MINHA RELIGIOSIDADE

18 \18\UTC fevereiro \18\UTC 2017 at 09:35 Deixe um comentário

O que aconteceu com minha religiosidade? Por que mudou tão radicalmente?

Para entender e explicar tenho que voltar ao passado. E a primeira figura que me surge é minha tia Lita (Laura), irmã mais nova de mamãe. Ela era uma pessoa muito religiosa, quase carola. Era uma jovem alegre, brincalhona, divertida, o contrário de mamãe, sempre sisuda. Lembro tia Lita sempre envolvida com atividades de igreja, missas, procissões, anjinhos, velas e outros símbolos religiosos. Era prestativa e solidária. Durante anos pediu a mamãe para deixar que eu saísse na procissão da Semana Santa vestido como judeu da época do drama de Cristo, carregando algum objeto relacionado com a história de Cristo como cravos, escada, coroa de espinhos, etc. Mamãe nunca deixou. Eu ficava na sacada do sobrado, junto com o pessoal de casa, vendo a trágica procissão passar. Só minha irmã Lelena, então a caçula, pode participar dessas atividades, vestida de anjo, na coroação de Nossa Senhora. Eu amava essa tia que nas noites do sobrado, quando muito pequeno, me pegava no colo e cantava a música perequitinho verde até eu dormir.

A segunda imagem que me vem à mente é a de irmã Zilda, do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, que preparava crianças para a primeira comunhão. Lembro dela gorducha, um doce de criatura, nos explicando os mistérios da religião e do ato que iríamos participar. Só que a concretização do ato não foi assim tão fácil. Meu pai era maçom e espírita e não via com bons olhos minha iniciação católica. Além do mais, suas finanças estavam em precário estado e ele resolveu não comprar a roupa exigida – calça curta e camisa branca – mesmo depois de meu nome ser incluídos entre os iniciantes. Foi um drama. Lembro que mamãe brigou, eu chorei, e as velhas tias solteironas, que moravam na meia-água que ficava nos fundos de nosso quintal, resolveram a questão. Eram costureiras renomadas, uma cosia calças, outra camisas, tinham pano de sobra e aprontaram a roupa. Passei semanas andando pelo quintal cantando e decorando as músicas para a cerimônia. Só não tive retrato de boca aberta recebendo a hóstia.

Nessa época fiquei encharcado de misticismo, nos fundos do quintal do sobrado, onde passava dias, ao lado do galpão onde era guardada a charrete – que vovô chamava de caleça, lembrança do tempo em que foi rico – em meio a arbustos, cujo nome nunca cheguei a saber e que produzia florinhas lilases miúdas que eu pegava para enfeitar o altar que erguia na  areia e onde colocava santinhos coloridos de papel. Mais carola impossível.

Papai, como o velho Zenriques, era espírita e de vez em quando levava em casa pessoas que recebiam espíritos e eu não me preocupava muito com isso, não era assunto meu. Numa das vezes fui chamado, não sei porque, para levar uns passes de um médium. As crianças, durante essas sessões, eram confinadas na cozinha ou no quintal. Fui, cheio de desconfianças, e na medida em que o homem falava tive um ataque de riso – nessa época eu era chegado a intermináveis ataques de riso, que custavam a passar e me faziam chorar. Fui devolvido ao quarto.

Estudando em Campos e morando em pensão, em meio a homens adultos, que sequer discutiam religião, essas experiências se desvaneceram. Às vezes, nos fins de semana que passava em casa, em Atafona, essas cenas mediúnicas se repetiram, só que nunca mais fui chamado a participar. Sabiam que eu era um crítico.

Em Niterói, onde fui cursar o Gay-Lussac para me preparar para o vestibular de medicina, distante da família, tendo como companhia de pensão um tio que não falava comigo para não dar confiança, como ele declarou a alguém, adoeci. Creio que posso dizer que sofri de síndrome de pânico e fiquei mal. A dona da pensão, boníssima, também espírita, me levou a um médico em São Gonçalo, conceituado, mas cuja consulta comigo não foi nada edificante, apesar dos santos sincréticos posicionados em altares ao redor da maca onde me examinou e se frustrou.

Entretanto, nessa época, me aconteceu um fato estranho. Eu dormia num quarto com mais dois rapazes, um deles filho da dona da pensão. O quarto era colado a uma pequena área onde vivia um grande cão, cego. Era comum à noite ele esbarrar em baldes, latas e outros materiais ali deixados. Numa noite em que dormia sozinho, por alguma razão os dois dormiram fora, o cão esbarrou numa lata e eu acordei e vi, ao lado de minha cama, sentado, vestindo jaleco de médico, um homem que me observava. Não senti medo e voltei a dormir. Mais um tropeço do cão, com barulho, voltei a abrir os olhos e vi o mesmo homem em pé a me olhar. Sugestão? Sonho? Não sei dizer. Voltei a dormir e no fim de semana seguinte viajei para casa, em São João da Barra. Antonieta, uma negra gorda e amável, que tinha sido uma espécie de babá de minha tia Zizi, veio à minha casa e me disse que eu tinha sido visitado pelo espírito de um médico. Ela não sabia do que tinha se passado. Mistério. Não acreditei muito, pois continuei com o problema de saúde, que só melhorou quando dona Odete, mãe de um dos companheiros de quarto, me levou a um psiquiatra.

Minha mãe psicografava cartas de sua mãe falecida e de outros espíritos. Nunca tive curiosidade de lê-las. Até hoje minha religiosidade é dispersa e confusa. Leio sobre religiões, curto o budismo, mas não encontro nada que me prenda. Batizei meus filhos, concordei que fizessem a primeira comunhão, mas nunca tentei doutriná-los. Acho que as pessoas devem ser livres para seguir o credo que melhor se adeque a seu pensamento. Nunca tentei mudar a religiosidade de quem quer que fosse. Me considero agnóstico, acho que as pessoas, o mundo, o universo e a vida são muito complexos para terem surgidos do nada, por geração espontânea. Procuro não praticar o mal e se não puder ajudar, não atrapalho. Não consigo acreditar num Deus cruel e vingativo, que criou um mundo imperfeito e exige perfeição, sob pena de severas e às vezes injustas punições. Deus desse tipo era cultuado na Grécia, Roma, e na Idade Média. Cristo, São Francisco e outros iluminados vieram para mudar isso.

 

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