O DIA DO VOVÔ Vovô Godofredo (Dodô Sá) aniversariava no dia 26 de outubro, um dia de muita festa em sua fazenda em Pipeiras.Ele plantava cana de açúcar que vendia à Usina Barcelos numa fazenda de bom tamanho. Um dia de muito movimento, precedido por dias de grande agitação. Vovô tinha 14 filhos, 11 irmãos e não sei quantos cunhados, compadres, amigos e correligionários, pois era um importante líder político, chefe do PSD – Partido Social Democrático na região e todos compareciam ao evento. Era corriqueira a presença de políticos, de vereadores a deputados. Esse mundo de gente exigia muita comida e bebida. A azáfama começava dias antes com o abate de dois grandes porcos, que vinham sendo cevados desde o início do ano, uns monstros de carne e gordura. Vizinhos e conhecidos ajudavam no desmonte e separação das peças que iam ser preparadas para servir. As crianças olhavam fascinadas a trabalheira, não havia como impedir que as elas vissem o abate, os gritos lancinantes dos animais soavam longe, e o desmembramento dos bichos. Abertos os corpos porcinos em mesas improvisadas ao lado da casa, as vísceras eram retiradas, separadas das tripas, que eram cuidadosamente lavadas para serem transformadas em linguiças. E que linguiças! Nada que parecesse com essas oferecidas pelos frigoríficos ora atormentados pela fiscalização midiática. Na casa de farinha aguardavam as sacas com farinha de mandioca torrada, ali mesmo produzida, os milhos debulhados, tudo misturado a prateleiras de queijos, protegidos por panos brancos, de doces batidos de frutas, também colhidas na propriedade, como bananas, goiabas e outras, latas de 20 litros de biscoitos de polvilho diversos, que foram assados dias antes, roscas de fubá e de polvilho, chamados de enganos, tapiocas e bijus e bolos de mandioca puba. Como não havia padaria por perto, talvez só em Beira do Taí, a mistura que acompanhava o café era feita na fazenda. Pão só dormido. Para completar o cenário caótico na casa de farinha, lembro as selas e arreios pendidos de grandes pregos na parede, jacás cheio de palha, onde as galinhas punham seus ovos, que iam se juntar aos guardados nos armários da cozinha ou já convertidos em bolos e mil doces. Os frangos eram abatidos em série e como na época não havia geladeira, eram assados ou preparados de outra forma para resistir. Dois ou três bois eram sacrificados, não só para os convidados, como para alimentar o farrancho de ajudantes que tinha vindo das cercanias, mas que não ficava bem ter de ir em casa almoçar. Além do mais era tempo perdido, todos os braços eram necessários. Parte da carne fresca do gado virava bifes que eram pendurados em varais pra se tornar “carne de vento”, uma espécie de carne de sol local. Como quem tem muitos filhos tem muitos netos, a criançada reinava e era preciso arrumar gente para cuidar dela, atividade reservada às adolescentes, que no meio da luta para controla-la se exibiam para a rapaziada. As crianças que chegariam no dia da festa ficariam a cargo de suas mães. Imagine a tropa de crianças se embarafustando pela casa, se metendo no meio das atividades, por entre as pernas de adultos ocupados, puxando sua roupa para atrair atenção, chorando, berrando, querendo isso e aquilo, com fome e com sede, atordoadas pela movimentação dos adultos. Em toda propriedade rural vivem cachorros e gatos e muitas vezes esses animais seguiam os vizinhos que vinham ajudar e junto com as crianças, com as galinhas loucas, que não podiam ser confinadas em galinheiros e bacorinhos berrantes, transformavam os bastidores da festa num cenário de horror e gritaria. Todos queriam alguma coisa a qualquer hora, e os animais, assustados com aquela balbúrdia, buscavam inutilmente recuperar sua tranquilidade, seu cochilo junto ao fogão, sua brincadeira de perseguir as galinhas, enfim a normalidade. Nas gaiolas presas nas paredes pássaros estridulavam seu espanto e susto. O povo convidado começava a chegar na véspera. Nos primeiros tempos a cavalo ou em carroças e charretes, depois em veículos motorizados. Os que vinham de longe e iam dormir ali, traziam quilos de roupas e outros objetos úteis e inúteis e era preciso acomodá-los, a casa era grande, mas não tanto, e minha avó, dona da casa, que por sorte era muito calma, começava a distribui-los. Mulheres e crianças nos quartos e os homens na sala, onde dormiriam em esteiras. E olhe lá! Não havia banheiros suficientes, os banhos eram em bacias e as outras necessidades fisiológicas no meio do mato. Ninguém sabia o que era papel higiênico e o remédio era usar folhas macias de árvore ou a aspereza das batueras. Batuera é o sabugo da espiga de milho sem os caroços, de mil utilidades. Isso redundava em situações hilárias ou constrangedoras. Vovô tinha um irmão, cujo nome me escapa, que era mestre em fazer brincadeiras de mau gosto, como passar pimenta nas batueras, servir bolos de batata purga ou jalapa, de alto efeito laxante, fazendo os mais gulosos serem atacados por cólicas e diarreias e correrem desesperados para os matos ao redor da casa para se aliviar e se limpar com as batueras apimentadas e aí… No principal dia da festa era servido um almoço especial, ainda não havia churrasco, a carne de boi era servida de diversas maneiras, assada, ensopada, frita, o escambau. Não tinha como ter muita variedade, era feijão com arroz, macarrão, farofa e ovos fritos e as carnes. Às vezes peixes pretos, do brejo. Cachaça rolava, de garrafa, de barril, no copo, no cuitê, no copo. E as pessoas, barrigas cheias, se arriavam onde podiam, debaixo de árvores, de carroças, em rede ou cama que encontrassem vazias, no meio do capim. O sol batia de chapa e no final da tarde, quando se recuperavam, procuravam onde tomar um banho, porque a festa seguia e à noite teria baile com quadrilha na grande sala da frente. Uma fogueira tinha sido montada aonde os porcos tinham sido abatidos dias antes. As crianças cortavam varas de bambu verde e jogavam na fogueira para estourar que nem foguetes. Uma farra. Com outras varas, essas secas, puxavam as batatas doces que tinham sido jogadas no meio das brasas para assar. Pelando, queimando as pontas dos dedos, a fina a casca era arrancada e nem se esperava que esfriasse de todo para serem comidas. Gritos, pulos, risadas, corridas para fugir de quem não arrastou sua batata e queria pegar a que você carregava e comia ao mesmo tempo. Maravilha. A noite era encerrada com um baile tocado a sanfona e pandeiro na grande sala da frente, tendo como última dança uma quadrilha comandada pelo aniversariante. Ainda não havia o hábito de soprar velinhas e cantar parabéns, não que me lembre. Lá fora o céu brilhava intensamente, pontilhado por mil estrelas. Se havia lua os mais novos brincavam de roda no terreiro, se não os pares se formavam para início de namoro, carinhos delicados e fogosos e saudades antecipadas de festa tão gostosa. Rio das Ostras, 19.04.2017

24 \24\UTC abril \24\UTC 2017 at 15:47 Deixe um comentário

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A CAMPOS QUE CONHECI MILHÃO, BILHÃO, TRILHÃO

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