AMIGO ÍNTIMO

18 \18\UTC março \18\UTC 2017 at 15:27 Deixe um comentário

Nunca tive um amigo íntimo, aquele amigo de infância, do coração, a quem a gente faz confidências, desabafa e conta mentiras, curte as primeiras namoradinhas, aprende as noções básicas e nem sempre corretas sobre sexo, leva para almoçar e dormir em nossa casa e para fazer parte de passeios e festas familiares. Nunca pertenci a grupos de garotos e patotas, nem mesmo no colégio.

Não que eu seja antissocial, tímido ou esnobe, longe disso.  Gosto muito de conversar, trocar ideias, jogar conversa fora. Só não gosto de furdunço, muito barulho e brincadeiras abusivas. Mas é que, dadas as mudanças da família, não tinha tempo para criar ou pertencer a um grupo, criar laços. Quando moramos na rua João Pessoa, em Campos dos Goytacazes, vivíamos encerrados no quintal, assim como outros garotos e garotas que moravam na rua, que era então considerada perigosa, com automóveis a cruzá-la a mais de 40 km por hora. E foi o lugar onde morei mais tempo, dos 5 aos 10 anos.

A seguir fomos para a avenida Maria Silva, na rua Formosa (Tenente Coronel Cardoso). Um tempo bom, brinquei muito de pique, de roda, de jogar bola e pião. Havia um conjunto de três avenidas com, se não me engano, 23 meninos, fora as meninas. A avenida era larga e raros carros passavam por ela. A garotada estava em permanente ebulição, exceto na hora do colégio. Os meninos das avenidas menores se deslocavam para lá e lembro as peladas, as brincadeiras de mocinho e bandido, imitando o que assistíamos no cinema. A gente saplemava – rendia o inimigo, que era obrigado a levantar os braços, com um inglês estropiado. Ficamos ali pouco mais de um ano e quem consegue consolidar uma amizade unha e carne em tão pouco tempo?

Morava ali quando fiz o admissão e entrei para o Ginásio São Salvador, de doce memória. Logo nos mudamos para uma casa na rua Dona Branca, no bairro do Turf, no final da linha do bonde. Alguns meninos espalhados, mesmo assim a gente conseguia se reunir, brincar muito e aprontar. Mais um ano e lá fomos nós de novo, desta vez para Atafona. Depois de lutar muito para equilibrar sua vida financeira, papai conseguiu emprego no Hotel Cassino como gerente do jogo, coisa que ele entendia bem. Fomos morar na Vila Maria da Glória, uma das quatro casas próximas ao cassino.

Enquanto isso eu fui morar na casa vazia da avenida Maria Silva, que meu pai vendera a meu avô, seu pai, na época do sufoco. Dois tios dormiam lá e eu comia na casa de um primo. A meninada de antes tinha se espalhado e novos amigos, vindos do ginásio eram mais assíduos. Fim de semana em Atafona e não conseguia criar limo, fixar amizades. Em Atafona, praticamente deserta durante os meses fora de temporada, não dava para solidificar amizades. Durante o verão algumas surgiam, mas eram sazonais, interessantes mas de pouca duração. Em Campos passei a morar em pensão para completar os estudos no Liceu e não havia meninos/adolescentes do meu tope.

Como planta sem raiz, movida pelo vento das mudanças familiares, eu não conseguia firmar amizades. De novo vivendo em Campos, com a família voltando a morar em São João da Barra, onde meu pai aceitara o convite de Hugo Aquino para remontar sua farmácia no conjunto de consultórios médico e dentário para atender aos empregados da indústria, só vinha em casa nos finais de semana. Claro que arrumei amigos, saía para pescar, para dançar, para namorar, mas o amigo, aquele cara especial, ficara pelo caminho. Pouco tempo nessa situação e logo indo morar em Niterói, numa pensão da rua Saldanha Marinho para cursar o pré-vestibular. Ali então não deu para arrumar amigo, na pensão só tinha adultos e essas amizades perfeita surgem entre a infância e a adolescência.

E assim termina essa melancólica crônica, apontando os mil amigos, conhecidos e colegas feitos durante a caminhada da vida, sem no entanto arrumar um amigo íntimo, um só que fosse. Frustração.

SJB, 17.03.2017

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Entry filed under: Crônicas.

NÃO MAIS SE CRIAM GALINHAS A CAMPOS QUE CONHECI

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