A CAMPOS QUE CONHECI

5 \05\UTC abril \05\UTC 2017 at 16:31 Deixe um comentário

Em 27 de março a cidade de Campos dos Goytacazes completou 182 anos, 15 anos a mais que São João da Barra. É que as duas são cabeças de municípios criados em datas próximas um do outro por determinação da Coroa portuguesa para limitar as ambições e peripécias do Visconde de Asseca e seus filhos, os Sá.

Quando conheci a cidade de Campos na década de 40 do século passado ela não era dos Goytacazes no título, embora tivesse sido no tempo em que os portugueses decidiram colonizá-la, eufemismo para justificar a exploração econômica. Bom, mas isso é coisa para historiadores, quero falar aqui da diferença entre a Campos de hoje e a que conheci quando ali fui morar, em 1944, por aí.

A primeira imagem que me vem à lembrança é a dos claros e alegres domingos de manhã, dias de regata, quando a margem do rio Paraíba do Sul se enchia de gente bonita e bem vestida para apreciar os elegantes barcos deslizando nas águas turvas. A regata era um belo espetáculo, dois ou três clubes locais disputando com outros que vinham de outras plagas. Lembro a Campos do chique Saldanha da Gama, clube de regatas famoso, cuja bela sede, erguida num canto da praça menor, foi espaço de tantos bailes de gala, agora transformada num shopping medíocre. Outro clube de regatas que lembro é o Rio Branco, cuja sede ficava também naquela margem, local hoje ocupado acho que pelo Corpo de Bombeiros e Receita Federal. Naquela margem também ficava a fábrica de tecidos e me lembro de ter visto fila de operários em suas calçadas. Ali ficava também a loja maçônica Atalaia do Sul, onde fui batizado numa Festa Branca em 1953.

Na citada praça, cujo nome, se não me engano é das Quatro Jornadas, do lado oposto ao lugar onde ficava o clube, na esquina da avenida Alberto Torres, erguia-se a , ladeada pela Igreja Mãe dos Homens. A igreja, de risco parecido com as igrejas barrocas mineiras e coma  igreja da Boa Morte, em São João da Barra, construída  no século XVIII, foi demolida, juntamente com seu hospital e cemitério e durante alguns anos tornou-se um estacionamento de veículos, uma pena. A imagem do altar-mor, uma Pietá, está agora no saguão da nova Santa Casa na avenida Pelinca.

Campos fervilhava, o bulevar Paula Carneiro, apelidada de Rua do Homem em Pé, onde negociantes e donos de dinheiro e de canaviais faziam negócios em frente aos cafés. Muito dinheiro ali trocou de mãos. As usinas não paravam de moer e anos depois, quando estudava em Niterói e vinha em casa o ônibus atravessava canaviais sem fim onde hoje ralos e extensos pastos recebem poucos bois. O dinheiro buscava a cidade, polo comercial, agrícola e industrial de todo o norte e nordeste fluminense. Era tanta a sua importância que se chegou a pensar e a tentar mudar para cá a capital do estado do Rio, então em Niterói. As academias se multiplicavam.

Irônico, o rio Paraíba do Sul, observava essas mudanças. Mal sabia ele que seu terrível destino também estava traçado e alguns anos depois, usado sem critério, vilipendiado, se transformaria numa triste e trágica imagem do rio portentoso que foi.

Campos parecia imbatível em sua ascensão. Quando o petróleo finalmente jorrou no mar e por um truque de coordenadas o município ficou com a maior parte de seus rendimentos, imaginei que o céu seria o limite, embora por esse tempo o fascínio que a cidade exercia sobre sua vizinhança estivesse em declínio. Ninguém mais pensaria em indicá-la para capital do estado. Em compensação suas cenas de violência, como os tiroteios junto à catedral ou o crime no ônibus, cujas fotos ficaram expostas nas paredes externas da Casa do Macaco, tenham se transferido para o outro lado do rio e o movimentado e colorido mercado municipal tenha sido colocado do lado de fora do velho mercado, aonde eu ia também aos domingos, levado pelo meu pai para comprar verduras, legumes e frutas.

A Campos que conheci me deixou saudades, inclusive do menino que eu era.

 

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