ervas frescas modulava o ar. Gaiola com papa-capim cantador nos alegrava. E tinha um gato, que dormia num canto.

Dia sim, dia não, no fim da tarde Bernice comandava uma mesa de víspora muito concorrida, ou seja, com os oito assentos em volta da mesa ocupados. Sua casinha ficava no meio do mato, os ramos das plantas coçando as janelas azuis. Para se chagar a ela atravessávamos a pequena ponte sobre o riacho que ia do rio Paraíba do Sul à lagoa e depois um caminho de areia branca. Crianças, adorávamos o trajeto, íamos pulando, correndo e gritando de alegria, assustando os camaleões, que disparavam sacudindo o rabinho, para baixo das esparramadas pitangueiras, dos coqueiros rasteiros, que a gente conhecia como coco-catarro e outras plantas luxuriosas que envolviam pés de caju, de ingá e cambuí. De vez em quando no riacho apareciam filhotes de jacaré papo amarelo desnorteados que o povo caçava para o almoço. Na época de pouca chuva tainhas vindas do rio rebolavam até serem abatidas a facão. Reforço de refeição. Contavam que nas noites de quinta para sexta-feira lobisomens alucinados faziam o mesmo trajeto, o que o tornava mais excitantes. Pena que só andassem de dia.

O víspora, que já se chamou loto e hoje é bingo, era animado e os jogadores eram pouco mais de 10. Mais gente viesse e não teria onde se sentar. Era o divertimento de verão e elas, nas longas e frias noites de inverno, sem frequentadores, à luz de lamparinas, que o lampião era reservado para o tempo das visitas,  jogava-se paciência pontilhada de suspiros. O cheiro de querosene queimado impregnava o ar da pequena sala que, além das portas de entrada e do corredor, tinha uma janela de madeira carcomida que não podia ficar aberta por causa dos golpes de ar, nefastos.

Acomodados os jogadores fazia-se silêncio e Bernice se postava na cabeceira que dava para o interior da casa e com seu sorriso mais cativante e acolhedor iniciava o jogo. À frente de cada grupo de três cartões numerados um montinho de caroços de milho ou de feijão. Ela nos olhava, um por um, e as crianças se impacientavam com a demora e se mexiam nos bancos, que rangiam. Os adultos, sempre senhoras veranistas, o rosto avermelhado pelo sol da praia, aguardavam com calma, mexendo e arrumando os caroços dos montinhos.

Depois de um pigarro encorpado, que tornavam rosado o entorno das bochechas coloridas por ruge, ela sacava uma pedra de madeira, numerada, do saco que não se cansava de sacudir, a olhava com inexcedível prazer e com voz sofisticada, diria mesmo esnobe, diversa da que usava no cotidiano, cantava o número sorteado.

Mais uma sacudidela no saco e retirava outra pedra e solfejava: número dois, escandindo as letras, a seguir idade de Cristo, que significava o número 33. E assim por diante, cada pedra tinha seu apelido. A 22 era dois patinhos na lagoa, a 15 inquizilou perdeu, a 90 nas ventas, seguida de um sorrisinho brejeiro, a 77 dois machados num pau só e raras pedras escapavam do apelido jocoso. Muito divertido, a gente ria, se cutucava, fingia que esbarrava no cartão alheio para desmarcá-lo, aguentava as broncas e a noite se esvaía sem que se percebesse.

Lá fora a escuridão um breu, assustador. As senhoras se espreguiçavam, trocavam amenidades, com vagar, e as crianças saltavam dos bancos como se tivessem molas e corriam pela sala. A cantadora piscava os olhos cansados enquanto devolvia as pedras à sacola e com lassidão no olhar puxava os cordões e a fechava. Com graça escondia um bocejo com a mão. Até mais, diziam, e as crianças munidas de lanternas de querosene se precipitavam para fora aos pulos. As mães mandavam tomar cuidado com os bichos. Podia ter cobra, escorpião, achavam.

Nas noites de luar, o balanço dos galhos e o sussurrar das folhas ao longo do caminho de volta parecia coisa de almas do outro mundo. Se um barulho diferente vinha do mato escuro as crianças se aterrorizavam e se colavam ás pernas maternas, atrasando a caminhada. As mais valentes davam as mãos às mães, e alegavam que temiam tropeçar nas raízes.

Na casinha que silenciava a cantadora tornava a bocejar, enquanto juntava os cartões que guardava num outro saco de pano branco onde bordara flores e borboletas.

B morreu na cidade do Rio de Janeiro, onde estava de passagem, soterrada pelo desabamento da casa onde se hospedava, durante um terrível temporal na década de 70.

SJB, 06.05.2017

 

 

 

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MILHÃO, BILHÃO, TRILHÃO CANAVIAIS Lembro que tudo aqui era coberto pelos sussurrantes canaviais. Apenas a estrada, de barro, e algumas casas escapavam. O verde mar se estendia das cercanias de Macaé, engolfava Quissamã e outras localidades e se esparramava, escalando morretes e quase se atolando nos brejos, até um pouco depois de Barcelos, cuja usina barrava a expansão. Das casas dos trabalhadores, próximo à safra, só se via as tampas e um ou outro pé de genipapo, muito usado para doces e licores. Uma trilha estreita permitia que os moradores saíssem de casa para seus afazeres. Em um livro que li sobre a tragédia do fazendeiro de Carapebus, Mota Coqueiro, acusado de chacinar a família de um de seus empregados e executado e depois considerado inocente, os empregados sequer podiam ter uma horta ou outras plantas comestíveis no entorno de suas casas para não ocupar terras destinadas à cana de açúcar. A execução indevida de Mota Coqueiro e seus escravos, acusados inocentes da chacina, provocou o fim oficial da pena de morte no país. Meu avô Sá plantava cana em Pipeiras e quando minhas férias coincidiam com a época do corte das canas passava dias lá e admirava os trabalhadores vestidos dos pés à cabeça, calças e mangas compridas, sob um sol ardente, cortando canas e só muito depois fui entender que era justamente por causa da solina causticante, que causava câncer de pele, embora eles não soubessem, agiam instintivamente, que as roupas eram assim. Não me lembro de ter visto mulheres cortando cana, só homens magros, escuros, uma agilidade incrível com o facão, a derrubar quilômetros de canas que eram limpas de suas palhas e atiradas para o lado, formando corredores de canas cortadas, que depois seriam depositadas nas cambonas, grandes carros puxados por duas ou três juntas de bois, empilhadas até atingir o alto dos fueiros, que impediam que caíssem. Parece que estou vendo outro empregado, geralmente de pele escura, também coberto pela roupa e pelo chapéu de palha, o carreiro, andando ao lado da cambona, a sacudir o garruchão, uma vara de madeira dura com um agulhão de ferro na ponta com argolas de metal, fazendo as juntas de bois puxarem as toneladas de futuro açúcar, melado e rapadura, por estradas mal cuidadas, de barro ou areia, a gemer, dando voz aos pobres animais. A cambona ia até à balança, onde depois de pesada a carga era transferida para um vagão de trem ou caminhão. Quando o sol atingia o meio do céu, praticamente assando tudo o que tocava, um barulhento bando de garotos surgia de todos os lados levando pequenos embrulhos de pano branco, – lembro o sol reverberando nessa cobertura, – amarrados num nó, e os entregando aos trabalhadores que buscavam logo a sombra de uma árvore, abriam o pacote e devoravam o prato de comida, acompanhado da água da moringa, encerrando a refeição com um gole de café morno que vinha numa garrafa de vidro. Assim como veio, o bando de moleques, cada um com seu estilingue (ou bodoque) metido no cós da calça, bando alegre, palrador, inconsciente do duro futuro que os esperava, pegavam os pratos vazios e corriam pelo meio das palhas, rindo, contando prosa, programando peladas, caçadas a preás, a rolinhas, a outros bichinhos. Barriga cheia, seus pais e amigos se deixavam ficar um tempo derreados, as pernas estendidas, palitando os dentes falhados, a quem matara com o facão certeiro. Na sequência, um maribondo pousara na parte da cobra que fora cortada, sugara seu sangue, ao que parece, depois levantara voo e atraído pelo ir e vir do facão, partia para cima do trabalhador e o picava, provocando sua morte imediata, a cobra era uma das mais venenosas. Outros casos surgiam, alguém fechava os olhos para um cochilo, mas em seguida um grito os faziam se levantar, reclamando, pegar o facão e voltar ao trabalho. Para nós o canavial era um doce mar e corríamos atrás das cambonas e na cidade atrás dos caminhões que levavam as canas para as usinas, e puxávamos as que acaso ficassem penduradas na hora da arrumação. As mais finas eram batidas nos mourões ou postes até poder ser torcidas, o caldo caindo diretamente na boca; as mais grossas descascadas e cortadas em roletes que a gente chupava com gosto enquanto brincava ou caminhava. Á noite o canavial espalhava o medo, tanta coisa escondia, lobisomens e sacis, mulas sem cabeça e aparições, e o vento gemendo e bulindo nas folhas que pareciam amoladas espadas levava outras estórias pavorosas a entrar por baixo da porta, normalmente das cozinhas, arregalar olhos e derrubar queixos, além de provocar indesejáveis calafrios. As lamparinas projetavam sombras malignas nas paredes e os adultos sentiam inefável prazer em acrescentar mais pitadas de horror às narrativas. Com a decadência da indústria sucroalcooleira na região, graças à má administração, ao sucesso de plantações idênticas no estado de São Paulo, muito mais produtivas, à falta das enchentes do combalido rio Paraíba do Sul, que cobriam o massapê de fértil humos, os canaviais foram arrasados e em seu lugar surgiram grandes espaços vazios, ora ocupados por sem-terras que produzem lavoura de subsistência, ora extensos pastos para poucos bois e para nós, que vivemos naquela época, muita saudade. RDO/SJB-maio 2017

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