NÃO MAIS SE CRIAM GALINHAS

19 \19\UTC fevereiro \19\UTC 2017 at 12:24 Deixe um comentário

Antigamente – não muito antigamente assim – as casas tinham quintais e nesses espaços tão especiais e íntimos, entre singelas árvores frutíferas, as pessoas criavam galinhas, plantavam hortinhas e um ou outro pé de couve, de espinafre ou ainda se erguiam jiraus de madeira onde se penduravam chuchuzeiros, pés de baiano (como em Campos era chamada a bertalha) e até mesmo uva. Quando estive em Portugal e viajei de trem de Lisboa para a cidade do Porto via nos fundos de cada residência um pé de couve. É humanizante essa visão.

Fugi do assunto que pretendo tratar aqui, o fato de não mais se criarem galinhas em casa. O surgimento das grandes granjas de aves, com sua inacreditável produção de ovos, ensejou o surgimento do frango de padaria, uma gostosura que a gente encontra já assadinho, temperado, seu cheiro ativando nossas glândulas salivares, prelibando o almoço de domingo. Para a dona de casa, responsável por encher o bandulho da tropa de parentes que aos domingos invadia sua casa, foi uma mão na roda. A seu cargo ficou o arroz, a salada e um ou outro complemento. Aos domingos não se comia feijão, a não ser que fosse numa feijoada, e meu avô materno dizia que ele comia feijão em sua casa, na casa dos filhos, onde ia almoçar aos domingos, queria outros acepipes, como macarronada ou arroz de forno. E era sempre atendido.

O frango de padaria acabou com um drama que se repetia cada vez que se tinha de comer frango: abater o dito cujo. Vi muitas vezes o sacrifício da ave, que era levada ao fundo do quintal, pernas presas sob o joelho da carrasca – geralmente quem matava o frango era a empregada – as asas sojigadas com uma das mãos, o pescoço esticado, a cabeça dentro do recipiente que ia recolher o sangue, e as penas do pescoço arrancadas para se liberar a área do corte. A galinha reclamava todo o tempo da operação com indignados cocoricós que não comoviam sua agressora. Feito o corte, a cabeça era mantida na posição, se, impulsionado pelo jato do sangue, o animal sairia pulando meio de lado pelo quintal. O cachorro latia, furioso, preso na corrente.

Um espetáculo desumano, terrível, digno de filme de terror, mas que na época era encarado com naturalidade até pelas crianças. Claro que hoje os frangos de granja são abatidos de modo parecido, salvo os destinados para o mercado muçulmano que precisam ser postos em posição de atender aos requisitos da religião, o mesmo sendo feito no abate de animais maiores, como bois, porcos, carneiros e outros.

Foi realmente prático, rápido e higiênico esse modo de criar e abater galinhas. Alguma coisa, porém, se perdeu nessa mudança de hábito. As galinhas no quintal davam à casa um toque de familiaridade, não sei se é o termo correto, seus cocoricós e corridinhas atrás insetos eram confortantes, a gente sabia que estava no lar. São aves bonitas, de cores diversas, plumagem em diferentes tons, afagam os olhos, pelo menos os meus. Não é como quando se olha uma granja com aqueles milhões de aves brancas, descoradas, despersonalizadas, que vão produzir ovos de um amarelo sem vida. Deveríamos poder voltar a criar galinhas em casa.

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