A PRAGA DE DOXINHA

27 \27\UTC janeiro \27\UTC 2017 at 11:07 Deixe um comentário

Romance –

 

 

CARLOS AA DE SÁ

 

 

 

 A PRAGA DE DOXINHA

(ROMANCE)

 

 

CULTURA GOITACÁ EDITORA

São João da Barra, janeiro de 2016

     

 

   A PRAGA DE DOXINHA

                           OU

 O CASO DA CAVEIRA DE BURRO ENTERRADA

 

Inicio – 30/01/2015

 

ADVERTÊNCIA:

Este não é um livro de literatura, é entretenimento. Nada aqui é real e se houver personagens e locais conhecidos é pura coincidência.

 

 

 

 

Obs. – Proponho-me a contar uma história que divirta os leitores. Nada de literatura, só uma aventura emocionante, recheada de lances folhetinescos. Atemporal e sem local determinado. Imaginação pura. A arte deve ser livre. Descaradamente brinquei com a fala dos personagens, cada um falando de um jeito, dentro dos falares com os quais convivi. Acredito que o leitor que procura livros de ficção, não faz questão que retratem a realidade, quer sonho, aventura, ilusão. Era assim com os aedos – poetas gregos que contavam lendas em forma de canções – era e com os trovadores provençais da Idade Média e é esse jeito de contar história que tento resgatar.

 

 

 

 

 

 

 

AS MULHERES CAPITULARES

 

 

EUDÓXIA – DOXINHA

ALZIRA – ZIRA

ILDE –     ILDINHA

LINA

CARMELA

 

 

 

 

 

DOXINHA

Botando os bofes pela boca, Boanerges correu a noite inteira, sem olhar pra trás, sem parar nem pra mijar, a urina a lhe escorrer pelas pernas cabeludas, os pés afundando no areal eivado de cordões vegetais com raízes, que o faziam tropeçar, gravetos e ossos saindo da areia, que furavam as solas de suas botas usadas, moitas de plantas espinhentas, árvores retorcidas e de pouca altura, incapazes de ocultar mesmo um homem baixo que dirá ele. Arfava e sentia dor nas panturrilhas, mas pior seria cair nas garras dos facínoras que o perseguiam. A escuridão o ajudava a fugir, mas não facilitava o encontro de um esconderijo. Precisava se esconder para planejar o prosseguimento daquela fuga impensada e insensata.

Diminuiu o ritmo da corrida por falta de fôlego. Mas cada vez que escutava o rumor abafado de cascos de cavalos na areia sentia as forças se reavivando e desabalava a correr. Quando o céu começou a clarear, um albor difuso ao leste, finalmente viu uma pitangueira enorme e esparramada, certamente abrigo de camaleões e preás, que também poderia esconder uma cobra, surucucu ou jararaca, mas não dava tempo para verificar e sem hesitar mergulhou na moita de folhas miúdas e cheirosas espalhadas pelo areal. Ouviu a corrida nervosa de um ou outro camaleão, o piar de um pássaro assustado, encolheu as pernas arranhadas e esperou a respiração se normalizar. O silêncio tornou-se profundo, e decidiu esperar o amanhecer para sair. Ao longe, o surdo bater dos cascos dos cavalos. Ou seria sua imaginação?

A manhã se arrastava preguiçosa por entre as moitas e custava a iluminar o antro onde se metera. Ouvidos atentos a qualquer ruído, escutou pios e miados ao longe, mas nada de relinchos, gritos ou bater de cascos na areia. Tranquilizou-se. Se houvesse passarinhos na moita eles levantariam voo assim que entrasse, o que o denunciaria aos malfeitores com quem convivera tanto tempo e que se tornaram seus inimigos mortais desde que Johannis Sem Braço morrera cagando até a alma.

Quando viu o submisso Runnes, apelidado de Gamelão, acendendo uma vela para colocar na mão do chefão moribundo, Boanerges, que os companheiros chamavam de boa merda, se lembrou do mapa que ele guardara no casacão fedorento e que poderia indicar onde escondera o tesouro, e na escuridão da noite que nascia, foi se esgueirando, devagar, fungando como se chorasse e antes que alguém desse conta meteu a mão no bolso interno do casaco do comandante e pegou o mapa, que meteu junto aos pentelhos. Aqui ninguém acha, pensou satisfeito, ninguém vai procurar aqui. Ninguém imaginaria que ele, o mais inexpressivo e avacalhados dos elementos da gangue de Sem braço fosse ousado a esse ponto. Talvez fosse melhor ter ficado parado e calado, nenhum deles o vira futucando no casaco do chefe, mas a ansiedade e o medo, sentimentos nele presentes desde a infância, impulsionaram suas pernas e fugiu pela noite.

O chefão custou a dar o último suspiro, entre gemidos, vômitos e peidos catingosos, dando tempo a Boanerges tomar o rumo do mato. A ideia era selar um cavalo, mas isso despertaria desconfianças entre os piratas, era preferível caminhar depressa, depois correr por entre as moitas, pois além de providenciar o enterro do chefe ao amanhecer, os marginais levariam tempo para descobrir sua fuga. E devia haver alguma vila ou arruado por perto onde pudesse se esconder.

Era o que pensava, mas depressa descobriu que não era bem assim, no silêncio da noite na terra plana adivinhou mais que percebeu que vários cavalos seguiam na sua direção. Runnes, o alemão de quase dois metros, o Gamelão, devia estar de olho no mapa que indicava onde Sem braço e outro pirata haviam escondido todo o fruto dos seguidos saques nas últimas semanas a navios espanhóis carregados de mercadorias e certamente ouro, afastados da frota por uma tempestade que durou três dias. Boanerges não era bobo e vira que o ouro saqueado fora metido pelo chefe num saco de couro quase impermeável e fora levado para ser enterrado em algum lugar da arenosa planície costeira, onde seria resgatado quando a calma invadisse a região. As naus que atacaram tinham ficado praticamente intactas e sem dúvida os marujos que sobreviveram aos assaltos haveriam de reunir a tropa para persegui-los.

Sem Braço liquidara o homem que o ajudara a esconder o ouro, o que provocara revolta em sua tripulação. Com  a morte do companheiro só ele ficaria sabendo onde o tesouro fora enterrado e toda a turma de renegados rosnava ódio, cuspia fogo e prometia forra. Boanerges desconfiava que o chefão morrera envenenado, pois Zé Lambão conhecia ervas mortais e era um dos mais indignados com o sucedido, com o egoísmo do chefe. Zé cozinhava para o grupo e nunca acontecera alguém passar mal com sua comida, muito menos a ponto de morrer.

-Quanto à comida garanto que mal não fez, disse Zé, senão outros estariam passando mal. Deve ter sido alguma porcaria que o chefe comeu.

Sem Braço tinha o hábito de guardar restos de comida nos grandes bolsos do casaco e podia ser que algum pedaço de carne seca tivesse se estragado. Era um porco. Boanerges não engolia essa desculpa. Deitado na areia, vendo a claridade perfurar aos poucos o dossel de folhas miúdas da pitangueira, foi assaltado por uma dúvida: e se achassem que fugira por ser o culpado da morte do chefe? Quando descobrissem o desaparecimento do mapa do tesouro aí é que teriam certeza e não lhe dariam tréguas. Muito esperto, Gamelão não esperaria o corpo esfriar para procurar o mapa, já devia estar vasculhando tudo, ajudado pelo resto da tripulação. Sem Braço já passara mal outras vezes, como na ilha do Urso, no ano anterior, e levara dias se recuperando da caganeira no convés da nau. Dessa vez a morte era indiscutível.

Gamelão e Zé tinham motivo e prática para envenenar o chefão. Não era Zé o responsável pela comida? Quem garantia que não pusera veneno ou misturara alguma erva venenosa na comida dele? Onde ancoravam Zé tinha o hábito de descer para catar ervas, que eram usadas para curar doenças dos piratas, mas todos sabiam que ele conhecia ervas perigosas, capazes de matar até um elefante, que dirá um homem. Gamelão saíra em defesa do cozinheiro, o que podia indicar conluio entre eles. Zé não suportava o chefe ridicularizá-lo por gostar de homens. Todos os que faziam parte do bando tinham mágoa e raiva de Sem braço e ficaram ainda mais enraivecidos quando o bandido saiu com o produto do saque, só o ouro e as moedas, para enterrar sem dizer onde a ninguém. Isso era coisa que se fizesse com os companheiros de luta? Eles também não se arriscavam ao abordar e saquear? Quantos já tinham morrido nesses ataques? Sem braço não admitia dúvidas sobre seus atos e ameaçava matar quem o contestasse. Avisou que estava elaborando um plano de distribuição do produto do saque para que ninguém se sentisse prejudicado. O restante, armas, tonéis de vinho e fazendas podiam repartir à vontade. A tripulação não ficara satisfeita com a explicação, pelos cantos dava vazão à sua raiva com comentários irados e Boa é que pagava o pato, levando cachações e empurrões. Sem Braço não havia contado a ninguém sobre o destino do mapa, o que irritara ainda mais os outros e, além disso, embora dissesse que o homem que levara para ajudá-lo caíra do bote e morrera afogado, ninguém acreditou. Como todo marujo, o homem sabia nadar, que história era essa? O chefe achava que eram idiotas? Todos rilhavam os cacos de dentes de raiva, Zé Lambão principalmente, fora muito amigo do desaparecido.

Por acaso Boa vira o chefão guardar o mapa no bolso do casacão e decidira que iria pegá-lo. Onde e quando não sabia. Quando percebera que Sem braço estava nas vascas da agonia e todos irrequietos, sabia que pensavam em roubar o mapa. Era uma questão de oportunidade. Ele fora apressado não em pegar o mapa, mas em fugir. Podia ter ficado com ele, calado, ninguém seria capaz de revistá-lo, era um boboca notório, mas agora, com o seu desaparecimento no meio da noite, teriam motivos para desconfiar. Juntariam um fato ao outro e achariam que ele planejara o envenenamento de Sem braço, esperando na confusão que se seguiria à sua morte, aproveitar para roubar o mapa e fugir. O problema era para onde ele iria. Nenhum deles conhecia a região, nem ele mesmo, mas não havia escolha. Estavam no meio de uma restinga deserta, longe do navio, que estava avariado e ancorado para reparo, esperando as melhoras do chefão doente. Enquanto isso se escondiam para não serem caçados pelos espanhóis que haviam atacado e que sem dúvida viriam atrás deles, sedentos de sangue, loucos para vingar os companheiros mortos e recuperar as cargas roubadas. Evitando barulhos e andanças, ficaram se dando um tempo na nau, fazendo pequenos consertos e observando o horizonte, mas dois dias haviam se passado e nem sinal dos espanhóis. Foi quando Sem Braço começou a piorar.

-Me levem pra terra, ele ordenou, engulhando, o balanço tá me deixando enjoado.

Improvisaram um acampamento bem afastado da praia para não serem surpreendidos caso os espanhóis os perseguisse, apenas uma fogueira disfarçada por galhos marcava o local. Dormiam por turnos, vigilantes. E Sem Braço cagando sem parar e gemendo como um torturado.

Na claridade esverdeada do amanhecer entre folhas, Boanerges se contraiu ao ouvir novamente o barulho de cascos se lixando na areia. Vozes alteradas indicavam que os bandidos estavam furiosos com seu desaparecimento, como era de se esperar. Na planície arenosa os sons se propagavam sem obstáculo, numa nitidez incrível. Seu nome dançava nos ecos em meio a palavrões e imprecações. Batiam com força nas folhagens por onde passavam com as espadas, um deles enfiou um porrete na pitangueira onde se escondera, que por milímetros não o atingiu, e os camaleões, que já tinham voltado para casa, dispararam em todas as direções. Gaguinho, sempre esse safado, que quando estava com raiva não gaguejava, gritou:

-Aqui, o maldito não tá, os camaleões estavam aí dentro porque não tinha ninguém, conheço esses bichos.

Santos camaleões, pensou Boanerges, salvaram minha pele. E passou a odiar ainda mais o tal Gaguinho, que já aprontara poucas e boas pro seu lado e que, se o pegasse… nem é bom pensar. Daí a pouco não se ouvia mais qualquer ruído e ele, apesar de sentir muita fome, estava cansado demais para sair e procurar o que comer. No lusco-fusco do amanhecer, cheio de sono, dobrou o braço carnudo, onde encostou a cabeça e adormeceu em pouco tempo, apesar de se preocupar com um boato que corria a bordo de que havia índios antropófagos por ali.

Acordou bem tarde, o sol de verão penetrando por entre as folhas e queimando tudo onde parava seus raios. Boanerges abriu os olhos, estranhou o sólido silêncio à sua volta, os camaleões corriam entre os gravetos e folhas secas, ficou um tempo na escuta, esticou os braços e levantou a metade do corpo. A cabeça roçou nas folhas do alto da cúpula verde onde se escondera e espantou aves ali pousadas. Com cuidado foi estirando os braços, as pernas, o corpo moído, se pôs de gatinhas e abandonou o esconderijo. A fome apertara e precisava se alimentar. Além disso, a dor de dentes que o azucrinava há dias, voltava a incomodar. Mais essa, pensou enraivecido. Não sei pra que a gente tem dente.

A manhã límpida lhe devolveu ânimo e se espreguiçou com vontade. Depois, enquanto mijava, passou os olhos pela planície arenosa que parecia sem fim, pontilhada de gravatás, urtigas, cactos e árvores baixas e moitas enfezadas. Abelhas voejavam em busca de néctar. Uma preá ou um rato, não deu para discernir, passou numa rapidez doida. Um barulho de cascos batendo na areia fofa o assustou, os bandidos haviam voltado? Jogou-se atrás de um coqueiro rasteiro, não havia tempo para voltar ao abrigo da pitangueira. O coração disparou. Rezou para que ninguém olhasse para aquele lado. Olhou por entre as folhas e se viu diante um bando de cabritos que pastava a erva ressecada e mastigava as folhas amargas de pitangueira e de outros arbustos para se alimentar. Acalmou-se, sentou-se no chão, cuspiu a areia que lhe entrara na boca quando mergulhou para se esconder e ficou mais um tempo parado, pensando. Com calma foi se livrando dos carrapichos que haviam grudado em sua calça. Contou os cabritos, oito, só um era adulto e imaginou seu pernil assado. Tivesse aqui uma faca, pensou, matava um desses bichos e comia sem cozinhar mesmo, tanta é a fome que estou sentindo. Seu estômago se retorcia a boca se enchia d’água. A sede também era intensa. Nas folhas de uma árvore o sereno da noite ainda brilhava quando atingido pelos raios de sol. Levantou-se, sequioso, e lambeu as folhas, uma a uma. O alívio era pouco. Queria e precisava de mais.

Vou andar, decidiu, não sei onde fica a saída desse inferno, mas não vou morrer aqui sentado, ressecado. Vou ter que descobrir uma saída e já. Dizem que ainda existem índios brabos por aqui, vou arriscar. Melhor encarar os índios que os companheiros irados que poderiam voltar a qualquer momento, tão logo percebessem que ainda continuava por ali. Os bandidos deviam estar ocupados enterrando o falecido, o que lhe daria um pouco mais de tempo. Embora fossem cruéis, eram supersticiosos e não deixariam o morto sem enterro, com uma cruz de graveto marcando o lugar. Tinha de escapar. Mas por onde? Perdera completamente a noção do lugar onde deixara o chefe morto e não sabia qual direção tomar para sair dali. Caíra numa armadilha que ele mesmo criara. Culpa da sua ganância e impulsividade. Se tivesse esperado, não levantaria suspeitas. Andou errático por entre as plantas, evitando as moitas espinhentas, os cactos, os gravatás, as raízes e os cipós que poderiam derrubá-lo. O sol escalava o céu com rapidez, esquentando a areia e fazendo o suor encharcar seus sovacos. Um gavião pousou a poucos passos dali, parecendo não se importar com sua presença. Também não indicaria a presença de outros intrusos. Podia ter gente a poucos passos dali.

A claridade o incomodava, o sol reverberava e fazia seus olhos arder. Em algum momento havia perdido o chapéu. Cortou um galho de um pé de araçá rasteiro e cobriu a cabeça. As folhas eram espaçadas, pouco adiantava, e não havia nem uma frutinha. Vira uma bela fruta vermelha num cacto, mas a cobra enrodilhada aos pés da planta o havia assustado e achou melhor seguir em frente. O calor do sol se encontrava com o calor que vinha da areia pelo meio de suas pernas. Havia arregaçado o calção e em vez de alívio sentira a pele arder. Sua pele era muito branca e a roupa era apropriada para atividades no mar, não para esse deserto escaldante. Aonde vim me meter? se perguntou, amargurado. Vou morrer seco nesse areal dos infernos se não for apanhado antes. Maldito olho grande.

Mais que o calor era a sede que o atormentava. Olhava em volta, desesperado, e nada via que pudesse lhe ajudar. O orvalho das folhas havia secado e não se via uma cacimba, por menor que fosse, até onde sua vista abarcava. Onde esses animais matam a sede? se perguntou. Os cabritos, cadê eles, não se contentam com pouquinha água, pra onde foram? Só via pequenos lagartos e outros bichos menores correndo pelo areal. Ao longe uma nuvem esgarçada de poeira. São eles, os cabritos, só pode ser, como terão sumido nesse raso? Uma borboleta preta, com uma faixa branca pintada na parte inferior das asas, lhe acenou e seguiu em frente. Vai atrás dos cabritos, pensou, ela também tem sede. Vou atrás dela.

O sol chegou ao meio do céu, uma bola avermelhada que emitia ondas de intenso calor em sua direção. A garganta seca pedia refresco. O dente doía e latejava. Aonde vim me meter? Pra que fiz essa besteira de roubar o mapa se não vai dar para usá-lo? Vou secar com ele no bolso, merda! Ambição desmedida, insensata. Como dizia seu pai, era um pateta. Se Sem braço precisou de um homem para ajudá-lo a esconder o tesouro eu também vou precisar de alguém para me ajudar a encontrá-lo. Mas quem? Idiota que sou!

À difusa claridade do meio-dia pensou ver cavaleiros correndo entre as plantas espinhosas, hostis. Parou, firmou a vista e eles sumiram, deixando apenas a planície deserta a perder de vista. Estou vendo coisas. Quis gritar, era preferível ser apanhado e ganhar água e comida do que terminar seco como um bacalhau de porta de venda. A boca ressecada mal deixava sair um ronco dolorido. Suas pernas estavam ficando duras, sentia dificuldade em caminhar, vou sentar um pouco, decidiu. Procurou uma mínima sombra e foi se arriando devagar, sentindo-se tonto, não sentia mais fome nem sede, só vontade de descansar, de dormir, o pé de árvore que sacudia suas folhas como se fossem bandeirolas era do que precisava, embora não fosse alta nem frondosa. Era só um risco de sombra e ali se deixou cair. O peito doía, a boca seca parecia estar sendo dolorosamente repuxada, os olhos cheios de areia, a pele ardia em toda parte exposta de seu corpo. E o infeliz do dente doendo sem parar.

A mulher gorda que estava sentada na areia bateu com a mão no chão e ele não pensou duas vezes, sentou-se, recostou a cabeça no fino tronco da arvorezinha e fechou os olhos. A mulher se parecia estranhamente com sua mãezinha, que já devia estar na cidade dos pés juntos, que Deus a tenha, os mesmos fartos peitos, os cabelos escuros presos em duas tranças grossas que se cruzavam no alto da cabeça, o olhar atento, sério.

-Se tivesse me ouvido, ela disse, não estaria agora encrencado. Aposto que nem sabe mais rezar, acertei?

A mãe nunca fora de meias palavras, e despejou todas as recriminações que guardava no peito como em todas as vezes que ia visitá-la, de onde saía corrido, com as orelhas ardendo. Pois ela não se importava em puxá-las quando achava que ele não estava lhe dando a atenção devida ou ia no rumo torto da vida. Se ele gemia, ela dizia: quieto, pé de galinha não mata pinto, serve pra educar. Por isso evitava ir à casa dela.

E então, num gesto inusitado, a mãe tirou o amplo seio para fora pelo decote, espremeu seu bico e algumas gotas de leite morno caíram em sua boca semiaberta. Estremeceu. Ao mesmo tempo pequenos riscos se deslocavam em suas pernas, na barriga e no peito. Formigas, ele deduz, ali havia muitas, pensavam que estivesse morto. Quando chegam ao pescoço ele dá um tapa que acerta a própria cara e abre os olhos. Não há mulher alguma a seu lado, muito menos sua mãe, coitada, sentada no céu, descansando de longa e trabalhosa vida. O tempo mudara bruscamente, o calor trouxera nuvens negras. A água vinha do céu em grossos pingos de chuva morna, que o calor do sol aquecia antes de chegar ao chão. Olhou para o céu agradecido, sua mãe devia ter pedido chuva aos santos.

Em pouco tempo o aguaceiro desabou na terra ressequida, que parecia estalar. Não sabia mais se já era de noite ou se o escuro provinha das grossas nuvens negras acumuladas sobre sua cabeça. Seu corpo se encolhia com arrepios de frio. Uma figura difusa passou correndo, quase tropeçando em seus pés esticados. Seja o que for, pensou, não vai parar para me atacar no meio desse aguaceiro. Cavalo não é, pode ser cabrito pelo tamanho. Tatu e tamanduá eram mais lentos. Ah, deixa pra lá, que importa. Tornou a fechar os olhos e deixou a chuva lavar a poeira acumulada em seu corpo e roupas. O mapa estava seguro, fora riscado a ponta de faca aquecida, era assim que os saqueadores costumavam fazer, num pedaço de couro curtido, talvez tivesse valido a pena passar por todo sacrifício. Via-se rico, considerado pelo povo miúdo, conversando de igual para igual com os graúdos. Se conseguisse se livrar dos antigos companheiros. Tendo dinheiro seria fácil.

A cabeça apoiada nas mãos, encolhido e tiritante, sentiu a noite passar sobre seu corpo moído. Por fim, quando ainda estava escuro, adormeceu. Sonhou com a menina Marucha e seus olhos brejeiros, era a única lembrança boa que ficara de sua vida antiga, do tempo de criança, havia prometido a si mesmo que assim que pegasse o tesouro ia largar daquela vida, esquecer o que já vivera, procurar a menina e viver mais ela numa casinha na vila. Conversariam muito sobre o futuro, felizes. Bobagens de sua cabeça avariada. Tropeçara pela vida, a perdera de vista, devia estar uma bela senhorita, talvez até já tivesse se casado, que pena! Tudo isso estava no passado, antes de acontecer a tragédia maior de sua vida. Devagar recuperara o ânimo, pensara em se entregar, mas já estava engajado no Santos Anjos.

Acordou com raios de sol brincando em sua cara e uma sinfonia de sons servindo de despertador. O dia nascera muito claro, o céu coberto por uma cúpula azul e diáfana como estivesse se iluminando para uma festa. Olhos doloridos, ia aos poucos se acostumando com a profusão de cores e luzes, mas quem realmente o despertou foi a fome excruciante que fazia seu estômago dar voltas. Se houvesse uma fêmea no bando de cabritos ia correr no rastro deles, agarrar ela, meter a boca nas tetas e sugar todo o leite. O filhote dela que se danasse. Bateu na testa, mas claro que havia fêmeas por ali, só que deviam estar presas em algum curral ou quintal, certamente nas cercanias. Levantou-se excitado, lutando com a fraqueza das pernas, decidido a encontrar o tal reduto, não podia estar longe dali. Chegava a se imaginar a mamar o grosso leite caprino diretamente das tetas, mas cadê os cabritos? perguntou-se mentalmente, babando de gozo antecipado. Só eles poderiam indicar a direção do redil.

Mão em pala para amenizar a claridade cegante, Boanerges vasculhou a planície infinita, o olhar varando as veredas entre cactos, gravatás, plantas rasteiras e árvores mofinas. Ao longe, diluídas na brancura da areia, sombras claras se moviam. Os cabritos, pensou, são eles. A roupa úmida pesava e dificultava a marcha pelo areal. O dente dava fisgadas. Caminhou a passo e descobriu frutinhas arroxeadas que tinha visto os cabritos comerem. Se eles comem, também posso comer. Deixou-se cair de joelhos ao lado da planta, colocou uma na boca. Saborosa, murmurou, sem saber se estava achando boa porque estava faminto. Pouco se me dá, pensou, posso até morrer envenenado, não deve ser pior do que morrer de fome. Mais uma e mais uma, o pé rasteiro estava cheio das frutinhas, era isso que atraía os cabritos num tempo sem pitangas. Outra e mais outra.

Sentiu-se melhor, foi se arrastando pela areia fofa e quente até à próxima planta. Havia bastante delas, saciou-se. Agora é procurar onde as cabritas se escondem. Caminhou em direção à miragem luminosa que se movia muito lá adiante. A roupa pesava, custava a secar, os pés afundavam na areia, parecia que estava arrastando um saco de areia. De vez em quando tinha que sentar e esperar a respiração se normalizar. Não deve ser muito longe, se consolou, senão as cabritas não estariam por aqui. Elas devem dormir em casa. E com esse pensamento arranjava um pouco de alento para prosseguir.

O sol o assou até que entrou numa região em que as árvores eram um pouco mais altas e davam sombra suficiente para parar e descansar. Já não se sentia tão ofuscado. Um fruto arroxeado de um cacto que escapara da gula frenética dos cabritos acalentou-lhe o estômago sofrido. Um urubu pairou no alto. Alguns animais se desenharam no horizonte e seu coração bateu com mais força. Aves cortavam o espaço. Tô bem perto. Quero comer um cabrito assado. Procurou acelerar o passo, o que só conseguiu quando um ponto escuro no areal se revelou uma cabana. Eufórico, quis correr, quase caiu, quis sorrir, mas a boca seca se repuxou dolorosamente. A roupa pesava um pouco menos, mas fedia muito. Estava acostumado a passar dias no mar com a mesma roupa, mas não fedia tanto.

A copa de uma árvore surgiu após uma duna e para lá se dirigiu, arfando. Foi muito difícil vencer a elevação de poucos metros. O que viu o alegrou: sob uma árvore frondosa, não muito alta, sentada no chão, uma mulher mexia numa bacia. Era uma velha magra, ressequida como quase tudo no areal, com um pano vermelho desbotado sojigando os fiapos de cabelo grisalho, o nariz aquilino quase metido na boca murcha. Pareceu não perceber sua chegada. Quis gritar para que o visse, mas o que saiu de sua garganta foi um ronco abafado. Ela o olhou de relance, soltou a peça de roupa que lavava e empunhou o facão enfiado na areia a seu lado.

-Calma, por favor, ele conseguiu balbuciar, braços estendidos, sentindo os lábios se esticarem dolorosamente. Seu corpo tremia. Preciso de ajuda.

Ela se levantou, era baixinha, e não largou o facão. Continuou calada, ar zangado, o olhar escuro e cauteloso fixo nele. Um cachorro amarelo, magro, surgiu no solar da porta. Rosnou sem vontade.

-Me perdi, inventou, estava num grupo, me afastei um pouco, eles partiram e eu fiquei. Quero chegar na vila.

-Boa coisa cê não deve de ser pra ser largado assim pelos comparsas.

-Não, não é isso, é que saí andando e sem perceber estava longe. Quando quis voltar…

Ela continuava a olhá-lo com desconfiança. Ele lhe estendeu as mãos vazias e trêmulas.

-Tá vendo? roncou, estou desarmado e a fome me deixou mais fraco que uma criancinha. Me ajude, pelo amor de Deus.

Sem desfitar dele o olhar feroz, ela perguntou:

-Se te der um de comer, cê vai embora?

-Juro, ele afirmou com voz tremida, juntando as mãos como se rezasse. Vou direto pra vila, sabe onde fica? E se tiver uma roupa velha pra me dar, agradeço, que essa aqui parece uma armadura fedorenta.

Ela lhe apontou o facão.

-Fica aí. E antes de entrar em casa grunhiu: eu num costumo sangrar home, eu capo.

Ele suspirou e se deslocou para a sombra da árvore. Galinhas ciscavam em volta do casebre. Não pode deixar de imaginar dois lindos ovos fritos, sois amarelos em montes de arroz branquinho. A velha surgiu na porta e jogou roupas em sua direção.

-É o que tenho. Troque aí fora mesmo e jogue as veias na esquina da casa. Depois vô tacá fogo nessas imundices.

Obedeceu. Suas roupas eram tapiocas estragadas pelo contato de carne humana suada, a sua. As novas eram leves, claras, cheirando a guardado, largas como pijamas, disformes. Tudo bem, cobria sua nudez, protegia contra a luz do sol, sentiu-se melhor. E mais faminto. Daí a pouco ela surgiu na porta, olhando ressabiada, na certa temia encontrá-lo nu. Trazia um prato de folha com farinha de mandioca e pedacinhos de carne seca. Carne de cabrito, secada no varal pelo vento, devia ser. Na outra mão o facão em riste, não fosse ele se meter a besta pro seu lado. Era velha mas não estava morta. Ele atirou-se à comida com fervor de oração. Como lhe soube bem!

-Devagar, gritou ela, senão se engasga.

Em seguida entrou na casa e trouxe um caneco de barro com água. Água salobra. Ele, comia, comia sem parar, de olhos fechados como se saboreasse um manjar dos deuses. Ela o olhava, dura, facão grudado na mão em garra. Vigiava cada movimento seu. Ele bebeu toda a água de uma só vez. Quando acabou ela ordenou, seca:

-Agora chispa sem tardança, que daqui a pouco meu fio chega e ele num gosta de estranhos. A vila que cê tá buscano fica nesse rumo – e apontou o facão para o lado oposto ao que ele vira os animais desmanchados pela claridade.

Ele arrotou e ela sorriu, satisfeita, um sorriso murcho, quase choro. Ele se lembrou do mapa e correu a buscá-lo no bolso do casaco fedido. Pensou que a partir de então não tinha outro jeito senão levá-lo na mão. Quando se voltou viu a velha em pose de ataque, o facão alçado acima da cabeça.

-Calma, pediu ele mais uma vez, só fui pegar um documento meu que estava no bolso.

Ela não desfez a expressão enfurecida de ataque nem baixou a arma.

-Chispa, repetiu, com olhos de gavião.

Ao invés de passar a seu lado, ele fez uma meia roda, sem tirar os olhos da bruxa boa.

-Fica tranquila que não vou lhe fazer mal. Sorriu. Ela não abandonou a posição agressiva nem a cara feia. Vou mimbora, obrigado e adeus, disse ele, e se afastou.

A dificuldade de andar era por conta da barriga cheia, farinha com água incha no bucho e parece que a gente comeu um boi inteiro. E da areia fofa onde o pé afundava. O sol continuava ranzinza, nem uma nuvem no céu o acalmava. Sol cruel. No pequeno curral as cabritas buscavam a sombra rala da cerca feita de galhos secos grandes trançados. Cabritinhos cabeceavam de sono junto das mães. Voltou o rosto para olhar a velha e viu chamas consumindo suas roupas, as roupas que arrancara de um homem que matara durante o assalto a um navio francês, nos bons tempos. Eram roupas bonitas. Alegrou-se. Ninguém jamais saberá que estive aqui, festejou. Não deixei nenhum rastro, bendita velhota, até minha roupa virou cinza que o vento levou! Não se lembrara de perguntar a ela se os homens haviam passado por ali, estava com muita fome e não havia lugar para outro pensamento em sua cabeça. Não deviam ter passado senão teriam carregado as cabritas para alimentar a tripulação. Seguiu mais leve, caminhou chupando a farinha que se grudara no dente cariado mas em breve sentiu-se cansado. O casebre da velha tornou-se um desenho borrado pela claridade ofuscante. Precisava dar uma parada, os músculos da perna reclamavam descanso, não era mais o mesmo homem que roubara o mapa. Nem sabia mais o que faria com ele se escapasse vivo do inferno onde se metera.

Adiante um grupo de gravatás dava uma sombra curta. Vou parar ali por um instante. Com olhos turvos verificou se havia cobras. Não, só uma caveira de animal quase desfeita. Deve ser de burro, imaginou, o dono largou o bicho depois que ele não pode mais andar ou então o coitado fugiu do cativeiro e morreu aqui, de sede. O que pode acontecer comigo. Ai, minha santa, cujo nome esqueci, me ajude. Esticou-se na sombra, só os pés calçados com as antigas botas ficaram no sol. O dente cariado deu sinal de vida. Puxou a caveira e dela fez travesseiro. De longe um casal de corujas buraqueiras o observava. O mapa grudava em sua mão suada, guardou-o na caveira. Quem vai achar que tem mapa aqui?

Como estava com o ouvido colado no chão, a caveira escorregara na certa por causa de um de seus movimentos durante o longo sono, ouviu o bater de muitos cascos no areal. São eles, alarmou-se. E de imediato meteu-se em outra moita, maior, de gravatás, arranhando-se. Melhor do que morrer espetado numa ponta de espada. Daí a pouco o bando passou em disparada. Eram eles e seguiam em sentido oposto ao que a velha ensinara que a vila ficava. Boanerges arrastou-se para fora do espinheiro e voltou a caminhar, tendo o cuidado de levar consigo a caveira de burro com o mapa do tesouro. O horizonte se acinzentava e decidiu que precisava encontrar um abrigo para passar a noite. A paisagem, porém, não mudava, léguas e léguas de areia pontilhada de arbustos carrasquentos. Voltava a sentir fome e sede.

Bem à frente viu uma cerca ou o que restava dela. Melhor que nada, admitiu, e foi na sua direção. Uma ave saiu voando e piando quando ele se aproximou. O que significa que lá não tem cobra. Um gavião soltou um pio agressivo e baixou no areal; logo levantou voo carregando no bico o que parecia ser um lagarto, não um camaleão, que é muito rápido, e sim um desses lagartos que vivem na areia. Tá na feição, decidiu, e adormeceu encostado nas tábuas amarelecidas pelo sol. Enganaria a fome.

Relaxou, com o areal no escuro, difícil achar alguém. De qualquer maneira não podia ficar por ali. Ainda demoraria muito a chegar na vila? se perguntou antes de dormir, a cabeça apoiada na caveira de burro. O céu estrelado lhe contou que não haveria chuva durante a noite. Nem haveria comida ou água, por outro lado.

O sol nasceu bem cedo, o que lhe foi providencial. Durante a noite, incomodado com a dureza da caveira passou a dormir com a cabeça no chão, o que lhe permitiu ouvir, ainda bem longe, mais uma vez, o rumor de cascos de cavalo. São eles de novo, será que não se cansam? irritou-se, e correu a se meter no meio dos gravatás. Não eram os piratas e sentiu-se aliviado. Deviam ser moradores do areal. Não posso viver nessa tensão, tenho que sair depressa desse carrascal. Estava um pouco mais descansado, mas ainda com a barriga roncando de fome. Não havia mais frutinhas, tinham passado para outro tipo de vegetação, capim amarelado que bois arrancavam com vigor. Bois! gritou ele, tem gente aqui por perto. O sol escalava o céu com volúpia de sádico e o suor escorria ao longo de sua espinha e porejava na testa.

Minutos depois viu o casebre, um pouco melhor que o da dona dos cabritos, mas casebre. As paredes eram de barro socado e a cobertura de sapê. Água e comida! Era muito cedo e a porta da casa estava fechada. Devo esperar os donos acordarem? se perguntou. Famélico, boca seca de doer, não esperou e gritou:

-Ô de casa!

Minutos que pareceram horas escoaram no horizonte ofuscante. Tornou a gritar. Um galo cantou. Por uma fresta da porta desconjuntada percebeu um olho assustado.

-Venho em paz, gritou, tô desarmado, e mostrou as mãos nuas, cansado e morrendo de fome. Por Deus, tenha piedade!

Ao redor o gado berrava. Só então viu o curral junto da parede, com poucas vacas de pescoço esticado, mugindo em direção a um curral menor, com bezerros também berrando. Os bichos tão como eu, com fome, pensou Boanerges. A porta foi aberta devagar e um homem cabeludo, de olhar desconfiado, vestindo roupas que tinham visto dias melhores, apareceu. A cara inchada de quem havia acabado de acordar, cercada por cabeleira arruivada, desgrenhada, parecia assustada. Na mão uma espada velha, enferrujada. Boa nem esperou que ele falasse.

-Caminhei a noite toda, meu amigo, meus pés estão em fogo e minha barriga ronca. Tem pena. Cê me deixa descansar um pouquinho e me dá um pouco de farinha e um naco de carne para aplacar minha fome? Deus há de lhe pagar.

O cabeludo baixou a guarda e Boa se aproximou um pouco mais, as mãos abertas a se mostrar vazias.

-Sentaí, disse o homem, mastigando as palavras, senta nesse banco e me espera.

Presa à parede e apoiada em dois troncos cortados uma tábua empenada virara banco e oferecia pouco conforto, inclinando-se para frente e para não escorregar para o chão teria de ficar apoiado nos pés doloridos, irritados pelo atrito com a areia, que desde a fuga se metera entre as botas e as meias furadas. Boanerges preferiu ficar encostado na parede feita de forma grosseira. Tudo aqui parece ser malfeito, observou.

Daí a pouco reapareceu o dono com o pedido sobre um papel de embrulho. A velha, pelo menos, trouxe num prato. Se não fosse tanta fome… Cada bocado jogado na boca entrava nos dentes cariados que doíam, mas a fome era mais forte e ignorando as lágrimas que desciam pelas faces enrugadas comeu até não restar um grão de farinha. Depois engoliu toda a água de uma vez para que caísse sobre a farinha e criasse o bolo que lhe daria a sensação de satisfação, como acontecera com a dada pela velha. Passou as costas das mãos no rosto para enxugar as lágrimas.

-Que mal le pregunte, disse o morador, olhos desconfiados cravados em sua boca, o que vosmecê faz por essas bandas?

Esperava pela pergunta e respondeu que havia se perdido. O outro não se satisfez e pediu detalhes, razões, caminhos seguidos. Foi respondendo como pode, mentindo, e afinal alegou que os dentes doíam, deu com a mão como uma resposta evasiva e seguiu em frente, não sem antes confirmar o rumo da vila.

-Sempre em frente, disse o morador, apontando o horizonte com o queixo fino.

-Fica muito longe?

-Nada, vosmecê vai chegá lá antes da noite.

Acenou um adeus, sem nem mesmo agradecer a comida e foi andando, desgovernado. As pernas ainda não estavam firmes. Cerca de uma légua adiante uma cólica o fez parar e procurar um lugar para descarregar o pouco que comera naqueles dias. Correu para outra moita, uma espécie de coqueiro baixo, sem caule, com cachinhos de coco nascendo na ponta de um galho liso e fino. Tudo verde. Pelo menos não tinha espinhos. A corrida de um lagarto saído de dentro do tufo verde de urtigas já não o assustou. Dali pode ver seus ex-companheiros de viagem passarem galopando. Ainda me procuram, os miseráveis. Não desistiram do mapa. E instintivamente levou a mão â caveira a seu lado. Vão morrer me catando. E sorriu, como vitorioso, os lábios rachados incomodando.

Seguiu em frente, no sentido contrário ao de seus perseguidores e no rumo indicado pelo morador. As pernas fraquejavam, mas não cedeu, precisava chegar a um lugar com bastante gente como proteção. Depois daria um jeito de arrumar um bom cavalo e se perder no mundo. Andou muito, o areal dificultando os passos, a caveira de burro debaixo do braço, até que o terreno foi ficando mais firme e uma matinha se dispôs a margear o caminho. Um tamanduá surgindo de um capão o assustou, mas logo desapareceu no mato e ficou matutando se era um bicho bom de comer. Que nada, se consolou, a carne deve ser dura como pedra e com esses meus dentes estragados eu ia era penar.

Um cheiro molhado chegou às suas narinas e depois de um maciço folhoso, apareceu um rio escuro, rugindo que nem o mar. Esse é meu terreno, se alegrou. Sei navegar, sei sobreviver dentro, em cima ou embaixo dágua, blasonou. Aqui sou rei. E apressou o passo até pisar no terreno molhado. Ajoelhou-se, apoiou as mãos na terra e enfiou a cara na água turva até quase se afogar. Lavou o rosto, molhou os cabelos, que penteou com os dedos, jogou água no pescoço. Ah, suspirou, estou no paraíso. O rio era largo e revolto. Uma canoa com dois homens navegava próximo à outra margem. Se gritasse, certamente não seria ouvido por causa do vento. Seu rosto avermelhado pelo sol resplandecia sob as gotas dágua encravadas nas rugas. Se não fosse a fome, ficaria por ali por muitas horas. Tirou as botas e as meias de lã, mergulhou os pés na água morna, gemendo de prazer.

Tão logo se sentiu recuperado, calçou as botas e seguiu acompanhando o curso de águas barrentas. Outras embarcações cortavam as águas. Vou arrumar um emprego fácil com eles, basta contar minha experiência no mar como…

-Como o quê, seu maluco, como pirata? perguntou Eudóxia com as mãos na cintura, uma atitude sua bem típica. Vão jogar vosmecê numa cela, se não o enforcarem antes. Pessoal ribeirinho não gosta de bucaneiros, como chamam aqui os bandidos, já sofreram muito nas mãos deles, já perderam gente levada pros barcos sem retorno, já tiveram seus bens saqueados. A não ser que se apresente como um sequestrado por eles, tirado de sua família e levado à força para servir numa nau, de onde fugiu ao ser levado para buscar água em terra. Daí porque os bandoleiros andam no seu encalço. Por que eles já devem ter passado pela vila e espalhado uma história vergonhosa para justificar sua perseguição. Se te pegarem será bem feito, quero ver mecê na ponta de uma corda para pagar o que me fez.

A finada Eudóxia não tinha papa na língua, era dura no dizer o que sentia.  Por isso também gostara dela. Quando ia responder ela virou as costas e entrou no mato. Ainda gritou por ela até perceber que fora mais uma miragem. Acho que estou vendo coisas. Deve ser por causa da fome e do cansaço. Eudóxia morreu faz tanto tempo. E por causa da morte dessa mulher fui parar na pirataria. Será que estou caducando, lembrando gente que se não tivesse morrido eu matava? Enquanto caminhava repetia e acertava pontos da história que apresentaria na vila. A suspeita sobre Eudóxia estava certa, lavei minha honra, era o que ia falar, fui sequestrado e tal. E a caveira de burro com o mapa, como explicaria? Assim que entrar na vila, onde acho que devo chegar à noitinha, enterro num lugar fácil de ser lembrado, a caveira vai continuar protegendo o mapa e assim que puder volto ao lugar e pego o mapa de volta. Deixo só a caveira. Na sua mente a história se desenrolava lindamente e ele sorria, beatífico. Mas a imagem de Eudóxia, a morta que supunha vingativa, sacudia a cabeça, duvidando. Ela anda me perseguindo, achou.

Viu pássaros bicando umas frutas brancas, pequenas. Eram viscosas, mas gostosas. Se passarinhos comem o homem pode comer, dizia sua mãezinha, que Deus a tenha em Sua santa glória, pode comer sem susto. Comeu um punhado, ajudou a mitigar sua fome. Respirou fundo e retomou seu caminho. Uma araponga martelava sua bigorna sem descanso. Grilos e sapos formavam um fundo musical para seu cansaço. Não sabia a que distância estaria a vila, segundo o que lhe haviam dito a velha e o homem cabeludo não devia estar muito longe. Sentia agora prazer em caminhar, embora os pés doessem, queria começar vida nova, arrumar um barbeiro para tosar sua cabeleira e arrancar seus dentes podres, quem sabe até arrumar uma mulherzinha. Deus é pai, rezou, e já perdoou meus erros. Senão não me deixaria chegar até aqui, apesar dos pesares.

E Doxinha já o teria perdoado? Ela era rancorosa e vingativa. Não sem razão nesse caso. Acho que tudo que tem me acontecendo fica por conta de praga que ela me rogou.

A tarde se esvaía levada pelas águas turbulentas do rio que seguia para não perder o rumo durante a noite. Dúvidas o assaltavam: devia procurar um lugar pra dormir antes que escurecesse ou seguir direto até encontrar a vila? E se ela ficasse mais longe do que imaginava? Mais uma vez se arrependia de seu impulso infantil de roubar o mapa. Não conseguira se controlar. Acontecera o mesmo com Doxinha. Eles viviam bem, mas os burburinhos da vila tinham transtornado sua mente. Sabia que ela seria incapaz de traí-lo e tentava não dar atenção ao que se dizia, mas quando sua mãe, em quem acreditava mais que nos santos, veio lhe pedir para botar o olho na sua mulher, sentiu que ela só não contara tudo para não irritá-lo, conhecia seu gênio intempestivo, coisas piores tinham acontecido. Nem esperou ela terminar, saiu porta a fora, ela ainda o chamou, aos gritos, mas ele não era homem de andar por aí exibindo seus chifres e com mais alguns passos chegou em sua casa, casa que comprara e montara com tanto carinho para viver com a mulher e encontrou Doxinha na beira do fogão, mexendo na panela, e a seu lado a faca que devia ter usado para cortar a carne do ensopado e não hesitou, matou-a num golpe só. Ninguém quis entender suas razões, seu brio de macho ofendido, de repente Eudóxia virou santa, injustiçada, o escambau, e ele um assassino cruel que teve de fugir para longe e a única saída que encontrou para não ser preso foi entrar para a guarnição do Santos Anjos, o navio velho que Sem Braço roubara e usava para assaltar outras embarcações e que estava se abastecendo de carvão num porto próximo. Talvez fosse melhor ter sido preso, viver no barco pirata era um castigo. Fora mais uma decisão precipitada, era muito novo, bobo, achou que seria bom conhecer os mares, viver aventuras. Sofreu demais, nada entendia de navegação, no barco não fez amigos, não o respeitavam, lhe deram os piores trabalhos, os mais pesados, os mais fedidos, apanhou muito, foi estuprado, avacalhado, enfim, um castigo pior do que a cadeia. Fugir não podia, se negar a trabalhar, impossível. No dia que Sem Braço, irritado sem razão, lhe deu uma pancada nas costas com o remo quase morreu. Ficou dias se arrastando pelo convés cheio de dor, tendo de trabalhar assim mesmo, ninguém o ajudou. Talvez por isso se rejubilara com a dolorosa e demorada morte do pirata e o roubara. Compensação por todo o sofrimento.

-Sempre com desculpas, gritou Doxinha em sua imaginação. Nunca tem culpa e todo esse sofrimento talvez tivesse alguma coisa a ver com sua situação de assassino cruel. Podia ser praga da morta, não podia?

A noite custava a chegar e andando mais depressa vislumbrou os primeiros fogos da vila. A vontade era entrar correndo, buscando comida e cama, mas não tinha como pagar por uma noite num albergue nem o de comer e o pouco que restava de seu raro bom senso fez com que se detivesse junto à primeira cerca para primeiro observar o ambiente. Pouca gente andando nas ruas, casas formando um quadrado no meio do qual havia uma obra em andamento, parecia. Deve ser uma capela, imaginou, no meio da pracinha. Um cachorro parou a seu lado e cheirou sua roupa, mas seguiu em frente. Ficou um bom tempo parado, encostado na cerca, olhando. A lua estava escalando o céu e a claridade aumentava a cada momento. Depois do quadrado de casas o rio roncava, suave. Mais um pouco e nem o cachorro andava por ali. Boanerges se despegou da cerca e caminhou até a obra. Estava nos alicerces e decidiu que ali enterraria a caveira do burro. Por precaução olhou em volta com vagar e não viu vivalma. O silêncio era cortado por pássaros noturnos, com cauda em forma de tesoura, que piavam no espaço. Bichos de mau agouro, pensou, e se benzeu. Os alicerces ocupavam uma área de tamanho regular, talvez não fosse uma igreja, mas no meio da praça? Pode ser um coreto, quem sabe? Por que o quadrado era ou ia ser uma praça, não tinha dúvida, a vila devia ser nova. Escolheu o local, junto à meia parede levantada, para cavar o buraco. Não viu enxada ou pá, deviam guardar os instrumentos de trabalho à noite. Pegou uma lasca de pau com ponta fina e se pôs a cavar. Me distraio e assim esqueço a fome. Quando viu que o buraco tinha fundura suficiente depositou ali a caveira. Sentia-se muito cansado. Jogou a terra por cima da escavação, de qualquer jeito, em meio a cacos de tijolo e de madeira. Não aguento mais, tenho de procurar um lugar para descansar, mesmo com fome e com dor de dente. Levantou o corpo com certa dificuldade, as costas pareciam ranger. Tô ficando velho.

Ainda pisou sobre a terra remexida antes de se encaminhar para o rio que o luar transformara numa faixa ondulante de prata. Tenho que dormir, decidiu, em qualquer lugar, o cansaço me venceu. Ouviu uma tosse e se inteiriçou. Olhou na direção no ruído: vinha da beira do rio. Apertou os olhos e viu uma figura sentada num banquinho, encolhida, cabeceando de sono. Nem me viu, tá sonhando com os anjos. Avançou em direção ao rio. Tudo vazio, apenas uma canoa se balançava nos banzeiros; no barranco, um amontoado escuro do que parecia roupas ou lonas ao lado de um cachorro amarelo que dormia. Boanerges desceu o barranco. Vou dormir na canoa e seja o que Deus quiser.

A canoa era estreita mas sentiu-se perfeitamente acomodado. Redes de pesca serviram como travesseiro e ao se estirar no assoalho úmido da embarcação suspirou de prazer. Adormeceu em seguida, nem reparou que as estrelas eram em maior número e mais brilhantes do que as que via estirado no convés da caravela de Sem Braço. O céu era imenso candelabro. As pernas doídas fizeram com que sonhasse que ainda caminhava com dificuldade pelo areal. Uma voz desconhecida chamava psiu com insistência. Boanerges quis mudar de posição sem acordar, como faria se estivesse numa cama, e não conseguiu, imprensado pelas bordas altas da canoa. Entreabriu os olhos, tudo escuro, menos a barra do céu, avermelhada. Voltou a cerrar os olhos. Os psiu continuaram. Que inferno, gritou, mas abriu os olhos e viu uma figura embrulhada em panos escuros olhando-o do alto do barranco.

-Que é? berrou ele.

-Essa canoa tem dono, disse uma voz roufenha de mulher. E tá na hora dele chegá.

-Tá bom, já ouvi, respondeu e mergulhou no sono de novo.

-Acorda, homem, insistiu a voz, o dono tá vindo aí e ele é bravo e não gosta que ninguém pegue a canoa dele.

Não respondeu. Voltara a sonhar com o areal e com a dificuldade de caminhar. Sentia todo o corpo doer. Roncou.

A voz continuava a chamá-lo, a tentar acordá-lo. Do fundo do poço onde o cansaço o jogara ele ouvia, mas não sentia qualquer vontade de reagir. O homem, quem é o homem? O que eu tenho a ver com ele? Ainda estava muito cansado, precisaria dormir uma semana direto para colocar o sono em dia. O resto não tinha importância. Daí a pouco sentiu um peso na perna e a cama oscilar fortemente, não era mais o balançar suave da canoa.

-Ei, sujeito, ouviu uma voz masculina gritar, sai daí.

A muito custo conseguiu abrir os olhos. Ao lado da dona da voz que saía de dentro do monte de panos estava um homem que cutucava sua perna com um remo.

-Essa canoa é minha, disse ele, quem lhe deu permissão para dormir aí?

Sentou-se no fundo da canoa com dificuldade, esfregou os olhos inchados e tornou a olhar o homem. Era de idade, barba rala grisalha, forte e troncudo, usava roupas velhas e um chapéu de palha esfiapado.

-Pula fora daí, seu malandro.

Nas horas de aperto sempre se lembrava das mulheres. Antes de, agarrado à corda de amarração, começar a subir pelo barranco escorregadio, lembrou-se da mãe dizendo que pedir desculpas não faria dele menos homem. Se errou, dizia ela, tem que se desculpar.

-Me perdoe, senhor, mas cheguei aqui de noite, tão cansado, andei o dia todo pelo areal – e dessa vez quem apareceu na sua mente foi Doxinha, conte a verdade, ela diria – fugindo de um bando de piratas que queriam me pegar.

-Como é isso? Piratas? Aqui? Já muito tipo de bandoleiro passô pressas bandas, piratas não. Conta outra.

-Piratas, bucaneiros, bandidos, seja lá o que eles eram, me sequestraram no ano passado, acho que foi no ano passado, nem sei mais, e me puseram a seu serviço como escravo. Fiquei todo esse tempo no navio, obrigado a fazer os piores trabalhos e ainda tendo que lutar ao lado deles quando abordavam outra embarcação. Sofri o diabo naquele barco. Vivia lavando o convés, e tinha dias, em tempo de calmaria, que tinha de ficar sentado na borda, com um anzol, pescando pros miseráveis comer. E só me davam o que sobrava. Padeci.

Falava depressa, emendando uma frase na outra, cheio de nervosismo e medo, tinha de convencer o homem a não castigá-lo, a ajudá-lo.

-Fora os ferimentos que recebi das surras de chicote que levava quando me recusava a fazer algum serviço, as quedas no convés molhado, ou as feridas dos cortes de espadas quando lutava ao invadir barcos. Fiquei meses entrevado por causa de um corte que levei na panturrilha, aqui, ó, e levantou a perna do calção para mostrar a cicatriz do ferimento. Sarei sozinho, ninguém me ajudou.

Comoveu-se com o próprio relato e pensou que se o homem o deixara contar até ali, certamente não o mataria. Respirou fundo antes de continuar.

-Aí o chefão bateu as botas, graças a Deus, morreu vomitando e cagando fedorento, deve ter comido algum peixe estragado ou qualquer outra porcaria, vivia com fome, comia de tudo, era um glutão, sua barriga era o caldeirão do inferno. Ou foi envenenado? Ninguém gostava dele, podia até ser. Quando Sem braço piorou descemos na praia, demos a ele chás e outras mezinhas, mas não adiantou e ele se foi.

Continuou inventando, não podia perder a oportunidade.

-O pior foi que acharam que eu envenenei ele só porque na semana anterior a gente tinha tido um trelelê e ele me disse “Dessa vez tá desculpado, mas na próxima vou cortar seus ovos e enfiar na sua boca antes de jogar mecê no mar pros peixes comerem.” Aí aproveitei o azo da morte dele e fugi. Foi de noite, ninguém viu e me embrenhei no areal. Não sabia onde estava, corri muito, sempre com os bandidos no meu rastro. Acho que pensam que roubei alguma coisa além de matar o chefe. Quase me pegaram, mas minha santa ajudou, porque sabia que sou inocente.

Tanto o homem como a velha embrulhada nos panos o escutaram com atenção. Estavam impressionados. Ondas batiam de leve no casco da canoa. Ficaram um tempo calados digerindo as mentiras até que o velho pigarreou e perguntou:

-E agora? Vai fazê o que?

-Quero voltar pra minha terra, mas não tenho um mísero tostão nem pra comprar o que comer, falou o que lhe ocorreu na hora. Tô azul de fome. Não sei o que vou fazer.

Percebeu que havia comovido o velho, e não estranhou quando ele lhe ofereceu comida.

-Vamos lá em casa, fica aqui perto, inda deve ter sobrado um pouco do café no bule e se bem me lembro restô um naco da broa de mio que a muié fez.

A velha embrulhada em panos, que se mantinha calada, falou:

-Eles passaram por aqui dia desses. Fuçaram tudo, fizeram mil perguntas e ainda levaram o Zefinho pra trabalhar com eles mais seu cavalo.

-Coitado, murmurou Boanerges, vai comer o pão que o diabo amassou.

-O Zefinho, explicou o velho, apesar de ser fio de uma família decente é um mau caráter. Vai é se dá munto bem.

-Tenho pena dele assim mesmo. Vai sofrer muito. Quem deve ficar na frente do bando é um pirata mais cruel do que o Sem braço, um tal de Runnes, que os companheiros chamam escondido de Barba de milho ou de Gamelão. É um alemão puxa saco, cheio de mesuras com quem tá por cima, mas com os de baixo… mais falso não há.

-Cada um com seu destino. Mecê deve sabê pescá, né? Boanerges confirmou com a cabeça. Entonces vai ficá um tempo me ajudano na pesca em troca de casa e comida, concorda?

Concordou com entusiasmo. Caminharam para a casa do pescador. A velha os seguia de perto. A cidade começava a acordar. Galos cantavam nos quintais. Um bem-te-vi gritou seu aviso. Um cachorro abriu os olhos remelentos e se espreguiçou. De relance Boa olhou para onde havia enterrado o mapa. Não dava para desconfiar do tesouro que estava ali.

– Só até arrumá um jeito de vortá pra sua terra, entendido?

-Tudo bem… Me perdoa se eu parecer abusado, disse Boa, mas mecê não terá uma roupa velha, melhorzinha que essa pra me dar?

O outro o olhou e sorriu, compreensivo.

-Realmente essa sua roupa tá munto esquisita, parece um saco.

-Foi a velha dos cabritos que me deu, coitada, só tinha essa. Mas a minha estava um nojo.

-Ter não tenho, que lá em casa tudo farta, nada sobra. Minha cunhada Eurides, que ficô viúva faiz pouco tempo, é quem deve de tê. Despois vô lá sabê.

-O finado tinha roupa boa, calção com culote e paletó, intrometeu-se a velha, que vinha logo atrás.

-Tá bom, Ritinha, vô vê com Eurides.

Na manhã seguinte, refeito e com roupa decente, um uniforme militar bem conservado, Boa saiu pra sua primeira pescaria com Felício, o velho pescador. Teve de ficar só de ceroulas para colocar os puçás na água ou manejar o jereré junto aos balsedos

-Aprovado, disse o velho pescador sorrindo na volta para o porto, nunca pesquei tanto de uma vez só. Olhou os cestos cheios de peixes e os sacos onde siris chacoalhavam.

Boa também ficou satisfeito. Posso conseguir ficar morando por aqui mesmo, basta agradar o velho. Esfregou as mãos de contente.

Daí a dois dias sua esperança se evaporou quando viu o bando de piratas entrando a galope na cidade. Sentou na canoa, de costas para o cais, tremendo de medo. Rezou mentalmente. O velho Felício continuou trabalhando, sem dar sinal de preocupação. Os homens, ainda montados, vasculharam tudo com os olhos.

-Quem é esse militar? perguntou Runnes com seu sotaque carregado, apontando para Boa, que estava de costas, curvado sobre a rede. Da outra vez ele não tava por aqui.

-É meu cunhado, respondeu o velho. Tava na ilha montano umas armadilhas pra mim. Fica assim porque tem vergonha de se mostrá, é gago e vesgo.

Ainda tremendo de pavor, se fosse descoberto ia acabar sendo morto de tanto apanhar, Boa continuava curvado sobre a rede que remendava. Sequer arriscou um olhar de lado para o bandido.

-Tá certo. E o renegado, mecês viram?

-Despois que mecê se foi, não apareceu mais ninguém, Felício afirmou sem tremor na voz. Isso aqui é um fundo de saco.

A velha entrouxada havia se aproximado. Ela gostara do fugitivo e afirmou com sua voz rouca:

-Vai ver ele tomô o rumo da mata dos guliguli, era só ele dá um merguio lá na parte mais rasa e nadá mais um pedaço para chegá na terra e se escafedê. Deve de tá munto longe daqui nessa hora.

-Será? Gamelão a olhou com ar de nojo e coçou o queixo coberto pela barba amarelada. Seu olhar era de desconfiança. É certo que lá tem índio?

-Perto do rio não, que tô sempre por lá pescano, mas mais pro meio, na mata tem sim. E dos brabos, dos que comem gente, acrescentou o velho. E tem onça tombém.

-Que seja, rosnou o alemão. Se ele virar comida de bugre é bem feito. Vambora, gente, tá na hora de voltar a trabalhar.

Quando o grupo se perdeu na distância, o velho sorriu, satisfeito.

-Pode vir pra cá, seu Boa. Os miseráves vortaram pro trabaio deles.

-Eu sei qual é o tipo de trabalho, rosnou Boa, e nem sei como agradecer o que fizeram por mim. Minha santa há de lhes pagar. Muito obrigado.

A maioria dos pescadores da vila estava fora há dias, pescando em mar alto e retornaram no dia seguinte à passagem dos piratas. Um deles, o Élço, um negro magro e enfezado, olhou Boa de cara feia todo o tempo.

-Esse sujeito aqui é um perigo, alertou. Se tão pensano que os bandidos foram embora podem estar bem enganados. São espertos esses bandidos, fingiram acreditar e quando menos a gente esperar aparecem.

-O que eu acho, completou um outro, é que como viram o sujeito fantasiado de militar, podem num ter acreditado no que mecês contaram e vortar para conferir.

-Além do mais, lembrou um careca, o Zefinho tá com eles e pode desmentir mecês. Aquilo é cobra criada. O careca olhou enviesado para o pirata fardado. Alguma coisa nele me assombra, disse.

A velha Ritinha se esgueirava entre eles e de vez em quando surrupiava um peixe que guardava entre seus panos. Por isso ela fede tanto, imaginou Boanerges que olhava tudo calado. Uma palavra fora de hora poderia botar tudo a perder.

-Se eu fosse mecê, Felício, tocava esse sujeito daqui pra fora, sugeriu Élço. Sem deixá rastro. Nós tamos correndo perigo com ele aqui. E cuspiu no rio

-Por que ele não vorta pra casa? perguntou um mais baixinho, a cara marcada por bexiga.

Haviam chegado perto da hora do almoço e conversavam enquanto descarregavam as cestas cheias de peixes e siris. Crianças e mulheres se aproximaram e concordaram com o que diziam os homens. Assim que terminaram as conversas foram para casa, sempre reclamando da presença do estranho. Um grupo de moças e rapazes ficou para limpar e salgar o pescado e olhava Boa com desdém. Boa ficou inquieto. O céu, de um azul claríssimo, era cortado por miríades de insetos, moscas, mosquitos, maribondos e abelhas selvagens atraídos pelo forte cheiro de peixe. Por sua vez, pássaros famintos davam rasantes em busca dos pequenos petiscos voadores. Baratas que corriam entre as cestas também eram visadas. Alguém cantarolava uma velha canção. Felício subiu na sua canoa. Via-se que estava chateado e preocupado. As rugas estavam acentuadas. Precisava de um tempo para pensar e decidir.

-Vamos lá na curva do rio ver o que conseguimos pescá por aqui, disse sorumbático. Já que não temos competência pra ir pro mar, temos que pescá no rio mesmo. Vambora.

Desde que enfrentara uma tempestade súbita em mar alto e fora salvo por milagre por suas orações ao anjo da guarda tomara pavor de cruzar a barra do rio. Boanerges assumiu seu posto na canoa e ajudou a afastá-la do cais barrento. Crianças mergulhavam na beira do rio junto com seus cachorros. Algumas galinhas surgiram buscando petiscos.

-Uma pena, eu gostei muito daqui, muito mesmo, mas já vi que não posso ficar. Se não fosse o tal de Zefinho ter sido levado ainda podia ser, mas com ele lá… vou ter que dar o pira e já já, disse com um fundo suspiro.

Boanerges, com sua imaginação sem controle, chegara a se ver morando ali, perto da praça, de onde poderia vigiar seu mapa, sentado numa cadeira preguiçosa na porta da casa, trocando ideias com os companheiros que retornavam da pescaria, rindo, brincando, participando das atividades da comunidade. Suspirou mais uma vez, resignado. Foi tudo um sonho.

-Vamos vê, resmungou Felício, vamos vê.

A canoa cortava as águas que escorriam por entre placas prateadas que ora se moviam com suavidade ora bruscamente, como se tivessem medo de perder o rumo do canal. Uma graça riscou de branco as águas barrentas e pousou mais adiante. Das margens, dentre o emaranhado de plantas vinham sons de todo tipo, pios, gritos, coaxares, rosnados, assovios.

-Ali mora uma bracaiá, e Felício apontou com o queixo uma grande moita iluminada por pequenas flores brancas. Sabe o que é uma bracaiá? Uma quase onça, um bicho brabo que costuma não incomodá ninguém, mas essa aí tá com fiotes e fica munto mais braba, não reconhece ninguém, ataca. Cuidado quando andá por aqui até mais uns dois ou três meis.

Boa olhava tudo, encantado. Sempre vivera ou na vila ou no mar. Conhecia os animais domésticos, aí incluídos cachorros, gatos, galinhas, perus, cabritos, bois e assemelhados, pássaros engaiolados e o pretume dos urubus no matadouro. Estava conhecendo e vivendo uma outra realidade e gostando muito da vida no rio.  Via peixes saltando da água terrosa e garças pescando com as pernas enfiadas  na água.

-Já arresorvi, vou deixá mecê numa ilha um pouco mais longe daqui, explicou Felício. Ali veve uma comadre minha, viúva, sem filhos, que cuida do pai doente. Vou deixá mecê com ela, uma santa criatura, até que a ameaça dos bandidos desapareça. Por que ou munto me engano ou eles tão só dando um tempo para a gente relaxá. Dias atrás já tiveram aqui, assuntaram, fingiram que acreditaram e agora vortaram. São ladinos e a gente não pode esquecê do menino que levaram e que nunca foi boa coisa. Agora, munto respeito com a dona, tá bom?

 

ZIRA

Alzira era o nome da viúva que morava na ilha. Forte, de traços marcantes, simpática sem ser bonita, com a idade de quarenta e poucos anos. Olhava de frente e ria sem barulho, só com os lábios. Felício resumiu a situação, ela examinou Boa de alto a baixo e aceitou a incumbência. De escondê-lo por um tempo

-Com uma condição: seguir minhas exigências, que são poucas, mais para não perturbar meu pai, entrevado e mudo. Quero silêncio, comer nas horas certas e também me ajudar em algumas coisas. Sabe caçar, armar tutos para pegar preá? Aqui tem muntas e nós tamos cansados de comer peixe todo dia. Também tem munto passarinho bom de comer, uns mutuns, umas marrecas que dá pra pegar fácil fazendo armadilha ou tocaia, mas não posso caçar e cuidar de meu pai ao mesmo tempo.

-Tá certo, dona Alzira, ele disse deferente, o que eu não souber a senhora me explica.

-Senhora tá no céu, disse com sua voz forte e meio masculina. E outra, quem me conhece me chama só de Zira. Eu prefiro.

Felício não se preocupou em explicar porque seu companheiro não retornara da pescaria, como se fosse algo sem importância. Ficaram satisfeitos e despreocupados. A velha Ritinha fora a única que o inquirira diretamente. Ele abrira os braços num gesto de conformismo.

-Se foi. Fomos até o outro lado do rio, conforme ele me pediu, e lá deu com a mão pra mim e se meteu nas ruas tortas da vila e não vortô. Nada me disse nem nada perguntei, não é da minha conta. Me parece que conhece alguém de lá, ou se arriscô, sei lá. Problema dele, né não? Fiz o que pude para ajudar, agora é com ele.

A velha o encarou, desconfiada, mas como ele mantivesse o olhar, se desinteressou e voltou para seu canto no cais. O céu estava enfarruscado, grossas nuvens prometiam temporal e tinha de se proteger. Antes do anoitecer a chuva caiu, forte, iluminada por relâmpagos. Raios caíram ao longo do rio. O velho recolheu suas redes e se meteu em casa. Os outros pescadores ainda estavam no mar.

Na ilha a mudança do tempo assustou. O vento agarrou as árvores pelos galhos e quebrou algumas delas. A casa de Zira parecia muito frágil, o que o assustava. Já passara por muito terror no mar, quando um temporal sacudia o barco como se fosse de papel, e a mesma sensação o assaltava quando viu algumas palhas do teto de sapê serem arrancadas e sacudidas sem direção. As paredes de barro socado pareciam firmes, mas ele temia que se o vento aumentasse com a pressão desabasse. Já vira barcos virados em pleno oceano e pedaços de embarcações sendo levados pelo vento. Zira parecia preocupada, as lamparinas eram constantemente apagadas pelas lufadas que invadiam a casa pelas frestas, que eram muitas.

-Vamos rezar, é o que nos resta.

A casa tinha apenas um cômodo, que servia de sala, quarto e cozinha. O velho passava o dia deitado num catre de galhos trançados cobertos por uma esteira de taboa e ela, para dormir, se deitava numa esteira, no chão, a seu lado. Desde que chegara, ele se deitava no chão, perto da porta de entrada, ao lado do cachorro. Ela prometera tecer uma esteira para ele, mas o velho passara mal e ela só cuidava dele.

-Se vosmecê quiser, um dia poderá me ajudá a melhorá a casa. Não que eu espere que passe o resto da vida aqui, nem que esteja cobrando pelo acoitamento, mas porque mecê vai ficar muito tempo a toa, vai se aborrecer e fazendo alguma coisa o tempo corre mais depressa.

No dia seguinte o pai piorou, os gemidos e os pigarros se transformaram em surdos roncos. Ela ficou nervosa, agitada e antes de se dedicar só a ele, disse:

-Essa crise passa logo, mas até ela passar – deu um suspiro – não fale comigo, procure sozinho o que comer, tem alguma coisa em cima do fogão.

Ele tomou o rumo do mato e passou o dia se distraindo, observando plantas e bichos, era bom conhecer o lugar onde viveria Deus sabe por quanto tempo. Quando sentiu fome rondou a casa e viu que a mulher havia deixado um prato de comida na janela. Comeu, lavou o prato, deixou-o na janela e voltou pro mato. Foi assim durante uns dias, perdera a noção de tempo. Felício não aparecia, ali não era sua área de pesca e entre as muitas canoas e botes que passavam no meio do rio não viu a dele. Melhor assim, se os bandidos voltarem não poderão segui-lo para me pegar. A mulher não se mostrava receptiva, passava a maior parte do tempo cuidando do enfermo. Nas suas andanças ele descobriu uma elevação coberta de cardos, onde passarinhos caçavam insetos. Na parte de baixo um capão de plantas sem espinhos e pensou que seria um ótimo esconderijo caso viesse a precisar. Gastou uma tarde limpando o chão, tirando gravetos, folhas secas e urtigas. Deixou apenas plantas que formavam uma cortina com seus cipós. Depois que almoçava deitava-se e dormia um bom sono na sua maloca improvisada. Nada o perturbava.

Cerca de uma semana depois, ao ir pegar seu almoço encontrou Zira varrendo a entrada da casa, sorridente e animada. Segundo contou, o pai tivera boa reação aos chás que lhe dera e estava bem.

-Desculpe o mau jeito, parceiro, mas depois que perdi meu marido, fico louca sempre que meu pai piora. É a única pessoa que tenho na vida, não posso nem pensar em perdê ele.

– Mecê já faz muito em me esconder.

Almoçaram juntos e ele lhe contou de seus passeios pela ilha, da toca que preparara para se esconder em caso de necessidade.

-Não fica muito perto, avisou, nem longe demais. Se mecê gritar daqui talvez eu escute lá, pode ser, não agaranto. Qualquer dia vou lá ver se dá pra escutar.

Ele reclamou da ausência de Felício, ela entendeu que podia ser por precaução, mas achava que os bandidos haviam sovertido no mundo e não voltariam.

-A raiva deles já deve ter passado.

Ele sabia que não era bem assim e gostaria de dividir com ela o seu segredo, mas quem garantia que não se tornaria mais uma interessada em pegar o mapa e buscar o tesouro? Depois que soubesse de tudo podia muito bem matá-lo. Não, não valia a pena.

-É a segunda vez que vejo mecê fazer cara de dor, observou ela. É o que?

-Meu dente, e ele apertou o maxilar com a mão. Cada dia dói mais.

-Deixa eu ver, pediu ela, meu finado marido era barbeiro e arrancou dente de muita gente. Cansei de ver ele fazer o serviço.

Ele abriu a boca, constrangido. Ela segurou seu queixo e puxou para baixo com força, obrigando a abrir mais e examinou atentamente.

-São dois, né? Duas buracas fedorentas. Quer que eu arranque? Ajudei o finado fazer isso muitas vezes e ainda tenho os instrumentos, quer? Ou prefere sofrer um pouco cada dia?

Coração batendo forte, mãos tremendo, olhos arregalados, disse não saber.

-Como todo homem mecê é um cagão. Já viu mulher parir? Não? Aquilo sim, é dor. Nós vamos arrancar essas cacimbas. E já.

Ela entrou em casa e voltou trazendo uma garrafa e um alicate de ponta. Ele estava de pé e a olhava apavorado. Ela o segurou pelo ombro e o obrigou a voltar a sentar no toco.

-Toma um gole disso aqui, valente. É aguardente da melhor. Um homem que diz ter enfrentado pirata está a ponto de borrar as calças, valha-me Deus. Senta aí, vai, e tome mais um gole. Isso, um gole pra macho. Tá se sentindo melhor? Agora abra a boca e tire a mão de mim, que não sou esteio. É melhor puxar o toco e encostar a cabeça na parede. Assim. Agora abra um bocão. Assim, muito bem, neném vai ganhar um doce. Feche os olhos.

Com rapidez e competência ela agarrou com o alicate o dente menos quebrado e o arrancou. Ele deu um grito só com a garganta. Ela lhe mostrou o caco de dente arrancado.

-Viu como quase não doeu? Melhor esse troço cá fora do que atormentando sua boca. Cospe pro lado. Saí daí, Japi, que cachorro enjoado. Com o pé ela empurrou areia sobre o escarro. Vamos, tome outro gole. Até agora mecê não chorou, vamos ver o outro caquinho.

Quando Zira terminou o serviço estava alagado de suor. Cuspiu mais um escarro sanguinolento. Ela mandou que ele enchesse a boca com aguardente e bochechasse.

-Homem, exclamou com desprezo. Aposto que está todo mijado. Eu já tirei três de minha boca, um aqui do lado e dois lá atrás. Eu sozinha. Enquanto falava apontava os espaços vazios na boca.

Apertando a bochecha com a mão ele não sabia se agradecia ou se xingava. Estava admirado com a valentia dela. Por isso vive aqui sozinha com o pai doente, pensou. Acho que nem Sem Braço meteria medo nela.

Por algum tempo desfrutaram de uma paz inigualável. Boanerges pescava, caçou algumas preás e um grande pássaro selvagem parecido com um peru. Ela cuidava do pai e da casa e pensava que se morasse sozinha levaria o homem para cama. Ando bem precisada disso. Suspirava e voltava aos afazeres. Numa manhã em que foi até à beira rio viu o homem tomando banho nu. Escondeu-se atrás de uma moita e ficou observando. Quantos anos teria o caboclo, se perguntou. Era bem mais novo que ela. A cara não era feia e o corpo, agora que comia direito, recuperava peso e formas e lhe despertava vontades que imaginara estar mortas. Ele era bem conformado e bem dotado e faria qualquer mulher feliz, acreditou. Antes de encontrar forças para fazer besteira, voltou para casa. Boanerges a tinha vislumbrado e como ela preocupava-se em não ser vista, fingiu que não viu. Mas passou a pensar em possibilidades, ficou excitado. Estava sem mulher há bastante tempo.

Nas longas tardes Boanerges, que tinha caçado e pescado de manhã, fazia algum servicinho para ela e depois se estendia do lado de fora do casebre, na sombra, observando os pássaros e outros bichos que viviam nos matos, bichos que nunca imaginara que existissem. Alguns vira em gaiolas ou pendurados em fieiras presas nas calças dos caçadores. Às vezes Japi vinha deitar a seu lado e com seus dedos acostumados a brutalidades alisava o pelo curto e duro do animal. E achava bom. Zira aparecia na porta, sempre atarefada, e ria para ele. De um tempo pra cá notava que ela parecia mais limpa e mais nova. Ficava excitado e saía pra fazer alguma coisa. Quando o desejo vinha muito forte mergulhava no rio.

Ela se oferecera para cortar seus cabelos e envergonhado permitiu. Ela teve o cuidado de amolar a tesoura na pedra que usava para amolar as facas da cozinha.

-Quanto eu posso cortar? perguntou.

-Sei não, ele respondeu, sentindo arrepio gostoso com o contato dos dedos macios com seu couro cabeludo. Mecê vê, corte o que achar necessário. Uma vez lá no barco deu uma onda de piolhos e o Gaguinho raspou nossas cabeças e jogou o cabelo no mar. Sorriu. Os peixes se fartaram.

Riram. Estavam felizes e qualquer coisa era motivo de riso. Ela aproveitou para aparar a barba bem rente à pele do rosto, o que lhe dava uma aflição prazerosa.

-Está ótimo agora, perdeu aquele jeito de bandido. Era eu quem fazia a barba de meu marido.

– Perdão se sou intrometido, mas seu marido, o que houve com ele?

-Morreu, mas pera aí que depois eu conto. Entrou em casa e voltou trazendo um tacho de cobre, tão areado que seu fundo parecia um espelho. Dá uma olhada em sua cara, disse sorrindo, veja como ficou bonito.

E ele se olhou de frente, de lado, sério, sorrindo, fazendo caretas, quieto, falando.

-É, não ficou dos piores, disse sorrindo.

-Ah, seu safado! ele segurou-lhe o pulso, firme mas carinhoso. Peraí, deixa eu contar de meu marido. O nome dele era Silva, bom pescador, ótimo caçador, pessoa maravilhosa. Infelizmente não tivemos filhos, Deus não quis, porque nos amamos muito. Papai o adorava. Ele saía de manhã na Linda Amada – nome da canoa que deu em homenagem a mim – e passava o dia todo pescando. Voltava à noitinha, nunca dormia na canoa. Uma noite não apareceu. Papai já tinha adoecido e não pude ir atrás. Imaginei que tinha havido um contratempo qualquer e que a qualquer hora ele estaria de volta. Vivo ele nunca mais apareceu. Fiquei feito doida, tendo que cuidar de meu pai e correr no rastro dele. Ninguém aparecia para me ajudar, fiquei desesperada, não sabia o que fazer, até que um dia um amigo dele – esse que todo mês compra meus peixes e me traz o que preciso da vila – trouxe o corpo dele embrulhado numa esteira. Tão triste. Até hoje ninguém sabe como morreu, se foi afogado ou matado por alguém… o corpo dele estava irreconhecível, só vi que era ele pela roupa.

Seus olhos estavam cheios de lágrimas. Boanerges alisava sua mão com carinho.

-Foi isso, ela fungou. Se não fosse ter de cuidar de meu pai, nem sei o que seria de mim.

O velho gemeu alto, ela soltou a mão e levantou-se.

-Ele está me chamando, já volto.

Uma lamparina com mecha fina para durar mais e não clarear demais o aposento, brilhava sobre a mesa cambaia que ficava no centro do cômodo. Depois que o pai adormeceu, ela aqueceu a comida e comeram em silêncio. Ele saiu, olhou a noite mais escura do que breu, se espreguiçou, bocejou e se preparou para ir dormir. A noite estava cálida, cheia do perfume do mato e de suas flores. Pios isolados cortavam o silêncio. Ele virou-se para entrar e quase esbarrou nela. Com o dedo nos lábios ela o puxou para mais perto. Ele a agarrou com a fúria de quem não via mulher há muito tempo. Ela correspondeu e se deitaram na esteira que silenciosamente ela tinha estendido na soleira da porta.

Ali começou o que considerou o período mais feliz de sua vida na ilha. Longe do pai ela o abraçava e beijava, de dia ou de noite, e se amavam como dois bichos. Ele sentia vontade de gritar e bendizia ter entrado no bando de Sem Braço. Passara por muitos apertos, sofrera como um cachorro sem dono, mas agora estava vivendo com uma mulher maravilhosa e sem qualquer homem por perto a lhe provocar ciúmes. A traição de Eudóxia deixara marcas profundas que custavam a desaparecer.

Boanerges volta e meia se lembrava da caveira de burro enterrada com seu mapa dentro e bolava mil planos para recuperá-la. Junto com Zira seria capaz de encontrar o tesouro escondido e desfrutá-lo. Assim que o pai dela morresse eles voltariam à vila. Dia rolava sobre dia, noite se sucedia a noite e eles se amando. O velho parecia cada dia mais fraco e ele via com ansiedade a hora dele bater as botas. A pilha de peixes salgados debaixo do jirau aumentava a cada dia.

-Tá quase no tempo do Cacildo vir buscar essa remessa de peixe e me trazer o que pedi. Ando com muita vontade de comer uma carne fresca, mecê me abriu o apetite.

-Ele vem todo mês?

– Só se tiver precisão de peixes. Ou se eu mandar alguém chamá-lo, é muito prestativo. Não fosse ele e eu teria de ir à vila levar os peixes e buscar o que preciso.

-Ele nunca pensou em namorar mecê?

O velho ciúme voltava com força, mas ela não se impressionou.

-Se eu contar procê o número de gaviões que rondaram a ilha. Ela riu. Mas eu não sou carniça pro bico deles. Mecê é o primeiro desde que o finado se finou. Mas o Cacildo nunca nem sequer se insinuou.

Cacildo era um homem baixo e troncudo, a pele ressecada pelo sol, os olhos claros em permanente lacrimejar. Beirando os 70 anos, era de pouco rir e de falar e por isso Zira não estranhou que desembarcasse muito sério. A seu pedido Boa sentou-se no meio de uma moita de canema que o escondia próximo ao local de desembarque da canoa.

-Ele não é novidadeiro, mas sem querer pode dizer que viu um homem aqui e o povo da vila logo vai perceber que é mecê. É arriscado. Melhor se esconder.

Zira percebeu que o canoeiro estava mais sério que de costume e ficou observando-o desembarcar a mercadoria que encomendara. Antes que ele viesse pegar os peixes ela perguntou o que estava havendo.

-Uma desgraça, Zira, uma desgraça, suspirou ele.

-Me conte, homem, o que aconteceu?

-Os piratas, Zira, rosnou ele, noite dessas os desgraçados chegaram de supetão na vila e fizeram miséria. O pobre Felício foi morto depois de munto sofrimento. O tal de Gamelão é um bicho, não é gente. Arrebentô o coitado quereno saber onde o sujeito que fugiu do barco deles tá escondido. Felício não falou. Ai, nem gosto de me alembrá, arrancaram a pele do pobre homem com chicotadas. Uma tristeza, todo mundo chorano, mas sem coragem de se metê com medo dos outros bandidos que tavam apontando as armas preles, uns dez. O tal do Zefinho, cachorro sem coração, depois que o Felício caiu morto, ali, no meio da rua, se alembrou de dizê que a veia Ritinha não saía do cais e que devia sabê onde o tal tava escondido. Pobrezinha da veia! – Cacildo passou a mão sobre os olhos. – Foi outra pancadaria feia. A pobre velha tremia mais que vara verde e acho que só num contou porque num conseguia falar, só gemê, pois logo no início do frege um dos bandidos le deu uma paulada bem no gogó dela e a coitada ficou sem ar, os oios arregalados, os braços se mexeno como tivesse se afogano, abrino e fechano a boca como se fosse falá mas não saía uma palavra e o tal Gamelão esculhambô o companheiro porque deixô a mulher sem fala. Ela caiu e o desgraçado ainda chutô ela muntas vezes enquanto gritava pro povo contar onde tava o maldito senão ia fazê o maior estrago, as pessoas correram pra tudo quando era lado, se meteram em casa, aí o bandidão começou a derrubá tudo o que via pela frente, juntou com os outros demônios e tombaram a parede da cadeia que estava sendo construída, soltaram as canoas ancoradas, outras eles emborcaram, jogaram longe os cestos e redes, um inferno! Fizeram mal pras moças e o disgramado ainda mandô que os infelizes dos pais delas levassem todo o peixe para seu barco. Nem Belzebu faria pió. Quando se foram, despois de oiá com um sorriso maldoso a desgraceira que tinham feito, avisaram que só iriam pará depois de encontrá o tal fugido, que deve ser tão ruim quanto eles. Nunca vi coisa mais triste na minha vida.

Encolhido atrás da moita, Boanerges tremia. Gamelão era pior, mais cruel que Sem Braço, e se me pegar estou morto, pensou. E se encolheu mais, temia também que Cacildo o visse. Zira chorava. Sabia que mais dia menos dia os demônios chegariam em sua ilha e matariam Boanerges. Talvez assim parassem de praticar tanta maldade.

-Mecê sabe por onde anda o pirata fugido? O Felício deixou ele aqui?

-Sei não, respondeu sem muito pensar. Deve ter tomado o rumo do mundo. Não seria doido de ficar por aqui.

Estava gostando dele, não ia entregar ele de bandeja para o monstro. Para não incomodar o pai, Zira engoliu o choro, depois que o canoeiro se foi, mas não falou nem olhou mais para Boanerges o resto do dia. Ambos estavam chocados, e embora soubessem que Gamelão poderia voltar, preferiam acreditar que ficaria só em novas ameaças. Ela cuidava do pai, Boanerges se acocorou na porta do casebre, o olhar voltado para o rio. Por ali, chegariam seus carrascos. Ele se viu agarrado pelos antigos companheiros, submetido a todo tipo de humilhações e violências. Lágrimas lhe rolaram pelas faces. Assim que eles aportassem tinha de aparecer e antes de mais nada tirar de Zira a responsabilidade de tê-lo ocultado. Talvez assim a livrasse de sofrimentos. Podia ser, mas pelo que ouvira da atitude de Gamelão na vila, era mais fácil não ser.

Daí a pouco ela lhe trouxe um prato de comida e agachou-se a seu lado. Ela comia com a mão, amassando o peixe com farinha e um pouco de arroz. Comiam em silêncio, até que ele perguntou:

-Já pensou no que vamos fazer?

Ela suspirou:

-Eu vou continuar a cuidar de meu pai, mas mecê tem que sumir daqui. Vou lhe emprestar a canoa procê subir o rio até o terceiro povoado que encontrar no caminho, daqui a umas cinco milhas, por aí. Lá mora minha comadre Irene. Se eu soubesse escrever mandaria um bilhete pedindo que ela o acoite por uns tempos. Não vai ser preciso, ela sabe que eu num encaminharia ninguém pra ela que num fosse de confiança. Mecê pode ficar ali por algum tempo e depois seguir pra sua terra.

-E mecê?

-Eu? deu um sorriso triste, vou me entregar nas mãos de Deus. Não tem outro jeito. Vou proteger meu pai.

-Porque não bota seu pai na canoa junto com nós?

-Tadinho, ele não vai aguentar.

-Então não vou, fico com mecês. Tem alguma arma em casa?

-Tem a garrucha que foi do finado. Tanto tempo sem uso, acho que nem funciona mais. A espingarda de caça estava com ele no dia da sua morte, nem sei que fim levou.

A garrucha ainda servia. Ele a limpou e azeitou com todo o cuidado.

-Taí, temos como nos defender. Vou treinar a pontaria para acertar bem no peito de Gamelão quando ele surdir na praia, bazofiou, se ele morrer os outros vão desistir.

Nenhum dos dois acreditava que o plano desse certo. E Boa estava decidido a levar o velho com eles, de qualquer maneira. Não ia deixá-los à mercê da sanha do assassino do mar. Na maior parte do tempo Zira chorava, o que o deixava deprimido. Eu não posso deixá-la sozinha nessa situação, não é justo. Talvez por causa do desespero, à noite se amaram como nunca. Na manhã seguinte ele estava decidido.

-Vambora daqui e é pra já. Vamos forrar a canoa com uns galhos e deitar seu pai nela, bem confortável. Sou o responsável por essa situação e não vou deixar mecês pagarem pela sua generosidade. Vambora amanhã de madrugada. Não adianta dizer que não. Não vou largar mecês aqui. Agasalhe bem seu pai e me ajude a botar ele no fundo da canoa. Vou arrumar bastante folhas para o fundo ficar mais macio.

E assim foi. Ainda estava escuro quando saíram rio a fora, os dois remando para vencer a corrente, já que viajavam em sentido contrário à foz. O silêncio era esmagador, dava para ouvir o fungar dorido de Zira. O velho parecia não se dar conta do que estava acontecendo. Em silêncio navegaram até o início da tarde. O chapéu de palha que ela lhe arrumara quebrava um pouco a implacabilidade do sol. Ela pensara em dar uma parada para alimentar o pai, mas como ele estava quieto, deixou a canoa singrar as águas turvas. Passaram por canoas, botes e outras embarcações e ele se preocupava, pois se os bandidos, como imaginava, estivessem no seu rastro, certamente obteria deles a direção que tomaram. Um vento mais fresco soprou, ela agasalhou melhor o velho e daí a pouco orientou Boa a entrar num braço de rio que conhecia bem. Ali ficaram protegidos e ocultos pela galharia da mata que acompanhava a corrente de água. À medida que se embrenhavam no matagal alagado a tranquilidade dos viajantes aumentava. Seria muito difícil que os bandidos os encontrassem. Pena que não pudessem viver ali, nuvens de mosquitos avançavam sobre eles.

-Tem jacaré por aqui?

-Se tivesse o povo ribeirinho já teria caçado e comido. Pode ser que ainda se encontre alguns lá pras bandas do manguezal.

No ponto onde a claridade penetrava com dificuldade, Zira acendeu fogo na popa e preparou a papinha para seu pai e comida para eles.

-Mecê que conhece bem esses recantos me diga: onde vamos poder parar e arrumar um lugar pra morar? ele perguntou.

-Não podemos tomar o rumo de sua casa, onde mecê vivia antes de ser apanhado pelos piratas? Um pouco mais à frente tem uma vila bem grande onde a gente pode conseguir saber a direção correta da sua terra.

Ele baixou a cabeça, constrangido. Ela o olhava, ansiosa. Ele terminou de comer e lavou o prato no rio, sem saber o que dizer.

-Tem alguma coisa errada lá, ela insistiu, alguma coisa que não me contou?

Não tinha como fugir. Tinha de contar pra ela a besteira que fizera e que dera origem a todo o seu drama. Resolveu contar do assassinato de Doxinha. A semiobscuridade ajudava a ocultar o que se passava em sua alma. Só não podia, nem queria, falar do mapa na caveira de burro, um pensamento que não saía de sua cabeça. Um dia, quem sabe? E devagar falou do casamento, da suposta traição e do assassinato de Eudóxia. Ela suspirou.

-Não se pode voltar atrás, né? Então vamos ter de conviver com isso.

-Se pudesse, pra começar não teria casado com ela, uma mulher que não era do meu feitio. E tudo seria muito diferente, eu não teria ido parar naquela maldita embarcação. O pior é que começo a acreditar que todas as minhas desventuras são por causa da praga que Doxinha deve ter me lançado. Ela era muito vingativa.

– Se fosse assim, não teria me conhecido. Vamos deixar isso pra lá, não paga a pena ficar remoendo. Vou rezar umas ave-marias pela alma dela e seguir em frente. Mecê já pagou o que fez. Suspirou. Pagou caro. Há coisas que Deus manda para corrigir as bobagens que a gente faz na vida. Às vezes acho que exagera. Vamos dormir que amanhã cedinho voltamos pro rio. Ai, que tô com os braços doídos de tanto remar.

-Estamos indo contra a corrente, completou ele, tentando normalizar a voz alterada pela confissão. Puxa muito pela força da gente.

Foi uma noite tranquila apesar dos mosquitos e dos milhares de estranhos ruídos vindos dos matos. Acordaram antes que o sol nascesse e empurraram a canoa ao encontro da corrente principal do rio. Pálidas estrelas os observavam. Por sorte a lua continuava dormindo. Zira apagou a lamparina quando entraram no rio.

Nas próximas horas viram muitas canoas e botes seguindo na direção em que iam. O que estará acontecendo por aqui? ele se indagou. O céu clareava devagar mas já podia distinguir homens e mulheres de todas as idades nas embarcações. Zira se lembrou que era dia do santo padroeiro de vila próxima, quando acontecia uma famosa feira que atraía gente de todo lugar.

-Ótimo, disse Boa, teremos mais chances de passar despercebidos.

-Só chegaremos lá amanhã, estamos um pouco longe ainda, alertou ela.

-É, e eu acho difícil a cambada do Gamelão invadir uma feira como essa que mecê tá dizendo. Ele é esperto, não se arrisca à toa.

-Tomara que mecê tenha razão, e ela se persignou.

No braço de rio encontrado no meio da tarde ela sinalizou para entrarem. Era menor, dava para ser visto do rio o lugar onde pararam. Ele quebrou uns galhos e camuflou o barco. Os mosquitos não lhes davam trégua e estavam cheios de marcas de picadas.

-Vou fazer a comida enquanto tem claridade, assim não precisaremos acender a lamparina, disse ela, enchendo um caneco com a água do rio.

No final da tarde, um susto. Boa, que tinha se metido na água para pegar alguma coisa para comer, um peixe, um caranguejo ou pitus, viu se aproximar o batelão de Gamelão, que se sentava na proa como um gavião em busca de sua presa. Quatro ou cinco homens o cercavam, inclusive um que parecia ser o Zefinho. A seu lado, de cara fechada, Piolho de Cobra, abraçado a uma espingarda. Boa mergulhou até sentir que haviam passado. Depois retornou ao lugar onde Zira cuidava do pai.

-Mecê viu? perguntou ela assustada. Era os bandidões, não eram? Só não me viram porque não olharam presse lado. Querem mesmo pegar mecê. Será que gostavam tanto assim do chefão?

Teve ganas de aproveitar o momento para contar sobre o mapa, hesitou por temer a reação dela. Afinal em todo esse tempo todos pensavam que estava sendo perseguido por julgarem que havia matado o chefe da gangue. Não podia se esquecer que pessoas haviam morrido por sua causa e que se tivesse dito toda a verdade talvez não o tivessem acoitado. E ainda havia o mapa enterrado de maneira apressada e irresponsável, reconhecia, junto da obra da cadeia. Foi a pressa, a fome, o medo de ser apanhado com ele na mão que o levara a se precipitar. Estava se convencendo que nunca mais veria o mapa. Suspirou fundamente. Por ora não devo abrir a boca, decidiu.

Zira lamentara ter deixado o cachorro na ilha, mas agora achava ter sido uma decisão acertada. Ele era inquieto, latia por qualquer coisa, e acabaria atraindo a atenção sobre eles. Nada podia dar errado nessa fuga que também não devia durar muito, pois o velho pai doente não aguentaria. Ela estava muito preocupada porque ele não gemia mais e comia com cada vez mais dificuldade.

De madrugada retomaram a fuga. Bem mais adiante viram um grande ajuntamento de gente e animais. Nos barrancos estavam amarrados dezenas de canoas e botes. Tanta gente falava ao mesmo tempo e tão alto que dava para ouvir o falatório. Foguetes explodiam no céu. Zira explicou:

-É a festa do padroeiro da vila, Santo Emérito. Todo ano montam essa grande feira, vem gente de tudo quando é lugar fazer negócios. Munto boa e animada. De noite tem dança. Muito dinheiro corre entre as barracas. Não sei se ainda é o Gordo quem manda ali e se for, vamos ter problemas, ele é um unha de fome sem vergonha, cobra até pra dar bom dia. Devemos passar direto, sem parar, tem outros povoados pela frente.

Ainda um pouco distante da feira, pararam para ela dar comida ao pai. Foguetes estrondavam no ar, assustando pássaros e bichos, em algum lugar uma sanfona soava. Tudo era alegria. Ela se aproximou do pai, e então, o desgosto. Ela gritou, angustiada:

-Boa, me ajuda, papai tá morto!

Ele se aproximou, nervoso. Se for verdade, como faremos para enterrá-lo? preocupou-se. Zira chorava, o corpo sacudido por soluços. Ele fechou os olhos do defunto.

-Eu sabia que isso estava para acontecer, mas… Como vou fazer pra viver sozinha?

-Sozinha, Zira, e eu? ele perguntou, agastado.

-Mecê vai simbora, disse ela deprimida, a qualquer momento, eu sei. Precisa salvar sua vida. Eu entendo e eu só vou atrapalhar.

-Nada disso. Ele a abraçou. Pra onde eu for mecê vai junto. Tem cabimento deixar mecê sozinha. Eu não tenho ninguém, mecê não tem ninguém, juntamos nossas solidões.

Ela soluçava. Os foguetes continuavam a pipocar. Urubus revoluteavam pelo ar. Ele a abraçou pelos ombros. Pássaros voavam assustados.

-Precisamos enterrar seu pai. Vamos falar com o tal Gordo para ver se ele pode nos ajudar.

Ela só soluçava. Ele remou na direção da vila e embicou no fim da fila de embarcações. Algumas pessoas os olharam, curiosas. Ele desembarcou e amarrou a canoa. Um homem alourado, com roupas puídas, se aproximou. Boa perguntou:

-Mecê sabe dizer como posso falar com o Gordo?

O homem pareceu pouco disposto a ajudá-lo. Então ele explicou:

-É que o pai de minha mulher acabou de falecer e precisamos enterrá-lo. Quero pedir ajuda ao Gordo.

O homem espiou para a figura enrolada dentro da canoa. Não manifestou qualquer sentimento de solidariedade. Cuspiu.

-O Gordo vai ajudar sim, mas vai cobrar. Como ele diz, num é pai dos pobres.

-Nós num temos dinheiro, explicou Boa, enxugando o suor das mãos na calça.

-Saíram assim, na lona, para viajar? Quer que eu acredite nisso?

-Mas é verdade. Fomos expulsos da terra onde a gente vivia por uns bandidos e vamos em busca de um lugar onde se possa viver em paz.

-São malucos. Não sei se o Gordo vai acreditar nessa balela. Vai cobrar sim.

-Podemos falar com ele? Eu posso tentar, não posso?

O outro sacudiu os ombros.

-Vai, cada um passa a vergonha que quer. O Gordo é aquele lá sentado no meio do povo.

Boa olhou. A figura obesa sentava-se numa cadeira de espaldar alto, com braços torneados que mal continham seu corpanzil, cercado por pessoas que lhe falavam e às quais dava pouca atenção. Na sua frente uma mesa simples, com gaveta. Sobre ela um prato com comida que ele pegava aos poucos, com a mão, amassava e metia na bocarra. Bebia vinho direto da garrafa. Pegava o dinheiro que lhe era entregue pelos feirantes com a mão que amassava os bocados de comida e o jogava na gaveta. Boa fez um gesto de carinho para Zira e subiu o barranco. O homem foi atrás, pitando um cigarro de palha.

Custou a conseguir a atenção do Gordo. A balbúrdia era grande, todos falavam ao mesmo tempo, vendedores de um tudo gritavam, crianças berravam, mulheres se esganiçavam, cachorros ladravam, porcos grunhiam, fuçando a lama, galinhas enlouquecidas corriam enquanto ciscavam, foguetes continuavam a pipocar e os urubus a revoar. O cheiro forte de carbureto queimado enchia o ar. Olha o jogo do caipira, quanto mais joga mais tira, gritava um moreno de cabelo enrolado, perto de uma banca coberta com um oleado com números em quadrados, sacudindo um copo com dados. De uma capela de madeira, enfeitada com flores e bandeirolas penduradas em bambus, um pouco atrás da confusão, de onde saía uma musica de sanfona e pandeiro, vozes femininas, anasaladas, entoavam um monótono cântico religioso. As pessoas assediavam o chefão, pediam, choravam, se lamentavam, mas acabavam dando-lhe dinheiro, que sua mão redonda jogava na gaveta num movimento muito rápido. O coração de Boa estava apertado, achava que nada conseguiria. Quando chegou sua vez explicou o caso, contando que estava sendo perseguido por meliantes e que precisava da ajuda dele para enterrar o pai da mulher.

-Enterramos, disse o Gordo sem deixar de mastigar a ponta do charuto que não fumava, só mascava, mas não vai sair de graça.

Boa torcia as mãos. O suor escorria de seu rosto contraído de angústia e medo.

-Como expliquei, ele disse, fomos roubados, não temos um vintém.

O Gordo concedeu-lhe um olhar avaliador.

-E como chegaram aqui?

-De canoa.

-Tá resolvido, deixe a canoa, com tudo que tá dentro, inclusive o defunto, e eu cuido do resto.

-Olha lá, Gordo, interrompeu o louro, que acompanhara Boa desde o barranco, apontando para o rio, já viu isso?

O Gordo olhou na direção que ele apontava e viu um imenso batelão, carregado de homens armados, seguido por um escaler com outros homens.

-Gamelão, se espantou Boa, ao focar seu olhar na figura imponente que viajava em pé na proa de um grande batelão. Ao lado dele, com um olhar feroz, outro pirata de seu bando, o Piolho de cobra.

-Mecê conhece ele? indagou o Gordo.

-Conheço. É um monstro, um covarde. Foi ele que na semana passada arrasou a vila onde moravam uns amigos meus e matou quase todo mundo de lá. É capaz de fazer o mesmo aqui.

O povo do barranco apreciava o desfile de batelões sem saber dos riscos que Gamelão representava. O louro se lembrou de ter visto o camarada no dia anterior, num barco menor, passando várias vezes por ali, sem tirar os olhos da feira.

-Estava especulando, garantiu Boa, e tenho a impressão que voltou agora para roubar. Ele é um pirata, Gordo, e vai atacar a sua vila. E não vai demorar muito.

Boa esperava que assustando o chefão talvez pudesse se sair bem, cair nas suas graças.

-Silvino, gritou o Gordo para um homem que descansava sentado num caixote, não deixe aquele sujeito do batelão desembarcar. Avise nossos soldados para reagir se eles fizerem gestos suspeitos.

Era tarde, Gamelão, acompanhado de sua turma de malfeitores, subia o barranco de arma em punho e olhar assassino. Boanerges sentiu que não devia ficar por ali e aproveitou a distração do Gordo para sair de fininho em busca de sua canoa. Ainda ouviu algumas ordens gritadas pelo Gordo e um alarido crescente. Olhou para trás e viu que Gamelão, com a mão na cintura e ar de dono, encarava o Gordo, que tentava sair da cadeira que o prendia. Não dava para ouvir o que diziam, por causa do alarido à sua volta.

-Vambora depressa, disse ele ao chegar junto à canoa, vamos aproveitar a confusão porque a coisa aqui vai ficar feia.

– E papai? ela indagou de olhos arregalados.

-No caminho eu explico, me dê o remo e pegue o outro.

A forte corrente do rio, agora que iam na direção da foz, os favorecia. Em pouco tempo estavam a uma distância segura. Olhando para trás viam o povo engalfinhado, gente correndo para as canoas ou para o mato, mulheres chorando, crianças gritando, brilho de aço de espadas coruscando, pedaços de pau e pedras voando e tiros, muitos tiros soando. Vai ser um massacre, estimou Boa, pobre do pessoal que veio para a festa e a feira. Zira olhava sem entender, aguardando que Boa explicasse.

-Gamelão está atacando o povoado, explicou Boanerges. Vai morrer muita gente. Vamos sair daqui, senão vamos pegar as sobras.

-Vamos procurar a Irene, propôs ela, num fio de voz.

Irene morava no povoado de Santa Gláucia, de tamanho médio, um pouco à frente, que vivia da produção de queijo e farinha de mesa. Ela foi compreensiva e apreensiva.

-Ih, coitado do povo da Feira. Bem que eu não quis ir este ano, parece que alguma coisa tava me avisando. Essa feira traz dinheiro, mas traz também munta desgraça e confusão. Meu Deus do céu, quando teremos paz?

O pai de Zira foi enterrado no pequeno cemitério. Ela não conseguia parar de chorar. Irene lhe preparou um chá. Acalmou-se um pouco.

-Vamos lá, amiga, são coisas da vida, a gente tem de aceitar, Deus sabe o que faz. Agora mecês tem de pensar como vai ser daqui pra frente. Se eu pudesse dava uma ajuda, mas os negócios não vão bem.

-Se nos abrigar pelo menos por essa noite, explicou ele, será uma ajuda.

-Bom, se não se incomodarem em dormir em esteiras… comida não é problema. Dá-se um jeito.

Zira ficou com ela e Boanerges saiu. O troar de tiros continuava amortecido pela distância e pela barragem da folhagem entre as vilas. Um cachorro malhado sentou-se a seu lado. Fez-lhe um desajeitado carinho. Não vira ainda o marido de Irene e podia ser o homem que acabara de amarrar a canoa e subia em sua direção. Ficou sentado a olhá-lo, subir o barranco.

-Tá de visita? o homem perguntou.

Boanerges explicou a situação em poucas palavras. O homem acendeu um cigarro depois de lhe oferecer.

-Mecê tava na feira? Viu o furdunço que tá lá?

-Assim que começou nós saímos.

-Pois é, uma loucura. Como é mesmo sua graça? Boanerges? Aquilo lá virou um inferno. Eu tava mais pra frente e nem me dei o trabaio de ver o que era. Munto tiro, muntos gritos, parecia uma guerra. Compadre Tadeu, que tem uma barraca lá, tava desarvorado. Encontrei ele na canoa, no meio do rio. Chegava a chorar, o pobre. Pelo que me disse mataram o Gordo e mataram quem matou o Gordo. Uma doideira.

-E quem matou o Gordo? perguntou Boa, a garganta apertada.

-Quem sabe? No meio da confusão, até criança levou tiro, veja o senhor. Mas parece que veio um povo de fora, uns bandidos, a fim de roubar. O Gordo não ia deixar e aí o pau rolou. Uma verdadeira tragédia.

Tonico, esse era o nome do marido de Irene, suspirou, pediu licença e entrou em casa. Boa foi atrás. Queria ouvir mais, queria ter certeza da morte de Gamelão. Especulava: será que Piolho de cobra vai tomar seu lugar? Os piratas não gostavam muito dele e ele pode também ter morrido na refrega. Precisava saber com certeza ou não teria paz. Tonico pouco acrescentou.

-E Amira? indagou Irene.

Amira morava no povoado e tinha uma barraca na feira, como a maioria do povo dali. Por isso, concluiu Boa, o lugar estava tão vazio e quieto. Zira ainda não pusera a cabeça no lugar e ouvia o relato como se viesse de outro mundo, como se nada tivesse a ver com ela.

-E o resto do pessoal? perguntou Irene.

-Sei não, tava perto do outro lado do rio e não quis botar a cara na baderna, me misturar. Já chegam os meus problemas. Mas vi seu Mirinho ajeitando a canoa, mas não vi dona Selena nem as crianças. Com aquela confusão…

-Precisamos saber, meu véio, não vamos desamparar nosso povo.

Ninguém ousou ir verificar. A gente do povoado voltou aos poucos, alguns feridos, outros ainda nervosos. Cerca de cinquenta pessoas que traziam seus trastes e os produtos não vendidos. Boa se aproximava de cada um que chegava em busca de informações. Como não era conhecido, não os abordava diretamente, preferia escutar o que cada um contava. O Gordo estava mesmo morto, fora um dos primeiros a ser derrubado pelas garruchas dos piratas. Quanto ao chefe do bando as notícias divergiam. Uns diziam que tinha sido morto, outros que comandara o massacre sem ser ferido. Finalmente alguém contou que tanto ele quanto o magrelo que o acompanhava tinham sido mortos a facão. Outro ainda jurou que o vira ser transpassado por uma lança. Boanerges não acreditou em nada. Angustiado, sem poder dividir suas apreensões com ninguém, pois Zira custava a se recuperar, vagava pelas redondezas, sempre em busca de notícias. Sem ter o que fazer, caminhava pela margem do riacho até o rio e sentava-se na areia, olhos fitos na distância. Se acaso se lembrava do tesouro enterrado, suspirava em desespero, achava que nunca o desenterraria. Tanto sacrifício pra que? se perguntava, tantas mortes, tanta desgraça para nada, ou melhor, para mais sofrimento, só que de forma diferente.

Às vezes, cansado de olhar o vaivém das canoas, ou as traquinadas dos bandos de lontras, estirava-se na areia e tirava um cochilo. Acordava com a boca amarga, o corpo dolorido. Certa tarde acordou com alguma coisa cutucando suas costelas. Abriu os olhos e viu, assustado, que estava cercado por um grupo de homens mal encarados; um deles o espetava com uma espada. Sentou-se ligeiro, tremendo de medo. Estava sendo sequestrado por piratas. Outra vez? perguntou-se, desolado. Olhou-os, não conhecia nenhum. Eles também não pareciam reconhecê-lo, logo não eram da quadrilha de Gamelão. Então acreditou que Gamelão estava fazendo companhia ao diabo no inferno, já que permitia a presença de outros bandidos em seu território. Quem seriam aqueles homens?

-De pé, ordenou o moreno alto, com cavanhaque maltratado. Como é seu nome?

Pensou rapidamente e disse: Miguel. Se o tivessem reconhecido saberiam que estava mentindo. Mas aquele não era o seu bando, era outro que estava caçando homens para completar a tripulação. Não ia resistir. Seja o que Deus quiser, pensou.

-Capucho, amarre as mãos desse safado, voltou a ordenar o moreno.

Submisso, Boa estendeu os braços à frente, cabeça baixa. Um tipo indiático, terrivelmente catingoso, atou-lhe os pulsos.

-Mecê ganhou um presente, disse o moreno com ironia, vai fazê argumas viajas.

Ele nada disse. Disfarçadamente olhava os rostos que o cercavam. Nenhum conhecido, era outro o bando que o sequestrava.

-Mecê tá munto calmo, observou o de barbicha, muito esquisito isso.

-Tô ficando acostumado, respondeu, conformado. Num é a primeira vez que isso me acontece. E já vi outros serem capturados, fui do bando de Sem Braço.

-Conheço não, rosnou o outro, mas deve de sê um bosta, já que deixô mecê escapá. Com a gente é diferente. Vamos lá, vamos andando.

Boa se lembrou que da vez anterior tinha ido procurar os piratas por conta própria, para fugir da justiça, mas não quis contar sua história. Junto à margem, um batelão menor que o de Gamelão os esperava. Um bandido com uma cicatriz atravessando a cara tomava conta.

-Entra aí, gritou o barbicha, mas antes me conte, o que aconteceu com o tal Sem braço.

-Deve de tá no inferno, respondeu Boa. Morreu de morte morrida.

-Ah, suspirou o outro. Morte de idiota. Eu vou morrer lutano, bazofiou. Boa saltou pra dentro do barco. Com esse são quantos? indagou o barbicha ao homem que estava sempre a seu lado.

-Uns dez, respondeu, o chefe vai gostar.

Boa olhou o fundo do barco e viu os homens amontoados, mãos amarradas, caras assustadas. Um deles tinha um pano enfiado na boca e chorava sem ruído. Boa desceu com cuidado, com as mãos amarradas ficava sem equilíbrio. Um rapaz forte, de olhar desassombrado abriu um espaço para ele a seu lado e o encarou com simpatia. Pelo jeito temos um chefe. A tarde se esvaía e o lugar ia mergulhando na penumbra. O batelão partiu em seguida.

-Vamos pra onde agora? perguntou um dos que remavam.

-Quer saber pra que? perguntou um outro, toca a remar e deixa de conversa.

No fundo do batelão os homens se mexiam, gemiam, pigarreavam, mas ninguém tinha coragem de fazer qualquer coisa. Os bandidos transitavam pelo barco pisando neles. Apesar da ansiedade Boa dormiu. Pela madrugada, o rapaz que ficava a seu lado, gemeu e se virou de frente para ele. Os marinheiros dormiam a sono solto e alguns roncavam. No albor da madrugada Boa percebeu que o rapaz lhe sorria, amistosamente. Daí a pouco perguntou em tom baixo:

-Tu és bem calmo, né?

-Assim, assim, cansei de brigar com a vida.

-Eu não. Tô só esperando uma oportunidade pra fugir. Num tô disposto a ser escravo desses sujeitos. E tu?

Boa se remexeu buscando um mínimo de conforto.

-Escravo? Se houver oportunidade…fujo.

-Oportunidade a gente cria. Por exemplo podemos soltar as mãos.

-Como? Bem que eu queria, já tou ficando com elas dormentes.

Ele abaixou mais a voz e explicou num sussurro:

-Vira de costas pra mim e eu viro de costas para ti. Vamos ver se nossas mãos ficam num mesmo patamar. Devagar tu vais tentando desamarrar as minhas cordas e eu vou desatando as tuas. É possível. Vamos tentar?

Boa nada tinha a perder e de imediato buscou postar-se na posição sugerida. Com a ponta dos dedos se pôs a mexer na corda que amarrava o outro que, por sua vez, fazia o mesmo na sua. A claridade da madrugada aumentava e Boa sentiu que precisava ser rápido. De boca aberta, os piratas continuavam ressonando. Alguns acordavam com o barulho dos próprios roncos, olhavam esgazeados para o céu cinzento e voltavam a dormir. Boa sentiu que suas cordas afrouxavam, o rapaz trabalhava com vontade, assim como ele. O desejo de liberdade lhes dava forças. Em pouco suas mãos estavam livres, as do outro também. O rapaz aproximou a boca de seu ouvido:

-Vamos soltar os outros.

Nesse momento o barulho estrondoso de um tiro de canhão soou no espaço. O bandido que estava na proa, orientando os remadores, que de vez em quando davam uma parada, precisando ser estimulados com gritos ferozes, levantou mais a cabeça e perguntou, um tanto assustado:

-O que é aquilo? Daquele barco tão atirando em nós?

Um dos homens levantou o tórax, curioso, enquanto Boa e o rapaz botavam as mãos pra trás como se ainda estivessem manietados, olhos acesos grudados nos seus captores. No lusco-fusco do amanhecer era difícil que vissem o que haviam feito. O piloto gritou, nervoso, apontando o nevoeiro:

-O que esse cretino tá tentando fazer? Tá maluco?

Boa ergueu-se um pouco mais e distinguiu em meio à cerração, a silhueta de um outro batelão, bem maior, vindo célere na direção do barco onde estava. Será Gamelão? Será quem? Seu coração se acelerou. Cochichou a descoberta no ouvido do rapaz.

-Isso pode nos ajudar, vamos aproveitar a confusão e fugir, sugeriu.

-Ele quer nos abalroá, alertou outro bandido que havia acordado com os gritos e se juntava aos demais na observação. Cuidado, se segurem!

-Ele vai batê, gritou um outro, em pânico. Vamos dar meia volta, rápido!

O batelão vinha reto na direção deles, seus remos batiam com vigor na água. Boa disse ao amigo para saltar no rio. O batelão disparou outro tiro de canhão, que caiu água. A essa altura todos estavam acordados e os outros prisioneiros pediam socorro aos berros. O rapaz olhou para Boa, como se pedisse ajuda. O barco deles estava atravessado no rio, era alvo fácil para a turma do batelão. A manobra precisava ser completada para que pudesse escapar. Estava muito difícil. O canhão do batelão apontava para o meio da embarcação.

–Não dá tempo para ajudar, disse Boa, se alçando nas bordas e se jogando no rio. Não seja besta, pule.

Logo a seguir um petardo acertou a proa do batelão e ele se sacudiu como um caixote velho. As tábuas rangeram. O bandido da proa foi jogado na água pelo impacto da bala no casco. Os gritos no fundo do barco aumentaram.

-Socorro, não queremos morrer! gritavam. Soltem nossas mãos, pelo amor de Deus.

O rapaz não teve tempo de saltar, demorou na esperança de ajudar os presos, e um segundo tiro acertou o batelão, que adernou. Boa não olhou pra trás, nadou furiosamente para o que, no meio da neblina, lhe parecia terra firme. Alguns dos passageiros do batelão faziam o mesmo. No alvorecer, Boa viu que balas vindo do agressor acertavam os que fugiam, que afundavam em seguida. Favorecido por ter saltado antes, Boa conseguiu se meter no balsedo, deixando apenas a cabeça de fora entre as plantas. Se continuasse nadando certamente seria visto e visado pelos atiradores. A cerração se esgarçava e tudo ficava mais visível. Com o coração apertado viu a cabeça de seu recente amigo ser acertada por um tiro. Fechou os olhos e rezou. O batelão ainda circulou por ali caçando sobreviventes. Acertou um que subia o barranco. Boa entrou mais na macega e ficou com apenas a parte superior da cabeça de fora, semioculta pelas largas folhas do aguapê. O batelão onde estivera afundou em meio a borbulhas. Não ouviu mais gritos. Se alguém mais escapou, estava, como ele, metido no meio das plantas aquáticas das margens. O outro batelão deu mais algumas voltas e se afastou. Quem teria sido o seu salvador, o rapaz que sumiu na água? se perguntou. Nunca saberia. E por que os piratas teriam atacado o batelão? Briga de quadrilhas, seria? Havia muita rivalidade entre os malfeitores, tinha ouvido seus captores falarem sobre isso, avisando que deviam se manter atentos, as águas estavam coalhadas de barcos com assassinos.

Na manhã cada vez mais clara o rio se mostrava limpo de embarcações. Apenas algumas tábuas boiavam. Todos devem ter se escondido, imaginou Boanerges. Quantos teriam escapado? Agarrando-se às plantas aquáticas alcançou a solidez da margem. Suas mãos estavam engelhadas, endurecidas, os dedos afundavam na lama do barranco. Teve medo de ser atacado por um dos jacarés que sempre dormitavam por perto. Suas formas se destacavam entre as folhas de aguapés. Tremia de frio e medo. Custou a se alçar. A roupa molhada grudava em seu corpo. Caminhou um pouco pela areia úmida para se aquecer. Isso foi coisa da praga de Doxinha, desconfiou. Pra me atingir ela prejudicou um monte de gente. Não vou ficar aqui na beira, senão posso ser sequestrado outra vez ou ser atacado por algum jacaré. Entrou no mato, procurou uma clareira, tirou toda a roupa e pendurou-a nos galhos de uma árvore baixa. Parece que na minha vida tudo se repete, pensou. Minha praga é viver nu e com fome. Andou por perto, buscando o que comer, a fome voltara a atazaná-lo. Achou poucas frutinhas, ali era mata, nada de árvores frutíferas. Água não faltava, o rio estava a poucos passos, mas comida… Desanimado, procurou uma clareira e se deitou. Cobriu-se com alguns galhos. Dizem que o sono mata a fome, filosofou. Antes olhou bem em volta, não fosse ter por ali formiga quente com suas dolorosas picadas ou aranhas venenosas ou cobras peçonhentas. O cansaço o ajudou a ferrar no sono.

Dormiu, acordou descansado mas com fome. O sol já deixara o meio do céu e descambava para o lado. Suas roupas estavam quase secas. Vestiu-as e decidiu caminhar a esmo até encontrar um lugar com casas e pessoas. Deve morar alguém por aqui, claro. Tudo o que queria era uma sorda bem quente, um naco de pão, quem sabe um copo de vinho ou um copinho de pinga e uma cama macia. Nada de mulher por enquanto. Havia praticamente esquecido Zira, a apagara de sua memória, como apagara a imagem de Doxinha, que só voltava quando alguma coisa dava errado. Sua memória afetiva se esvaziava em horas. De qualquer forma, pensou, não teria muito futuro com Zira, ela ia custar a se esquecer do velho pai e ele estava muito irritado e desgostoso com ela quando fora aprisionado pelos sujeitos. Mulher por enquanto só em pensamento, se disse. E se pôs a andar pelas trilhas que encontrava. Devem dar em algum lugar, imaginou, foram feitas por gente e não por bichos. A folhagem se cruzava no alto, escurecendo as trilhas.

 

ILDINHA

Andou léguas na sua opinião e na de suas pernas cansadas. Enredava-se nos cipós, tropeçava nas raízes, arranhava-se nos espinhos, prendia-se nos galhos esparramados. Sentou-se diversas vezes em troncos quebrados e numa delas quase foi picado por um escorpião. Levantou-se num pulo, esqueceu o cansaço e continuou a caminhada. Escurecia quando ouviu, ao longe, mugidos e latidos. Alguém recolhe o gado, murmurou, um grande sorriso a lhe repuxar a cara. Estou perto de uma casa, graças ao bom Deus! O céu cor de rosa parecia estar de acordo com suas expectativas. Mas tenho que ter muito cuidado, decidiu. Muitos facínoras rondam estas terras e os fazendeiros devem ter seus capangas armados e cachorros ferozes.

Cerca de meia hora depois esbarrou numa cerca. Parou e durante o tempo necessário para o cor de rosa do céu se transformar em vermelho sangue observou o que estava depois da cerca. Uma boa casa de tijolos e telhas, um carro de bois, uma outra construção que devia ser o paiol, algumas aves a caminho dos poleiros, dois ou três cães perambulando, um cavalo baio e algumas reses arrancando o ralo capim. Escurecia. Ele calculou que até chegar na casa, dando a volta seguindo a cerca, a noite teria caído e talvez fosse perigoso e contraproducente chegar lá numa hora dessas, capaz de ser confundido com um assaltante. É melhor esperar amanhecer, decidiu. Vou arrumar um lugar para passar a noite perto da cerca. A fome pode esperar, já esperou outras vezes. Caminhou ao longo da cerca até um capão de pés de canas, um mirrado canavial, onde se destacavam as folhas acetinadas de uma bananeira. Talvez por ficar no fundo da propriedade e cercada de plantas, um cacho de bananas escapara do corte das frutas de vez, como era hábito na região. Olhou o cacho, que ostentava umas frutas de vez que podiam ser comidas. Este problema da fome está resolvido, se disse, ao arrancar uma banana meio esverdeada. De fome não morro.

Acordou com o sol batendo duramente em seus olhos. Gostaria de dormir um pouco mais, recuperar o cansaço de tantos dias de correrias e desacertos. Esfregou os olhos, bocejou, se espreguiçou e sentou-se. Pegou mais uma banana e enquanto a devorava olhou mais uma vez a casa que se destacava a uma boa distância. Ontem à noite parecia mais perto, achou. Precisava agora imaginar a maneira de abordar o pessoal da casa, fazer-se simpático, ser prestimoso e contar uma história convincente sobre sua presença ali. Sua mente se especializara em inventar histórias. Além de um velho, viu uma mulher relativamente nova e dois homens que pareciam peões. Um deles tocava as vacas para o curral e o outro cuidava dos bezerros. Cães, porcos e aves estavam no terreiro à espera de comida. Na parede, gaiolas com passarinhos. Não viu crianças. Estão dormindo, na certa. Queria ver o possível pai dessas crianças, o velho devia ser o avô. Vou lá, decidiu. Tornou a se espreguiçar e sem tirar os olhos da casa caminhou rente à cerca em busca de um portão ou cancela.

No meio do caminho foi notado pelos cachorros que vieram correndo e ladrando a seu encontro com intenções pouco amigáveis. Prevendo esse e outros encontros desagradáveis, havia cortado um galho de pitangueira e improvisado uma gorumbumba. Quando os cães estavam perto ergueu a gorumbumba e os ameaçou. Da porta da casa a mulher e um dos peões observavam o encontro. Nada fizeram para impedir o ataque dos animais. Boa fez a vara zunir e um dos cães arrepiou caminho. O outro continuou avançando. Até que da casa saiu uma voz forte, de homem, chamando o animal, que parou de imediato. Era um velho. Esse tem autoridade, concluiu. Avançou mais, porrete abaixado, olhos fixos no idoso que vinha em sentido contrário, sério mas sem demonstrar raiva ou medo.

O velho chamava-se Mangusto e não era tão velho assim, devia estar perto dos 60 anos. Porte ereto, olhos destemidos, pernas firmes, voz de patrão. Boa o cumprimentou tirando o chapéu de palha, que encontrara boiando no balsedo onde se refugiara.

-Que mal lhe pergunte, disse o velho, irônico, está fazendo alguma peregrinação?

E riu com o canto da boca.

-Devia, respondeu, pois ando azarado. A última desgraça foi há duas noites, quando o barco em que eu estava sequestrado foi atingido por um canhonhaço de um outro que veio em sentido contrário. Acho que só sobrei eu.

-Então não é azarado, muito pelo contrário. Chegou aqui quando?

-Ontem à noite, vim andando da beira do rio, depois de ter passado tanto tempo escondido no balsedo fiquei murcho que nem maracujá de gaveta. Era tarde e achei melhor dormir ao relento e me apresentar agora de manhãzinha. Meu nome é Miguel, seu criado, e sou de muito longe daqui, aonde cheguei tombando.

Um dos empregados se acercara e ouvia a conversa. A mulher continuava encostada no umbral da porta, a observá-lo, muito séria.

-Como foi isso desse estrafego? O barco afundou? Como nada ouvi a respeito?

O empregado se intrometeu. Era um homem bem novo, cabelos pretos escorrendo pelos ombros por debaixo do chapéu de palha:

-Foi sim, patrão, o povo da vila tava contano. Negócio feio. Tiraram mais de 20 defuntos da água do rio. Tudo baleado.

Boa olhou o empregado com expressão agradecida.

-Foi feio mesmo, confirmou, eu vi a morte bem de perto.

-E como mecê escapou? E o que fazia no barco?

-Vou contar tudo, tintim por tintim. Só peço um pouco de paciência e alguma coisa pra comer, pois minha barriga está colando nas costas.

Com muito cuidado, selecionando os trechos de sua história que não causariam má impressão ao fazendeiro, e acrescentando pitadinhas de emoção, Boa narrou sua aventura a partir da captura. Sentaram-se na cozinha, perto do fogão de lenha. A mulher trouxe leite, broa de milho e café ralo. Ele comeu como um esganado. O empregado debruçou-se na janela, não queria perder nenhum lance e a mulher se encostou na parede com uma perna dobrada pra trás.

-Afinal, qual foi a causa da guerra?

-E eu sei? Tava jogado no fundo do barco, tentando desamarrar as mãos, prestei pouca atenção ao que os bandidos conversavam. Eu só queria fugir.

-Logo mais vou saber essa história direitinho na vila.

-Que lugar é esse aqui? É longe da Feira de Santo Emérito?

-Não sei onde fica esse lugar aí, deve ser bem longe, disse o velho. Aqui é Brejo das Saracuras, bom lugar para se viver. E mecê, vai fazer o que agora?

-E eu sei? Só sei pescar, limpar e salgar peixe, consertar rede. Mas aprendo fácil. Mecê tem alguma coisa que eu possa fazer por aqui?

-Pode ser, vou pensar. Enquanto isso, depois de encher o bandulho, pra não ficar atoa dá uma mãozinha ao Adelino, que tá no curral.

Boanerges, agora Miguel, gostara do homem, do jeito dele falar, de não demonstrar desconfiança. Se tiver um jeito, vou ficar por aqui. Mas o filho ou o genro dele vai me aceitar? Não vai ter ciúme besta? Adelino era o empregado mais velho, que conheceu em seguida. O rapazola, era chamado de Caroço.

Mangusto não tinha filho nem genro, era o marido da mulher de ancas largas e cabelos escorridos, uns 30 ou mais anos mais nova que ele. Chamava-se Ildésia e como Boa veio a saber, fora vendida ao velho pelo próprio pai, anos atrás, quando ainda era mocinha. Ela o tratava por senhor e não o olhava de frente. Fazia de tudo na casa como uma empregada. E dormia com o dono. Nem por isso se podia dizer que era uma mulher fraca, dominada. Séria, caladona, de poucos sorrisos, só se manifestava quando solicitada. Mas suas decisões eram corretas, pensadas. Um vez ela lhe contou:

-O pai teve razão em me vender, eu era a única que suportava sair de casa. Ele mal ganhava pra sustentar a família cortando lenha. Imagina viver de cortar lenha no meio desse matagal, onde qualquer um sai pelo mato e volta com um molho de lenha nas costas! Depois que vim morar com o velho nunca mais senti fome, nunca mais vesti trapos. Nunca usei roupas finas, mas sempre de qualidade. E ele ainda me ensinou a ler umas palavras e a assinar meu nome. Quer melhor que isso? E de vez quando meu pai vem pra essas bandas e sempre leva um de comer pra toda família. O velho sempre me tratou muito bem, nunca me bateu, como meu pai fazia quando estava invocado ou bebido.

Ildésia não era uma mulher bonita, também não podia ser rotulada de feia. Desde que soube da sua situação conjugal,   passara a vê-la com outros olhos. Ela, porém, mantinha-se reservada, só falava quando solicitada, sempre atenta às precisões dos outros, em especial do marido-patrão. Boa cada dia gostava mais dela e pretendia conquistá-la, mesmo com risco de despertar a ira do velho. Mas não acreditava no sucesso.

O seu primeiro dia na fazenda foi usado para ajudar o empregado faz tudo em suas múltiplas tarefas. O outro era vaqueiro e só cuidava do gado. O velho Mangusto era um sujeito forte e um trabalhador incansável e mão de onça que empregava pouca gente, por casa e comida. Fora ao arraial de Lama Benta, sede do município a que o Brejo pertencia, saber das novidades sobre o tiroteio que jogara Boa nas suas terras. Ficou sabendo que um homem que escapara ferido e fazia parte do bando, contou que foram atacados por um grupo de bandidos que vivia a procurá-los por uma questão antiga e para ver se tomava os homens que haviam arrumado para sua própria guarnição. Era assim que agiam, mas como tinha havido resistência no ataque anterior, atacaram. Todos os ocupantes do seu barco tinham sido mortos, assim como os homens que haviam sido sequestrados e que iriam completar a guarnição do chefão, um tal de Romualdo Cerda, assaltante dos mares. O meliante não dera trabalho para contar toda a história, estava muito ferido. Só não contara mais porque morrera por conta dos ferimentos. Segundo ele, o povo da vila não tinha com que se preocupar, pois Romualdo estava parado no mar, esperando por eles, e combinara que se não voltassem em tantos dias, tomaria seu rumo.

-Vida de pirata é muito dura, arquejara o bandido, ninguém tem pena da gente, nem o próprio chefe.

Boanerges respirou aliviado com as notícias. Seus últimos liames com a vida anterior estavam rompidos, apenas restara a caveira de burro enterrada que um dia, se prometia, iria resgatar. Agora ia ser um homem de bem. Queria ser como Mangusto. De uma certa maneira, a praga de Doxinha revertia em nova oportunidade para ele.

Mangusto trabalhava demais e guardava o dinheiro num baú velho desbeiçado e ampliava suas atividades comprando mais terras, mais carros de bois, mais cavalos e reses, e também aumentando as lavouras de cana, de mandioca, de milho. Como dizia um velho ditado, acordava com os galos e dormia com as galinhas. Não tinha amigas espalhadas por suas terras nem se sabia de casos com mulheres, um caso raro. Não tinha filhos. Mantinha apenas dois empregados permanentes, quando precisava de outros pagava por tarefa executada. Seus amigos eram os cachorros, três.

Miguel aceitou sem pestanejar trabalhar na fazenda como uma espécie de faz-tudo.

-Aprendo rápido, disse a Mangusto, e sou forte, sadio, pau pra toda obra.

Na falta de cômodo apropriado aceitou dormir numa rede pendurada no paiol. Segundo o dono ali chovia pouco. O inconveniente eram os ratos e baratas que se atropelavam mal a noite caía e as cobras que vinham atraídas pelos ratos.

A vida finalmente dera uma trégua a Boa/Miguel. Trabalhava satisfeito o dia todo, chovesse ou fizesse sol. Tinha onde dormir tranquilo, comida boa e farta e roupa lavada. A hora do almoço era compartilhada pelo dono, nunca por sua mulher. Ela fazia seu prato e sentava-se num banquinho junto ao fogão, sem arriscar um olhar para os homens, pois os outros empregados almoçavam com eles. Miguel não conseguia deixar de olhar para ela sempre que percebia que o homem estava distraído com outra coisa. Estava sem mulher desde que deixara Zira e sentia muita falta. Era jovem e sadio e se excitava com facilidade. Muitas vezes pensara em pegar uma cabrita, uma leitoa ou outro animal da fazenda mas temia ser surpreendido e perder o emprego. O rapaz a quem chamavam de Caroço,  por causa de um quisto de tamanho razoável no pescoço fino, com quem fizera amizade, acompanhava seu olhar e um dia observou:

-Boa mulé, né? Será que o veio ainda fode?

Miguel o olhou de cenho franzido:

-Não sei nem quero saber.

-Deixa disso, Migué, eu vejo como mecê come ela com os óios quando o patrão tá distraído. Pensa que sou cego?

Miguel abaixou a cabeça. Sentia a cara vermelha como se estivesse pegando fogo.

-Num se encabule, não, companheiro. Eu tombém olho praquelas pernas grossas e fico me preguntando se o veio sabe aproveitar. Sou seu amigo, tô falano com essa intimidade por que sei que mecê num é home de fazê futrica.

Miguel nada respondeu, pegou o laço pendurado no esteio e foi para o curral. Caroço foi no rastro.

-Ei, companheiro, mecê se aborreceu comigo? Então me adiscurpe, não falei por mal.

Sem olhá-lo Miguel respondeu.

-Tá bom, vamos botar uma pedra em cima disso. É que não gosto de intimidades.

-Tá certo, vou tomá cuidado dagora em diante. Toque aqui pra selá nossa amizade.

E estendeu-lhe a mão que o outro tocou sem olhar.

Miguel tinha suas dúvidas sobre a vida conjugal do patrão, mas evitava pensar no assunto. Sua vida estava tão boa, que temia qualquer coisa que pudesse perturbá-la.

-Domingo que vem tem a festa da padroeira, disse Mangusto a Miguel. Gostaria que mecê fosse com a gente pra conhecer umas pessoas importantes daqui e os lugares onde faço compras, onde corto cabelo e faço barba, quem sabe um dia vou precisar que faça um serviço na vila e o povo daqui, muito desconfiado, precisa conhecer mecê.

O local das festividades, uma ampla praça, quase vazia, no centro da Vila da Lama Santa, ficava a três horas a cavalo. A mulher seguiu numa carroça, bem arrumada, mas como sempre sem sorrir, sentada na boleia ao lado do velho. Os empregados a cavalo ladeavam a carroça, uma forma de proteger os donos.

-A vila tem esse nome, contou Mangusto, por causa de um fato deveras milagroso. Certa feita um homem que sofria de uma doença brava, com a pele encaroçada que se abria em feridas que soltavam pus e fediam e nunca se fechavam, fosse qual fosse o remédio que usasse, resolveu se meter no meio desse mangue e aí ficar até morrer. Ninguém queria se aproximar dele, faziam cara de entojo, de repugnados com suas feridas, corriam dele, até a família do coitado se afastou. Muito bêbado, trocando as pernas, chegou num lugar do mangue onde havia um claro, cheio de passarinho cantando nas árvores, o homem ficou encantado e pensou que ali era um bom lugar para morrer. Em volta era tudo mangue, lama castanha por onde passeavam caranguejos e espera-marés. Sentou num montinho de terra decidido a morrer ali. Nisso, do meio das árvores surdiu uma mulher muito bonita, como ele nunca tinha visto igual. Vestia uma camisola branca, branca de doer os olhos, e sorria com doçura. Ficou parado, olhando, sem sentir medo nem nada. Entonces ela o chamou com as mãos e com um sorriso cada vez mais doce. Num impulso irresistível ele se levantou e foi até ela, atravessou a lama que borbulhava e chegava na sua cintura. Sentiu-se tão bem, tão feliz. Sempre fora um homem sério, bom, que ajudava os outros, até que a tal doença o pegou, não sabia como. Ele andava e ela se afastava, até que ele ficou com lama até o pescoço. Aí veio um pássaro muito grande, colorido, que pousou na cabeça dele. O bicho era tão grande e pesado que ele afundou, nem os cabelos ficaram de fora. Logo que o passarão avoou, para não sufocar ele levantou a cabeça e olhou para a mulher. Ela sorria como sempre e com gestos mandou que ele se afastasse, que voltasse ao lugar onde estivera sentado. Ele foi e como a roupa estava toda enlameada, passou a mão pelo corpo e ficou maravilhado ao ver que não tinha nem marca das perebas fedorentas. Estava livre da doença maldita. Quando tornou a olhar a mulher havia desaparecido. Só podia ser uma santa, ele pensou, e resolveu mostrar ao povo o que havia se sucedido. Foi uma loucura, tudo quanto era doente das vilas próximas vinha pra cá, entrava na lama e ficava bom, até de bicho de pé inflamado.

-Que história, hein, murmurou Miguel, assombrado. Foi verdade mesmo?

-Dizem que sim. Aconteceu faz muito tempo, eu nem era nascido, mas quem viveu naquele tempo jurava que foi desse jeito. Hoje já não é tanto assim, mas de qualquer maneira a lama desse mangue não deixa ferida inflamar, cura reumatismo, eu mesmo já vi gente chegar carregada no colo de parentes e daí a dias sair por aí lépido e lampeiro depois de esfregar lama no corpo por uns dias. Milagre mesmo, os médicos que cá estiveram não souberam explicar.

Miguel e os empregados se persignaram. O mangue por onde seguiam costeando tomou jeito de coisa encantada. Miravam o mato com medo e respeito. Mangusto continuou:

-Com o passar do tempo o povo fez uma capelinha de sapê, simplesinha, depois saíram catando dinheiro e ergueram a igreja no mesmo lugar. Só que a mulher de branco nunca mais apareceu. Na data em que o homem ficou curado o povo agora faz festa, mergulha na lama, joga lama uns nos outros, coisa linda de ver. Tinha um sujeito que morava aqui, um bom artista que já morreu, coitado, que fez uma imagem de barro, de acordo com o que o homem ia descrevendo, no tamanho da gente e pintou de branco. As mulheres costuraram o camisolão branco, ficou linda. Um padre benzeu ela, a contragosto. Se não fizesse o povo acabava com ele na paulada.

Mangusto sorriu. Durante o trajeto Miguel não tirou ou olhos da mulher. O marido seguia distraído, conduzindo a parelha de cavalos, olhos grudados na estrada estreita e esburacada, e ele aproveitava para olhar pra ela. Nem uma vez ela desviou os olhos para o que ocorria nas laterais do caminho, nem uma vez seus lábios se esgarçaram num projeto de sorriso. Se Doxinha fosse assim, imaginou, eu não teria sido corroído pelos ciúmes, feito a besteira de acabar com a vida dela e terminar nessa vida perigosa e aventureira, sem um lugar onde possa viver em paz e criar uma família. Maldita Doxinha, por que fora tão safada?

Era uma tarde bonita, o céu muito azul, debruado de um alaranjado que se esvaía num cinza desmaiado. O verde do mangue que atravessavam escurecia e uma lua em formato de foice se preparava para ceifar estrelas. A mulher, como uma estátua, olhava sempre em frente. Aves e pequenos animais atravessavam rapidamente o espaço, na certa procurando pouso para a noite. Um seriema gritou chamando a companheira.

A vila era diferente das que conhecia, parecia maior, mais movimentada. A praça em frente à capela estava toda enfeitada de bandeirinhas, bambus e panos coloridos. Muita gente circulando, rindo, conversando. Foguetes espocavam de vez em quando. Cheiro de comidas, doces, roupas novas e perfumes fortes. Uma pequena banda tocava ao lado da igreja, onde começava a linha das barracas iluminadas por candeeiros a carbureto. Crianças e cachorros corriam entre elas. Jogadores se apertavam na frente de algumas. Boa/Miguel ficou encantado e por um momento esqueceu a mulher do patrão. Caroço pegou no seu braço.

-Vamos dá uma vorta, o patrão num vai sair daqui. Vamos vê as moda.

O outro empregado se aboletara entre os que olhavam a barraca das argolas. Como não tinha dinheiro, Boa aceitou o convite do colega de trabalho. Andaram no meio do povo, curtindo o barulho, a alegria, o movimento. Era gostoso, admitiu para si mesmo.

-Tá gostando? Caroço perguntou. Isso aqui é bom demais, mais logo vai tê procissão, foguetes e leilão. A cabrita que o patrão trouxe é pra esse leilão. O dinheiro vai pra igreja.

Boa nada dizia, de boca aberta olhava tudo, maravilhado. Chegou a tropeçar numa criança, de tão distraído e impressionado com o movimento.

-Mecê vai ver umas moças bonitas por aqui, mas cuidado, o pessoal num gosta de liberdades com as muiés. Se alguma entortá os oios pro seu lado, não vá de afogadilho, oie em volta, vê se não tem alguém tomando conta. Se ela insistir, se dé uma risadinha, uma piscada, aí mecê pode se achegar, quem sabe não arruma uma namorada e esquece a muié do patrão, hein?

-Que isso, Caroço? Mecê insiste nessa prosa boba?

-Pensa que não vi na viaja toda mecê de oios grudados na patroa? Num sei se o patrão já percebeu, acho que não, porque ele é brabo e se desconfiá de alguma coisa pode lhe fazê uma desfeita ou tocá mecê daqui pra fora. Ou coisa pior, tome cuidado. Aqui, muié dos outros é sagrada.

– Que confiança é essa, Caroço? Vai, vai andar, vai ver as moças, me deixa só. Já falei que num gosto de intimidades. Vai cuidar da sua vida.

Ildinha se manteve séria, sentada na carroça. Respondia com resmungos as poucas pessoas que a cumprimentavam. O velho saía, dava umas voltas, conversava com um e outro, ria, brincava com as crianças, apreciava os animais amarrados, comprava coisas de comer, levava pra ela que aceitava sem agradecer, sem ao menos sorrir. Parecia de pedra. Também pudera, Boa pensou, foi vendida, não pode gostar dele. Tenho chance. Passou a sentir raiva do velho e em pensamentos só se referia a ele como canalha, miserável e termos que tais.

Voltaram tarde para casa, depois do aguerrido leilão de prendas, e chegaram com a lua no meio do céu a iluminar o caminho. Ildinha cabeceava de sono. Os companheiros se arrastavam pela estrada areenta, os muitos e assustadores sons que vinham de ambos os lados da estrada deixavam-no preocupado, quem sabe eram bichos, assombrações ou bandidos capazes de fazer mal a ela. Ai deles! Caminhava segurando o facão.

A vida seguiu seu rumo sem surpresas e com muito trabalho. A fazenda era maior do que imaginara e se gastava meio dia para chegar no outro lado da cerca a cavalo, e dia e meio a pé. Ildinha preparava os farnéis em pratos de ágata envolvidos em pano branco muito limpo. Ficava encantado, como se ela fizesse assim por que era para ele. À noite era um tormento, sonhava com ela em momentos de ardente paixão; de dia procurava um canto escondido e se masturbava, sofria as doces dores da paixão.

Aproveitava seus raros momentos de folga para caçar ou pescar e se livrar dos maus pensamentos. O canalha tinha uma espingardinha que lhe emprestava. Todo o fruto das caçadas, peixes ou aves, entregava a ela como uma oferenda. Ela sequer agradecia, mas ele entendia, era uma mulher amigada, fiel, o que lhe acrescentava mais uma qualidade. Quando o canalha morrer e ela vier para mim, vai me amar e respeitar, concluía.

Terminada a época do plantio, dias vazios se sucediam. Sentava-se nas raízes da grande árvore que ficava fronteira à varanda dos fundos onde ela executava a maior parte de suas tarefas e com os olhos semicerrados para fingir que cochilava, seguia cada um de seus movimentos. Quando ela se metia dentro de casa tirava um cochilo para sonhar com… ela.

Os dias eram claros e límpidos, bons para uma caçada e não estranhou quando o velho miserável veio convidá-lo para pegar umas jacupembas que costumavam fazer alarido na mata, como se zombassem dos caçadores. Recebeu uma espingarda melhor e imaginou que um tiro dado com boa pontaria no desgraçado o tornaria um homem feliz. Desde que pudesse enganar os soldados da polícia que vira na festa da vila. Saíram cedo, junto com eles seguia Caroço, um estorvo. Para seu plano funcionar teria de matá-lo também. Adiou. Não faltariam oportunidades. Seguiu em silêncio acompanhando os outros dois.

As jacupembas voavam de galho em galho, ignorantes do que a sorte lhes reservava. Um bando de maritacas passou gritando como umas doidas e as jacupembas voaram.

-Daqui a pouco elas voltam, garantiu o velho. Vá armar uns tutos, ordenou a Caroço, vamos pegar umas preás. Bem longe daqui que quero conversar com o Miguel. Prosa comprida. Depois vamos para a matança dos jacus ou jacupembas, o que aparecer.

De orelhas em pé e sorriso amarelo, preocupado com o que ouviria, Boa sentou-se num dos tocos indicados pelo velho. Seu coração disparou. O patrão preparou um cigarro de palha e o acendeu. Vai me mandar embora, Boa imaginou, Caroço falou bobagem. Ou me matar. Depois diz a Caroço que foi acidente.

-Sei que mecê não fuma, disse ao empregado, por isso não lhe ofereço.

Boa concordou sem sorrir. Tinha a garganta seca. Olhava ao redor procurando um roteiro de fuga, caso se fizesse necessário. A mata parecia fechada, cheia de cipós e troncos quebrados, além de cactos e gravatás, mas sempre havia trilhas abertas por caçadores e mateiros. Localizou uma e ficou atento. A mão suada se enclavinhava no cabo da arma. Do meio do mato vinham os ruídos de sempre, assustadores. Um bando de anus pousou ali perto. As risadinhas pareciam ser de Doxinha.

-Nossa conversa não vai ser muito longa, não sou homem de perder tempo com frioleiras. Chamei mecê aqui para lhe fazer uma proposta. Antes deixa eu falar um pouco de mim. Não sou casado com Ildinha, na certa o linguarudo do Caroço já lhe informou. Fui casado por uns anos, longe daqui. Levava uma vida mofina, com uma mulher que vivia doente até que entrevou e morreu. O que mais me aborrecia no casamento é que a mulher não me dava filhos e eu sempre quis ter um monte de filhos, de preferência tudo macho. Eu achava que a culpa era da doente, que Deus a tenha. Andei com outras mulheres e nenhuma emprenhou. Aí veio esse maluco do pai da Ildinha me oferecer para comprar a filha. Moça sadia, forte, educada, obediente, trabalhadeira. Um tesouro. Paguei caro por ela, o pai era um finório, me custou o preço de uma vitela gorda, mas achei que com ela ia começar a família. Qual! Tamos junto pra mais de cinco anos, nunca neguei fogo, e nada. Cheguei a conclusão que o maninho sou eu. Tem homens assim, que a natureza não deu a felicidade de ser pai. Fazer o que? Fiquei munto triste e ainda estou. Pra quem vou deixar o monte de terras que comprei, as lavouras, as carroças, os animais, tudo? Tanto mourejei e pra quê, me diga. Dizem que vai pro governo e não estou aqui pra trabalhar pro governo, só tem ladrão. E minhas terras são bonitas, férteis…

Parou, respirou fundo, gastou um momento observando as brincadeiras de uns pássaros nas árvores. Acabou de pitar e pisou a guimba. Miguel o observava, tenso.

-Tá vendo? Tá chegando a primavera e os passarinhos já estão namorando, daqui a pouco tão fazendo ninho pra mode botar ovo e criar filhote. Todos fazem questão de ter filhos, é a lei da vida. Ainda penso em ter filhos. – Encarou o empregado. – E para isso vou contar com mecê.

Ele se assustou e quase pulou do tronco onde sentara: Comigo?

-Foi o que eu disse, confirmou o velho. Mecê vai ser o pai de meus filhos. Mecê é branco que nem eu, é novo, sadio e cheio de energia e me parece ser homem decente. Desde que chegou aqui entendi que me fora mandado pelo céu para isso.

O coração de Miguel disparou ao entender o que o velho pretendia. Ele deve de estar louco, pensou.

-Mecê já foi casado ou amigado? Já teve filhos?

Mesmo aturdido com a notícia pensou rápido. O velho quer me dar a mulher de bandeja. Se digo que tive várias mulheres e nenhum filho, vai julgar que sou maninho que nem ele e vai refugar. Engoliu em seco.

-Óia, nunca fiquei muito tempo com as mulheres pra saber se sou pai, mas a última, a da ilha, quando fui raptado pelos bandidos, tava com enjoo e tonteira, a dona da casa disse que eram coisas de quem tá prenha. A essa altura o menino deve ter nascido.

Mancuso sorriu, satisfeito. Era o que precisava saber.

-Então tá combinado. Para não despertar desconfiança nos empregados, mecê passa a dormir num quarto que vou construir depois da cozinha, vou dar uma desculpa. Quando o menino nascer vou batizar ele em meu nome e no da minha falecida esposa, que ninguém sabe se tá viva ou morta, para ele herdar tudo que é meu.

Miguel estava constrangido, indeciso. Nunca fora pra cama com mulher para agradar aos outros. Estava se sentindo um touro reprodutor. Era desagradável.

-E se Ildinha não quiser?

-Nem se cogita disso. Comprei ela, é minha, tem de me obedecer. E vai sim, é muito boazinha, não vai me criar problemas. E já notei que mecê se interessa por ela. Mas ouve bem e nunca se esqueça: não é um casamento seu com ela, é um negócio como outro qualquer. Mecê vai ter suas regalias aqui na fazenda, algumas noites ela vai na sua cama, vai ficar apenas o necessário para fazer um filho, não pra namorar, tá entendido? Negócio melhor que esse não existe. Vou ficar deitado esperando ela voltar pra cama. Quero pelo menos uns cinco filhos.

Miguel não sabia o que pensar. Raciocinou rapidamente que de qualquer forma ela seria sua e com o tempo quem sabe a convenceria a matar o velho e ficar com ele? Talvez nem precisasse matar, o canalha estava velho, qualquer dia batia a caçuleta e aí… ó só felicidade! Só não podia era demonstrar o que estava sentindo.

-Tá demorando muito a responder, esbravejou o miserável. Não gostou da proposta? Quanto a ela aceitar ou não, deixa comigo.

Filho da puta, xingou Miguel mentalmente, mas deixa estar que as coisas não vão sair assim tão do seu jeito. Vou conquista sua mulher, velho safado, e fugir com ela.

-E olha, continuou o velho, não fique alimentando ideias de jerico, pensando em me matar, em obrigar Ildinha a fugir cocê, previ tudo num documento que deixei com o subdelegado e com um amigo meu do peito. Caso me aconteça qualquer coisa, mecê vai parar no inferno.

– Eu não pedi nada a vosmecê, Boa respondeu se acalmando, só um emprego. Mas se tem confiança em mim… pode ficar tranquilo. Será como tá me falando. Nunca fiz traçoeiragem com ninguém, muito menos vou fazer com quem me acudiu numa hora difícil da minha vida.

Mas não era o que estava pensando. Por dentro ardia de raiva.

-Pra terminar a conversa. Vou falar pro povo que mecê é meu parente distante, agora que descobrimos isso e vai ser o feitor da minha fazenda, entendido?

Levantou-se, viu a jacupema que pousara numa árvore um pouco distante, atirou e a ave caiu. O cachorro que os acompanhara foi correndo buscá-la. O velho lhe sorriu, superior, como se dissesse que era perigoso, tiro certo. Também sou bom no gatilho, pensou Miguel, e lhe sorriu em troca.

-Ainda nesta semana começaremos a levantar o quarto onde mecê vai ficar, anunciou, antes de preparar arma para mais um tiro.

Maroca era uma mulher grande, de ossos largos, forte, que cuidava da venda que atendia o pessoal da região. Viúva há muito anos, sem filhos, devia beirar os 60 anos. Com o hábito de conversar com os fregueses enquanto os atendia, conhecia cada morador em todas as suas facetas. Olhou Miguel com vagar, memorizando cada detalhe de sua figura e disposta a conhecer sua alma.

-Bom dia, parceiro, veio fazer compras para Mangusto?

Ele sorriu, buscando ser simpático. A dona não tinha do dilema que o sacudia.

-Sim senhora, e colocou os dois sacos brancos que trazia sobre o balcão. Ele mandou dizer que é o de sempre. E que a senhora sabe direitinho o que é.

Ela sorriu, vaidosa. Faltava um canino em sua boca fina.

-Claro, vamos lá. Primeiro o mais necessário, o feijão e o arroz. À medida que falava ia pesando a mercadoria e colocando no saco. Ele amarrava o saco, criando espaço para mais outras coisas, milho e farinha. A mulher indagou: o veio falou se vai a carne seca? É que ele costuma fazer a carne de sol na fazenda, a Ildinha é munto jeitosa. Ela tá bem?

-Acho que sim, ele respondeu. Mas não vi nenhuma carne pendurada no varal, acho bom levar sim. Não estraga, né?

-Mecê é parente dele, né?

Os olhos miúdos dela vagavam de sua boca para seus olhos, atentos.

-É, somos primos por parte de mãe. Mas sempre fui munto andejo, saí de casa munto cedo para procurar trabalho e não conheço muntos parentes. A família é grande e esparramada pelo mundo. Ele é que foi me interrogando, fui respondendo, ele juntou tudo e descobriu que eu era filho de sua prima. Engraçado, né?

-É, ele contou, a vida tem dessas coisas.

Seguiu fielmente o roteiro que Mangusto lhe indicara. Como não tinham o mesmo sobrenome foi instruído a dizer que a ligação de parentesco era através da mãe.

-Que bom, né mesmo? E agora tem emprego em casa de um home dereito, com boa situação de dinheiro, espero que não o decepcione.

-Deus que me livre. Tenho mais é que agradecer a Deus.

-E respeitar a família tombém, o povo aqui preza munto isso, respeito. A Ildinha é uma boa mulher, trabalhadeira mas ignorante, sem experiência de vida, pode cair numa boa conversa. E nesse caso posso agarantir que a reação dele seria de morte. Há pouco tempo um vizinho nosso, o Vizeu, estrangulou a mulher só porque achou que ela olhava munto prum primo. Os homens daqui são munto desconfiados e violentos.

-Olho dona Ildinha com respeito e carinho. E jamais faria uma ursada com o homem que me ajudou num momento difícil de minha vida, longe de casa, sem dinheiro… A senhora sabe que fui sequestrado por bandidos, num sabe? Ela concordou com a cabeça. Então, me vi sozinho, machucado, transtornado e ele me socorreu, me deu um bom emprego e ainda se descobriu meu parente. Como posso atraiçoar um homem desses?

Ela pareceu ficar satisfeita, amarrou as compras no saco e lhe entregou. Sorriu, amistosa:

-Vai com Deus, meu filho, que nossa santa o acompanhe.

Trotando de volta para casa, as ancas do cavalo cobertas pelos sacos com mantimentos, se pôs a fazer um balanço de sua vida desde o momento em que entrara para o bando de Sem Braço após assassinar a mulher, roubar e enterrar o mapa de um suposto tesouro enterrado pelo bandido, quase morrer de fome e sede durante a desembestada fuga, viver com Zira e seu pai doente, assistir a morte de Gamelão e do Gordo na feira anual de Santo Emérito, ser sequestrado e quase morrer durante o ataque de um grupo inimigo, e terminar por conseguir emprego numa fazenda cujo dono, maninho, queria que fizesse os filhos para ele, era uma aventura e tanto. Só faltava conquistar a mulher do patrão, herdar tudo quando ele morresse, e viver como um homem escolhido pelo destino para ser feliz após passar por tantos dissabores. E não vou dar para trás decidiu. Acho que Doxinha acabou por se dar mal em sua praga. A vida é mais forte que o ódio.

A obra do quarto extra avançava devagar, ele e Caroço trabalhavam nas folgas das atividades diárias. Era preciso buscar no mato varas o mais possível retas, prepará-las, esperar que secassem até estarem em condições de serem trançadas para receber os punhados de barro molhado. Caroço trabalhava de má vontade na obra e demonstrava uma ponta de inveja desde que descobrira que o novo aposento serviria de quarto para Boa. Passou  a olhá-lo de banda.

-Mecê tá com tudo com o patrão, hein? Que foi que fez, alguma simpatia?

Eu devia de dar uma traulitada nesse besta. Acho melhor deixar passar.

-Não se meta, Caroço, o velho descobriu que eu sou seu primo e num se deixa um parente dormir no meio de ratos, né não?

– Descobriu como? Um passarinho le contô, foi?

-Eu sei lá? Tô repetindo o que ele me disse? Maluquice de velho.

-Que história mais sem pé nem cabeça…

-Por que num pergunta pra ele?

Caroço encolheu os ombros.

-Eu não… mas vou acabá descobrino o que tá por trás dessa tramoia. Empregado dormindo dentro da casa do patrão… eu, hein!

Desde que descobrira que iria fazer sexo com a mulher do patrão, Miguel vivia ansioso. Ele queria sim e muito, aquela mulher estranha e tinha certeza que depois que a tivesse, ela se enrabicharia por ele. Não era gabola, mas sabia satisfazer uma mulher. Aos poucos ia conquistá-la, um carinho aqui, uma gentileza ali, depois que descobrisse o ponto fraco de Ildinha não havia como deixá-la indiferente. Apesar de toda a ansiedade procurou manter um comportamento educado, sem perguntas nem indiretas. Aguardaria, bem calmo. Por fora, por dentro era um vulcão pronto a entrar em erupção. E assim, depois de comodamente instalado em seu quarto, numa rede de casal com franjas que o próprio velho tinha comprado, precisou refrear mais ainda o coração. Ela virá, pensou, não preciso mover uma palha. E sentiu-se um canalha.

Não demorou muito a visita de Ildinha. Mangusto o orientara a deixar a porta do quarto encostada. Ainda segundo orientação do velho, o barulho reduziu-se ao mínimo, ela estava descalça. Como uma sombra ela entrou e foi direto pra rede. Ele ficou de pé a seu lado. Tremia. Parecia que nunca antes estivera em intimidades com uma mulher. A noite estava bem escura e nem viu quando ela arrancou o vestido pela cabeça. Murmurou:

-Ildinha, mecê não é obrigada a fazer isso comigo.

Ela deitou-se na rede sem nada falar e puxou-o pelo braço. Caiu por cima dela, desajeitado. Ela cheirava bem, cheiro de ervas. Equilibrando-se na rede, sem querer sair de cima dela, também arriou as calças. Chegou-se para mais perto dela, quis beijá-la, ela virou o rosto. Na posição em que estava foi fácil penetrá-la e graças à ansiedade gozou logo. No minuto seguinte ela havia saído debaixo dele e sem nada falar deixou o quarto. Não sabia se ria ou chorava. De tanta frustração.

Não conseguiu dormir, os pensamentos se embolavam, se atropelavam. Entendia que ela não tivesse prazer em se deitar com ele – ainda – mas queria que fosse só um pouquinho carinhosa ou educada. Poxa, pensava, não valeu a pena. Pelo menos essa primeira vez. Devagar vou conquistá-la e juro que ainda quero ver chegar toda derretida, doida pra me abraçar e beijar. E gemer de amor. Cadela! Não deixou nem que eu fizesse um carinho, desse uma alisadinha. Vou ter que domar essa potra.

Os olhos de Caroço acompanhavam cada movimento que fazia e pareciam verrumar seu rosto, como se quisesse saber se tinha acontecido alguma coisa, se a mudança dele para o quarto significara algo diferente, isso desde o primeiro dia em que dormira dentro da casa do velho. Curioso demais o rapaz. Dias depois, enquanto acompanhava uma porca parir no chiqueiro que ficava um tanto distante da casa, Miguel reparou que Caroço conversava com Adelino, ou melhor, falava animadamente, gesticulando. Tá falando de mim e se isso se confirmar vou dar uma lição nesse moleque. Mais tarde, ao se ver a sós com Adelino, perguntou do que falavam.

-Nada demais não, disse o homem. Esse rapaz é um boquirroto, num sabe ficá com a língua dentro da boca fechada. Falô umas bobajas, nem dei importância, só ouvi.

Após o jantar Miguel costumava sentar-se na raiz da árvore de onde apreciava a mulher lavar roupa. Caroço, sentado mais adiante o olhava. Miguel se levantou, pegou o facão e se aproximou dele. O velho Mangusto não estava à vista. Ao chegar perto do rapaz mostrou o facão como se o estivesse apenas exibindo, mas em voz baixa, rascante, avisou:

-Tá vendo isso aqui? Caroço ergueu os olhos, assustado. Amolei há poucos dias, tá tinindo, cortando que é um beleza. Munto bom para aparar língua, deixando ela no tamanho de quem tem juízo e não levanta falso, entendeu?

E lhe deu as costas, justo no momento em que Mangusto aparecia na porta.

A visita de Ildinha se repetiu durante a semana. Ela parecia menos arisca, o corpo menos duro, tenso. O que já era bom ficou melhor, ele se disse no escuro. Faziam tudo no mais completo silêncio, o que ele considerou bom, por que por duas ou três vezes sentiu que alguém escutava atrás da folha da janela. Numa dessas vezes, quando Ildinha não aparecera, ele deu um soco na janela. Com o barulho Mangusto apareceu em seguida, de pijamas, a lamparina levantada:

-O que foi? perguntou.

-Nada demais, acho que era gambá procurando lugar pra fazer ninho, respondeu alto para ser ouvido do lado de fora. Deixei o facão aqui pro caso dele roer a banda da janela e aparecer. Corto os bagos dele.

O patrão riu, como se tivesse entendido. Do lado de fora veio o barulho de palha pisada.

A vida seguia tranquila. Domingos mais tarde, de manhã cedo, enquanto tomavam café na mesa da varanda, Ildinha se aproximou e sem qualquer emoção na voz, anunciou:

-Seu Mangusto, estou prenha.

Ele a olhou desconfiado. O coração de Miguel deu um pulo, seu primeiro filho estava a caminho.

-Cumé que mecê sabe? indagou Mangusto.

-Toda mulher sabe quando fica prenha. Faz tempo que não fico incomodada.

O silêncio foi cortado por um berro do velho:

-Vou ser pai! Levantou os braços, a cara vermelha e os olhos brilhando. Eu vou ter um filho!

Miguel, que já imaginara a cena há tempos, sorriu largo, procurando expressar grande satisfação, ainda mais que, pelo canto do olho, vira que Caroço o observava atentamente. Por dentro também se rejubilava, garantira emprego, com casa, comida e roupa lavada por mais um tempo. Caroço torceu a boca num esgar de riso. Tão novinho e tão velhaco, julgou Miguel, que se levantou e abraçou o velho, que passou a considerar realmente um parente. Parente cretino, mas parente. Não ia ser pai do filho dele?

-Mecê merece! afirmou sorrindo.

-É um menino, disse o patrão, passando a mão na barriga ainda pouco proeminente da mulher, tenho certeza e vai se chamar Astolfo, como meu pai!

Quem olhasse tanto para a mulher quanto para o verdadeiro pai da criança veria que o nome não lhes agradara. Fazer o que, o filho era do fazendeiro, assim haviam combinado.  E uma ponta de tristeza passou a morar no seu peito. Provavelmente, ela nunca mais visitaria sua rede. Sua missão fora cumprida.

-Caroço, gritou Mancuso, sele um cavalo e dê um pulo na vila; procure a dona Maroca e lhe diga para mandar a moça que vai ajudar Ildinha na casa.

-Não precisa, a mulher protestou. Dou conta de tudo.

Chovia, indicando que a colheita de tudo que havia sido plantado ia ser boa. O velho pareceu não ter ouvido a recusa da mulher.

-Sou um abençoado, proclamou, rindo de orelha a orelha. Junto com meu primeiro filho veio a fartura. Cumé quié, Caroço, vai ficar aí parado? É pra já. Diga que espero a rapariga amanhã sem falta. Vamos, se avie.

A expressão primeiro filho confirmou para Miguel que seu emprego estava garantido. O que não deixava, porém, de deixar um travo de amargor na sua alma. Preferia que fosse eu a estar festejando, pensou. Esse primeiro filho veio no susto, sem preparação, mas o próximo será feito com muito amor e carinho, eles vão ver só.

-Meu menino vai mandar nisso tudo aqui, blasonou Mangusto, abarcando a propriedade com um gesto. Vai ser o rei daqui.

Mais tarde, enquanto botava lavagem no cocho para as porcas paridas, Miguel viu Caroço, que voltara com a mesma cara de tacho, conversar animadamente com Adelino sob o telheiro. O chiqueiro ficava distante e não dava para ouvir o que o rapaz contava para o outro empregado. Sinto que ele continua a falar de mim, faz intriga e isso tem de acabar. O mais velho ouvia de cabeça baixa e de vez em quando balançava a cabeça desaprovadamente. Impaciente, Caroço andava de um lado para o outro e de vez em quando lançava um olhar pro lado do chiqueiro.

-Caroço, gritou o patrão da varanda, tá na hora de prender os bezerros. Vamos deixar de prosa e trabalhar. Não perturbe o outro.

Apesar da chuva fina que continuava a cair atrapalhar um pouco sua visão, Miguel pode ver a expressão de desagrado no rosto tenso do rapaz. Não vou perguntar nada a esse safado, decidiu. Ao escurecer, no caminho para esperar o jantar, já sabendo que Caroço costumava se atrasar, encostou-se no velho empregado e com muitos rodeios e sem alterar a voz perguntou-lhe o que Caroço estava falando.

-Nada de importante, respondeu o velho sem levantar os olhos. Coisa de quem num tem em que pensá. Baboseiras. Num prestei munta atenção.

Noutro dia foi Adelino que se aproximou e lhe disse em voz baixa:

-Mangusto acha que Ildinha espera um filho macho. Conheço barriga de prenha, seja de gente ou de bicho. O que está ali dentro é uma menina.

-Tem certeza? Miguel ficou espantado.

-Já aparei bastante crias pra saber se é macho ou fêmea antes de vê.

Como Mangusto reagirá, se perguntou. Depois sorriu, vai tentar de novo, é lógico, por meu intermédio. Só espero que não maltrate minha filha. Feliz, trabalhava como um mouro, a lavoura crescia rápido, os animais pariam com frequência, o queijo era fabricado por Ildinha, a única atividade que Mangusto ainda lhe permitia. Todos os demais cuidados com a casa, a comida e a roupa passaram a ficar a cargo da moça que Maroca enviara, a Cininha, uma mulher morena, atarracada, muito simpática e trabalhadora. Tratava todos bem, menos Caroço, por quem parecia nutrir uma antipatia gratuita. Caroço bufava.

A barriga de Ildinha crescia, ela se tornara menos hostil e por várias vezes Miguel a vira alisar a barriga com um arremedo de sorriso. Ele fazia planos e nutria sonhos. Ela está virando mulher de verdade, pensava. Nas noites enluaradas se sentava na raiz da árvore, olhava a lua e imaginava Ildinha sentada a seu lado, abraçada na sua cintura, olhando os filhos brincar no terreiro. Sorrindo, sem sombra de rancor ou medo. E Mangusto? Era uma figura esbatida, uma espécie de anjo protetor que velava por eles, vovô carinhoso. Nessas horas pensava no tempo em que estava no barco de Sem braço e via um marujo se debruçar na amurada e ficar olhando o mar. Sou um romântico, o marinheiro explicava, e a lua desperta minhas saudades. Agora sabia o que era isso.

Caroço, emburrado, passara a falar com Miguel apenas o indispensável e não o encarava. Parecia nutrir um ódio intenso. Mangusto se desdobrava em atenções com Ildinha e em vantagens para Boa. Adelino olhava tudo sem demonstrar interesse. Perto da data prevista para o nascimento da criança Mangusto mandou Caroço buscar na vila a melhor parteira da região. O parto foi fácil, ela começou a sentir as dores pela manhã e logo depois do almoço a criança chegou. Como Adelino dissera, uma linda menina, forte e chorona. Num primeiro momento Mangusto se mostrou decepcionado, mas em seguida gritou para Caroço matar um bacorinho gordo.

-Se fosse macho eu ia matar um boi, como é fêmea vamos comemorar com um porco. De qualquer maneira estou formando uma família, um sonho que tenho desde que me fiz homem. E na família tem que existir machos e fêmeas. Quando ela se fizer moça, escolho um bom partido para genro.

Com cara cínica, Caroço perguntou:

-Pode ser um dos empregados de sua fazenda?

-Não seja besta, olhe o respeito. Casamento serve para melhorar a família, respondeu o pai fechando a cara, e não para piorar.

Caroço recuou com cara de ofendido. Miguel deu um sorrisinho de mofa. Mangusto deu-lhe o nome de Filomena, também, segundo ele, nome da avó que o criara.

-Era uma santa mulher, séria e trabalhadeira como Ildinha.

A vida continuou tranquila. Antes de terminar o resguardo Ildinha voltou a frequentar seu quarto pois, segundo o velho, o tempo de resguardo era o melhor para emprenhar. Ele estava empenhado em obter um herdeiro macho. Os peitos de Ildinha, cheios de leite, deixavam Miguel alucinado, bem que tentou mamar, mas a mulher o afastou com vigor.

-Sossega, ela murmurou, ou eu peço a Mangusto para arrumar outro macho para me cobrir.

Ele suspirou e rebateu, também sussurrando:

-Ainda quero ver mecê deixar que eu faça todos os carinhos que sei fazer.

-Não estamos namorando, ela retrucou, eu e mecê tamos obedecendo ordens do meu dono. Por favor, faça o que tem que fazer e me deixe ir olhar minha filha.

Mangusto estava certo e logo, logo, ela informou estar prenha de novo. Ele esfregou as mãos, com imenso entusiasmo.

-Dessa vez não tem erro, vem um menino, agaranto.

Mas foi outra menina, a Hermengarda, que ele recebeu nos braços. Seu único e desanimado comentário, foi:

-Será que mecê não sabe fazer um macho?

Ela o olhou aborrecida e retrucou:

-Mecê acha que a gente tem o poder de escolher se quer parir macho ou fêmea? Isso é coisa da natureza. Experimenta pedir pras suas vacas que tenham só bezerras.

Ele se conformou e mais uma vez disse que estava formando a família. Miguel olhou com ternura a criaturinha rosada que ele lhe mostrou.

-Vamos continuar tentando, Miguel. Eu quero um macho, ouviu bem?

-Vamos, estou à sua disposição, respondeu, escondendo a sua excitação.

Caroço babava de ódio. Com a resposta de Miguel formou certeza do sujo trato do patrão. Mas como poderia acabar com aquilo?

Uma terceira menina chegou no ano seguinte. Joaquina foi o nome que recebeu. Era forte e grande como a irmã, que corria pela casa atrás dos cachorros.

-Ô, Caroço, o patrão indagava, mecê não tá vendo essa criança no chão? Pega ela, e entrega â mãe. Que sujeitinho mais imprestável.

Caroço ficava cada vez mais intratável. Detestava ter de ajudar a tomar conta das meninas. Adelino falou a Miguel:

-Toma cuidado com esse sujeitinho, ele tá cheio de inveja docê. Isso é cobra criada, pronta para dá o bote.

Faltava coragem a Caroço para fazer qualquer coisa que o prejudicasse, Miguel percebeu. Um bicho-de-pé infeccionado deixou Ildinha de cama por vários meses. Não podia andar e nem ficar de pé por muito tempo. Caroço cuidou mais de suas obrigações por ordem estrita do patrão, que parecia querer vê-lo calado e quietinho. A babá assumiu a cozinha. Miguel se preocupou. Será que Mangusto percebeu as intenções caluniadoras do empregado? As visitas noturnas de Ildinha pararam por um tempo. Mancuso teve de chamar outra moça para ajudar no serviço a casa; ele parecia feliz em ver a casa cheia.

As visitas noturnas, que estavam se tornando cada vez mais gostosas e num silêncio tumular, permitiam que ele fantasiasse uma história de amor. Quando Ildinha pariu um menino, num fim de tarde, a casa explodiu de tanta alegria. No lusco-fusco da tarde podia se ver que o rosto de Mangusto estava vermelho de emoção. Ele pegou a caixa de foguetes que havia guardado para a ocasião e soltou-os no terreiro. A mata se alvoroçou, as aves voaram sem rumo, atordoadas, o galinheiro virou um pandemônio, os cães se enfiaram sob as camas  e em casa as meninas gritaram de medo. Miguel ajudou as moças a acalmá-las.

-Tenho um herdeiro, gritava Mangusto, eufórico. Todos os meus esforços foram recompensados, benza Deus. E agora chega de filhos.

Caroço sorriu torto, satisfeito, e Miguel fingiu que não entendeu o que a frase significava. Tenho de me preparar para mudanças, pensou. Adelino avisou em voz baixa:

-Muito cuidado, a cobra vai querer dar o bote.

Indiferente a tudo Mangusto pulava pela casa como um maluco. As meninas mais novas o olhavam com receio.

-Tenho um machinho, ele gritava, correndo pela varanda. Sou um homem completo, obrigado, meu Deus. A menor desatou a chorar.

Os olhos de Ildinha estavam mais doces e com as filhas até sorria. Ela temia o que poderia acontecer com Miguel depois que nascera o machinho, mas parecia que não estava nos planos de Mangusto perturbar seu sócio na paternidade. Continuou a tratá-lo bem, não demonstrou qualquer sinal negativo com a presença dele na casa. Apenas Ildinha não voltou à rede. E havia uma sombra no seu olhar. Talvez Mangusto falasse dormindo, nada ela contava. Miguel agoniava de saudade, queria aquele corpo, voltou a se masturbar. Não posso viver sem ela, vou acabar fazendo uma besteira. Nos anos passados poucas, raras vezes, esteve um tempo a sós com ela. Não ostensivamente, mas desde que passou a estar com ele na rede, Ildinha o olhava com certa ternura, mas fora disso mantinha uma atitude esquiva e fria, evitando que se encontrassem, o que agradava a Caroço, que assim se acalmava. Talvez fosse a intenção dela, imaginou Miguel, para evitar suspeitas. Assim não dava para viver, debaixo do mesmo teto, tão perto e tão longe dela. Lembrava-se das histórias que a mãe lhe contava à noite, principalmente a da linda princesa Ranhilda, encerrada pelo pai autoritário numa torre muito alta para impedir que se encontrasse como o namorado. Como terminava mesmo aquela história? ele se perguntava, buscando encontrar uma saída para sua situação.

Tempos depois, num dia em que Mangusto foi à vila fazer compras – era ele quem comprava tudo, das roupas das filhas a objetos para a casa, Ildinha só olhava – levando Caroço consigo, ele aproveitou os momentos em que ela foi ao pomar buscar laranjas para os filhos para lhe falar. As meninas brincavam sob a guarda das empregadas e o menino dormia.

-Ildinha, ele falou com certo cuidado, posso falar um instante com mecê? Caroço saiu com o patrão e Adelino tá na roça.

Ela o olhou assustada e não parou.

-Não se assuste, ele continuou, ninguém está nos vendo, e eu preciso lhe falar.

Ela permaneceu muda, ajeitando as laranjas no cesto, diminuindo o ritmo do caminhar.

-Mangusto vai continuar a querer filhos?

-E eu sei?

-Poxa, Ildinha, mecê é que nem uma pedra! Passamos tantas horas juntos, temos filhos e mecê não sente nada por mim? Não se interessa pelo meu destino? Eu sou o pai dos seus filhos! Ela continuou calada, de olhos baixos. Estou louco por mecê, Ildinha, sou capaz de fazer uma besteira, fugir com mecê e as crianças para bem longe desse velho maluco. Posso pensar nisso?

Ela parou e o olhou, um brilho de aço nos olhos escuros.

-Não, não pode, disse incisivamente. Eu não tenho esse direito, nem mecê, será que mecê nunca vai entender isso?

-Mecê não é casada com ele.

-Não. E entonces, como mecê pretende sustentar eu mais as meninas? Trabalhando em alguma roça? Quem vai lhe dar emprego? Mecê deve tomar juízo, agradecer a Deus e a Mangusto. E depois, realmente não sou casada nem amigada com ele, eu fui comprada, entenda isso. Eu sou propriedade dele, bota isso nessa cabeça dura.

Ela falava serena mas com firmeza, sem tirar os olhos dos olhos dele.

-Eu não gosto de mecê, não sou sua namorada, nem sua mulher, nem nada.

-Vai dizer que não gostava de…

-Não, ela o interrompeu. Não gosto de fazer isso nem com mecê nem com ele, nem com ninguém, pra mim é como cozinhar, lavar uma roupa. Mas vou pra sua rede sempre que ele mandar.

Ele baixou a cabeça, derrotado.

-E por favor, ela continuou, esqueça que eu sou mulher, pensa que sou apenas uma vaca, escolhida para parir os filhos dele. Dele, ouviu? Assim como o gado da fazenda. Agora sai daqui e tome muito cuidado com Caroço, não gosto do olhar dele.

Mangusto chegou mais tarde, com os cavalos carregados de compras. Ele havia se refugiado no chiqueiro. Sou mesmo como um desses barrões, pensou Miguel, um simples reprodutor. E o pensamento o deixou triste e magoado.

Mangusto chamou por ele:

-Eu devia ter ido com a carroça. Não pensei que ia comprar tanta coisa, tudo para festejar o primeiro aninho de meu filho, disse impando de orgulho. Vou convidar a vila toda, vai ser um dia inteirinho de festa, comilança, sanfoneiros. Miguel, dá uma ajuda aqui que o tal do Caroço mal se aguenta nas pernas. Vai ser um festão, meu filho merece.

Miguel sentia que ele exagerava para provocá-lo. Ildinha ficou parada na varanda com o menino no colo. Não o olhou nem uma vez. Caroço é que parecia estudar sua cara para ver o que sentia. Fingiu alegria, ainda buliu com o menino quando entrou em casa. Por dentro era um poço de amargor. Tinha de se conformar com a situação e esperar, no melhor dos casos, que Mangusto quisesse mais filhos. Gostaria de saber tocar viola, assim aliviaria meu coração de suas mágoas.

Depois do jantar enrolou o cigarro de palha e foi se sentar distante da varanda. A noite estava bonita, céu estrelado, brisa suave mexendo nas folhagens. Adelino veio se sentar a seu lado.

-Quer fogo? perguntou esticando a mão com o seu cigarro aceso. Miguel recusou.

-Vamos ter um festão na semana que vem, começou Adelino, graças a mecê. Vai vir gente de tudo quanto é canto.

Miguel o olhou de lado, intrigado, e nada falou, seu peito transbordava de amargura.

-Mecê sabe o que Caroço anda fazendo, desde antes de ir à vila, num sabe? Reparou que ele sumiu daqui?

Miguel apertou os ombros, desinteressado, e continuou a olhar as estrelas. Não se ligava no que o rapaz fazia.

-Mecê devia se interessá mais pelas coisas da fazenda, num é o feitô? admoestou o outro. Ou só pensa em fazê fios pro patrão?

-Que isso, Adelino? perguntou assombrado com a audácia do outro.

-Óia, num tô falando assim para le provocá, nem mesmo quero le criâ probrema, gosto docê, mas tô munto preocupado com o trabaio que o patrão mandô o menino fazê. Ele tá lá, na furna das capivaras, cavando uma cova, bem funda. Lá o Mangusto não vai plantá cana nem mandioca, vai plantá ocê.

Miguel tomou um susto. Olhou o outro com estranheza.

-Que isso, eu sempre atendi o que o patrão quis. Ele quer me matar?

-Sei que tô sendo duro, mas gosto de mecê, um homem dereito, que sempre me tratô bem, que nunca vi fazê maldade com ninguém e acho que não merece o que… óia, se num me acredita, dá um pulo lá na furna e vê o que o safado do garoto tá fazendo. Pode sê que eu esteja enganado, mas acho que não, ouvi umas conversas, óia, se qué meu conseio, dê o pira o mais depressa que pudé. Nessa noite mesmo, se possive. Mangusto num arreceia nada quando tá decidido.

-Por que o patrão haveria de querer me matar, me diga?

-Tá chegando o aniversário do machinho, num tá? O besta do Mangusto prepara uma linda festa e vai convidá todo mundo da vila, num vai? Pois é. Mecê já arreparô que o minino é a sua cara? Era de sê, né, afiná é seu fio. Num me disminta que eu sei. O minino é mecê cuspido e cagado. Parece ironia da vida. Munto do bem. Assim como eu, munta gente vai vê a parecença se mecê estivé por perto. Mangusto sabe disso. Sabe que o fio não podia tê a cara dele, pois não é fio dele. O minino é pequeno, longe docê ninguém vai ligá uma coisa a outra, mas de perto… Mangusto não vai querê corrê o risco, entendeu? Já

Miguel já tinha notado a semelhança, a pele clara, os olhos redondos sem malícia, o cabelo castanho levemente ondulado. Muito parecido com ele. Como ninguém dizia nada, achou que era imaginação sua, mas a conversa com Adelino o deixou preocupado. Se a semelhança fosse muito evidente, o velho poderia expulsá-lo dali ou lhe dar um dinheiro para que sumisse, mas matar? Afinal, fora o velho que o procurara com a proposta e por que não poderia voltar a conversar, quem sabe propor fazer uma casinha pra ele numa das distantes partes de sua propriedade e ordenar que não saísse de lá. Obedeceria.

-E como ele vai explicar o meu sumiço?

-Já tá correno na vila que mecê anda mal satisfeito, que num tá mais dano conta do serviço, enfim, que a qualquer momento vai embora.

O aviso de Adelino o desnorteou. Seria possível uma maldade dessas? Se fosse verdade, se tivesse que fugir, seria mais uma vez vítima de um destino cruel. Ou seria ainda penitência pela morte de Doxinha, que em paz descanse! Na primeira fuga fora perseguido por bandidos e agora seria por homens de bem. Qual a diferença?

-Espere aí, Adelino, vou dar uma olhada na furna e já volto.

Anoitecia quando retornou, muito pálido e nervoso. Tinha visto a baita buraca que Caroço cavava.

– Que buraqueira é aquela, homem? Todo aquele espaço só pra mim? indagou a Adelino, os olhos esbugalhados e a boca seca.

-Num é assim não, disse o outro, Caroço num percebeu, mas tá cavando a própria cova. Mangusto é esperto e sabe que o rapaz num tem caráte. No mínimo, depois que enterrasse mecê o safado do moleque iria fazê chantagem com ele ou exigi, o que é mais certo, dividi a mulher dele com ele, como faiz com mecê, entendeu? Mangusto num é bobo. Eu já tinha visto o tamanho da cova e matutei munto e acho que o veio vai usá Caroço para matá mecê e logo depois vai liquidá o safado. Quem enterra um, enterra dois, né não? Caroço é esperto, mas tá tão certo da sua esperteza, que vai se dá mal por isso. Espera só pra vê.

Miguel andava de um lado para o outro, mãos crispadas, a testa enrugada. Sua cabeça girava com a força dos pensamentos negativos.

-Esperar, eu? Seu coração batia acelerado. Tenho é que fugir daqui, decidiu, antes que seja tarde. Mas fugir pra onde?

-Num sei, respondeu Adelino. Conheço pouco dessa região, quase num saio daqui, só uma vez ou outra vou na vila. Nisso num posso le ajudá. Mecê vai achá onde se abrigá, é um home novo, forte, trabaiadô.

-Mais uma vez vou me entregar nas mãos do destino, disse Miguel.

-Se eu fosse mecê num esperava munto tempo, continuou o velho, nessa noite mesmo botava o pé no caminho. Num passe pela vila, nem vá no rumo contrário, percure um caminho no meio. Leve só o que for necessário, nada da fazenda, a num ser um cacho de banana, Mangusto é esperto por demais e se dé por farta de qualqué coisinha, de um nada que seje, vai pra vila acusá mecê de ladrão e botá o povo todo no seu rastro. Aí mecê num escapa, home sozinho pensa, home no meio dos outros num pensa e ataca. Leve só essa minha faquinha, vai percisá dela. Vai pelo meio da mata e só ande de noite. De dia vai esbarrá com gente conhecida, que mesmo sem querê vai dizê que viu mecê. Entonces é mió encontrá um cantinho escondido no mato para dormi de dia.

Miguel jantou bem, apesar de sentir o estômago revoltado, precisava se alimentar, não saberia quando teria o que comer de novo. Como o pequeno Astolfo estava acordado, de brincadeira com as irmãs, sentou-se no chão para brincar com ele. Teve a impressão de surpreender um olhar, acompanhado de um sorriso debochado, de Caroço para o patrão. Pobre criatura, pensou, se o que Adelino disse se confirmar, não vai ter tempo para se gloriar. Brincou um pouco com os filhos, bocejou, se espreguiçou e falou:

-Tô ficando velho, me canso à toa. A caminhada que dei hoje pra ver a plantação de abóboras me deixou moído, disse, simulando cansaço. Acho que vou pra rede.

No quarto apagou a lamparina, sentou-se no tamborete e esperou a casa adormecer. Não podia fazer planos, não sabia pra onde iria, nunca pensara que isso pudesse lhe acontecer, previra envelhecer ao lado da mulher e dos filhos. Já sentia falta dos filhos, principalmente dos carinhos que Joaquina, a Quinoca, fazia em seu rosto quando a pegava no colo. Será que era a praga da Doxinha?

Abriu a janela. A noite estrelada mostrava a silhueta negra da mata que adormecia em meio a pios, risadas escarninhas, rosnares e outros sons esquisitos. A coruja que vivia no telhado do paiol gritou baixo. Vacas ainda berravam no pasto clamando por seus bezerros. Espero que os bichos também durmam. Lembrou que os predadores atacam de noite e seu coração se confrangeu. Fazer o que? Tocar pra frente. Calçou as botinas usadas que o patrão lhe dera, em seguida se alçou para o batente da janela, fazendo o mínimo barulho, e saltou para o terreiro. Antes de se afastar em direção ao matagal puxou as bandeiras da janela, fechando-a. Que Deus me ajude. Persignou-se.

Apesar de fraca, a luminosidade das estrelas o ajudou a localizar a trilha que sabia haver na direção que escolhera. Era assustador caminhar assim, entre folhas sussurrantes, galhos que roçavam e riscavam sua pele e cipós que enroscavam em seu corpo. Algumas espetadas dos cactos e arranhaduras de galhos quebrados nos braços e na cara ardiam. Teias de aranha se enovelavam em seu chapéu. No carrascal da restinga era mais fácil. Adelino havia lhe ensinado a reconhecer e evitar a presença de animais. Cerca de hora e meia depois de ter caminhado, ouviu um alvoroço de miados e rosnados e concluiu que havia onça ou gato do mato por perto. Ficou parado algum tempo, esperando acabar a bagunça e seguiu em frente. Era mais difícil evitar mosquitos e formigas. Mas não parou, apesar da ardência na barriga das pernas. Queria que ao amanhecer, quando faria uma parada e escolheria lugar pra repousar, estivesse bem longe da fazenda. Nunca pensei que voltaria a passar por esses apertos, lamentou-se. Só pode ser a  praga.

A noite passou depressa. Sentiu-se muito cansado, há muito tempo não andava assim, pisando com cautela em raízes e folhas secas, o que lhe exigia esforço extra, se encolhendo a cada rumor que não identificava de pronto, os nervos tensos, os músculos enrijecidos pelo esforço contínuo. Viu um recanto protegido de olhares de quem vagasse pela trilha, examinou-o bem, aguardou um pouco mais, comeu duas bananas do cacho que havia trazido, o cansaço o derrubou, deitou-se encolhido e instantes depois dormia profundamente.

Acordou no fim da tarde com a zoeira dos passarinhos que voltavam em busca de seus ninhos. Ficou olhando, meio abobado, o pipilar incessante, as perseguições, os voos erráticos em busca de insetos. Esses são felizes, pensou tristonho, são livres, não devem despertar inveja nem rancores. Ah, Caroço, se pego mecê de jeito torço seu pescoço fino até soltar a cabeça. Desgraçado, tava tudo tão bom. Sentou-se sobre as pernas dobradas e pegou uma banana. São as últimas. A que distância estou da fazenda? se perguntou. Será que não seria melhor voltar, arrumar uma desculpa ou conversar seriamente com Mangusto? E se a suspeita de Adelino estivesse errada? Levantou-se e olhou as árvores até encontrar uma bem alta, onde subiu com uma certa dificuldade. Já não sou mais criança, tenho de reconhecer. Avançou até as grimpas e respirando com esforço, olhou em volta, procurando um telhado, estacas de cercas e ou de currais e só viu o verde do topo das árvores. Não sabia onde estava.

De volta ao chão procurou localizar uma cacimba ou qualquer outro depósito de água. Ai, meu Deus, vai começar de novo aquela sede infeliz, eu devia ter trazido uma garrafa da fazenda. Foi até à borda da trilha e examinou cuidadosamente as cercanias. Viu um cachorro do mato atravessar mais à frente, capitaneando uma fila de cachorrinhos. No final veio a fêmea. Até dias atrás eu tinha meus filhotes e minha fêmea. E agora? Ah, Caroço, miserável, vou esganar mecê! E vou lhe amaldiçoar, Doxinha!

Ainda no crepúsculo voltou a caminhar. Um bando de macacos atravessou a trilha de um lado a outro sem botar os pés no chão, só pulando pelos galhos. Ficou olhando, embasbacado. Gritavam como crianças travessas. Amanhã, lembrou, a casa de Mangusto, na festa do 1º aniversário de Astolfo, vai estar cheia de crianças. E ele, seu pai, não estaria presente. Sentiu se formar um bolo na garganta e seus olhos se encheram dágua. O bobão do Mangusto vai andar de um lado pro outro, sorrindo orgulhoso, exibindo o menino, que seu filho não era como se fosse. E o maldito Caroço, ainda estaria lá ou já estaria fazendo companhia às minhocas do barreiro da furna das capivaras? E como estaria se sentindo o patrão ao saber de sua fuga?

Andando com cuidado, procurando encontrar um lugar para dormir em segurança, sentiu seu pensamento desembestar sem controle. Uma cobra cruzou a trilha mais adiante, esperou que ela entrasse no mato e seguiu, já agora procurando uma árvore onde pudesse dormir sem o risco de se esborrachar no chão nem de ser mordido por uma delas. Não encontrou e ficou sem saber o que fazer. Araras gritaram e pareceu despertar. Que dormir nada, mecê vai é andar, seu besta, respondeu sua consciência. Dormir só de dia e é de noite, hora de andar, lembrou? Sozinho no meio da mata hostil, sabendo que não podia parar, deixou o pensamento tornar a vagar. Assim, pelo menos, não penso nos bichos que estão escondidos nesse mato e que a qualquer momento, a troco de nada, podem me atacar. De nervoso suas pernas perderam a agilidade. Que droga, sô, em vez de ajudar estou me atrapalhando! Forçou a caminhada e em pouco tempo havia recuperado a força e a agilidade das pernas. Só andando vou sair dessa embrulhada.

Já o pensamento, esse sobrevoava a barreira de árvores e ia pousar no terreiro da fazenda de Mangusto, onde a festa devia estar começando. Com os olhos magoados da alma viu os convidados chegando, as crianças correndo e gritando, Astolfo entre elas, a fogueira ardendo e por momento pensou que o menino podia se queimar, pois o pateta do Caroço, se estiver vivo, claro, estaria babujando os convidados em vez de olhar as crianças. Queria ter asas para voar até lá e proteger seus filhos. Lágrimas inundaram seus olhos. Mas Adelino deve estar atento, esse não bebe e não maldava das pessoas, para ele a vida do menino era sagrada. Na certa tomaria conta dele. Que Deus me ouça! No meio da adversidade descobria os prazeres e as dores da paternidade.

A caminhada noturna não era pior que as corridas pela restinga, quando fugira dos piratas. Isso o fez se lembrar, dolorosamente, do tesouro. Se eu tivesse guardado o mapa, se tivesse ido atrás do tesouro, estaria rico e poderia proteger meus filhos. Estou delirando, se tivesse ficado milionário não teria conhecido Mangusto, Ildinha e todos mais. Caramba, tô delirando, divagando. Andando no breu do interior da mata, tateando como um cego, não sabia mais em que pensar. Tô andando há umas duas noites, esta é a terceira, já devo estar muito longe da fazenda.  Só que não tenho como saber. Depois, pensando melhor, Mangusto deve é de estar muito satisfeito com minha fuga, se livrou do pai dos filhos dele sem precisar matar. E quem sabe o plano não era esse, um conluio entre ele e Adelino, seu empregado mais antigo, fiel. A cova que Caroço cavou deve ser pra outra qualquer coisa, mas ele, de combinação com Adelino, decidiu dizer que era pra mim e pro Caroço, só pra me fazer fugir mais depressa. Deve ser isso, os dois velhos safados tramaram pra me mandar embora, os desgraçados.

Miguel chorava em silêncio, Apenas de vez em quando seu soluço se juntava ao coaxar dos sapos, aos pios desesperados de algum pássaro caçado pelos predadores, aos fracos latidos dos cachorros do mato, ao zumbir dos mosquitos em suas orelhas picadas. Tô cada vez mais certo que foi isso, os sacripantas de merda se associaram para me fazer desaparecer. Mas quem sabe um dia eu volto? Aí eles vão ver.

O rumor da água correndo na beira da mata continuava forte. Água, saudou Miguel, e foi se deslocando de lado na direção do rumor. Tenho que beber um pouco senão… minha goela tá seca. Fome ainda dá pra segurar, mas sede… tô até meio tonto. Quando se sentiu mais próximo da corrente se agachou e continuou a andar de gatinhas até suas mãos tocarem na água fria. Uma tímida claridade coloria a barra do céu e conseguiu ver o brilho da água. Foram momentos de intenso prazer, jogando água na cara, molhando os cabelos, bebendo com as mãos em concha, se encharcando por dentro e por fora. O coral de sapos e mosquitos aumentava. Ficou mais um pouco por ali, esticou as pernas doridas, e voltou devagar para a escuridão do túnel de folhas.

Pois é, decidiu ao recomeçar a caminhar, acabo de deixar o Miguel escorrer para a água do rio, tirei ele de mim, ufa! vou voltar a ser Boanerges, o nome que meu pai me deu. Não vou precisar mais de disfarces. Não tenho mais medo de ser encontrado, seja lá por quem for. Continuou a andar, tenho de encontrar uma saída desse inferno negro, mas só quando o dia clarear. Ao longe seriemas gritavam. Os macacos voltaram a saltar nos galhos mais altos e algumas aves piavam sem tristeza. Os mosquitos enxameavam em volta de sua cara. Daí a pouco um risco de luz amarela riscou na sua frente, um bem-te-vi saía para a manhã. Um camaleão subiu por um tronco seco. Seguiu na direção do voo do bem-te-vi e voltou a se encontrar na beira do riacho. Acompanhando a corrente tenho certeza que vou encontrar gente, casas, comida, água limpa. Encontrou piaçocas nervosas. Tizius saltavam e cantavam na cerca viva. Uma garça pousou graciosamente na beira de uma poça água. Sinais da existência de pessoas.

Viva! gritou para o céu, estou a caminho da libertação. Só lamento não ter meus filhos comigo. Mas quem sabe dessa vez encontro uma alma boa que vai me dar condições de pegar o mapa na caveira de burro, encontrar o tesouro, e resgatar Ildinha e meus filhos. Emergira do mato bem na frente de onde saíra na vez anterior, nesse inferno verde a gente nunca sabe direito onde está. Viu um pouco de fumaça no céu pras bandas do poente. Pode ser gente fazendo café ou pode ser incêndio na mata. Lavou novamente o rosto, molhou os cabelos e penteou-os com os dedos. Não quero parecer um louco se encontrar alguém. Bebeu mais água para vencer a fome.

Sufocou um grito de alegria ante a visão de dois homens que caminhavam em sua direção portando, viu quando chegaram mais perto, facões e enxadas. Gente! E seu coração saltou de alegria. Gente, graças a Deus. Um pouco atrás dos dois homens caminhava um negro alto e forte, o chapéu desabado sobre a cara zangada, carregando um fuzil atravessado no peito, cruzado com a cartucheira. Deve ser para protegê-los das onças e de quem não presta. Quase saltitando, se dirigiu aos dois homens, sorrindo para se mostrar inofensivo.

-Bom dia, amigos. Podemos conversar um pouco?

Sequer responderam, continuaram a caminhar, cabeças baixas. Nem o olharam. O homem do fuzil foi quem parou a seu lado, cara enfezada.

-Tá querendo o que, home? Conversá? Num tá vendo que os homens tão trabaiando? Vá em frente.

Deu alguns passos, mandou os homens parar e se voltou para Boa:

-Pensando bem, o que mecê tá percurando?

Os dois homens apoiados na enxada, parados, olhavam para o chão.

-Lugar pra trabalhar, respondeu Boa, rapidamente.

O homem o olhou de alto a baixo, com certo desdém.

-Acho que tenho o que mecê qué. Faz o seguinte: segue reto na direção em que eu vim até topá com uma moita de bambu. Aí quebra à esquerda, sabe o que é esquerda, num sabe? é esse braço aqui – e mostrou o braço que segurava a arma – e vai andando até achá um portão grande, guardado por um homem branco e um cachorrão preto – e ele sorriu torto encantado com a própria piada e diga que fui eu, o Alírio, que mandô mecê procurá o Cobra. Entendeu?

-Sim, senhor, quase gritou Boa e imaginou ter visto um dos homens levantar os olhos e o encarar com pena. Afastou depressa a imagem da cabeça e saiu lépido e lampeiro a procurar o bambuzal. Dessa vez não vou cometer nenhum erro, pensou, já que achava que coisas ruins lhe aconteciam por fazer alguma bobagem.

Não era grande a distância até os pés de bambu, mas com a fome que sentia achou que ficavam do outro lado do mundo. Dali avistou, a uma distância quase igual, o tal portão, na verdade uma cancela, que o levaria à saciedade e ao descanso, porque antes de começar a trabalhar pediria um prato de comida, um copo dágua e uma rede para tirar um cochilo, como fizera na fazenda de Mangusto. Depois de ouvirem o relato da noite passada no mato, certamente o atenderiam sem problemas. Sorriu satisfeito.

O homem do portão berrou para! e lhe apontou a espingarda.

-Vim em paz, gritou Boa, o Alírio me mandou procurar o Cobra.

-Tá bom, vá entrano, devagar, com os braços abertos. Tá armado? O homem continuava a lhe apontar a arma. Tá quereno o que aqui?

-Trabalho, respondeu sorrindo.

-É o que não farta por aqui. Durval, gritou para alguém na casa de barro socado que ficava a uma curta distância. Atende esse sujeito que o Alírio mandô.

Sempre a sorrir Boanerges caminhou despreocupado, braços abertos, coração cheio de esperança e gratidão. Vou comer e dormir, sonhava.

-É o que? perguntou o mulato irritado que chegou na porta.

Boa explicou sua situação, queria um trabalho, mas antes de mais nada queria um prato de comida, pois há dias nada havia posto no estômago. Não consigo nem pensar direito.

-Tá bom, disse o outro, sem desfazer as profundas rugas na testa. O Cobra num tá aqui, mas num vou deixar um homem com fome. Marli, gritou para o interior da casa, prepara um prato de angu pro forasteiro. E mecê vá se sentar ali que a comida já vai chegar.

Debaixo de uma quixabeira uma grande mesa ainda exibia sinais da última refeição. Enquanto esperava, Boa catou umas migalhas de broa de milho no tampo da mesa e comeu, feliz. Uma delícia e se a comida daqui for assim vou recuperar meu peso logo logo. Estava sentindo que emagrecera nessas noites de caminhada. Daí a pouco chegou a mulher com um prato de folha que pôs na sua frente. Nem a olhou direito, só via a comida. Era angu, mas estava bem temperado e ele o devorou. Rebateu com um copo dágua. Uma sonolência o envolveu e dormiu ali mesmo, sobre os braços cruzados, quase em cima do prato. Daí a pouco acordou com alguém aos berros perguntando quem era o indivíduo. Boa levantou a cabeça e viu um grandalhão, a cara vermelha se sobressaindo por baixo de um chapéu de palha, mão segurando uma soiteira a apontá-lo.

-Foi Alírio quem mandô, chefe, explicou o porteiro, ressabiado. Só deixei entrá por isso. E como tava morrendo de fome mandei Marli dar angu pra ele. Parece ser boa gente.

-Isso quem decide sou eu. Vosmecês tão ficando munto saidinhos, decidindo por mim. E ninguém decide pelo Cobra.

-Tá certo, desculpe chefe, num vai acontecê mais.

Boa olhava de um para o outro sem saber o que pensar. Seus olhos estavam meio fechados pelo sono. Levantou a cabeça com dificuldade. O Cobra o cutucou com a soiteira.

-Agora fala mecê. Veio percurar o que aqui? Veio assuntá o que tamo fazeno pra contar pros meus inimigos?

Boa ainda não se sentia inteiramente acordado e não entendia muito bem o que estava acontecendo. Cobra berrou:

-É surdo, é? E se alevante pra falá comigo. Eu sou o chefe daqui.

Ele titubeou e levou uma chicotada no braço. A dor o ajudou a despertar. Levantou-se da cadeira coçando o local atingido.

-Perdeu a língua, vagabundo? Fala depressa antes que eu me irrite: veio fazê o que aqui? Sabe por que tá apanhando? Porque num gosto de intruso meteno o nariz onde num foi chamado.

Completamente desnorteado, sem entender direito o que estava acontecendo, Boa custou a responder e levou outra chibatada no braço. O homem o encarava com raiva.

-Tô procurando trabalho, respondeu. Não precisa me bater, vim em paz.

-E trabaiava adonde antes? Saiu de lá por quê? Foi expulso? Matou ou roubou alguém? Fala logo, sujeito, tá com medo de que? E se demorá vai apanhá sim.

Cobra falava rápido e pontuava as perguntas com pequenas chibatadas. Boa se encolhia e tinha o raciocínio truncado. Não sabia como se justificar, falou o que lhe veio à mente.

-Não fui expulso não, falou, não queria era mais trabalhar lá, pagavam muito pouco.

-Ah, é? E Cobra deu uma risada sarcástica. Pagavam pouco, é? Que coisa mais rica. Que sujeito importante. E acha que aqui vai ganhá muito dinheiro? Que vai me explorá, hein, safado?

Dessa vez a chicotada foi mais forte e atingiu parte de suas costas.

-Ô, Cobra, para com isso, tá me machucando.

-É mesmo, mocinha, num aguenta umas pancadinhas não, é? Vamos vê. É pra belezinha sabê como é o regime aqui. Assim vai se acostumando. Tá pensando o que, vagabundo, que vai levar boa vida aqui?

A sessão de pancadaria prosseguiu, Boa tentou se esquivar, mas esbarrou num negro forte, um dos seguranças, que o empurrou na direção do Cobra. Ele cruzou os braços sobre o rosto, mas a surra continuou, implacável, até que caiu no chão. O chicotinho voava como uma ave faminta e rasgava sua roupa e atingia locais que produziam dores incríveis. Desmaiou.

-Aí, ainda ouviu Cobra dizer, é todo seu, Catete. Pau nesse safado que veio espiá a gente. Assim vai dar ao Ribeiro o recado para num mandá mais espia.

Com dificuldade Boa abriu os olhos inchados e doloridos. Estava sobre uma esteira, numa espécie de galpão com cobertura de sapê. Gemeu. Todo o seu corpo doía. Muito. Levara uma surra cruel. Mas por quê? Só porque pedira trabalho? Que absurdo, nunca ouvira falar de coisa assim. O que havia feito de errado? E que história boba essa de espia, não fazia ideia de quem era o tal Ribeiro. Ô sorte madrasta. Ô, Doxinha cruel!

Tentou levantar a cabeça, a dor era muito forte. Aos poucos foi virando o rosto para o lado. Um homem estava deitado em esteira semelhante à em que estava, olhos fechados, aparentemente dormindo. Tornou a cerrar seus olhos, sentindo que cada pedaço de seu corpo era um foco de dor. De fora vinha o barulho de vozes alteradas, entre as quais sabia que estava a voz do homem que o espancou. Um cachorro ganiu várias vezes. Como eu, tá apanhando, o animal. Também não deve saber por que, concluiu. O galpão mergulhava na penumbra da tarde. O homem a seu lado gemeu. E virou o rosto para seu lado.

-Tá doendo munto? ele perguntou.

Confirmou sacudindo a cabeça, não tinha vontade de falar. O olhar do homem, que era moreno e muito magro, indicava piedade.

-Munto machucado, né? O Catete num tem medida. Dói munto, imagino. Vai acabar passando, mais um dia ou dois. Já passei por isso. Diz ele que é pra gente aprendê a respeitá e obedecê.

-Por quê? conseguiu perguntar e antes de ouvir a resposta mergulhou numa sonolência pesada.

Ficou num torpor que durou por muito tempo. Às vezes ouvia alguém falar, mas seus olhos inchados não permitiam a visão. Sem precisar quando ouviu uma voz de mulher perguntar como ele estava. Presumiu que se tratava de Marli.

-Ele geme munto, disse o homem deitado a seu lado.

-Tombém, disse ela, dessa vez Cobra exagerô. O home num tinha feito nada. Parece que chegô com o demônio no corpo. Bateu munto. E quando deu as costas, como era de se esperá o Catete tomô seu lugá. É outro doente de maldade. Se os outros que tavam chegano não mandassem ele pará, o pobre coitado tava morto. E teve ainda o Valente mordeno as canelas dele.

-Pobre homem, tem razão em gemer, disse o homem a seu lado.

Ela passou um pano molhado pelo rosto e peito dele, alívio inesperado.

-Fiquei com munta pena, o pobre veio pel sua própria vontade se metê no inferno.

-O que ele queria?

-Só trabaiá, pelo que eu sube. E veio dá nessa desgraceira.

-Ele num devia de sabê que aqui era o inferno mesmo para aqueles que o Cobra num  acredita que são espiadores do Ribeiro.

De vez em quando, como se saísse do ar, as vozes iam se apagando até sumir. De repente voltavam. A mulher agora perguntava ao homem como ele estava se sentindo e ante a resposta de que continuava do mesmo jeito, com muitas dores pelo corpo, ela suspirou.

-Quando o Cobra chegá no inferno até o capeta não vai querê ele lá. Ô home ruim.

-Fala baixo que tem espião por toda parte.

-Tem razão. Mecê toma a sopa sozinho, ou prefere que eu dê na sua boca?

-Mecê é um anjo, não merece estar aqui.

-Se a gente não se ajudar… é só o que vale no inferno.

Novamente as vozes se desvaneceram e ele voltou ao torpor. Nem pensar estava podendo. Não soube precisar quanto tempo levou assim, quando acordou, ainda sem poder abrir os olhos direito, ouviu vozes de homens, uns conversando, outros discutindo. Alguém dava uma bronca no tal do Catete. Queria acreditar que fosse por sua causa. Aos poucos os barulhos foram arrefecendo e a pouca claridade sumindo. Deve ser de noite, imaginou, e tornou a fechar os olhos.

Acordou com uma sinfonia de galos cantando, galinhas cacarejando, cães latindo, bois mugindo, imaginou-se na fazenda de Mangusto, sorriu por dentro, porque os lábios inchados ainda não permitiam que sorrisse de verdade. Ouviu o barulho de homens bocejando, falando, alguém reclamando que queria dormir mais. Um deles soltou um palavrão, era uma algaravia. Só então percebeu onde estava. Gemeu.

-Tá na hora de ir pro eito, gritou alguém.

-Deixa eu dormi mais um cadinho, retrucou o outro, com voz arrastada.

-Então fica aí, disse um outro, e espera o Catete chegá com o cachorro. Num instantinho mecê pula da cama.

Quando tudo serenou, ouviu a voz do homem que estava a seu lado.

-E aí, companheiro, como tá se sentindo?

-Muito mal, respondeu, tudo me dói.

-Vai passar. Pior é minha situação, também cheio de dores, acho que estou muito doente, num consigo nem ficar sentado. O Cobra num acredita, avisou que sua paciência está se esgotando, quer me ver na cata. É um animal feroz.

-Que cata?

-Cata de diamantes, não le disseram? Isso aqui tem pedras brilhosas à flor da terra. Uns dizem que é diamante, outros que é brilhante, só sei que, ai, de vez em quando vem uma pontada de dor no bucho munto forte, quase não posso respirá, mas não posso pará, o Cobra tem quase vinte homens aqui trabaiando como escravos, passano o dia a cavá e a olhá o chão, percurando as pedras que brilham. E ái de quem vortá de noite pro alojamento e não trouxé pelo menos um pedreguio. Todo mundo traiz. Quem acha duas pedras esconde uma para mostrá no dia em que não achá nada. Ninguém qué levá uma chicotada e ficá sem jantá. Cobra é malvado de verdade.

-E por que ninguém foge? Eu vou embora assim que melhorar.

Boa tornou a mergulhar na inconsciência. Qualquer esforço, até mesmo falar, o deixava exausto. Acordou com Marli a avisar que o café estava pronto. Ela trouxera canecas de lata cheias para os dois doentes.

-Como vão indo as coisas? perguntou o homem.

-Desculpe, Arlindo, mas agora num dá pra conversá, o homem tá cada vez mais brabo. Mais tarde, depois que ele for pra cata, eu vorto.

Com dificuldade Boa comeu um pequeno pedaço da broa de milho e bebeu uns goles do café, que mais parecia mijo de gato, que ela trouxera. O esforço de se apoiar no cotovelo para conseguir se alimentar o exauriu e se deixou cair da esteira e mergulhou novamente no torpor. A seu lado Arlindo tentava comer e arfava de cansaço e dor. Ficou menos tempo fora de si, voltou com o colega de dor lhe dizendo que devia comer mais um pouco.

-Senão mecê num reseste. E num será o primeiro a morrê de surra aqui. Cobra diz que faiz isso para domá o novato, para que fique bidiente, mas eu acho que ele é doente da cabeça e tem prazê com a desgraça dos outros. Percisa ver a cara de satisfação que ele faiz quando alguém tá sofreno, gemeno. Deve ser meio doido. Agora coma um pouco. Eu me forço a comer e às vezes vomito, mas sempre como um pouco.

Boa comeu mais um pedaço de broa, a boca inteira doía, parecia que o queixo estava deslocado. A broa custava a descer para o estômago.

-Mais um pouco, disse Alcides.  Faiz uma forcinha.

Mesmo com dor, lágrimas escorrendo pelo rosto, comeu toda a broa e bebeu o caneco de café ralo. Quando Marli chegou com o almoço, seguindo orientação de Alcides, ele gemeu mais forte.

-Com essa não precisa, alertou o outro, é só quando tiver gente, aqui tem munto espião.

-Eu fiz um angu bem ralinho, mas com munta sustança, disse a mulher, sorrindo. Botei umas ervas que levanta até defunto.

Boa sorriu fracamente e procurou levantar o corpo. Ela lhe entregou o prato.

-Segura bem. Como só tem uma colé e vô dá na boca do meu doentinho, disse ela, se mecê pudé virá o prato na boca será ótimo.

Com esforço Boa levou o prato à boca e virou devagarinho, sorvendo o angu. Um pouco lhe escorreu pelo queixo, Alcides comia aos arrancos, como se soluçasse. Com muita paciência, sorrindo sempre, a mulher fez com que ele tomasse todo o angu.

-Viva! gritou ela, o meu garoto comeu tudo. Vai até ganhá sobremesa. E do bolso do vestido tirou um pedaço de doce e o botou na boca do doente. Outro pedaço passou para Boa.

-E mecê, meu rico, tá miórzinho? Boa tentou sorrir, mas os lábios rachados fizeram com que gemesse. Pode deixá, que mais um dia e vai podê até xingá o bandido do Cobra.

Ela passou um pano no rosto dele, limpando o resto de angu que escorrera. Assim que ela saiu do galpão, Alcides se virou para o outro lado e vomitou tudo o que havia comido. O cheiro de azedo encheu o ar e Boa entendeu a razão do mau cheiro que vinha sentindo quando tomava consciência. Mais tarde, quando os homens chegaram para o repouso do fim do dia, muitos reclamaram do mau cheiro. Um deles trouxe Catete.

-Tá veno, Catete, como isso aqui fede? Quem guenta ficar aqui? Vou dormi no relento.

-Quando era só catinga de mijo e cocô ainda podia ser, reclamou outro, mas desse jeito. E ainda tem o Asdrúbal que peida mais que vaca velha.

Catete aproximou-se das esteiras onde os doentes estavam, Boa sempre com os olhos fechados e soltando um gemido de vez em quando.

-Tá doido, sô, que fedô. Será que esses dois tão podres? Quando o Cobra chegá vou falá prele botá esses fedidos pra dormi lá fora, isso sim.

E para encerrar deu uma chicotada no ar. Boa não pode impedir de se encolher e gemer. De manhã a cara preocupada de Marli dizia de seus medos.

-Catete falou com o Cobra e o miserável mandô não que pusessem mecês no sereno, mas que jogassem no buraco do lixo. Ele acha que mecês tão perdidos mesmo, então mandô jogá no lixo. Disse que não vale a pena gastá comida e atenção com mecês.

Marli chorava em silêncio. Alcides gemeu mais forte. Boa sentiu um aperto no peito.

-Eu pedi a ele, contou Marli, implorei pra esperá mais uns dias até mecês ficarem mais fortinhos, mas os homens tão azucrinando a paciência de Catete, que despeja tudo nos ouvidos do cabrão.

-Mecê vê, sussurrou Alcides, uns desgraçados que penam no inferno, que sabem como o Cobra é ruim, fazem essa intrigalhada. Mas tenho fé que vão sofrê pior que nós um dia.

Na hora do almoço Marli trouxe o angu ralo, mas Alcides não conseguiu engolir. Gemia alto e arfava. Boa pode se sentar, embora com muitas dores.

-Mais tarde venho dá uma limpeza aqui pros homens pará de reclamá.

No fim da tarde, antes da chegada dos homens, Marli entrou com um balde e uma vassoura. Lavou tudo com creolina. O cheiro forte do desinfetante quase impediu Boa de respirar. Arlindo nada falou. Marli tentou alegrar o ambiente, falando bobagens, rindo, cantarolando, mas nenhum dos dois reagiu. Boa estava notando que desde depois do almoço que o outro se mantinha calado e supôs que caíra no mesmo torpor que o atacava de vez em quando. Marli, porém, chegou perto e viu que ele estava morto.

-Coitadinho, fungou, vou rezá uma avemaria pelalma dele.

E durante alguns minutos balbuciou a reza. Lágrimas desciam pelo seu rosto.

-Marli, perguntou Boa, iluminado por uma ideia que brotara em sua mente enferma, o que vão fazer com o defunto?

-Jogá no buraco do lixo. É o que sempre acontece. Deixam lá pros bichos comê.

-Marli, mecê não poderia dizer pro Cobra que eu também morri?

Ela se espantou:

-Mecê tá quereno sê jogado no lixo? Tá doido, home?

-Tô, e mecê que é tão generosa, faz isso por mim, por favor. Lá, pelo menos, tenho uma chance de escapar. Por favor, pediu de mãos postas, vendo a cara de pavor dela, me dá essa oportunidade. Pelo amor de Deus, não me deixe aqui! Eles vão me bater até me matar. Por favor!

-Lá é horrível, cê num faiz nem ideia, tudo que morre vai pra lá, o fedô é demais da conta. Os urubus atacam e cachorros do mato arrancam pedaços dos defuntos.

-Por favor, Marli. Tudo, menos isso aqui. Quero ir embora, nem que seja para morrer no caminho. Eu não aguento mais.

LINA

O que Boa primeiro sentiu depois da queda – fora lançado com força da carroça onde fora transportado ao lado do cadáver de Alcides – foi o intenso, descomunal mau cheiro. Constatou que era difícil se levantar, tendo de se apoiar em matérias putrefatas que se desfaziam e afundavam ao seu toque, mas insistiu. Não posso perder essa chance. Me ajude, santa do brejo! Uma nuvem de urubus veio em sua direção e se pôs a sacudir os braços desesperadamente. Surpresas, as aves se afastaram em voos curtos e pousaram adiante, sempre atentas. Algumas bicavam o corpo de Alcides. Com imenso sacrifício, gemendo e chorando, ele conseguiu se agarrar às bordas da cratera onde ficava o lixo e se arrastar pelo chão de terra mais ou menos limpo. É a pior fase dessa minha vida louca, pensou, mas como das outras vezes vou me safar. Não vou dar essa alegria a Doxinha. Pôs-se de joelhos. Jogou pedaços do que encontrou em uns urubus mais atrevidos que foram em sua direção. Ouviu latidos e pensou nos temíveis e famintos cachorros do mato. Em seus dentes afiados e em sua fome. Mais um esforço, se pôs de pé e agarrou umas árvores finas que quase o jogaram de volta ao chão. A catinga o sufocava e um urubu mais ousado bicou seu calcanhar. Suas pernas tremiam violentamente.

-Sai, praga dos infernos, não vou ser seu jantar.

Respirou fundo, procurando virar o nariz na direção da massa de árvores, onde o fedor era menor e apoiando-se nelas foi se afastando do lixão. O barulho das aves disputando o corpo de Alcides aumentava seu pavor. Os latidos dos cachorros do mato estavam mais próximos. Outros bichos gritavam e rosnavam. Tremia de medo e nojo. Reunindo as poucas forças que lhe restavam avançou pela macega, arranhando-se nas urtigas e nos espinhos. Não saberia dizer quanto tempo se arrastou, mas ao sentir que havia se distanciado bastante do buraco do lixo, deixou-se cair de joelhos para descansar. Arfava. O coração batia descompassado. A garganta ardia de sede. Recostou-se no tronco de uma árvore e fechou os olhos. Abelhas zuniam. Preciso descansar para me recuperar e continuar, pensou. A tarde caía devagar.

Acordou quando os primeiros raios de sol, atravessando a massa de folhas, bateu em seus olhos. Havia escorregado e estava esticado no chão. As abelhas e moscardos continuavam a rondá-lo. Se apoiou nas palmas das mãos e foi se erguendo lentamente até ficar sentado. Olhou em volta. Estava muito cansado e respirava mal. Estava numa trilha estreita e se arrepiou ao pensar que animais podiam ter passado pelo seu corpo durante o longo sono. Não, do jeito que estou fedendo eles não se aproximariam de mim. Nem as abelhas chegam mais perto. Só as moscas pousam em mim. Mais um esforço e se pôs de joelhos. Descansou um pouco e arfando e se apoiando no tronco conseguiu ficar de pé. À sua frente uma jiboia coleava e sumiu no meio do matagal. Tenho que sair daqui, já não chega a cobra de lá? Que má sina, saio do inferno e venho parar no meio de bichos bravos. Ah, Doxinha, tô pagando com juros as facadas que lhe dei.

LINA

Roçando nos troncos, esbarrando nos galhos quebrados, tropeçando em cipós, fechando os olhos para fugir do sol cegante, foi indo até, sem perceber, entrar numa depressão do terreno, cair e seguir rolando. Ainda bem que é capim, pensou enquanto, sentado, sacudia os fiapos da roupa imunda. Devo ter rolado bem uns três metros. E agora, meu Deus, o que me espera? Ouviu um rumor de água fluindo perto dali. Vou matar a sede.

Um pássaro parecido com uma galinha atravessou a depressão. Os barulhos de sempre vinham da mata junto com cantos maviosos de passarinhos. Parece papa-capim, se pudesse armava um alçapão, adoro esse cante. Ouviu uma voz de mulher cantarolando ao longe. Mora gente por aqui, surpreendeu-se. Que bom. Vou me arrastar até o rio e lavar a cara, devo estar horrível, e vou procurar esse povo. Sem pressa, com o corpo machucado ralando na poeira, o que aumentava suas dores, embicou para o riacho. Gemia alto, não conseguia se controlar, tudo lhe doía.

De um capão alto, de onde vinha a voz da mulher, surgiu um bonito rosto negro, gordo, os  cabelos cobertos, presos na nuca por um lenço estampado, do lado esquerdo a feia marca de grande queimadura na bochecha. Ao vê-lo, soltou um grito e deu um pulo para o lado.

-Gente do céu, o que é isso? E de imediato tapou o nariz. Valha-me Jesus, o homem está podre.

-Me ajude, dona, e ele estendeu o braço emagrecido. Por amor de Jesus, me ajude.

-O que aconteceu com mecê, criatura? ela perguntava, sempre com o nariz coberto.

Ele não sabia onde estava e o que podia falar. E se ela fosse da turma do Cobra? Dos seus olhos lágrimas silenciosas escorreram. Preferiu ficar calado.

-Pelo fedor, mecê deve de tá vindo do buraco do lixo, né não? Ele continuou calado. Já vi outros casos desses. Tá fugindo do lamparão do Cobra, já sei. Ela se aproximou mais, sempre com o nariz tapado. Seus olhos se arregalaram. Meu Jesus, o que fizeram com mecê. Tadinho. Dependendo do dia, o Cobra é uma peste, gosta de batê até matá. Num sei como escapô.

Ele a olhava assustado, não sabia o que pensar. A mulher conhecia o Cobra, conhecia sua maneira de agir, como morava perto dele sem nada sofrer?

-Seguinte, continuou ela, vou cuidá de mecê. Ó, tá fedendo demais, vê se consegue chegá no riacho e se lavá, num guento essa catinga. Minha casa é aqui perto. Vou lá pegá sabão e uma muda de roupa procê.

Os olhos dele indicavam medo. A voz tremia.

-A senhora não vai me denunciar?

-A quem? Ao Cobra? Não, num vou não. Aquele lamparão já me fez munto mal, quero mais é que ele morra. Vai indo pro regato, vai, que já vorto com a muda de roupa e o sabão. Tire essa roupa nojenta e deixe as águas levar pra longe. Não fique com vergonha de ficar nu, porque além de mecê ter mais osso que carne, já cansei de ver macho pelado.

Boa sentou-se no capim e foi se arrastando até sentir água nos dedos dos pés. Suspirou de prazer, dobrou o corpo e encostou o rosto na água corrente e fria. Algumas partes arderam. Devagar foi molhando o resto do corpo, a começar pelos braços, peito e barriga. Ficou surpreso com o desaparecimento de suas carnes. Só tinha pele e ossos. O regato era raso e pode estirar-se ao longo da corrente, deixando que a água o lavasse e levasse parte da morrinha de tantos dias sem banho. Quando a mulher retornou o encontrou nu, estirado.

-Tá se sentindo mió? ela perguntou.

A voz dela o constrangeu e num gesto reflexo sentou-se e procurou com a mão a roupa para se cobrir, mas as límpidas águas do riacho já as haviam empurrado para longe.

-Deixe de bobagem, home, a mulher o repreendeu. Tome aqui o pedaço de sabão e esfregue o que pudé, pois dá pra ver que essas manchas roxas e as cicatrizes devem doê munto quando toca nelas, né? Tem cada corte! Como apanhou, coitado!

Ele sorriu com dificuldade, satisfeito com a preocupação dela. Há muito tempo ninguém se incomodava com ele, com o que pensava ou sentia. A última talvez tenha sido Zira. Uma névoa envolveu seus olhos. A mulher lhe estendeu o pedaço de sabão. Lavou a cabeça, também ali havia feridas. As moscas se afastaram.

–Como é sua graça? a mulher perguntou. O meu nome é Andrelina, mas o povo me chama de Lina. Eu gosto.

-Meu nome é Boanerges, Boa respondeu, esfregando o sabão no corpo com cuidado. Ela havia trazido uma bucha, que lhe passou. Tô muito sujo. Acho que vou levar o resto da minha vida para me limpar direito.

-Num exagera, a mulher sorriu. E que idade mecê tem?

-Também gostaria de saber. Acho que uns trinta anos ou  menos um pouquinho, por aí.

Ele falava com dificuldade e esfregava o ventre e os genitais.

-Como emagreci, exclamou, pareço bacalhau de porta de venda.

-Vai recuperá logo. Mecê é casado?

-Viúvo, mas tenho quatro filhos com outra mulher.

-E cadê eles?

Ele baixou a cabeça e se concentrou em lavar os pés, com um esmero que ele mesmo desconhecia. Lavou entre os dedos, limpou as unhas com um graveto, esfregou a sola com a areia do rio, sem falar. Ela entendeu que ele preferia não tocar no assunto.

-Já tá mais ou menos limpo, observou ela, vem comigo, na minha casa tenho arnica pra curá essas feridas e clariá as manchas roxas. Estendeu a mão. Pode vir, sem susto. Se enrole neste saco de estopa, a muda de roupa já tá separada. Como ele hesitasse, concluiu: vamo logo, home, deixa de fricote.

Com o apoio da mão estendida se levantou e com pernas trêmulas a seguiu. O vento frio ajudou a limpar sua mente. A pele estava arrepiada. Um fraqueza imensa fez com que parasse algumas vezes. Ela esperava, paciente.

-Fica longe a sua casa? Não sei se aguento andar mais…

-Nada, fica logo ali – e apontou o queixo na direção de algumas bananeiras. Vambora.

Mais uma vez era socorrido por uma mulher, logo ele, que esfaqueara Doxinha. As lágrimas de arrependimento voltaram a brotar de seus olhos. Ela percebeu e o acompanhou calada. Segurando o saco de estopa amarrado num nó em frente a seu umbigo, ele cambaleou até uma casinha de barro socado, telha de sapê, construída na sombra de uma grande árvore. Uma galinha espaventada saiu correndo quando entraram.

-Aqui é meu ninho, minha toca. Nem cobra grande nem cobra pequena aparece por aqui.

Na sala/cozinha uma mesa cambaia, dois bancos pequenos, prateleiras presas na parede com panelas, pratos e canecas de folha, um ramo seco de palmeira, uma estampa de santo e lamparinas sobre o fogão de lenha. Junto à porta uma lata de banha de porco servindo de vaso para um retorcido pé de comigo-ninguém-pode. Outras galinhas e galinholas ciscavam no quintal. Ao pé da árvore um gato rajado se limpava. Junto da porta um cão malhado dormia.

-É minha única proteção, explicou ela ao vê-lo fixar o olhar na planta. Mas ninguém vem me perturbá. Agora larga desse saco e senta no banco. Isso. Vô passá arnica nocê e mais uma pomada que faço com outras ervas curativas. E vô rezano pelo seu corpo inteiro enquanto passo. Não precisa se encolhê, num vai ardê, só quero acabar com seu sofrimento.

Mais tarde ela preparou uma sopa que ele tomou com alegria e dor, pois a boca estava ferida e cada colherada ardia como se tivesse pimenta. Um sono bom o invadiu. Ela percebeu e estendeu uma esteira no chão onde ele se estendeu. Depois o cobriu com um cobertor esfiapado.

-É veio, mas é limpo. Num tenho é travesseiro, nem pra mim, se percisar use um tijolo enrolado num trapo. Quando acordá passo de novo os remédios.

O toque da mão dela era suave e quase não sentiu a aplicação da pomada de arnica. Apesar da fraqueza sentiu prazer com os toques em seu sofrido corpo.

-Sossega, macho. Vamos cuidá de seus ferimentos, disse ela, sorridente.

-Mecê tem muita prática, ele notou.

-Sempre tratei dos doentes, desde os tempos em que vivia em minha casa. Faço pomadas, chás, unguentos. E ainda sou rezadeira. Aprendi com minha vó.

-E saiu de casa por quê?

-Por causa do lamparão do Cobra. Eu era nova, bonita e boba, mas isso não serve de justificativa, meu fogo ardeu desde cedo, tinha era uma vontade grande de bater asas, de conhecer o amor e aí chegou o cabrunco e com meia conversa me conquistô. Burrice minha, tesão de menina, sempre fui assanhada. Ele me tirò de casa e me trouxe para as minas dele. No início foi munto bom, ele é carinhoso, me dava tudo o que pedia e me sentia uma rainha no meio daqueles brutos. Todo mundo me respeitava e bajulava, eu era a muié do chefe. Nunca aprovei a violência, ficava chocada com o que ele fazia, mas quando ele me abraçava esquecia tudo. Até que ele se cansou. Fiquei prenha na hora errada, levei uma surra daquelas e perdi o bebê. Pensei que ele ia gostar de sê pai, mas ele tem é horror. Um dia trouxe uma muiézinha horrorosa e botô no meu lugá. Não, não era a Marli, o caso de Marli é outro, e me jogô na cozinha. Trabaiava desde que acordava até cair morta de sono. No dia que não gostou da comida me jogou a panela na cara. Me queimou, o infeliz, por isso trago essa marca. A outra, a tal que tomô meu lugá fugiu com um dos empregados, ele botô o feitô na cola dele e aí… já sabe, né, buraco do lixo pros dois.

-E como mecê se livrou dele?

-Com minhas rezas. De manhãzinha entrava na mata e invocava meus anjos da guarda, fazia minhas orações e um belo dia, sem mais aquela, ele mandou o cachorro do Catete me fazer sair dali. O cabrunco do capacho quis se aproveitar pra me comer, mas peguei um pedaço de pau e quase aleijei o coisa ruim. Vê se ia deixá. O Cobra gostô, riu, disse que eu era muié pra burro e aproveitei pra dizê que ia embora da cata, não do lugá, que ia levantar um casebre, este em que nós estamos e que ele num fosse besta de impedi. Ele me olhou de lado com cara de surpresa e nada falô. Ele sabia que eu não podia voltá pra casa, minha mãe num ia me aceitá de vorta, me considerava uma perdida.

Lina parou, a voz embargada. No alto das árvores a passarada desatava seus contos.

-Minha reza é munto forte, meu anjo da guarda me protege bem, pois o desgraçado nem discutiu. Alguns dos homens que eram meus amigos, um veio a sê meu amante até morrê das febre, me ajudaram a fazê essa casinha. Sei que ele sabe que moro aqui, mas por alguma razão tem medo de se metê comigo, andei espaiando que era meio bruxa. E só saio daqui depois que ele batê as botas. Quero ir ao enterro dele e cuspi na cova.

-E mecê não tem medo que ele se zangue por me ajudar? Marli me disse que ele guarda raiva e é vingativo.

-Já ajudei outros. Consegui meter na cabeça daquele idiota que sou mesmo bruxa e que só não fiz mal a ele porque já gostei munto dele. Mas que se me aborrecê… Ele acreditô, vivo em paz, graças ao bom Deus. Mas nada garante que vai continuá sempre assim. Tomo meus cuidados.

-Se é perigoso, por que continua por aqui? Por que não vai pra vila mais perto?

-Com essa cara marcada? Não, munto obrigada, já vi o que acontece com as pessoas que tem arguma marca de violência. Inda mais tendo morado na cata. Todo mundo acha que foi merecido, que a gente num presta e aí… Depois todo mundo tem medo do desgraçado e vai percebê que foi ele que fez isso. Vamos deixá isso pra lá, tô bem aqui.

Foi muito lenta a recuperação de Boa. Por sorte não sofrera fraturas, mas todo o corpo estava muito machucado. Lanhos e edemas cobriam suas costas. Raladuras e equimoses nos braços e pernas, apanhara muito. Durante dias teve febre. Lina conseguira na vizinhança ervas para fazer chás curativos e de seu quintal tirara folhas de bananeira para cobri-lo, uma forma de evitar que secreções e cascas de ferimentos se grudassem na roupa. Enquanto a observava a tratar dele, Boa tentava imaginar sua idade. Acreditou que devia ter pouco mais de 30 anos. Ela não quis dizer a idade certa.

-Comecei na vida munto cedo, devia ter uns 14 anos quando o animal me tirô de casa. Agora tô bem, mas já comi o pão que o diabo amassou.

-Não quis voltar para sua casa?

-Não, tive vergonha. Prefiro que minha mãe pense que morri… ou que sou feliz.

-Vive isolada. E como se sustenta?

-Planto abóbora, mandioca, batata doce e até chuchu, que aqui nesse fim de mundo quase não tem, não passo fome. Pesco no riacho, pego uns passarinhos nas arapucas, uns lagartos gordos, troco comida com os vizinhos, no meio desses matos mora munta gente, tudo amigo, dá para vivê. Quando os vizinhos matam um porco vou lá ajudá, ganho um bom pedaço, um naco de toucinho. Quando fazem farinha ajudo a coiê as raízes, raspo mandioca, ralo na bolandeira, sou prestativa. Igualmente quando arguém coie mio ou aipim. Não vivo bem, mas fio da puta nenhum manda em mim.

Um mês depois Boa podia se sentar sem gemer. O corpo ainda doía um pouco, as carnes custavam a voltar a cobrir seus ossos, mas o organismo se refazia.

-Como bate o desgraçado, por pouco não me mata.

-Já matou outros, observou ela, é um animal. Tem prazê em dominá os coitados, em bater neles, em senti que tão com medo dele. Ninguém nunca escapô dali.

Dia após dia a descansar, ora deitado na esteira, ou caminhando devagar pela cercania. A comida de Lina era gostosa e farta e aos pouco recuperou a saúde. Gostava do  verdor das plantas, do cheiro do mato, dos barulhos e cantorias dos passarinhos. Viu pegadas de onça e se assustou, Lina o acalmou.

-Aqui é bom de se viver, comentou um dia ao se sentir bem disposto, mas preciso ir embora. Tenho muita raiva no peito e isso tá me fazendo mal. Se eu pudesse destruía a cata do Cobra, pendurava Catete pelo pescoço numa corda no galho mais alto da árvore mais alta e deixava que secasse ao sol. Depois fazia o caminho de volta para onde eu vivia, muita coisa ficou obscura para mim, talvez minha fuga da fazenda de Mangusto tenha sido precipitada, ou pior, tenha sido fruto da armação de uns canalhas que lá vivem, preciso saber. Tenho ganas neles porque me afastaram de meus filhos, quero eles de volta junto com aquela… nem sei como chamar a Ildinha, é uma pobre coitada.

-Nesses dias de febrão mecê falô munto, reclamô de um caroço traiçoeiro, contô da sua vida e dos seus fios e acho justo que queira eles de volta, mas acho difícil. Houve um trato que mecê aceitô, não foi? Então, não tem como voltar atrás. Seus filhos só existem por causa desse trato, daí… Depois o fazendeiro é rico, contrata capangas, deixa quieto.

Boa chorou, sabia que ela estava certa. Seus filhos nunca seriam seus de verdade.

-Refazer sua vida não implicava em voltá à fazenda, ela lhe explicou, descobri o que ou quem o fez fugir, e recuperá filhos que não sabem que são seus. Num dá mais pra montá o quebra-cabeça que fora sua saída de lá.

Muito tempo havia passado. Lina tinha razão, concordou, melhor era começar tudo de novo em outro lugar. Os filhos seriam doce lembrança. Ela o olhava com pena e até o cachorro veio lamber suas mãos.

-Despois, ensinou ela, ódio só faiz mal a quem sente. Procure outros caminhos, pode sê que numa das voltas do mundo mecê esbarre nesse povo ingrato.

Ele limpou os olhos com a fralda da camisa e sorriu para o cachorro. Lina continuou:

-No sono mecê falô tombém de um tesouro, digo, do mapa de um tesouro que enterrô dentro de uma caveira de burro numa vila, é isso mesmo?

Ele balançou a cabeça concordando. A cena voltou inteira à sua memória.

-Não sei se tô pagando essa penitência por ter matado a Doxinha ou por ter roubado o mapa do tesouro. E quero voltar lá na vila pra pegar o mapa e procurar o tesouro. Aí, resolvo minha vida, posso até, quem sabe, pegar meus filhos de volta mais Ildinha.

-Ilusão ajuda a gente a viver, mas nesse caso sua oportunidade pasô. Despois que mecê me contô, fui consultá o meu povo da floresta. Faço munto isso, eles me tiram as dúvidas, dão conseios importantes, nunca me faiaram. A caveira de burro, me disseram, virou pó e o tal do mapa se desfez. Não existe mais mapa e o tesouro tá perdido. Me disseram que um dia, Deus sabe quando, num lugá no mundo perdido, sem querer alguém vai esbarrá com o ouro, mas não vai aproveitar munto dele, o espírito de Sem braço tá atento e vai arrumar um jeito de divulgar o achado com alarido e vai ajuntá gente para disputá o tesouro. Vão morrê muntos, o tesouro tá amardiçoado. O pior é que a vila onde o mapa foi enterrado vai encruar, nada ali vai dá certo. Todo mundo sabe que caveira de burro enterrada não dá sorte. E morreu munta gente por lá. Pra mecê é melhor esquecê tudo ou sua vida vai continuá nesse desacerto de agora.

-Acho que tudo isso é por conta de praga que Doxinha me rogou na hora da morte.

-Não existe praga, ela disse filosoficamente, existe remorso.

Ele passou um tempo com a cabeça abaixada, o queixo quase enfiado no pescoço. Ela achou que estava chorando, mas logo ele se levantou e passou um tempo olhando o céu que escurecia. Estava pensando se valia a pena ir para a vila do Marreco Azul, como sugerira Lina, que contou que sonhava em virar cidade e que não ficava longe dali.

-Um lugar que tá crescendo, contou ela, e é pra lá que mecê deve de ir, é grande, cheio de gente e o animal do Cobra não vai se dá o trabalho de percurá mecê por lá. O povo de lá num gosta dele e tem os tais chefões que obrigam o safado a num se mostrá munto. Aliás, a essa altura ele tá pensano que mecê apodrece no buraco do lixo. Eu tenho um compadre que mora numa casinha a um dia daqui, o Zé Pereba, que é munto meu amigo. Chamo de compadre atoa, não é nada meu, só amigo do coração, é gente da mió qualidade, me ajuda, de vez em quando levo uns ovos ou um frango e troco por roupa ou quarqué outra coisa que percise com ele. Tem uma venda que atende o povo de lá. Vou com mecê até a venda dele, ele vai me dizê o que devemos fazê.

-E se o Cobra vier a sabê, pode…

-Pode nada, o Cobra só é macho nesse pedaço de terra esquecido pelo mundo e graças a seus protetores que não deixam as otoridades olharem pra cá. Otoridades que tombém num faiz questão de olhá pra cá, tudo gente pobre, desvalida. Só querem sabê das pedrinhas que briam.  Pra isso deixam os donos da cata muntas patacas nas burras certas, pra serem esquecidas, pra não ser incomodadas. E todo santo mês, talvez mecê presencie, acho que não, já que vai simbora, sai daqui um carregamento que brilha e enriquece os maiorais. Eles não deixam que nada aconteça ao miseráve do Cobra. Tombém não deixam que ele fique se mostrando. Um dia, quem sabe, o Cobra faz uma besteira e desagrada os homens? É o meu sonho.

Boa colhia umas laranjas atrás da casa para compor a cesta que Lina pretendia levar para Pereba quando ouviu um tropel se aproximando. Cauteloso, se meteu entre as bananeiras que vicejavam cercadas pelo mato e viu um grupo de cavaleiros que vinha à toda estacar com espalhafato diante da casa de Lina. À frente do bando, o Cobra. Lina surgiu na soleira da casa enxugando as mãos no avental, o rosto sério, o olhar destemido. O cachorro perfilou-se a seu lado e olhava o grupo sem simpatia. Deve ter sofrido algum insulto do grupo, pensou Boa, de ordinário o cão era manso. Rosnava baixinho. Lina alisou sua cabeça.

-O que há com esse pulguento? perguntou o Cobra apontando o cão com a soiteira.

-Ele é que nem eu, respondeu a mulher, ainda tem lembrança das suas maldades. Veio fazê o que aqui, home? Perdeu arguma coisa?

-Saudades suas, ele riu, malicioso. Seus olhos vasculhavam os arredores. Continua a vivê sozinha ou  se amigô com um caboco da terra?

-Num é de sua conta, ela ripostou.

Ele desmontou do cavalo num salto, um baio rebelde que ficou pateando, e foi até ela.

-É estranho muié nova viver sem home. A pissirica num coça? Ele levou a mão ao seio dela, que recuou para dentro de casa. Num tá quereno matá a saudade do meu chamego?

Ele continuou a relancear os olhos pelo terreno.

-Num vai nem me fazê um café? Só pra mim, os homes num querem não. Enquanto a água ferve eu dou uma bimbada em vosmicê.

-Sai daí, Cobra. Como home pra mim mecê morreu. Ele riu alto, debochado. Já viu o que veio vê, num já? Então amonte de novo e vá explorá seus escravos.

-Mecê continua a abusada de sempre, né? Eu gosto disso, de quem não tem medo de mim. Deu a volta por trás da casa, Boa se enfiou todo na moita de bananeiras. É, parece que tá limpo, olhou para os homens que aguardavam calados, alguém anda vendo fantasma. Viram alguma coisa? perguntou pra eles, que negaram com as cabeças. Tem gente que vê coisas. E aí, morena, num vai mesmo fazê o café? Olha que boto mecê pra corrê daqui em dois tempos.

Ela nada disse, continuou a encará-lo. Ele deu uma volta em torno de si mesmo e montou no cavalo que bufava.

-Calma, Barão, calma. Vambora, gente. E olha, dona moça, num vô mais repeti, não quero vagabundo nas minhas terras. Portanto…

E partiu em disparada. Daí a pouco Boa surdiu do mato, branco e trêmulo.

-Tá na hora mesmo de eu sumir, ele deve ter recebido alguma denúncia.

-Pode ser, mas ele faiz isso de tempos em tempos, é só pra assustar os moradores. Vai agora corrê outras casas. Mas me deu uma ideia, vou fazê um café pra nóis comê com tapioca. Bonitas as laranjas, Pereba vai gostar. Bota ali na cesta.

Boa reparou que o cachorro voltara a dormitar na soleira. Lina seguiu seu olhar.

-Esse animal era do acampamento, disse ela ao perceber que ele olhava o cão, um dia o Cobra chegou manifestado, o pobrezinho foi fazê um agrado, levô um chute que quase o matô. Era novinho, foi pará do outro lado da cerca. Cobra é assim, de veneta. Eu soube da história, sempre gostei de bichos, procurei no mato onde ele havia se escondido e trouxe pra cá. O pobre não pode ver o cabrunco que se arrepia todo.

-O cachorro é que nem eu, né? Um sofredor.

Durante o café ela lhe comunicou:

– Já que decidiu ir embora, vamos sair bem cedo que daqui até à venda do Pereba é um estirão. Vamos levá vazio baú de vime que tenho e toda vez que a gente suspeitá que vamos cruzá com o bandido e seus comparsas, mecê se enfia no baú, tá certo? É para evitá aborrecimentos.

-Depois do sucedido com Doxinha acho vou passar o resto da minha vida andando de um lado pra outro, sou o andarilho da penitência, disse ele, compungido. É a expiação do meu crime. Eu era tão jovem, quase um menino, quando fiz a besteira. Será que um dia vou ser perdoado?

-Deixa de bobagem, atalhou ela. Se assim fosse a gente ia vê metade do mundo andano sem pará por aí. E chega de remexê o passado, vamos oiá pra frente, que coisa! E para de se lamentá que não gosto disso.

Boa se sentia recuperado fisicamente. Tinha passado a puxar da perna, em consequência da violência que sofreu. Um dia ainda pego o desgraçado do Catete, imaginou, mas logo ouviu a voz da Lina recomendando que esquecesse, que recomeçasse a vida sem rancores.

Pela estrada ensombrada por folhagens semelhando um túnel seguiram sem sustos. Um dos vizinhos emprestara a carroça. Levavam o baú, um pequeno cesto com comidas para merendar, um cacho de bananas quase verdes, as laranjas, batatas doces e raízes de mandioca. O cachorro corria ao lado da carroça, língua de fora.

-Não foi o que eu disse? perguntou Lina. As pessoa aqui são companheiras, ajudam, talvez por que vivam isoladas e sabem que vai ter momento em que vão precisar de apoio das outras.

-Isso aqui é bem calmo, observou ele. A estrada é estreita, mas como quase não passa ninguém… por outro lado é perigosa, tão deserta, se um bandido quiser roubar…

-Pode ficá descansado, esse é o único benefício que Cobra trouxe. Logo no principio tinha ataques, o povo vivia amedrontado. Como tem medo que suas riquezas sejam roubadas, o Cobra entrou em ação e liquidou uma meia dúzia, suas caveiras estão no buraco do lixo. A notícia se espaiou pelas brenhas e ninguém mais veio fazer malfeitos por aqui. Sabem que vão ser caçados. O que tem aqui é bicho brabo, jaguatirica, onça. Cada cobra! Certa feita, eu vinha no cavalo do Biju, quando ele refugou e como eu batesse nele com a varinha, bem de leve, que não gosto de fazê ninguém sofrê, nem bicho, que dirá gente, ele se pôs a patear, a dá pra trás, aí resolvi assuntá e fiquemo parados um pouco debaixo de uma árvore. Eu olhava e olhava e não via nada. Até que do meio do mato, a umas duas quadras de donde eu tava surdiu uma onça acompanhada de cria, e bicho com cria fica munto perigoso, o cavalo sabe disso, ele sente o cheiro de longe, e ficou com medo de cruzá o caminho da bicha. Ui, fico arrepiada só de pensá no que podia acontecê. Passado um tempo o próprio cavalo vortô a andá, munto satisfeito, eu acho, pois sacudia as crinas com vontade, parecia de tá rindo. Fora disso…

Ele relanceou os olhos pela mata.

-E olha que já andei por esses matos, de noite e de dia. Me arrepio só de pensar. Se eu soubesse…

-Bobagem, bicho só ataca pra se defendê e pra caçá o que comê e parece que vosmicê num é uma caça muito apetitosa.

E ela riu com gosto, olhando-o com o rabo dos olhos.

-É brincadeirinha, disse, foi só para desanuviá o ambiente.

Andaram toda a manhã, com uma rápida parada junto a um córrego pro burro se dessedentar. Ela desceu, verificou o estado dos arreios, alisou o pescoço do animal. Boa continuou na carroça, ainda cismado com a presença de feras. Perto do córrego viu umas saracuras alvoroçadas e um grande número de aves de todas as espécies que desciam para beber ou pulavam de galho em galho cantando sem parar. Saíras e sabiás eram as mais comuns, embora um gavião as espiasse com olhos de fome. No alto, urubus planavam, o que lhe provocou arrepios.

Tornaram a parar por volta do meio dia, hora que as sombras indicavam. Era um espaço mais ou menos circular, mais ou menos limpo de gravetos e folhas. Debaixo de uma ingazeira frondosa eles saltaram. Ao longe, macacos guinchavam.

-Paro sempre aqui, explicou ela, enquanto desatrelava o burro, que fica mais ou menos na metade do caminho pra casa do meu bom amigo Pereba. Aí mandei pregá essa                                                               prancha pra gente podê assentá enquanto descansa e come. Desse caixote aí faço a mesa. Pode saltá, homem, tem perigo de bicho brabo aqui não. Inté parece que é medroso. Riu, divertida. E mecê já não enfrentou esses matos de noite? Antão.

Ele sentiu um arrepio percorrer seu corpo e a ajudou a descer o cesto de comida. O burro pastava por perto, parecendo satisfeito. O mato ao redor era um mundo de mistérios e ruídos estranhos.

-O povo daqui é medroso e munto supersticioso. Inventeiro que só ele. Sabe essas borboleta que vêm acompanhando a gente o tempo todo? Pois não é que inventaram que de noite elas viram gente, umas mulé lindas que levam as pessoas, principalmente os homes, lá pro meio da mata, onde desaparecem pra sempre? Dizem que viram sereias da mata. Contam causos, pode? Fulano, mais sicrano, mais o marido de beltrana, tudo sumido, levado pelas lindas borboletas/sereias. Parece brincadeira, né não?

Ele riu, mas lançou olhar desconfiado às borboletas. Além das sereias-orboletas devia haver índios perdidos nessas brenhas.

-Durante o tempo em que caminhei por esses matos mulher nenhuma me apareceu. E tinha horas que eu bem que queria. Lembrava Doxinha, lembrava Zira, lembrava Ildinha. Ouvia umas risadas sacanas vindas do mato, mas sabia que era de bicho. E também escutava um palavreado enrolado, acho que devia de ser dos papagaios, e os gritos eram das saracuras e arapongas. De noite, dentro do mato é uma barulheira dos infernos. Isso sem contar com os macacos e os bugios. Cruz credo, teve dia que tive muito medo. Parecia que tinha um bando de maluco aí dentro.

-Tem um bocado de mulé na sua vida, hein?    +

-E não fiquei com nenhuma, veja só. Coisas da vida.

Esticaram as pernas antes de retomar a viagem. Boa chegou a cochilar.

-Ainda falta muito? perguntou algumas horas depois.

-Não, agora tá perto, mais uma horinha ou duas, vamos chegar ao escurecer. Calma, parece criança!

-E como é esse Pereba?

-Gente da mió qualidade. Mecê vai se espantá, é um brutamontes com cara e voz de menina. Mas num se assuste, é macho e sujeito bom talí, num faiz mal pra ninguém.

-Tá certo, mas estou preocupado com sua volta, noite fechada. Mecê não devia ter me trazido, eu vinha andando devagar.

-Nada disso, mecê tava na minha casa, era minha obrigação. Não se rale de preocupação, num vô vortar hoje, na cama de Pereba tem sempre um cantinho pra mim.

E gargalhou com gosto. Boa sentiu uma ponta de ciúme, mas procurou não pensar no assunto. Ela foi já boa demais em me trazer aqui, pensou, são coisas que fazem a gente pensar que a outra pessoa tem um interesse especial pela gente, mas não é nada disso, além de ter bom caráter, ela aproveitou para matar as saudades do Pereba. Chega de mulher na minha vida. Daí a algum tempo ela informou:

-É ali, e apontou uma casa de barro socado, com telhado de sapé, com dois cavalos amarrados numa trave na porta da venda. Um papagaio se esgoelava num poleiro. Muitas galinhas e patos zanzavam no terreiro.

Boa se espantou quando o homenzarrão de quase dois metros apareceu na soleira da porta seguindo os dois capiaus carregados com sacos de compras. Lina havia parado a carroça e esperava. O cachorro latia desesperado para os cavalos dos matutos que não pareciam se importar. O gigante os viu e deu com a mão, Lina respondeu e instigou o burro a voltar a andar. Os cachorros aumentaram o alarido. O céu estava escurecendo depressa e um vento frio levantava as folhas secas.

-Apeie daí, comadre, gritou o gigante com sua voz de criança.

Apesar de saber dessas características, Boa sentiu-se constrangido, não conseguia encarar o homem. Que coisa mais esquisita, pensou, um homem desse porte com voz fina. Temia ter um acesso de riso. Fez um esforço e sorriu para o vendeiro, que ajudava a mulher a descer. Também saltou no terreiro de barro.

-Chegue pra perto, convidou ela a Boa, tamos em casa. Pereba, esse aí é um fugitivo do inferno do Cobra. Encontrei ele caído na estrada, todo rebentado, quase morto de tanto apanhá, e levei pra casa. Urrava de dor, o infeliz. Tratei dele.

-Mecê é mesmo danada, uma santa, se apeie, moço.

-Ele tá munto bem agora, mesmo magro desse jeito. Daqui uns tempos recupera todo o corpo. Agora acho que ele deve ir pra vila, ficar bem longe daquele desgraçado. E conto com mecê pra ajudá nisso.

Ele sorriu, contrafeito. Abriu as mãos.

-As coisas por aqui não anda lá muito bem, mas damos um jeito, podeixá.

-Aconteceu arguma coisa? perguntou a mulher e no instante percebeu que a perna do grandão estava enfaixada – mecê caiu?

-Pior, foi uma flechada. Sabe aqueles cabocos que vivem numa aldeia a dois dias daqui? Sempre foram calmos, amigos, muntas veiz dei coisas pra eles, feijão, arroz, até mudas de roupas que não me serviam mais e de repente, sem mais aquela, me apareceram pintados pra guerra, deram flechadas pra todo lado, olha só as marcas na porta, e acertaram minha perna. Por sorte eu tava limpando a espingarda, dei uns tiros pra cima, não queria ferir nenhum, continuo achando que são meus amigos, mas alguma coisa aconteceu, uma intriga, disse me disse, o compadre Berardo acha que foi a tal mulher que tá mandando no arruado e vem criando um clima ruim desde que se meteu a organizar e mandar em tudo.

-Será, Pereba, era considerada uma pessoa boa, amiga, ajudava os outros…

-Depois que virou mandona, mudou munto, nem queira sabê. Virou rainha. Tá quereno cobrá uma tal de taxa pro povo podê trabaiá, inté dos pescadores, vê se tem cabimento. Diz que é pra fazê melhoramentos na vila. Só que lá não é vila. Dia desses apareceu aqui um sujeito sestroso, que dizem que é meio aparentado dela, com uma conversa boba, que é preciso arguém de pulso para botá ordem na casa e mais umas bobajas iguais, pra terminá dizeno que ela queria acabá com a violência e os roubos que acontecem por aqui, como em todo lugá, mas que pra isso percisava de dinheiro e que todos deviam colaborá, donde já se viu isso?

Lina cruzou os braços sobre o amplo peito:

-Ela que não se engrace comigo, também sou boa de briga. E ainda temos os capangas do Cobra pra dar um sustinho nela… se eu pedi ao lamparão…

-Pelo amor de Deus, Lina, isso não. Mas vamos esquecê isso, vamos entrá, o que mecê trouxe dessa vez?

-Coisa pouca, Boa, me ajude aqui com esse cacho de banana. Vamos levá lá pra venda antes que um índio apareça, disse rindo.

-Cê tá brincando? A coisa teve feia. Me dá aqui as laranjas, chegaram em boa hora. Tem mandioca tombém? Munto do bem, vamos fazer um café.

Boa dormiu numa esteira na venda, morrendo de medo de ratos. Estava tão cansado que se apareceram ele não viu. No dia seguinte Lina partiu. Tinha ficado combinado durante o jantar, que não passou de café com tapioca e batata doce cozida, que Boa ia aguardar ali a chegada de Homero, o homem que trazia para a venda gêneros como arroz, milho em grão, sal, açúcar e outras coisas que por ali não havia. Quando Homero retornasse à vila Boa ia junto. Era muito longe para se ir andando.

Durante o dia Boa ajudava na venda, carregava sacos, atendia os fregueses, conversava com os matutos, ria de suas tiradas e o vendeiro ficou muito satisfeito. À noite, assim que fechava as portas da venda, Pereba deixava de sorrir, fazia um café que tomavam com as mesmas misturas, e se recolhia. Nem uma palavra era gasta com o hóspede. Boa não ligava, ia embora logo dali, pra que estabelecer amizades?

Antes de deitar na sua esteira Boa se sentava na soleira da porta da venda e olhava a noite longamente. Tinha vontade de voltar à trilha, agora que conhecia a transformação das borboletas e esperar que uma delas o seduzisse. Todos os problemas sumiriam, o medo, a ansiedade, a vontade de rever os filhos, tudo que alimentava e torturava sua alma de homem. Numa noite estrelada, muito clara, viu sombras se moverem entre as árvores. Ficou quieto, sem saber se acordaria o dono da venda ou não, achava que os caboclos estavam voltando. Daí a pouco as sombras desapareceram. Continuou calado, observando. Talvez por estar a noite muito clara eles desistiram do ataque. Boa não dormiu, passou a noite sentado no mesmo lugar. Nada aconteceu, se lembrou que eles só atacam de dia. Pela manhã contou a Pereba o que achava ter visto. O rosto do outro ficou vermelho, suas sobrancelhas se contraíram, os olhos se tornaram sombrios.

-São eles, sim, disse, nervoso. Por que não me acordou?

-Por que eu sei que índio não ataca de noite. Eu acho que antes de abrir a venda devemos preparar nossa defesa.

O outro o encarou com jeito desconfiado.

-Tá entendendo demais disso, tá não?

-Fui pirata, meu senhor, por uns anos vivi num navio que estava sempre debaixo de fogo. Tenho conhecimento de tudo.

-Lina soube disso?

-Rum, rum. Faz tempo mas ainda me alembro de algumas coisas. Cê tem espingardas?

-Não quero matá ninguém, disse o grandão, pelo amor de Deus. São meus fregueis.

Boa examinava o teto da casa. A luz da lamparina pouco ajudava.

-Temos que nos defender, num temos? Ou prefere morrer atravessado por uma flecha? Não vamos matar ninguém, vamos espantar. Se alguém ficar ferido, fazer o quê?

O gigante o olhava assustado. Torcia as mãos de nervoso.

-Já disse que não quero matá ninguém, a culpa num é deles, são como crianças, a culpa é dessa caninana que tá tomando conta da vila.

-Por que será que ela faz isso?

-Por causa das minhas terras, ora veja só. Como me recuso a pagar qualquer coisa, ela decidiu acabar comigo. Mas não quer fazer diretamente, sujar as mãos, e me intrigou com os cabocos. Já tô sabendo da tramoia, mas num acreditei munto, mas depois do ataque… até o chefe deles… que se dizia meu amigo… preciso é conversar com eles calmamente, desenovelar essa intrigalhada, mas pra isso é preciso que estejam vivos.

-Tá certo, num vamos matar ninguém. Mas assim como feriram mecê na perna, podemos fazer a mesma coisa pra mostrar a eles que não temos medo. Se a gente medrar eles montam em cima. Tem algumas talbas aqui? Umas duas bem compridas pra montar um jirau embaixo do teto. Vou ficar deitado ali em cima, com uma espingarda. Afasto um pouco o sapê pra poder ver eles e atirar. Só pra assustar, tá bem?

O mundo tinha amanhecido coberto de espessa neblina. Com a ajuda de Pereba colocou as tábuas e subiu. Armou a espingarda, afastou com cuidado um pouco do sapê e se posicionou. Não dava pra ver nada. Esperou. No balcão Pereba deixou sua espingarda preparada e olhou por uma fresta da janela. Também nada via. Estava frio ou era o medo que fazia o grandão se encolher? Muito devagar o nevoeiro foi se dissipando. Primeiro apareceram as copas das árvores altas com fiapos de neblina agarrados nas pontas dos galhos secos. Dentro da venda o papagaio se impacientava, com a confusão o dono se esquecera de renovar sua comida. Boa viu surgir a ponta de uma pena de cocar no meio do mato e avisou a Pereba.

-Vou atirar, avisou, pra acabar logo com essa farra.

Puxou o gatilho e do mato veio um grito de susto. O gigante arregalou os olhos. O papagaio gritou. Um burburinho agitou a mata.

-Cuidado, Boa! pediu Pereba.

O silêncio se estabeleceu. Desconfiado, Boa, com a ponta da arma, abriu mais o telhado. Viu que um índio caminhava agachado na direção da venda. Não hesitou, atirou novamente e o selvagem caiu, ferido na perna. Pereba entrou em pânico e decidiu ajudá-lo. Abriu a porta e mesmo ferido o índio lançou uma lança em sua direção, atravessando-lhe o ombro.

-Ah, desgraçado, Pereba gritou, eu ia ajudar mecê.

E voltou depressa para dentro da venda batendo a porta.

-Ele é perigoso, gritou Boa.

Antes de descer do jirau Boa ainda deu mais dois tiros na direção do mato para onde o índio tinha fugido, arrastando a perna que sangrava. O silêncio voltou a imperar. Pela fresta da janela Boa ainda viu o índio adentrar a mata levado por outros dois.

-Tão indo embora, informou a Pereba, que sentado num banco tentava arrancar a lança do ombro, vão cuidar do chefe. Deixa que eu faço isso, disse, também tenho experiência em tratar feridos. Tem um serrote?

Os olhos do ferido se arregalaram de pavor.

-O que vai fazer? perguntou com voz tremida.

-Calma, vou só cortar a ponta da lança. O resto vai sair fácil.

Não durou muito o tratamento de Boa: depois de serrar a ponta da lança e de arrancar o cabo, despejou cachaça no ferimento e o enfaixou. Os gritos lancinantes do ferido estimularam o papagaio a gritar mais. Batidas na porta interromperam a gritaria. Era um dos habituais fregueses. Pereba o atendeu e entre gemidos relatou o sucedido.

-Se não fosse o Boa. Não é à toa que ele tem esse nome, benza Deus.

-Eu já disse mil vezes, disse o freguês, que temos de acabá com essa raça de bugres. Só servem para perturbá, roubá as roupas que ficam no varal, destruir os roçados, andá pelados e bêbados pelaí incomodando as mulheres. Há pouco tempo dei uma surra em um que teve a ousadia de mexer com minha mulé. Eu mais meu fio deixamos o safado moído, largado no meio da estrada. Nunca mais apareceu por lá.

-Faço isso não. Eles são que nem crianças, uns pobres coitados.

-Sei. São uns safados, preguiçosos, aproveitadores. Por mim não deixava um pra semente.

Por causa do ferimento, Pereba tinha dificuldade em trabalhar, levantar sacos, pesar e ensacar mercadoria, cortar lascas da manta de carne seca, servir bebidas nos copinhos, as práticas vendeiras. Pereba pediu e Boa ficou durante algum tempo, mais de um mês, para ser quase preciso, ajudando na venda. Índios não mais apareceram, fregueses que Pereba, apesar de tudo, lamentava ter perdido. Quando Boa decidiu que era hora de partir o vendeiro pediu, rogou, quase se ajoelhou para que ficasse.

-Não posso, Pereba, meu destino é andar, essa é a verdadeira praga de Doxinha. Mas se fui de alguma valia procê me dê nome de alguém na vila que possa me ajudar, um amigo seu. Vou ficar uns tempos por lá até me sentir capaz de entrar num barco.

 

CARMELA

Quando a carroça de Homero encostou estava pronto para partir. Homero era baixo, magro, com uma barbicha falhada a enfeitar a cara. No canto do queixo um cigarro de palha que Boa nunca o viu pitar. Era de pouco falar e durante quase o dia e meio em que viajaram juntos se disse quatro palavras, disse muito. Deu algumas informações sobre a vila, as que todo mundo pode dar, e se negou a falar da administradora. Disse que era difícil vê-la, ele que trabalhava com vendas e transporte. Boa preferiu não insistir.

-Vou deixá vossa mercê no portão do Conjuro, ele informou formal, quando já avistavam as primeiras choças da vila, quase todas de barro batido e teto de sapê, até a igreja de São Benemérito. O Conjuro vai lhe prestá as informações que precisar, é amigo do peito do Pereba.

E assim foi. No portão gritou pelo Conjuro, um homem moreno, feioso, com a cara marcada por antigas cicatrizes, de fartas carnes, mas desbarrigado, braços grossos e cabeludos, barba por fazer, bigode escorregando pelos lados da boca, cabelo alvoroçado e olhos remelentos. Olhou Boa indiferente e só sorriu quando Homero falou em Pereba e deu uma ideia sucinta do ataque dos caboclos e da ação do Boa. Aí relaxou e mostrou os dentes cariados num sorriso torto.

-Ele fugiu da cata do Cobra e foi encontrado quase morto pela Lina. Ela cuidou dele e agora qué que ele fique por aqui, bem longe das garras do bandido.

-Se é assim, tudo bem, cuido do moço. Conhece arguém por aqui? Boa negou abanando a cabeça. Nesse caso vamos tê de arrumá emprego e moradia, é isso?

Boa sorriu sem jeito.

-Faço qualquer coisa, trabalho nenhum me assusta.

-Tá entregue, falou Homero, açulando o cavalo.

Conjuro tornou a dar uma olhada completa no estranho. Coçou o queixo.

-Pelo que ouvi cê sabe atirá, num sabe? Boa concordou. Pode ser vigia, guarda costas… que mais sabe fazer?

-Sei cuidar de doentes, atender no balcão, dar banho em cavalo, pescar, sou prendado, completou com um sorriso galhofeiro.

-Me deixe pensá, tenho uma ideia, mas oie mecê deve de está com fome, né? Boa tornou a balançar afirmativamente a cabeça. Minha mulé tá acabano de preparar o almoço, mecê vai comê com a gente.

Há muito Boa não comia tão bem. Finda a refeição Conjuro o levou para o quintal.

-Procê morá, pelo menos por uns tempos, tenho esse barracão de guardá trastes. Com uma esteira e um travesseiro dá procê dormir. Neilda, minha fia, arruma lá uma esteira e um travesseiro pro nosso hóspede. Vamos lá, Boa, vamos desocupá esse barraquinho.

Depois que comeram saíram andando pela margem arenosa do rio. Boa notou que nem todos falavam com Conjuro, alguns até viravam a cara quando ele passava, mas ficou quieto. Caminharam em silêncio um bom pedaço até que Conjuro perguntou:

-Tá vendo esse povo covarde que não fala comigo? Já ajudei a muntos deles, já comeram de minha comida, frequentaram minha casa e agora, por causa da mulé, me viram a cara. Num ligo. Fico um pouco magoado, mas sei que tudo muda nessa vida e amanhã ou depois vão voltar, mansinhos, munto amigos, cambada de frouxos… é a vida.

Boa ouvia, sem nada falar. Os homens atarefados em seus barcos movidos a vara mal tinham tempo para olhá-los. Conjuro continuou:

-Isso aqui já foi bom, tinha munto trabaio e paz nos tempos do seu Macornei. Depois que ele morreu a dona tomou as rédeas, diz que ele deixô tudo prela, coisa que nunca ouvi nem ele nem ninguém falá. O veio era um santo e achava que todo mundo era que nem ele. Quando ela chegô, trazida por ele da vila para ensiná as letras aos meninos, parecia boazinha, sempre sorridente, preocupada em ajudá os outros, acarinhando as criança.

-Quem era Macornei?

-Ah, nem lhe contei, minha cabeça não anda boa, pra mim é como se mecê já soubesse. Macornei era um gringo, vermeio como um camarão cozido, até nos cabelos. Isso aqui, como até hoje, era um arruado de malocas de pescador. A gente pescava, secava os peixes, botava nas canoas e ia vendê na vila. A gente levava tombém peixe fresco, mas só os que pegava no caminho, que a vila fica longe e podia estragá. O barco em que vinha Macornei afundou num baixio aqui perto, parece que fugia de piratas e sofreu uns estragos. Ficaram um tempo por aqui pra consertá o barco, Macornei não tinha luxos, morou numa dessas choças, a do falecido compadre Juca, que Deus o tenha, até que o barco foi consertado.

Pequenas ondas brincavam entre as canoas e os barcos ancorados. O rio estava cheio. Os pescadores comentavam a boa pesca da manhã. Cachorros sonolentos os seguiam, Crianças corriam na areia, mais adiante os maiorzinhos soltavam pipas, gritavam, mulheres passavam com bacias na cabeça, conversavam e riam, algumas novas, bonitas, sestrosas. Urubus saltitavam entre restos de pescado. Boa gostou do que viu.

-Macornei não se interessou por nenhuma das mulheres daqui?

-Não, era munto respeitadô. Só foi se interessá pela cabrunca que hoje manda em tudo aqui, mas não como mulé e sim como professora. Mas, sim, Macornei enquanto esperava terminá o conserto ia a tudo quanto era canto e se entusiasmô pela lagoa quadrada, que num fica munto longe daqui, talvez meia hora a pé. Todo dia ia pra lá, se sentava na beira e passava horas só oiando. É um lugá bem bonito, onde param as aves que todo ano pousam aqui antes de segui viaja. Muitos tipos de ave, o povo aproveita esse tempo para caçar as bichinhas e catá seus ovos. Uma crueldade que alimenta a gente.

Alguém chamou Conjuro com um grito, ele deu com a mão e gritou de volta:

-Depois vou aí.

Boa assuntava tudo. Quando mais andava mais via como eram precárias as moradias, choças, casebres, cabanas mal feitas, algumas até meio tortas ou parecendo que iam cair, eram tudo, menos casas prum cristão morar. Animais e  crianças encatarradas brincando na areia.

-Onde era a casa do compadre Juca?

-Mais lá na frente, depois da capela. Não existe mais, a mulé mandou derrubá ela e mais uma porção, dizendo que vai instalá ali um tal distrito comerciá, só que aqui num tem comércio pra tanto, mas ela desapropriô tudo, mandô os caboclos demoli, aqui ninguém entende de leis, ela faiz o que qué. É maluca e maldosa. Como cê pode vê ela usa sempre os cabocos ignorantes para fazer as maldades. São uns bocós, qualquer ninharia deixa eles satisfeitos.

-O povo não reclama?

-Deixa isso pra lá, disse Conjuro, com um muxoxo. É tudo gente vendida, quarqué promessa ganha eles.

-Um lugar tão bonito, murmurou Boa. Tem razão para o Macornei ter gostado. Ele voltou pra cá, não foi?

-Foi e não foi só pelo lugar, foi pelo povo tombém. Ele gostava de ficá proseando com todos, ensinava munta coisa. Falava mal, com um sotaque carregado, às vezes não se lembrava das palavras, pedia desculpas, era um homem munto educado. Como ele disse, pra vortá pra cá precisava inventar uma maneira da famia dele entender, ele não era casado mas tinha irmão, pai e mãe no estrangeiro. Ele disse em qual lugar, mas esqueci.

-Era novo quando chegou aqui?

-Não muito, já devia passar dos quarenta, mas era forte, de munta saúde. Depois da primeira vez que veio, levou mais de um ano pra voltar, o povo tinha até se esquecido dele, mas quando veio trouxe tudo pronto, inté os marrecos. Criava os marrecos na lagoa como quem cria galinhas, vendia tudo fora daqui e fazia um bom dinheiro. Eram muntos marrecos. Só voltava a terra dele para passeá. Por isso o povo chama esse arruado de Marreco Azul, porque os marrecos tinham umas penas nos rabos e nas asas que debaixo do sol pareciam azuis. Todo ano ele enchia um barco com marrecos vivos e mandava pra fora. Ele ensinou argumas pessoas a tratar dos bichos, pagava pra isso, e essas pessoas no final traíram ele.

Um vento fresco varria a praia e levantava poeira. Conjuro espirrou vezes seguidas.

-Não me dou bem com esse vento, explicou.

-E onde fica a lagoa?

-Ali pra trás, não muito longe. Macornei levantou uma casa pra ele, muito boa, os tijolos e as telhas vinham de navio, o povo ficava de boca aberta. Mandou vir tombém os móves, feitos lá fora, de madeira pesada, cama, guarda-roupa. Dizia que não dispensava a comodidade e quis ajudá o povo a construi suas casas com tijolo, mas ninguém quis, todo mundo achô munto caro. Queriam de graça, certamente. Pra dizer a verdade nunca me interessei, apesar de passá o dia junto dele e inté viajei com ele uma veiz para comprá remédios pra servir o povo. Era um homem desprendido, mas a raça ruim que o cercava morria de inveja. Gente que só queria pescá e passá o resto do tempo bebeno pinga, jogano vinte e um e dormino nas redes. Por isso hoje tá tudo assim.

Haviam parado num espaço da margem onde não havia barco atracado. Ao longe uma nuvem de poeira manchava o céu muito azul. Gaivotas voavam tranquilas.

-E a mulher?

-Foi mecê falá no diabo e ele aparecê. Olhá ela vindo com seus capangas montados a cavalo.

-Significa o que?

-Veio se amostrá. Ela qué sempre exibi poderio. Deve de tê sabido da sua chegada e como num sabe quem mecê é… Junta esses vagabundos, metade caboco metade pescadô, e sai nessas cavalgadas. Dia desses um dos cavaleiros, que tava cheio de aguardente, quase atropelô uma menininha que brincava distraída na rua. Pra se desculpá ela botô o pai da criança pra trabaiá com ela e hoje é um dos cavaleiros. Mas vamos sair daqui…

Segurando o cotovelo de Boa, Conjuro o guiou para atravessar a rua e se meter num beco.

-Aqui ela não vem, disse ele, mesmo que nos tenha visto. É que nesse pedaço de rua ninguém gosta dela. Como cê pode ver, as casas aqui tem mais jeito de casa, são limpas, o povo é ordeiro. Já os demais…

Pelo canto do olho Boa viu a cavalgada passar em disparada. Conjuro o levou para dentro de uma casa.

-Vamos tomá um café com o compadre Melique.

-Bons olhos vejam mecê, disse o homem, há quanto tempo num aparece. Vamos entrano.

-Que isso, Melique, estive aqui inda trasantontem.

-E num é munto tempo para revê um amigo veio?

-Trabalho, Melique, munto trabalho. Mas vim  le apresentá um amigo que vai morá aqui. Esse é o Boanerges, Boa para os amigos. Viemos tomá aquele seu café.

Conversaram pouco, só trivialidades, mas foi bom para Boa se ambientar. Saindo pelos fundos da casa Conjuro o levou para conhecer a lagoa quadrada que passara a ser chamada de lagoa dos marrecos. Boa ficou extasiado com a cor azul turquesa da água, com a moldura de árvores em volta de toda ela, exceto no espaço ocupado pela bela casa de Macornei. Palmeiras pontilhavam as margens e, para estupor de Boa, entre elas, jacarés.

-Jacaré? indagou. Como os marrecos podiam conviver com esses bichos?

Conjuro o olhava com olhar matreiro, como se esperasse reação semelhante.

-Num conviviam, os jacarés comeram a maior parte dos marrecos. Nessa época Macornei tinha viajado para tratá de negócios, demorô munto, e ao vortá viu aquilo, desesperô. Lembro que ele gritou horrorizado, perguntando àquela perdida quem tinha levado eles pra lá.

-Ninguém, respondeu ela com falsa candura, eles vieram sozinhos.

– Como sozinhos?

-Quem sabe… talvez pelo cheiro das aves…

– Acho que ele desconfiô que era obra da malina, tanto que ficô mais vremeio ainda e olhô prela, enfurecido. Ela sorria, a cretina, muito inocente. O coitado quis falá, pareceu sufocado, deu um grito, levô a mão no peito e desmaiô.

Ele parou, estava emocionado. Pigarreou, disfarçou, procurou sorrir. Boa percebeu mas fingiu que nada viu. Foram caminhando até o casarão do falecido, Conjuro, com os olhos baixos, calado, procurando conter a emoção.

-Mecê disse que ele não tinha mulher nem filhos mas tinha família. Avisaram aos parentes dele?

-Como? Ele pouco falava sobre a famia, devia tê tudo escrito nos papéis que tavam na gaveta do móve que ele chamava de escrivaninha, mas eu não sei lê, nem ninguém daqui, só ela, a lamparona, é que sabe. Ou os gringos amigos dele que moram numa vila aqui perto. Ela sabia até adonde estava a chave da gaveta, pegô os papéis, deve ter lido tudo e disse que ia avisá ao irmão dele, mas ninguém sabe se fez isso ou…

-E o dinheiro? Onde ele guardava o dinheiro da venda dos marrecos?

-Num faço ideia. E em cada viagem trazia o dinheiro da venda embrulhado em jornal para num chamá a atenção dos ladrões, era muito cauteloso. Cansei de vê. Dessa veiz, nada. Despois que caiu no chão pegamos ele com todo cuidado, eu mais o cumpadre Humberto, tombém já falecido, e levamos pra cama. Ele tinha uma carteira grande, já bastante ensebada, com documentos e dinheiro miúdo, que levava nas viagens, que sumiu. Desconfio que tombém foi tudo obra da cabrunca. Mas Deus tá vendo, um dia ela vai pagar por tudo.

-Quanto tempo faz que ele morreu?

-Mais de dois anos.

-E a família não quis saber por que ele não mandava uma carta… ninguém ficou preocupado com o silêncio dele?

-Era uma coisa esquisita, isso dele com a famia. Nunca veio ninguém aqui. E ele quase num falava do irmão. Dos pais nunca falô.

-Então é possível que ele nomeasse a tal mulher como a herdeira dele.

-Como? Se depois que ele caiu nem abriu mais os oios e naquela noite mesmo morreu?

Conjuro estava indignado, cerrava os punhos, gesticulava, quase gritava.

-Calma, pediu Boa, não é que eu pense… que não, eu só quero entender como essa mulher tomou conta de tudo. Ela era mulher dele?

-Nada, ele, eu acho, não gostava munto de, mecê sabe. Gostava era de ganhá dinheiro, criá marreco e de ajudar aos outros, por isso acho que era um santo.

Haviam chegado perto da casa do falecido e logo saíram dali dois índios armados com arco e flechas que foram na direção deles.

-Que cês querem? gritou um deles.

E antes que pudessem responder o outro gritou, já armando o arco.

-Vão dando o fora, seus veiacos, que a orde da dona é de num deixá ninguém entrá na casa. Vão logo!

-Que isso, moleque, olha o respeito. Cê sabe quem eu sou?

O caboclo, transpirando ódio, apontou a flecha diretamente para seu peito.

-Num sei nem quero sabê. E vai dando o fora antes que eu faça uma besteira.

Conjuro quis avançar mas Boa travou seu braço.

-Vambora, amigo, deixe isso pra lá. Isso aí é só um pau mandado e vai fazer o que foi mandado fazer.

-Besteira mecê já vive fazendo, gritou Conjuro para o caboclo antes de acompanhar Boa. Mecê e a safada da sua patroa.

Conjuro tremia de raiva, Boa podia sentir todos os músculos de seu braço tremendo. Será que aonde eu vou aparece confusão? se perguntou. Acho que não vou durar muito por aqui. Ô, Doxinha, me dá uma folga!

-Tão tudo bebido, comentou Conjuro enquanto se afastavam. Bebem tanto quanto a patroa deles, uma pinguça sem vergonha. Eu sube que ela montou um alambique dentro da casa do Macornei, mas acho que isso é exagero do povo. De vez em quando o Homero ou outro carroceiro vão buscar cana aqui perto pra fazer aguardente, mas não aqui. Veve bêbada, a infeliz. Se mecê sabe mexê com alambique arranja emprego com ela.

-Tá doido Conjuro, vou meter a mão em arapuca?

Durante alguns dias Conjuro procurou arrumar trabalho para Boa. Aparecia um biscate aqui, outro ali, nada de sustança para um homem. Quando nada tinha a fazer ele se sentava na beira do rio e aguardava a chegada das canoas para ajudar a transportar os pescados. A situação o deprimia. Certa tarde, estava sentado num banco que construíra para a espera quando surgiu ao longe o poeirame indicando que a dona estava na ronda. Ele abaixou a cabeça e ficou riscando a areia com um graveto e tomou um baita susto quando um cavalo estacou na sua frente, quase o derrubando. Levantou-se rápido e recuou. Do alto da sela uma mulher o olhava com uma expressão entre irada e divertida. Atrás dela um grupo de cavaleiros armados de arcos e tacapes.

-Quem é mecê? ela perguntou, arrogante.

Ele declinou seu nome e pensando que ela iria cumprimentá-lo limpou as mãos na calça.

–E o que tá fazendo por aqui? Tá morando com Conjuro? É parente dele? Como foi que chegou até aqui? Tô perguntando por que já deve de saber que mando nisso tudo aqui, né? Se veio pra morar tinha de falar comigo primeiro.

Meio tonto com a saraivada de perguntas ele ficou a olhá-la abobalhado.

-Engoliu a língua, homem? Ou é mudo de nascença? Ou de medo?

-Medo não há de que, respondeu ele, instigado pelas perguntas. Sou um homem livre, honesto, que por questões que não cabe falar tô sem serviço no momento. Não se irrite, tô de passagem.

-Não cabe falar por quê? ela gritou. Não entendeu que quem manda aqui sou eu? Que sou a autoridade? Exijo que me conte.

Dois dos cavaleiros vieram se postar a seu lado, as carrancas voltadas para Boa. Ela os afastou com um gesto. Com o canto do olho Boa viu que as canoas dos pescadores se aproximavam. Ela teve um gesto de contrariedade. Era uma mulher pequena, muito branca, cabelos pretos escorridos pelas costas saindo do chapéu de palha, olhos escuros, fundos, indagadores, um abismo. Vestia calças de homem. Nas mãos um chicote.

-Depois vamos conversar com mais calma, avisou. Quero saber direitinho tudo a respeito de quem vem morar na minha vila. Não gosto de vagabundos nem de malfeitores.

Virou as rédeas com força e voltou a galopar pela estrada. Ao desembarcar, Conjuro, de cenho franzido, indagou o que acontecera e ele fez um resumo da conversa.

-Ela atacô mais cedo do que eu esperava, comentou, olhando para a direção para onde ela seguia com sua tropa de índios.

-Pelo jeito ela não gostou de me ver aqui. Acho que vai fazer de tudo para me afastar.

Por alguns dias ela e seus sequazes deixaram de ser vistos no arruado.

Uma tarde depois de sua volta, não mais, a carroça de Homero entrou veloz e barulhenta no povoado, quando todos os pescadores estavam ajeitando suas canoas. Estacou em frente a Conjuro e gritou:

-Mataram o Pereba.

Conjuro se inteiriçou, os outros pescadores largaram o que faziam e se aproximaram, consternados. Boa sentiu um frio na boca do estômago, quem poderia ter feito isso? Ele já sabia a resposta quando Conjuro verbalizou a interrogação que estava na cabeça dos presentes:

-Foram os caboclos, quem mais? respondeu Homero, lutando para conter o impaciente cavalo. Foi a terceira vez que atacaram a venda, na segunda o amigo aí ajudou Pereba a se defender, mas agora…

-Pobre Pereba, murmurou Conjuro, tirando o chapéu, no que foi imitado por todos.

-E Lina? indagou Boa, preocupado com a amiga.

-Lina teve lá e me ajudô a enterrá o coitado do Pereba. Tava lá sozinha, chorano des que le deram a notícia.

-E ela não reagiu, não fez nada? Boa indagou ansioso, as mãos se enclavinhando. Pelo menos agora ela deve tomar conta da venda. E não vai deixar o caso por isso mesmo, tenho certeza. Ela já estava furiosa com os caboclos.

-Nada sobrou pra ela tomá conta, resmungou o carroceiro, botaram fogo em tudo o que não puderam levá. E ela não vai podê fazê nada pra vingá o amigo. Eu tava lá e vi. Chegô um homem do bando do malfadado Cobra e sem nenhum respeito por ela nem por nós, foi avisano: ”O Cobra mandô mecê vortá pra casa e ficá bem quietinha. O que passô, passô, ele não qué sabê de rebuliço por aqui, tem orde dos homes de fazê de conta que nada aconteceu.” E ela se trancô em casa, coitada, ia fazê o que?

Uma manta de silêncio envolveu os pescadores que foram se retirando, um a um, para suas canoas para desembarcar o pescado. Boa sentia a garganta seca, os olhos molhados, pobre Pereba, um homem tão bom e tão grande abatido por uns caboclinhos de merda. O rosto de Conjuro estava ensombrado quando falou:

-Cê adivinha quem foi a mandante, num adivinha? Os desgraçados dos caboclos só obedecem a ela. Pereba tinha rechaçado o emissário que ela mandô cobrá dele o pagamento pelo dereito de trabaiá. Ela se acha dona de tudo e aos poucos vai eliminano quem se atravessa em seu caminho e se apropriano das terras. Só quer dinheiro e podê. Foi por isso que ficou esses dias longe daqui, tramando para que esse crime desse certo.

-E o que ela faz com o dinheiro? perguntou um pescador. Aqui ela não gasta.

-Imagina se ia gastar aqui. Diz o povo que ela compra terras fora daqui, casas, lavouras. Ela é muito esperta e gananciosa. Fora as farras que dizem que faz nas vilas vizinhas. Já ouvi gente contando que ela chega a cair na rua de tão ferrada.

Boa se abstraiu e com os olhos marejados foi se sentar na beira dágua. O céu estava de um azul brilhante, só cortado pelo voo das aves. Não é dia para tanta tristeza, pensou. Estava se sentindo perdido e correndo risco. Sentia-se ameaçado. Mais uma vez Doxinha se metia na sua vida em busca de vingança prejudicando seus amigos. Deixou as lágrimas escorrerem. Que mulher vingativa, quando isso vai parar? O que o futuro lhe reservava? Pereba estava morto, Lina enfurnada em sua choça, e eu? O que vou fazer de minha vida? Não vai dar para ficar aqui, mas não quero mais sair por aí, sem destino. Não teve ânimo para jantar, foi se deitar cedo, não conseguiu dormir. Do seu catre durante muito tempo ouviu os passos de Conjuro no terreiro e seus pigarros enervantes. Também ele estava insone.

A vida continua, com ou sem os amigos. Sem conseguir trabalho Boa voltou a se sentar no banco na beira do rio a esperar a chegada das canoas dos pescadores. Mais tarde os ajudaria a limpar e salgar os peixes. O rio passava lento como o dia, alguns peixes pulavam fora dágua, línguas de prata em busca de insetos. Estava tão distraído que só viu os dois índios quando estavam um de cada lado seu. E viu que um deles era o que parecia sempre zangado. Portava seu arco e flechas.

-Levanta daí e vem com nois, ordenou.

-Vou não. Estou esperando as canoas.

-Vai sim, a mulé qué vê mecê e ela não gosta de esperá. Vamo levar mecê por bem ou por mal. Levanta daí, anda! Ou prefere ser arrastado?

Dedos duros como pedra agarraram seu ombro. Boa levantou-se, irritado:

-Tira as mãos de mim! Foi mecê quem matou Pereba, num foi? O índio ficou calado mas soltou o ombro dele. Vi que foi mecê por que tá mancando, tá com a perna machucada, bem onde acertei o tiro na vez em que tentou invadir a venda.

Boa estava quase gritando. O índio continuou a olhá-lo fixamente, sem manifestar qualquer sinal de emoção, mas dava para ver que apertava o arco com mais força.

-Deixa de conversa e vambora, a muié tá esperano, ordenou.

O ódio brilhava no olhar de Boa. Sabia que era inútil resistir e acompanhou os caboclos. No caminho passou por um homem, que conhecia apenas de vista, que cortava o cabelo de outro sentado numa cadeira de palhinha na porta de casa. Sequer os olharam, mas ele fez questão de gritar.

-Olha, avise ao Conjuro que estou sendo levado para a casa da mulher contra a minha vontade.

O barbeiro assentiu com o olhar. Os caboclos continuavam impassíveis. Talvez por força da lembrança, o mais velho mancava mais acentuadamente. O aviso de pouco lhe valeria, mas pelo menos Conjuro saberia que não fora por vontade própria. Teve uma ideia cretina:

-Ah, é pra ir? Então, vamos rápido.

E acelerou o passo. O índio mais jovem o acompanhou, mas o outro sentiu dificuldade e foi ficando para trás. Boa estugou o passo, o outro seguia devagar, claudicando cada vez mais, e em alguns momentos quase caiu. Apesar de sua resistência, a dor e o cansaço o derrubaram. Sua testa estava coberta de suor e os dentes trincados. Em frente à capela se apoiou numa árvore e gritou alguma coisa para o companheiro em sua língua. E Boa acelerando.

-Espera Macaí, gritou para ele o mais novo.

-Vai pro cacete, demônio sujo, se é pra ir, vamos depressa. Olha que a dona não gosta de ser desobedecida, né isso? Frouxo!

O índio jovem andava e olhava para trás. O mais velho havia se sentado num pedaço de barco quebrado e gesticulava, mandando que seguisse. De vez em quando passava a mão pelo rosto pintado. O arco e as flechas descansavam, pousados na areia.

-Isso é pro seu amigo não pensar que é melhor que os outros e tratar as pessoas com mais educação. Fazer isso com ele não vai servir para trazer Pereba de volta, mas enquanto puder vou castigar quem o matou.

Boa andou ainda mais depressa e em meia hora chegou ao casarão, mas não entrou. Vou esperar o safado, disse ao outro. O caboclo mais velho chegou depois, arfando.

-É procê aprender, disse Boa com um sorriso de deboche. Não se meta mais comigo.

O índio velho o encarava com ódio feroz nos olhos, mas nada dizia. Logo a mulher apareceu na porta, sorrindo. Atrás dela vinha o caboclo jovem, muito sério.

-Salve, Boa, até que enfim chegou.

-Foi esse índio velho cambeta que mecê mandou pra me pegar que atrasou tudo.

Ela sequer deu um olhar pro índio cambaio. Sorrindo sempre se afastou da porta e convidou Boa a entrar com um gesto amplo. Ele estranhou a gentileza. O que ela está querendo? se perguntou e seu olhar cheio de desconfiança seguiu cada um dos gestos dela. A sala era grande, pé direito alto, janelas cobertas por cortinas pesadas, tapete grosso onde os pés afundavam. O velho sabia se cuidar, pensou enquanto passava os olhos pela escrivaninha marchetada, pelos tinteiros com suas penas, pela resma de papel e pelo mata-borrão espalhados sobre o móvel. Uma cadeira estofada e outra austríaca de balanço, e uma conversadeira completavam o quadro. Nenhum retrato na escrivaninha ou preso na parede.

-Senta aí, disse ela apontando sorridente a conversadeira, indo sentar-se na outra ponta. Boa sentiu forte cheiro de álcool.

-Tabira, gritou para a entrada de um corredor. Traz uma caninha e duas canequinhas. Na bandeja, entendeu? Virou-se para ele, olhos brilhantes. E então, tudo bem com vosmecê? Tá sendo bem tratado em nossa terrinha? O povo daqui é meio chucro, mas de boa paz. Ele balançou a cabeça afirmativamente, olhos argutos nela. Soube que mecê sabe ler, é verdade?

-Mais ou menos.

-Como assim? Ou sabe ou não sabe? Ela tirou a bandeja da mão da velha carrancuda que viera pelo corredor. Espera aí, Tabira. Colocou a bandeja no colo, encheu as duas canequinhas de lata com aguardente de uma garrafa e entregou uma para ele. Sabe ou não sabe, explique?

-Quando eu era rapazola, explicou ele, minha mãe me botou a aprender fazer conta com o professor Perclaro da Silva, lá na vila. Fiquei aprendendo por uns dois anos e o professor morreu, tava muito velho e vivia doente. Guardei alguma coisa, e apontou a própria cabeça. Palavra muito comprida e complicada sei não, sou honesto em dizer.

Ela ouvia com a testa franzida. Bebeu um gole da canequinha antes de perguntar:

-E contar, cê sabe?

Ele sorriu, confiante, orgulhoso.

-Ah, isso sim, isso eu sei. Ninguém faz conta de cabeça tão rápido como eu, o professor já dizia.

Ela pareceu relaxar. Bebeu o restante e mostrou a garrafa pra ele como um convite.

-Não, obrigado, não sou de muito beber. Ele temia ficar bêbado e acabar falando ou fazendo besteiras. Era fraco pra bebida, reconhecia.

-Isso é bom, bebida não faz bem mesmo. Eu bebo por vício, por necessidade, para mim bebida é como o querosene para a lamparina. Mas não perturba minha mente, fico até mais esperta. Mas, sim, então mecê lê um pouco e sabe contar…

-Sei somar, diminuir, multiplicar e dividir, ele confirmou com um sorriso satisfeito.

-Muito bom. Bebeu mais um gole. É o seguinte: mecê já deve saber que sou eu quem manda aqui, foi a tarefa que Macornei me deu antes de morrer.

-Ele chegou a falar? indagou, fingindo inocência. Ela não se perturbou.

-Com todas as letras. Ele vivia preocupado com esse povo, coitado, temia que fosse explorado por algum estrangeiro ganancioso. Não que achasse que todo estrangeiro era ganancioso, ele mesmo era um exemplo do bom estrangeiro. Mas sabe como é, né? O povo daqui é puro como criança, não tem maldade, tanto assim que quando Macornei morreu eles invadiram a lagoa, pegaram todos os marrecos e comeram. Acabaram com a criação que trazia dinheiro pra sustentar eles mesmo. Pobre gente, ela suspirou e tragou mais um pouco da pinga, hoje não podemos recomeçar a criação dos marrecos por que não sobrou nem um casal para se reproduzir. Acabaram com seu meio de vida, veja só. Fiquei chateada, mas não muito, os marrecos davam muito trabalho e pouco dinheiro. Estou procurando uma alternativa para arrumar muito dinheiro, preciso cuidar dessas pessoas, sem dinheiro nada se faz e as pescarias rendem muito pouco. E os marrecos, veja só, não valiam muito, era mais uma distração para Macornei, que não tinha família nem nada, e os homens que compravam os marrecos, por um quase nada, é bom que se diga, nem sempre pagavam na hora da compra. Dessa última viagem ele voltou sem dinheiro. Macornei não ligava para dinheiro, queria era viver bem e com sua distraçãozinha, que era a criação dos marrecos azuis. Ele adorava os marrecos e como homenagem a ele, a essa doce criatura, quando eu conseguir transformar isso aqui numa vila, e vai ser em breve, se Deus quiser, vou chamá-la de Vila do Marreco Azul.

Pareceu ter ficado com a voz embargada e com os olhos rasos dágua que enxugou com a barra da saia. Boa sentia-se confuso. A imagem que ela descrevia de si mesma era contrária a tudo que ouvira de alguns moradores e principalmente de Conjuro. Ela fungou, reencheu a canequinha e sorveu a bebida com ruído.

-Eu prometi a Macornei que cuidaria do povo dele e estou disposta a cumprir minha promessa, nem que seja a última coisa que faça na vida. Seu altruísmo merece meu sacrifício. Mecê deve ter observado que a vila está meio maltratada, né, mas estou conversando com autoridades das vilas vizinhas e em breve espero trazer uma boa notícia para esse povo.

-E os jacarés? perguntou com cara de bobo. Ouvi dizer que foi mecê que trouxe eles.

-E e e u eu u u eu? escandalizou-se. Apontou para a porta onde um índio se postara como sentinela. Foram esses caboclos malditos, peçonhentos, que só estão do meu lado porque todo fim de mês dou dinheiro a eles, esses animais! Quando fui pela primeira vez na aldeia deles fiquei horrorizada, crianças sujas, barrigudas de vermes, encatarradas, famintas, uma coisa horrível de se ver. Falei com Macornei, que em todo esse tempo que morou aqui nunca tinha ido à aldeia, ficou surpreso, foi lá, viu, chegou a chorar. As crianças morriam como moscas, com nó nas tripas, sufocadas pelo próprio catarro, ou comidas pelos vermes, nunca ele tinha visto coisa igual. Falei com ele, implorei, pedi que arrumasse remédios, pois as mezinhas dos índios só serviam para aumentar a diarreia, ele trouxe, cuidamos dos infelizes e qual foi o pagamento?

Boa seguia a narrativa fascinado, conhecia muitas daquelas desgraças, mas contadas por uma mulher bonita, emocionada, quase chorando, doía profundamente em seu peito. Ela encheu mais uma canequinha e virou de uma vez na boca. Depois se arrepiou toda.

-Essa é das boas, murmurou sorrindo.

Ele estava quase convencido de que Conjuro e os moradores do povoado estavam de má vontade com ela. Mexeu-se na cadeira e num impulso estendeu-lhe a canequinha. A ideia era devolvê-la mas ela a encheu e ele ficou sem jeito de devolver. Tomou um gole.

-E então? ela perguntou, quer vir trabalhar comigo? Não posso lhe pagar muito, mas terá cama, comida e roupa limpa.

Por ele aceitava de imediato, mas tinha de pensar em Conjuro, em Lina, pessoas que foram importantes na sua recuperação. Disse isso a ela.

-Agradecido, sei… disse ela, irônica, olha, gratidão é o sentimento que mais prejudica que ajuda.

Ele coçou a cabeça e se mexeu na conversadeira, inquieto.

-Confesso que não sei o que fazer. Posso lhe pedir um tempo para pensar? É que eu estava pensando em conseguir um lugar num barco para me levar daqui, e agora…

Ela o olhava com um sorriso amigo, convidativo.

-Fique conosco, me ajude a fazer desse arruado uma vila. Pense nesses pobres homens.

Ele se torcia, nervoso. Ela preferiu não forçar sua decisão.

-Tá bem, vi que mecê foi tocado pela minha missão junto a esses pobres ignorantes, mas tem escrúpulos em aceitar meu convite sem conversar com seus amigos. É justo, demonstra que tem bom caráter. Converse com eles, mas principalmente converse consigo mesmo, não há melhor conselheiro que nossa própria vivência. Temos que construir nosso futuro, né mesmo? Então vá, mas não me faça esperar muito.

Ele se levantou, o chapéu rodando entre os dedos, sorriu pra ela e saiu. O rio balançava de leve as poucas canoas ancoradas. Algumas mulheres lavavam roupa ao lado de bacias. Aves aquáticas e urubus cruzavam o céu. Cães dormitavam nas sombras. Boa não sabia em que acreditar, em que pensar. Seu pensamento rodava sem rumo e voltava sempre ao ponto inicial: ela. Ficou lembrando sua figura: uma mulher de cerca de 40 anos, pele amarelada mas lisa, olhos negros, insondáveis, boca estreita, bons dentes, cabelo preto amarrado e jogado sobre o ombro esquerdo, voz incisiva que de quando em quando, de acordo com o assunto ou interesse dela, se adocicava, tornava-se aliciante, sensual. Ou áspera, dominadora. Não sabia que pensar.

Nada do que ela contara batia com o que dissera Conjuro que era um homem sério, incapaz de mentir, Boa pressentira. Não que eu conheça o caráter de um homem pelo que ele fala, mas pelo modo como age. Conjuro me recebeu com amizade, me aceitou em sua casa, está me ajudando… já ela, me tratou com arrogância da primeira vez que me viu e agora vem com essa conversa cheia de promessas, tenta me conquistar… Por outro lado sua oferta é interessante, trabalhar com ela, mais uma vez procurar dar estabilidade à sua vida, romper a praga de Doxinha… meu Deus, não sei o que fazer. Se não aceito corro risco de ser expulso ou morto, esses caboclos são irracionais, se ela mandar que me matem não vão nem piscar antes de executar a sentença, mas se aceitar meu amigo pode achar que o traí, não gosto disso, não é do meu feitio. Preciso encontrar uma maneira de sair dessa.

Andando pela areia úmida, sem prestar atenção a nada, se viu no final da praia dos pescadores, depois da curva do rio. Parou, meio aturdido, via ao longe o local onde costumava esperar a canoa de Conjuro, que não demoraria a chegar. Ultrapassou a curva e sentou-se na areia, os braços cruzados apertando os joelhos. Precisava um tempo para ficar sozinho, pensar em tudo que vinha lhe acontecendo desde que matara Doxinha e decidir quais seriam seus próximos passos, se é que em sua vida conseguira decidir alguma coisa, escolher algum rumo. A praga o tornara um joguete do destino.

Anoiteceu sem que percebesse. Conjuro devia estar preocupado, certamente alguém já lhe contara da visita que tivera de fazer ao casarão de Macornei. O amigo devia estar pensando que ela lhe dera sumiço, precisava ir ao encontro dele, contar o que sucedera, mas antes precisava descobrir a saída para a confusão em que Doxinha o metera. Seu pensamento vagava como canoa à deriva. Tinha uma ideia possível, mas não sabia como o amigo a veria. Vou arriscar, decidiu. Levantou-se, esticou os membros quase adormecidos pela posição fixa que mantivera durante todo aquele tempo. Corpo pesado, mente confusa, pernas endurecidas, seguiu arrastando os passos até a casa de Conjuro.

-Ora veja, gritou ele, ao vê-lo, chegou bem a tempo de dividir com a gente a sopinha de abóbora. Não é pra me gabar não, mas a patroa mais uma vez, acertou a mão, a sopa tá uma delícia. Vem sentar com a gente.

Indeciso, um tanto envergonhado com a recepção afetuosa do amigo, que já deveria saber de sua conversa com a que se considerava a dona do lugar e sua inimiga, sentou-se na ponta do banco. De imediato Conjuro lhe entregou uma cuia cheia de sopa. Boa agradeceu e em silêncio tomou toda a sopa. Sentiu-se melhor. Até então Conjuro tinha se concentrado na comida e o silêncio reinou na sala. Boa limpou a boca com as costas da mão e se levantou.

-Vamos andar, parceiro? perguntou a Conjuro. Preciso lhe falar.

-Vamos, tá uma noite bonita, vamos andar na praia.

Da mesa até à praia caminharam em silêncio, só cortado por um pequeno arroto de Conjuro. Pouca gente na beira do rio, um cachorro dormia na areia, as marolas do rio eram calmantes. No banco onde costumava esperar a chegada das canoas se sentaram. Conjuro acendeu um cigarro de palha.

-Como foi essa novidade que me contaram, Boa? Queria ouvir da sua boca.

-Pois é, Boa não se sentia confortável, ela mandou dois caboclos armados me buscar aqui, onde esperava a chegada das canoas. Não tive escapatória.

Conjuro o olhava sem piscar. A noite estava estrelada, muito clara, dava para ver até o que ele não queria mostrar. Um peixe saltou fora da água. Boa escolhia as palavras para não dar má impressão de sua atitude. Biguás pousados nas cordas das traineiras olhavam o peixe que era levado pra terra.

-Fique tranquilo, Boa, conte sem medo, sei que mecê é verdadeiro no que diz ou faz.

-Obrigado, Conjuro. Mas foi isso que aconteceu, ela mandou dois homens me pegar. Se reajo me levariam aos pescoções, são muito atrevidos esses caboclos. O pescador concordou com a cabeça. Eu não sabia o que devia esperar dela, e como mecê estava na pesca, temi que ela se aproveitasse disso para me dar uma surra ou até sumir comigo. Eu tremia por dentro, estava desarmado, ninguém no caminho parecia prestar atenção ou se incomodar com o que estava acontecendo. Juro que pensei que seria meu último dia. Era fácil pra ela sumir comigo e acusar os caboclos, né não? Boa respirou fundo. Mas foi tudo diferente. Cheguei só com um índio porque o outro foi aquele que atingi com um tiro de espingarda na vez primeira em que atacaram a venda do Pereba. Não sabia que o estrago tinha sido tão feio, o bugre vai mancar da perna pelo resto da vida. Bom, quando cheguei ela me esperava na porta toda sorridente. Fiquei mais desconfiado ainda, todo mundo fala como ela é fingida. Me mandou entrar, cheia de rapapés, me ofereceu cachaça, contou histórias sobre ela e o Macornei, ela chegou mesmo a trabalhar com ele?

Conjuro sacudiu a cabeça afirmativamente, o olhar preocupado pousado na boca de Boa.

-Em suma, ela desfiô um monte de mentiras e conquistou mecê, não foi?

-Pra ser sincero, foi. Ela é boa de prosa. Gostei mas não acreditei em tudo. E o pior: no final ela me ofereceu emprego, inclusive pagando pelo meu serviço. Nunca recebi pelos serviços que prestei. Vou ser franco, fiquei tentado, muito tentado, me desculpe. Saí de lá perdidinho da silva. Tenho vivido uma vida tão louca, sem rumo, sempre que alguma coisa começa a dar certo pra mim, vem a praga e estraga tudo. Mas pensei que pode ser que lá dentro da toca da onça eu possa ajudar o povo daqui.

Ele abriu os braços, desalentado. Conjuro baixou os olhos.

-Que praga é essa, posso saber?

Boa o olhou espantado, depois deu um tapa na testa.

– A praga da Doxinha. Realmente mecê não podia adivinhar, nunca lhe contei sobre isso. – Conjuro o olhava, expectante – Doxinha era o nome da minha mulher, da mulher com quem me casei e que matei numa crise de ciúmes. Por causa disso fui parar no barco dos piratas.

-Pera aí, Boa, ou mecê tá me enrolano ou tô ficando doido. Que pirata, homem? Isso  num existe mais. Pelo menos por aqui. E oia que vivo noite e dia nessas águas.

-Existe sim. Não mais aqueles piratas com espada nos dentes, e bandeira com caveira no mastro do navio, mas disfarçados, chegam de barco ou canoa, ou batelão, nos lugares desprotegidos na beira dos rios ou do mar, atacam, roubam, matam e fogem. E ainda sequestram homens novos para a sua tripulação, como aconteceu comigo. Não da primeira vez, quando fui levado por minhas próprias pernas depois que matei Doxinha, com medo de ser preso pela polícia. Eu era muito novo, bobo, sabia nada da vida, nada.

-Mecê quis ser bandido? estranhou o outro.

– Eu era um bobalhão, era muito novo, achei que tinha feito vantagem, ia viver mil aventuras, conhecer outros lugares. Sofri foi muito, apanhei que nem boi ladrão, penei, fugi e fui recapturado muitas vezes, m envolvi em confusões  e depois, toda vez que conseguia sair da encrenca onde me metia, entrava em outra. Aos poucos fui entendendo que tudo que me acontecia era praga da Doxinha, só podia ser, ela era boa, mas rancorosa, e quando viu, lá do céu onde está, que escapei da punição, resolveu me castigar. Nunca mais acertei minha vida e até acho justo, pois tirei a vida dela.

Suspirou fundamente e voltou a olhar o rio escuro.

-Me conta isso, direitinho, Boa. Me conta tudo o que lhe aconteceu.

-Não sei o que vai pensar, mas acho bom mesmo contar tudo, descarregar esse peso terrível na minha alma.

E devagar, sem se alongar em detalhes, Boa narrou sua história. Parou muitas vezes sufocado por soluços ou engasgado pela emoção, principalmente quando falava dos filhos ou da mãe. A saudade o maltratava.

-Pobre de mim, casei quase criança com uma moça linda e não suportei a pressão. Eu não acreditava que Doxinha me traísse e ainda tenho minhas dúvidas, achava na época que ela apenas gostava de prosear com os moços da vila, era muito comunicativa, gostava de conversar, de dançar, de rir, ria muito. Às vezes, quando andava na rua, ouvia o povo dar piadinhas pra mim, mas não ligava, sabia que o pessoal tinha inveja dela, moça tão linda e tão querida, casada com um bocó que nem eu. Parou para enxugar os olhos na fralda da camisa. Aí veio o maldito dia em que fui visitar minha mãe, que morava um pouquinho longe de nós, e no meio da conversa ela me perguntou: “E aí continua sendo o boi da casa?” Minha mãe era assim, muito franca e desabrida. Me lembro que fiquei com a cara vermelha e quente, poxa, era minha mãe, uma dona muito séria, que só queria meu bem, devia saber das traições de Doxinha, não era só trelelê do povo, perdi o equilíbrio da cabeça, virei as costas para ela, corri para casa ouvindo ela me chamar de volta aos gritos e via todo mundo rindo, achei que era de mim, comentando que eu era um boi, que tinha chifres e fui pra casa. Via tudo vermelho.

Um forte soluço interrompeu o relato.

-E ela realmente enganava mecê?

-Não sei, não parei pra perguntar, quando o povo falava não dava atenção, mas minha mãe!

As estrelas cintilavam em volta deles, cúmplices. Também escutavam com atenção. Boa chutava a areia e via mais estrelas ali, estrelas que estavam em seus olhos.

-Se tivesse calma teria assuntado pra ver se era verdade. Me lembro como se fosse hoje, achei Doxinha na beira do fogão, entretida a cozinhar, um lenço enrolado na cabeça. Nada perguntei. Peguei a faca que tava na mesinha que ficava ao lado do fogão e sem falar nada enfiei no pescoço dela. Tadinha, ela arregalou os olhos, levou a mão ao pescoço, onde a faca entrou e caiu no chão. Ainda fiquei um tempinho ali, ela estrebuchou como porco carneado e se esticou toda no meio da sangueira. Aí eu fugi.

Dessa vez ele chorou por algum tempo. Conjuro segurou seu ombro e nada falou. Quando por fim ele parou, o corpo ainda tremendo, perguntou:

-Foi nessa hora que ela rogô a tal praga?

Boa parou de tremer, levantou a cabeça e lançou um olhar de estranheza para seu ouvinte. Conjuro insistiu:

-Que foi que ela disse?

-Nada, balbuciou Boa, ela não falou nada, o sangue espirrava do seu pescoço, ela levou a mão para fazer parar, acho que foi por instinto, sei lá. Disse nada não. Saí dali feito um louco, gritando, só parei quando as pernas afrouxaram e me derrubaram. Fui parar numa moita de mato, perto do rio. Escurecia e ninguém me seguiu. Sempre fui muito forte, tinha boas pernas, era capaz de pegar um bezerro na corrida, e fiquei ali, suando e completamente fora de mim. Tremia como vara verde. Tava todo sujo de sangue e assim que recobrei a consciência fui até o rio e mergulhei. Precisava me esfriar e me limpar. Vi uma pessoa correndo, me chamando, e afundei na água até cobrir a cabeça e aguentei o quanto pude. Quando saí da água tava escurecendo e não tinha ninguém por perto.

-Tudo bem, mas mecê não respondeu quando ela rogô a praga.

Ele ficou olhando Conjuro como se não estivesse entendendo, as sobrancelhas cerradas e um ar apatetado na cara.

-Pelo que me contou ela caiu dura depois da facada e morreu. Boa concordou com a cabeça. Se ela nada falô, que praga foi essa?

Boa continuou a olhá-lo, testa franzida, como se nada estivesse entendendo, a boca semiaberta, os olhos vazios. Disse: pois é.

-Então, amigo, Doxinha não lhe rogô praga arguma, é tudo fruto de sua imaginação e eu tava cá me preguntando se mecê matô ela mesmo ou se foi tudo coisa de sua cabeça. Às vezes isso acontece, a gente fica tão doido que…

-Não, isso não, interrompeu ele, lembro do sangue dela esguichando, do meu desespero, eu adorava ela! Num bote minhocas na minha cabeça.

-E acho que tombém ela não traiu mecê.

-Será? Meu Deus, agora é que tudo ficou mais embrulhado na minha cabeça, ai minha mãe! Por que fui lembrar de tudo isso agora?

-Por que nunca esqueceu. E precisava recordar ou inventar o que acha que fez, tinha de justificar todas as besteiras que fez depois. Essa história de pirata… sei não.

-Juro que é verdade, Conjuro, eu não ia menti procê!

-Claro que não, se mecê tá mentino é pra mecê mesmo.

-Cê tá me deixando com a cabeça toda embaralhada. Que eu matei eu sei, eu vi, ninguém me contou. E a troco de que eu ia inventar tudo isso?

-Quem sabe?

-A única coisa que eu posso ter imaginado é a praga. Eu me senti tão culpado, tão infeliz… pode ser que eu tenha inventado, pode ser até que Doxinha tenha me aparecido num sonho…isso eu não sei, juro.

Ficaram calados por um bom tempo, olhando o rio fluir. Um clarão no horizonte indicava que a lua estava prestes a surgir.

-Uma boa noite para pescá, comentou Conjuro para quebrar o silêncio. Mas sim, aí mecê embarcô num barco de piratas. E então?

-Passei o diabo. Aí comecei a pensar que estava me castigando, ainda não pensava em praga nenhuma. Uns meses depois deu-se a morte do Sem Braço. Sem querer eu tinha visto o bandidão guardar o mapa do lugar onde ele tinha enterrado seu tesouro no bolso de dentro de seu casacão. Na hora não pensei em nada, tinha muito serviço a fazer no convés e ouvia as conversas dos outros bandidos. Estavam chateados por não terem sido chamados para ir onde Sem Braço enterrou o tesouro e também estavam bravos pelo assassinato do colega de bordo que o pirata alegava ter caído da canoa na volta, o que ninguém acreditou. Todo mundo desconfiou que Sem Braço havia executado o outro para que não revelasse o lugar onde enterrara o tesouro.

-É possível.

-Aí eu vi quando Sem Braço subiu a bordo e deu a explicação do sumiço do outro. E sem dar importância aos murmúrios foi para seu camarote. Fui atrás, alguma coisa me dizia pra ir. Como me consideravam uma porcaria, um bedamerda, ninguém reparou que deixei o grupo e fui atrás do chefe. Ele também pouco se incomodou com minha presença, eu era o cocô de uma sardinha, coisa nenhuma. E vi ele desenhar o mapa num pedaço de couro.

-Era grande o tesouro? Interrompeu Conjuro.

-Cê num tá acreditando em mim, né, posso sentir na sua voz. Acha que tô variano? Ou que sou maluco?

-Que isso, impressão sua. Só que gosto de saber tudo em minúcias. Me fale do tesouro.

Boa coçou a cabeça, meio desalentado, achava que o outro duvidava dele.

-Pode ser, Conjuro, que eu tenha exagerado um pouquinho em algumas coisas que contei, mas juro que a morte de Doxinha foi real e todo o resto também. Eu não ia inventar coisas contra mim mesmo. O que pode provocar alguma dúvida é a praga dela.

-Tá bom, tá bom, continua com a sua história.

-Eu me sentia muito humilhado naquele barco, não fora pra isso que me metera entre eles. E teve vezes que vi Sem Braço ou Gamelão matar gente assim friamente, sem razão que justificasse, gente do bando. Tudo foi me dando gastura, além do que um bandido embriagado abusou de mim, e ninguém veio em meu socorro. Os cretinos ficaram apreciando, rindo. Eu chorava de ódio e dor. Por isso, quando vi o chefão se torcendo com cólicas, cagando até a alma, comemorei. Por dentro, claro, que eu não sou besta. Fomos pra terra, eu ajudando a montar o acampamento e olhando tudo, imaginando como fugiria dali. Estando desembarcado era mais fácil. O bandidão ainda conseguia andar devagar apertando a barriga, eu do lado, ajudando o desgraçado, sentindo aquele fedor medonho, armei a rede e vi que ele tirou o casacão e mandou eu pendurar num mourão. Foi quando vi a pontinha do mapa no bolso. Esperei a noite chegar, todos comeram alguma coisa, menos ele, que só vomitava e tomava chá e gemia e quando senti que o cara havia morrido e o bando ainda não percebera, não conversei, disfarcei, meti a mão no bolso do casacão e transferi o mapa pro meu bolso. Todos estavam no maior alvoroço, que nem baratas tontas, por causa da morte do bandido e não prestavam atenção em mim, cachorro manso, bom pra apanhar e roer os ossos que sobravam das refeições. Se puseram a discutir na frente do morto! Não pensei duas vezes, fui me esgueirando, a noite estava escura, saí do acampamento e andei um pouco, até me distanciar o suficiente para disparar no meio das plantas com espinhos, com medo de esbarrar em bichos brabos. Corri até não aguentar mais e me meti numa moita.

Boa falara muito depressa e se cansara. Durante algum tempo ficou calado, olhando o rio. Conjuro o olhava, duvidoso. Aos poucos Boa retomou a narrativa, dessa vez com mais calma, deixando de fora apenas alguns fatos, que considerou irrelevantes, como o encontro com a velha dos cabritos. O quarto crescente já chegara ao meio do céu quando a narração terminou.

-Mecê acha que Doxinha tramô tudo isso? perguntou Conjuro, irônico.

-Não que ela tenha tramado tintim por tintim, mas sempre que eu conseguia uma situação agradável de alguma forma ela atrapalhava.

-Qual Boa, tem nada disso não. Quem morreu morreu, quem ficou tem que procurá vivê da melhor maneira possível, mesmo os que cometeram coisas erradas. Mecê fez munta besteira, concordo, mas foi por ser munto novo e munto tolo. Mecê num tem instinto cruel, mecê é um bom homem. E munto sofrido. A gente vê pela sua cara. Já pagô de sobra pelo seu crime.

Boa ouvia de cabeça baixa, os olhos cheios de lágrimas. Conjuro pôs a mão em seu ombro.

-Vamos dormi que se faz tarde e amanhã é dia de trabaio. É hora, agora, de pensá no que pretende fazê. Vai embora em busca de novas encrencas? Vai aceitar o convite da mulé ou vai vortá pra sua terra e enfrentá a justiça?

Eles caminharam devagar. Um vento fresco varria a margem do rio, semeando areia em novos lugares. Ao longe cães latiam.

-Pensei muito e vou pensar mais um pouco. O mais difícil é voltar pra minha terra, tudo lá deve estar mudado, talvez meus parentes nem vivam mais, principalmente minha mãezinha, o tempo passou, eu mudei de corpo e alma, sem os meus vai ser complicado voltar. Eu acho, posso estar errado, que cê acha?

Conjuro sungou os ombros.

-Vendo por esse lado… mas ficá por aqui vai sê mais complicado ainda do que pensa, porque a mulé vai le persegui dia e noite, num vai le dá sossego, como fez com outros desafetos que foram embora por num aguentá a pressão. Ela num tem pena.

-Eu sei, pensei em tudo isso e vou pensar mais um pouco. Não me agrada sair de novo por aí, sem norte, sem saber o que vou encontrar no final da jornada.

-E por falá em praga, tem uma dona aqui, meio bruxa, que pode fazê alguma coisa para afastá a Doxinha, se é que ela tá mesmo atrapaiando sua vida.

Mesmo tendo que examinar as alternativas para escolher o que fazer, Boa dormiu bem. Sonhou com cobras, muitas cobras saindo do rio, do mato, da lagoa avançando em sua direção, rastejando, sibilando, soltando chispas pelos olhos. Ele corria, ora subia num toco, ora numa canoa, tentava pegar uma gorumbumba largada na areia e não conseguia, mas não se sentia apavorado nem angustiado, apenas ciente de que tinha de agir. Em nenhum momento imaginou que os répteis, eram parte da praga de Doxinha.

A manhã surgiu radiosa e o sol, penetrando por entre as frinchas do casebre onde Boa dormia pousou nos seus olhos com força fazendo com que acordasse. Embora com forte vontade de urinar ele se deixou ficar deitado, matutando sobre a conversa que tivera com Conjuro. Não podia demorar muito em tomar uma decisão sob pena de irritar a mulher que se achava dona de tudo, caso fosse ficar com ela ou não. Era preciso se decidir, mas antes ainda queria ter mais uma conversa com seu hospedeiro.

Quando deixou o seu casebre Conjuro já havia saído para o trabalho. Foi até ao lado de fora da casa e ainda pode ver as canoas se afastando. Um dos filhos do pescador lhe trouxe uma caneca de café e um pedaço de broa. Comeu sentado no portal, sempre envolvido por seu dilema. Que devo fazer? se torturava. Tenho de falar com Conjuro, tomar conselho. Passou o resto do dia andando pela praia, no sentido contrário da casa grande, dobrou a curva e sentou-se ao pé de uma grande árvore. Não foi em casa almoçar, não se sentia à vontade quando o dono não estava, mas um de seus filhos o alcançou e entregou um prato de comida. E contou:

-Um caboclo teve lá em casa percurando o senhor. Duas vezes. E disse que a dona tá esperano uma resposta.

-Se ele voltar, diga que falou comigo e que eu disse que amanhã de manhã, sem falta, vou falar com a dona.

Depois de comer procurou uma moita não muito distante e se deitou. Estava acostumado a dormir no meio do mato e só acordou quando o sol começou a baixar. Espreguiçou-se e foi até à beira rio. Os pescadores ainda não haviam voltado. Bom, decidiu, já posso ir me sentar no banco de espera.

As primeiras canoas que sugiram o encontraram sentado no banquinho, ansioso.

-Ainda aqui? Indagou Conjuro.

-Ainda.

-Boa notícia. Vamos conversá depois que terminá o trabalho. Onde ficou nesse tempo? Visitou a mulé?

-Nada, fiquei no meu cantinho, naquela moita de canema que fica depois da curva. Depois que seu filho me trouxe almoço, fiquei tirando um ronco ali.

-No poço da onça?

-Que onça?

-Sabia não? Chi, cê correu um risco danado, é ali que as onças vão matá a sede. Tem pelo menos umas três que o povo já viu.

Boa sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Pegou um cesto e se pôs a enchê-lo de peixes, a região era muito piscosa, para disfarçar o susto. Olhou de lado para Conjuro.

-Cê tá falando sério? E por que seu filho não me disse nada? Riu de lado, incrédulo. Cê tá mangando comigo, né?

-Manel não deve ter se lembrado e as onças costumam aparecer mais à noitinha. Elas tombém ajudaram a acabar com os marrecos azuis do Macornei. Cê não reparou que Otonio usa uma pele de jaguatirica tapando as vergonhas? Eles matam os bichos e usam as peles deles.

Boa riu, descrente.

-Nem bicho nem gente apareceu por lá. Fiquei pensando até a cabeça me doer. Tem ainda uma porção de coisas que eu gostaria de saber.

-O que, por exemplo?

-Como essa mulher veio parar aqui?

-Num foi Doxinha que trouxe ela, fique descansado, ironizou. O que se sucedeu, já contei a mecê, foi o seguinte, eu sei por que trabaiava com Macornei. Ele era um cara muito bom e passou a achá que as crianças daqui, principalmente os meninos, tinham de aprendê a lê e a fazê conta. Pensou munto e fez bobagem. Foi inté à vila e preguntando daqui e dali escoieu uma moça, que ele pensava que era moça, mas que já era mulé há tempos e gostava de uma birita, o que só ficou sabeno depois que ela veio, que dizia gostá munto de criança e que tinha aprendido a lê e escrevê na escolinha de lá. Ela não tinha pai, só mãe, com quem brigava muito, e quando sube das intenções de Macornei se ofereceu pra vir. Era uma simpatia quando chegou e as crianças adoraram dela. É uma artista. Macornei fez uma casa de tijolos e telhas pra ela montá a escolinha, eu ajudei a carregá tijolos dos que tinham sobrado da casa dele e a fazê os bancos pras crianças sentá.

Conjuro falava e catava peixe para por no cesto e ficou sem fôlego. Deu uma parada, preparou um cigarro de palha e só depois de dar a primeira pitada continuou. Boa também separava os peixes. Uma gaivote pousou a poucos passos dali.

-Ela é muito fingida. De manhã ensinava as crianças, depois do almoço ia pra casa do home e ficava do lado dele, pra onde ele ia lá ia ela atrás, cheia de mesuras e de agradinhos. Cansei de ver.

-Eu acho que mecê tem ciúmes dela.

-Que ciúmes. Não tenho ciúmes nem de minha mulé, eu me agaranto. Só tô contano o que eu vi. Nunca intriguei ela com ele, o Zuavo ainda comentava que ele tomasse cuidado com ela, Zuavo tem a mulher que lhe contei que é meio bruxa, que de vez em quando ficava vendo coisas do outro mundo e dizia que a professora era uma peste, que tinha vindo pra azucriná a vida de Macornei. Ele ria, não acreditava. Nem eu. Me alembro tanto da mulé de Zuavo na cadeira da sala, toda esticada, dura como um pau, olhos fechados, falando aquelas coisas com voz esquisita. A gente devia tê acreditado.

Boa sentiu que se arrepiava. Viu os cabelinhos de seus braços se inteiriçarem.

-Bom, seguiu Conjuro contando, aí ela foi se chegando, fazendo gracinhas prele, dizem que até dormiu com ele, mas isso não posso afirmá. Aos poucos a danada conquistô o home. Ela dormia na casinha da escola, acordava cedo, arrumava o lugá como uma boa dona de casa, mas devagá convenceu o otário que ali era munto ruim, que sentia medo de cobras, de ratos, de baratas, chorava, e ele deixou que ela se mudasse pro casarão. Nessa hora vi que a bataia tava perdida. Ela é uma artista das boas.

Não havia nada mais a contar, o essencial fora dito, o silêncio se impôs. Daí a instantes veio o menino mais velho de Conjuro com um canecão de cajuada e dois copos. Beberam, Conjuro olhando os peixes no cesto e Boa olhando as águas turvas do rio, sem saber o que pensar e o que fazer. O menino levou os copos e Boa informou ao amigo, num repente:

-Vou aceitar esse emprego. E vou ajudar mecês.

Conjuro o olhou longamente.

-Eu sabia, só me resta recomendá que tome cuidado, cê já viu que ela não é fulô que  se cheire. E já que sabe lê, faça uma coisa, se encontrá os papéis de Macornei: leia tudo, descubra o que for possível, quem sabe a gente acabe por honrá a memória do morto e botá essa dona na cadeia ou pra corrê daqui com o rabo entre as pernas.

Não havia nada para levar para seu novo pouso e depois de ajudar Conjuro a carregar os cestos para casa seguiu em frente para encontrar a mulher. Seja o que Deus quiser, murmurou, e se persignou. Ela havia saído, ele sentou-se no banco sob a árvore em frente da casa. Um dos caboclos se postou na janela a observá-lo. Alguns índios se movimentavam, trabalhando, sempre em silêncio. Ela só apareceu perto da hora do almoço. Vinha a cavalo, muito séria. Saltou quase em cima dele, que não se mexeu.

-E então? perguntou, o semblante fechado.

-Vou aceitar, ele respondeu sem se levantar.

-Tá certo, vamos almoçar. E entregou as rédeas a Otonio, que caminhava quase colado nela. Sai daí, ela gritou, parece carrapato!

Boa seguiu-a sem falar, ela jogou o chapéu num banco, estava mal humorada, ele percebeu e achou melhor esperar que melhorasse. A tarde se esvaía linda e de súbito ele teve vontade de desistir, talvez fosse melhor aguardar outra oportunidade, quem sabe estaria caminhando para a morte ou a vergonha? Será que Doxinha não o deixava em paz? Viu que a mulher ao entrar em casa foi direto à mesa onde estava a garrafa e os copinhos. Pegou um e virou direto na garganta de uma só vez, estalou os lábios e respirou fundo. Copinhos depois pareceu recuperar o bom humor. Virou-se para ele, que encostara–se na porta, sorriu parecendo constrangida, e perguntou:

-Veio para ficar?

Ele balançou a cabeça afirmativamente.

-Tabira, ela gritou, traga mais canequinhas e arrume um quarto para nosso novo amigo.

Ficou surpreso, não esperava essa distinção, se imaginava vivendo em algum cômodo precário fora da casa.

Ela o observava com olhar crítico e o nariz torcido. Ele não soube como agir.

-Costuma tomar banho?

-Aos sábados, no rio.

-Tabira, cadê os copinhos? O gente ruim de trabalho, nunca vi igual. E roupa, só tem essa? Ele tornou a confirmar com a cabeça. Ela tomou mais um gole. Macornei era mais ou menos do seu tamanho e deixou umas roupas no armário do quarto. Ainda bem que não joguei fora. Tabira, sua imprestável, onde mecê se enfiou?

A mulher, mal vestida com trapos, surgiu na porta do corredor trazendo os copinhos.

-Tabira, isso é lá maneira de se apresentar? Num já disse para cobrir essas pelancas? Ai, é terrível, só mesmo muita boa vontade e amor ao próximo me faz suportar isso. E o quarto do moço, já arrumou?

-Num sou duas, resmungou a cabocla.

-Deixe de prosa e se avie, largue os copos na mesa e vai preparar o quarto, com lençóis limpos, entendeu? Depois prepare um banho pro Boa. Depressa!                +

Boa sorria, sem graça, percebendo que não cheirava bem.

-Chegue pra cá, ela o convidou e se sirva. Vamos fazer um brinde à sua chegada. Vivo muito só, não tenho com quem conversar, esses bugres… bem diferente da vila onde eu vivia. Fui no papo de Macornei… ele era sedutor, conquistava a gente e… bem, aqui estou.

Nessa tarde a conversa não foi muito além, a mulher, que se chamava Carmela, contou que estava resolvendo alguns problemas do arruado e precisou sair.

-Não sei a que horas volto, vou numa aldeia, esse povo é complicado, indisciplinado, vive encrencado, mas não se avexe, Tabira, gritou, sirva um prato de comida para o Boa, é pra hoje, hein? Sorriu para ele. Tenho que tratá-los assim, são muito broncos, precisam aprender a obedecer, senão tudo vai à garra. O Macornei passou uns apertos com eles, por isso preferia lidar com os pescadores, outro povo tapado, um pouquinho menos lerdo, só que interesseiro, fingido, aproveitador. Por isso não posso afrouxar as rédeas. Mas vá, se assente da mesa que já já a moleirona da Tabira vai lhe trazer o de comer. Vai se habituando com a casa, com a gentinha que vive aqui, depois conversaremos melhor.

Ela só retornou tarde da noite, quando Boa já se recolhera. Acordou com seus gritos, ordens e xingamentos, mas não se mexeu, preferiu fingir que dormia. Ouviu-a passar descompostura em Otonio, e chamar por Tabira, impaciente. Depois deve ter seguido com eles para os fundos da casa pois as vozes se apagaram aos poucos, viraram rumores, como o vento no deserto. Ele adormeceu.

Na clara manhã, a casa parecia vazia. Só se ouvia ruídos de animais, galinhas, cachorros, passarinhos, bois. Levantou-se devagar, abriu a janela e olhou em volta, confirmando o que seus ouvidos contaram: ninguém em pé e a manhã se mostrava avançada. Uns índios acocorados debaixo de uma árvore olhavam para a frente, calados como fantasmas. Parece que toda gente daqui anda no mundo da lua, pensou. Junto da cerca que seguia até um curral cheio de bois, um cachorro se coçava furiosamente com a pata traseira. Fechou a janela e sentou-se na cama sem saber o que fazer. Ou todos dormiam ou tinham saído bem cedo.

Pouco depois se levantou, espreguiçou-se, saiu do quarto e se viu num grande corredor. A casa era maior do que imaginara. Algumas portas fechadas indicavam a presença de cômodos; num deles a mulher devia estar dormindo, nocauteada pela aguardente. Num outro poderiam estar os papéis de Macornei. No final do corredor uma cozinha espaçosa, limpa. O armário de louças se encostava na parede ao lado de uma talha bojuda para guardar água de beber. Sentiu intensa vontade de urinar e saiu pela porta dos fundos. Um caboclo cochilava sentado junto ao tacho onde os animais deviam se dessedentar. Outros dois cachorros dormitavam debaixo de um banco. Parece que o povo daqui não gosta de acordar cedo, concluiu. Galinhas ciscavam distraídas e um grande peru, com a cauda aberta em leque circulava entre elas emitindo um ruído seco, algumas peruas ciscavam a seu lado. Adiante cabritos pastavam e porcos magros fuçavam o chão. Foi até à cerca onde aliviou a bexiga. Ninguém notou seu movimento, se viesse um inimigo ou alguém mal intencionado ia fazer um estrago, imaginou.

Estava com fome e voltou à cozinha. Tabira coava café, menos mal. Perguntou displicente:

-A patroa custa a levantar?

A cabocla respondeu com um ruído que ele interpretou como concordância. Um índio seminu encostou-se no umbral da porta.

-Sai daí, gritou Tabira, ela não gosta.

Ele engrolou a língua na resposta que ela deve ter entendido porque disse:

-Daqui a pouco eu chamo. Vai sentá lá, vai e fique quietinho. Trouxeram o leite?

Logo depois chegou outro trazendo o leite num grande vasilhame de barro. Com uma caneca ela separou um pouco e jogou num caneco de ágata que pôs no fogão de lenha. Na mesa de tampo lustroso de gordura encostada na parede ela botou o bule com café, uma caneca e algumas tapiocas.

-Hoje só tem isso, disse pra Boa, de cara amarrada. De tarde vou assá um bolo de mandioca puba e uns biscoitos. Sou eu pra fazê tudo.

Comeu e saiu para passear nos arredores. Olhou as plantações ralas de batata doce e mandioca num cercado, e perto da cerca tufos de capim que os cabritos comiam, latadas de melão de são caetano com seus frutos alaranjados, pés de pitanga quase sem folhas por causa da fome insaciável dos animais, e plantas rasteiras. Ninguém cuidava de nada, plantas e animais sobreviviam à sua própria custa. Abelhas zanzavam.

Depois de comer saiu andando. Ao lado da casa um pomar esquálido sobrevivia, com laranjeiras retorcidas e cobertas de ovos da mosca branca. Mais adiante a carcaça de um animal atraía nuvem de moscas e de urubus que brigavam entre si pelo melhor pedaço. Num canto da cerca uma espécie de cabana. Mais à frente uma carroça adernada, com uma das rodas quebrada. Que relaxamento, exclamou. Parece terra sem dono. Vou ter que dar um jeito nisso. Se vou trabalhar aqui não quero essa bagunça. Caminhara um bom pedaço quando ouviu um grito dela a chamá-lo. Olhou por cima do ombro. Da porta da cozinha ela gesticulava. Bom, vamos ver o que ela quer.

Carmela vestia calça de montaria, botas e chapéu. Na cintura uma pistola com cartucheira. Parece que ela vai pra guerra, pensou ele. Essa dona é perigosa.

-Já tomou café, né? Eu não costumo acordar tão tarde, mas ontem foi um dia estafante, nem sei como aguentei.

Ele sorriu formalmente. Ela sorriu em troca e convidou:

-Tome mais um pouco de café, enquanto isso vou lhe passando o que quero que faça.

Tabira já começara a preparar o almoço e um cheiro bom de refogado enchia a cozinha. Boa sentou-se, ela encheu mais uma caneca de café e lhe entregou:

-Já andou por aí, é? O que achou?

Ele soprou a fumaça que saía da caneca, demorando a responder. Não sabia como ela receberia suas críticas.

-Bom, a propriedade é grande, né? E fica bem longe da beira rio.

-É, o Macornei queria morar longe desse povinho. Era um homem asseado e não gostava de se misturar com esses fedorentos. Começou até a fazer uma cerca que isolaria a casa e a lagoa, mas seria muito trabalho e dinheiro. Ele achava necessário porque muita gente vinha roubar marrecos e ovos, uma coisa triste. Foi por isso que ele se aproximou dos caboclos, que não eram amigos de ninguém do povoado, enxergavam até de noite, hora que os safados mais vinham roubar. Macornei andava desgostoso, reuniu os pescadores, explicou que criar os marrecos rendia dinheiro que ele usava para melhorar a vida deles, até um médico trouxe uma vez, mas o pessoal não entendeu ou não quis entender e continuava roubando. Menos, é claro, depois que os caboclos passaram a vigiar, eles têm um medo que se pelam dos caboclos, acham que eles comem gente, essas coisas.

-Macornei não trabalhava com alguns pescadores?

Ela fez cara desprezo.

-Trabalhava, até o seu amigo Conjuro ajudava, mas… eu não quero falar mal de ninguém, mas essa raça vale nada, não merece confiança. Ninguém do arruado vale a comida que come, acredite em mim.

-Conjuro me parece boa pessoa.

-Parece, mas no fundo… vamos deixar isso pra lá e cuidar do que interessa. Ainda não me disse o que achou da nossa sede. Pode falar sem receio, estou cansada de gente que mente para me agradar.

Não tenho nada a perder, pensou ele. Se ela não gostar arrumo um jeito de ir para a vila e de lá tomar outro rumo. Olhou bem nos olhos dela, precisava mostrar que não tinha medo.

-Sua propriedade está decadente, acabada. Não sei como consegue viver assim.

Ela levantou os ombros.

-Fazer o que? O pessoal que está comigo é leal, mas preguiçoso, relaxado. Só trabalham se alguém der ordens, faça isso, faça aquilo. E tenho coisas mais importantes para pensar.

Ele ficou quieto, olhando-a. Ela lhe lançou um olhar esperançoso.

-Quer fazer isso pra mim? Cuidar da propriedade? Eu lhe dou plenos poderes, pode fazer o que quiser com esses caboclos, mecê vai ser meu feitor, quer?

Doxinha, mais uma vez, mexera seus pauzinhos e o levara a uma situação de risco. A mulher era desconfiada e qualquer passo em falso podia significar até sua morte. Agora ela o encarava fixamente, com um sorriso que lhe pareceu ameaçador. Ela também tinha medo. Quem podia garantir que ele não agiria como ela como agira com Macornei?

-Posso lhe pagar por seu trabalho. Não muito, mas além disso terá casa, comida, roupa, ninguém lhe dará emprego assim. Pelo menos por aqui.

Ela acha que me transformando em seu empregado ficará mais segura, imaginou. Ela o olhava, expectante e seus dedos seguravam uma colher com se quisesse quebrá-la. Ele a manteve assim por alguns minutos. Por fim, falou:

-Tá certo, aceito. Quero alguns índios bons, não esses mandriões que vivem cochilando pelos cantos aqui. Quero que mande que me obedeçam sem discussão.

-Assim será. Aperte minha mão. Agora vamos ao quarto de Macornei escolher roupas dele pra mecê. Tem roupas muito boas. E as suas fedem.

Carmela passou alguns dias fora, tempo que ele usou para visitar Conjuro. Exigira ter liberdade para visitar quem quisesse. Conjuro reconheceu as roupas do antigo patrão, mas não se importou.

-Se alguém havera de usá-las seria mecê e não esses safados que vivem na cola dela. E lá como vai indo? Já viu os documentos, os papéis?

-Nada. Acho que ela está me testando antes de mostrá-los. Ainda num vi tudo, tem um quarto que vive fechado, com a chave pendurada na cintura dela. Não tenho pressa. Ela ainda não me deu os índios que vão me ajudar a botar ordem naquela bagunça.

-Tenha munto cuidado.

-Então, ela perguntou assim que chegou, a conversa com Conjuro foi proveitosa?

-Só jogamos conversa fora, ele foi munto amigo quando aqui cheguei.

-Eu sei. E sei também que não falaram nada sério, num se esqueça que tenho espiões em cada casebre, em cada grão de areia.

-Isso não me preocupa. O que me preocupa é não ter ninguém pra por pra trabalhar, pra limpar essa sujeira que é sua casa, pra cuidar da propriedade. Aqui chove pouco, o tempo das chuvas é muito curto e vem chegando. Quero ter a terra preparada para plantio para quando a chuva chegar.

Ela sorriu, satisfeita, e no outro dia alguns caboclos vieram da aldeia por ordem dela.

-Escolha os que considerar melhores, disse ela, e vou ordenar que obedeçam a mecê sem reclamar. E ai daquele que fizer corpo mole. Ah, separei mais essas peças de roupa de Macornei procê

Em pouco tempo Boa tinha mandado lavar e arrumar a casa, expulsado do terreiro os caboclos malandros, e preparado o terreno para plantar. Ela acompanhava tudo, satisfeita.

-A casa tá parecendo outra. Agora vá tomar um banho e se vestir, quero ver como a roupa fica no seu corpo. Tabira, prepara um banho morno para nosso amigo.

Os olhos dela mostravam um misto de doçura e sensualidade. Ele pegou a roupa escolhida e aguardou.

-Não vai vestir? ela indagou.

-Vou primeiro tomar banho. E não vou me vestir com mecê aqui, dá licença.

Quando a índia surgiu com a bacia, ele se pôs a desabotoar o casaco, muito sério. Ela se mexia, indócil, foi até à janela, abriu, olhou o pasto e voltou a olhá-lo com jeito de faminta. Tabira jogou água fervendo na bacia e ele perguntou:

-Não vai sair? Não vou tirar a roupa com mecê aqui.

Ela o olhou com raiva.

-Parece uma mocinha. Mas tá certo, vou sair.

Ele tomou um banho demorado de propósito. Percebera que as intenções dela eram mais bem intencionadas que deviam ser, ora ora. Vou deixar a bichinha bem nervosa. Preciso me impor, não posso fazer tudo o que ela quer. Quando saiu ela estava na sala dando ordens a Otonio e lhe deu um olhar avaliador. Ele ficou parado, esperando.

Ela sorriu: a roupa ficou melhor em mecê do que no dono. Pode levar o resto pro seu quarto.

Ele observou da porta ela montar no cavalo e seguir acompanhada do caboclo que o olhara enviesado. Tá com ciuminho, tadinho do bugre. Quando a viu longe seguiu pelo corredor, queria aproveitar para examinar os outros quartos, mas todos estavam trancados. Pegou as roupas de Macornei e guardou. Antes examinou os bolsos e achou um pedaço de papel onde alguém, certamente Macornei anotara o número 250 e um nome, Jack. Deve ser o número de marrecos entregues ao tal Jack.

Jantou sozinho. Tabira cochilava junto ao fogão de lenha, num banco cambaio. A seus pés um cachorro. Comeu devagar, pensativo, buscando uma maneira de agir. Estava procurando o que? E para quem? O que tinha a ver com a briga entre Carmela e os pescadores? O que precisava descobrir? Tenho mais é que cuidar de mim, decidiu. A vida me deu mais uma oportunidade de viver bem, apesar da perseguição de Doxinha e tenho mais é que aproveitar, Conjuro que me desculpe, essa briga não é minha.

Dormiu cedo. Não havia o que fazer nem com quem conversar. Tabira desaparecera depois de acender o lampião da sala e a lamparina, que botou a seu lado, sempre em silêncio. Ele sentia-se bem e dormiu como um anjo, como se costumava dizer na sua vila. Sonhou com anjos com asas coloridas de marrecos. A bem dizer, só conhecia marreco das gravuras que Carmela lhe mostrara; marreca conhecia bem, irerê, pé vermelho, bico preto, caneleira, já marreco nunca tinha visto. Bicho bonito.

A mulher ainda não havia voltado quando sentou-se para tomar café. Tabira cozinhara aipim, assara um bolo de milho e lhe franqueara uma garrafa de manteiga. Fartou-se. Assim vou engordar. Agradeceu a Tabira que ficou vermelha. Certamente ninguém nunca lhe agradecera, muito menos a patroa. Boa viu se desenhar um esboço de sorriso na cara enrugada. Deixando-a entregue a seus afazeres, saiu de casa pela porta da cozinha. Teve vontade de perguntar à empregada onde a patroa passara a noite, mas pressentia que ela não sabia e que se soubesse não lhe diria. Será que ela tinha um amante e passava noites com ele? Imaginou a chefona abraçada com um índio numa rede tendo relação sexual, mas procurou afastar essa imagem da cabeça.

Ela chegou à tarde, quando ele semeava caroços de milho ajudado pelos caboclos. Apeou sorridente e veio a seu encontro. Ele demonstrou indiferença. Ela se aproximou e passou a mão em seus cabelos.

-Estou gostando de ver. Desse jeito em breve seremos autossuficientes em alimentação e não precisarei ir tão longe e ficar tanto tempo fora para abastecer minha casa.

Ele sorriu, ela se preocupara em lhe dar uma explicação plausível para sua ausência. Os caboclos correram a descarregar os cavalos dos sacos de mantimentos e dos jacás com frutas.

-Tabira, gritou ela caminhando para casa, prepare um banho pra mim que estou morta. Rápido, sua lesma. Me vê também uma branquinha e um prato de comida.

Nos dias seguintes Boa quase não a viu, ela estava sempre percorrendo os arredores, era incansável. Assim tá bom, ele pensou, não me perturba. Ele trabalhava duro e mal a noite caía, não tendo o que fazer, ia para a cama. Ela chegava depois e ia para a sala em companhia dos copinhos da branquinha. Era muito resistente.

Ele aproveitou para chamar os caboclos e ordenar:

-Quero que tirem esses jacarés da lagoa. Não deixem nenhum.

-Vamos botá eles adonde?

-No mesmo lugar adonde acharam.

-Mas como nóis faiz?

-Não sei nem quero saber. Se souberam trazer pra cá tem que saber levar pra lá. E isso é pra hoje. Amanhã de manhã…

-A dona num vai gostá, interrompeu o caboclo mais velho. Foi ela que mandô trazê pra cá.

-Não quero saber, quero esses bichos bem longe daqui. Vamos logo.

Então é mesmo verdade o que Conjuro disse, concluiu Boa. Vamos ver como ela vai reagir e que explicação vai dar para trazer os jacarés pra cá. Terá sido mesmo para comer os marrecos? Bandida!

Numa noite em que ficara acordado até um pouco mais tarde, pensando na vida e apreciando a beleza de uma noite estrelada da janela de seu quarto ouviu sua porta ser empurrada de leve. As portas da casa não tinham fechadura, a não ser a do quarto dela e de outro cômodo, que ela designava como escritório. Ele fingiu que não ouviu o leve rumor da porta sendo aberta e sentiu que ela caminhava em sua direção. Logo ela o abraçou por trás e murmurou, com o hálito recendendo a cachaça:

-A gente não deve reprimir os desejos. Como não temos compromissos, podemos saciar os nossos, né não?

E beijou-o no cangote. Ele estava há muito tempo sem mulher e prendendo a respiração para não sentir aquele hálito fedorento, derrubou-a na cama e a possuiu, consciente de que uma nova etapa de sua vida estava começando. Ela era insaciável. De madrugada ela acordou, pediu que fosse com ela ao quartinho, pois precisava urinar. Na volta novamente se amaram. E de novo ao amanhecer. Estou botando minha tesão em dia, admitiu.

Uma nova vida começara pra Boa. E ela se mostrava bem humorada, quando passava por ele dava jeito de se esfregar ou acarinhá-lo.

-Agora sou feliz, ela gritou para Tabira.

Boa também era, só não suportava seu hábito de beber cachaça. E descobriu que depois das refeições ela dava um jeito de sair e pitar um cigarro de palha que acendia com uma brasa do fogão. Por isso procurava não ficar muito próximo de seu rosto e na hora do sexo enfiava o nariz no pescoço dela.

-Parece que tô beijando um homem, reclamou com ela.

Ela ria e virava mais uma canequinha da branquinha. Também o incomodava o apetite sexual dela, sua gana de levá-lo para a cama a qualquer momento.

-Tá me sugando as forças, pensava ele, apertando os músculos dos braços e do peito.

Ficava aliviado quando ela partia em suas costumeiras viagens, sem se preocupar em saber para onde ela iria nem quando voltaria. Numa dessas vezes, quando ela fechava a porta do escritório, ele viu a papelada acumulada numa escrivaninha.

-Que tanto papel é aquele?

-Coisas do Macornei. Qualquer dia vou pedir procê dar uma olhada nelas, pode ter alguma coisa interessante.

-Na hora que quiser. Enquanto as plantas crescem e os bichos cuidam de suas crias fico sem ter o que fazer, me amofino, tenho vontade de ir prosear com meus amigos na beira rio, mas como sei que mecê não aprova, fico em casa bocejando. Não tô gostando nada dessa paradeira. Mecê não confia em mim? Ali tem algum segredo?

Parada ao lado da porta, com a pesada chave na mão, ela o olhava sem saber o que pensar ou fazer. Ainda não vira ele lendo alguma coisa nem ali tinha o que ler, não sabia o quanto ele entendia de leitura e de conta, ao mesmo tempo em que temia que ele se cansasse de ficar sem fazer nada e decidisse ir embora. Pensava muito nisso quando em viagem ou dormindo fora de casa. E, ao que parecia, ele nunca tentara entrar no cômodo sem lhe pedir, conforme indagara dos empregados. Como agir? E o que poderia temer? Tinha muita coisa escrita numa língua estrangeira e números que mais pareciam códigos. Seriam que escondiam alguma coisa que pudesse incriminá-la? Mas incriminar de quê? Quem poderia dizer ao certo que mal matara Macornei? Claro que em vão procurara descobrir o que o velho fizera com todo o dinheiro que ganhara com os marrecos. Nas noites de insônia se indagava: deixava o dinheiro com alguém no lugar para onde ia sempre? Mandava para sua família? Mas que família, ele nunca falara dela. Taí uma tarefa que poderia atribuir a Boa, descobrir se ele tinha família e onde ela vivia. Ia ser difícil, as informações deviam estar escritas em outra língua, mas de repente…

-Bem pensado, Boa, quando voltar desta viagem vou lhe mostrar as coisas de Macornei e pedir para ver se descobre algumas coisas que pretendo saber há muito tempo.

Adiara para sua volta para ter tempo de pensar mais um pouco sobre o assunto.  Mais uma vez sozinho, no meio de caboclos ignorantes e a velha Tabira, Boa se pegava constantemente a indagar sobre o que estava vivendo e seu futuro. Tinha a impressão que dessa vez Doxinha não estava se metendo, talvez estivesse cansada de sua atividade nefasta. Por outro lado, apesar da vida mansa que levava, tinha lá suas preocupações, pois toda vez que uma mulher se metia na sua vida a situação desandava. Dessa vez, porém, tinha uma ressalva: não gostava da Carmela, ia pra cama com ela por vício, por que estava sempre pronto para o sexo. Chegara a gostar das outras, Doxinha, Zira e Ildinha,  mas com essa, que devia ser mais velha que ele, era uma coisa mecânica, sem paixão. Era como trepar com Tabira. Isso devia estar mantendo Doxinha sossegada.

Só para apressar a decisão de Carmela, numa tarde saiu e avisou a Tabira aonde ia.

-Avisa à dona que vou prosear com Conjuro.

Tabira, sem dúvida, avisaria a patroa. Sentados na areia, longe de ouvidos indiscretos, os dois amigos conversaram bastante. Conjuro se preocupava com a relação amorosa dele com a dona, mas achou que seria ótimo que ele pudesse ter acesso a toda a papelada deixada por Macornei. A noite caía quando finalmente Boa foi pra casa. Encontrou Carmela encostada no umbral da porta da frente, de cara amarrada.

-Tava muito boa a conversa, hein? O que tanto falaram? perguntou assim que ele se aproximou. Falaram de mim?

-Não, falamos bobagens, coisas sem importância. É como falei, fico aqui sozinho sem ter nada para fazer e não aguento.

-Contou a ele que nós dois estamos…

-Por que falaria? Isso é assunto meu.

Ela o encarou demoradamente, seus olhos verrumando o cérebro dele. Ele a enfrentou, sereno. Ela cedeu, baixando os olhos. Sorriu.

-Ainda bem, num gosto de ver minha vida na boca dessa gentinha. Entra, vamos tomar café, eu trouxe uma tapioca especial.

Na manhã seguinte estava risonha, apesar de ter ficado emburrada durante o jantar até à hora em que foi pra cama sem procurá-lo. Tá pensando que vou me chatear com isso. Tô até gostando. Não tava mesmo com disposição. Ela alisou sua mão e disse:

-Acabando de tomar café vamos ao escritório. Gostou da tapioca? De primeira, né?

O cômodo cheirava a mofo, a poeira se acumulava sobre móveis e papéis. Boa espirrou.

-Vou mandar Tabira dar uma boa limpeza aqui. Abra a janela.

Saíram enquanto a empregada promovia a limpeza. Sentaram-se na carroça quebrada de onde viam nuvens de poeira escapar pela janela.

-Não sei como mecê aguentava isso.

-Fazer o que, não podia deixar tudo escancarado como era no tempo do falecido. Não antes de saber o que está nos papéis.

Uma trabalheira só. Primeiro separar as folhas soltas dos cadernos e dos livros-caixa. Nos livros na maior parte números, provavelmente de marrecos nascidos, criados e vendidos. Outros deveriam se referir a despesas, rações, remédios, essas coisas do dia a dia de uma criação de aves. Nas folhas soltas, textos grandes e pequenos, anotações, tudo numa língua estranha, palavras emendadas, riscadas, substituídas, datas, nomes, difícil decifrar. Uns rabiscos, tentativas de desenhar os marrecos, mapa da lagoa, retas e curvas. Por onde começar a desvendar, a dona só se interessava em saber do dinheiro, quanto e onde guardava, mais difícil ainda. Alguns números, que pareciam somas, tinham um L ou coisa parecida na frente, nada que lembrasse réis ou contos de réis. Talvez representasse a moeda do país dele, como saber? Nenhum nome de namorada, nenhum endereço, ele deveria ter excelente memória, ou um caderninho que devia estar sumido.

Durante dias examinou a papelada, tentou ler, adivinhar, descobrir uma pista, por menor que fosse que permitisse entrar naquele novelo de informações. Que língua seria aquela em que ele escrevia com letra clara, legível para quem conhecia a língua. Numa gaveta encontrou o recibo de compra das terras nada, porém, oficial, com estampilha e carimbo. Passava horas sentado diante da maçaroca, mão no queixo, a olhar os misteriosos símbolos até o olhar ficar coberto por uma névoa. Não saberemos nunca o que tá escrito, descobriu. E se levantou, desanimado. Vou dar uma volta.

Na prainha que margeava o rio viu um ajuntamento de pescadores, que pareciam muito interessados em alguém no meio da roda. Firmou o olhar e viu que era sua patroa. Adiante, sentado na beirada de sua canoa, Conjuro. Resolveu ir até lá, pensasse ela o que quisesse. Era empregado e amante dela, não escravo.

Conjuro não pareceu surpreendido quando o viu chegar, apenas indicou com o queixo o grupo que cercava a mulher. Boa deu de ombros.

-Depois num vai dizê que Doxinha atrapalha sua vida. A mulé é vingativa e adora ir às forras. É mió dá meia volta.

-O que ela tanto fala? perguntou Boa olhando o grupo, sem parecer se importar com o conselho.

-Faz política. Ela qué transformá esse arruado em vila para ser a mandachuva, poderosa, mas como o presidente da Câmara da vila Praia Preta não concorda, ela qué arregimentá um grande número de moradores daqui pra fazê pressão. Num vai consegui, o povo daqui tem medo de otoridades. Do contrário só dando munta grana ao presidente, que todo mundo sabe que é corrupto.

-Nossa! E o povo daqui, o que acha?

-E povo acha alguma coisa? Povo é que nem cabrito ou boi que segue quem é ambicioso ou promete mais.

-E mecê, o que pensa?

-Acho besteira virá vila, só vão aumentá os impostos e problemas. Porém ela sabe convencê, levá as pessoas na conversa e podia usá esse talento pro bem, pra convencê o administradô a melhorá nossas condições de vida. Aqui farta tudo, principalmente vergonha na cara. Mas o que ela qué é o podê de prendê e soltá.

-Ela é bastante mandona sim.

-E mecê como tá se saindo lá?

-Uma embrulhada. Vou lhe contar porque não tem ninguém aqui perto pra escutar, tá todo mundo puxando o saco dela. Ela tá confiando em mim e botou a papelada do Macornei nas minhas mãos, quer saber pra onde foi o dinheiro da venda dos marrecos. Só que tá tudo escrito numa língua estrangeira, não dá pra saber. Já falei com ela, o melhor é guardar tudo e desistir, mas ela é gananciosa, quer o dinheiro. E aí?

Conjuro desviou o olhar para a placidez das marolas do rio. Urubus e cachorros disputavam espaço na prainha. Gaivotas revoluteavam. Depois respirou fundo, coçou a cabeça e falou:

-Acho que posso ajudá, mas temo tá abrindo a porta do inferno pra mecê.

-No inferno já tô e quando acabar a tesão da mulher por mim vai ser ainda pior. Sabe de alguma coisa que possa me ajudar?

-Talvez. Na vila tem dois estrangeiros que podem ajudá a decifrá a papelada. São dois moços que vieram do estrangeiro e tão querendo criar uma cooperativa de pescadores ou de agricultores. Já conversei com eles e sobre eles. O povo da vila tem os dois em alta conta, e gostei do que disseram e do que vi. Eles se davam bem com Macornei, e num podem nem ouvir falá da mulher. Num sei se vão querê conversá com mecê.

Boa curvou-se para a frente, esperançoso.

-Com sua ajuda, talvez.

-Posso tentá, mas num gostaria que isso fosse beneficiá a disgramada.

-Isso não vai acontecer.

-Como não? Ela vai querê saber o que mecê descobriu, e aí…

-Aí, nada. Só a mecê vou contar o que souber. Já enrolei ela em outras coisas, deixa comigo. E quando achar o dinheiro a gente vai decidir o que fazer com ele.

-Num sei. Me dá um tempo pra pensá melhor.

-Num tá acreditando em mim? Acha que ela me comprou?

-Num se trata disso, mas eu sei como age aquela dona, sei o que ela fez com o compadre Miro para que ele contasse coisas sobre Macornei que ela queria sabê e num gostaria que o mesmo acontecesse com mecê.

-O que houve com o Miro?

-Num foi coisa boa, deixa pra lá. Ela é uma onça.

-Tá bem, num quer me ajudar, não ajude, eu vou lá sozinho e arrumo um meio de conversar com os gringos.

Conjuro coçou a cabeça, seu hábito sempre que tinha um problema a resolver.

-Quando pretende ir lá?

-Num sei. Tenho que estudar direitinho pra num fazer bobagem. Ela só vai saber que fui e não com quem falei.

Boa se levantou e estirou os braços. Olhou para onde a mulher estava e não viu mais ninguém. Vamos enfrentar a fera, pensou.

-Té mais, Conjuro, vou le dar notícia depois.

Caminhou apressado pela areia. Os pescadores preparavam suas canoas por entre urubus, cachorros e umas gaivotas atrevidas. Pequenos peixes mortos fediam. O sol descambava rápido. Na primeira vez que ela sair pego um cavalo e vou na vila. Ou vou de canoa.

Como da vez anterior, Carmela o esperava encostada no portal, pitando um cigarrinho de palha. No parapeito da janela uma canequinha e uma garrafa, com um terço de aguardente. Parecia tranquila, mas ele sabia que era só fachada, por dentro devia estar fuzilando. Se ela quisesse falar alto com ele falaria mais alto ainda. Não podia facilitar com a fera, senão ela montaria em seu cangote. Não ia deixar que o dominasse. Chegou sorrindo.

-Trocou muita conversa com seu amigo?

-Bastante. E mecê conseguiu arregimentar mais partidários? Pelo jeito a vila sai mesmo.

-Se Deus quiser vou tirar Marreco Azul das garras do povo ganancioso da Vila da Praia Preta. que só quer saber de pegar dinheiro dos pescadores. Quer um traguinho? É parati legítima.

Ele torceu o nariz. Ela riu e virou o liquido da canequinha diretamente na boca.

-Não sabe o que está perdendo. Isso é bebida de rei.

E estalou os lábios. Depois o olhou com mal disfarçada ansiedade.

-Que cê tanto conversa com aquele sujeito? Sabe que ele não vale a comida que come num sabe?

-Na sua opinião.

-E na de muita gente. É um fraco, um intrigueiro, que deixava Macornei irritado. Com tanta gente boa pra conversar, foi se enganchar nele.

-Num quero discutir esse assunto, mecê tem suas preferências, eu tenho as minhas.

-Só porque le deu abrigo quando chegou aqui, recomendado pelo pústula do Pereba.

Ele entrou em casa sem lhe dar resposta.

-Ei, tô falando com mecê.

Ele deu mais alguns passos, parou e virou-se para ela.

-Não quero conversa. E não quero mais que toque nesse assunto dessa maneira. Se quiser é assim, se não quiser…

E continuou andando. Ela tomou mais gole de parati e bufou. Ele tornou a dar uma parada.

-E pare de beber senão não vai dormir comigo. Não aguento essa catinga de cachaça.

Ela se calou e ele respirou aliviado. Por um momento temeu que ela reagisse a estragasse tudo.

–Me diz uma coisa, é verdade o que o povo diz, que mecê tem um alambique?

-Nem respondo. Mecê viu argum alambique nesse tempo que mora aqui? Dá ouvido presse povo e mecê vai acabar maluco.

Ela voltou para o lugar junto ao portal. O céu se avermelhava e os ruídos que vinham dos matos se intensificavam. Ele caminhou para a bacia que estava no tripé, encheu de água limpa, lavou as mãos e o rosto. Descobriu que estava com muita fome.

-Tabira, faça um prato pra mim.

Deixando a apreciação da natureza Carmela tinha tornado a entrar na sala e estava próxima dele quando avisou:

-Ei, quem manda aqui sou eu.

-Vai fazer questão da comida, é? Tenho que pedir sua autorização para me servir?

Ela ficou constrangida.

-Não é isso, é que gosto de comer com mecê.

-Se gostasse não vivia viajando e me deixando sozinho.

-Viajo para visitar esses pobres índios espalhados por esses matos que precisam de mim e não pensei que mecê se incomodasse tanto.

-Tantas visitas… aposto que amanhã vai sair de novo acompanhada desse Otonio.

-Tá com ciúme, é? E ela sorriu pela primeira vez desde que ele chegara. Otonio é meu guarda-costas, só isso. E não vou sair amanhã, talvez só na sexta-feira e vou precisar passar todo o fim de semana fora, mecê vai ter um pouco de paciência, não posso deixar meus pobrinhos desassistidos.

Boa gostou da notícia, poderia programar a ida à vila para o fim de semana. Já que Conjuro não queria participar, iria sozinho. Na manhã da sexta-feira, com ela viajando, na hora que voltou na prainha do rio Conjuro veio a seu encontro.

-Vai mesmo à vila?

-Agora, a bruaca viajou e vou aproveitar.

-Levo mecê de canoa.

Boa sorriu, satisfeito.

-Na hora que mecê quiser e vai comigo ao encontro dos gringos?

-Deixe só eu avisá a patroa.

Pelo rio a vila não ficava tão longe e chegaram lá na hora do almoço. Antes de procurar os homens pararam numa barraca na beira-rio coberta de palha para comer peixe frito com farinha e arroz. Conjuro, que conhecia todos os que viviam na orla, entabulou conversa com o dono da barraca e sutilmente a encaminhou para os gringos e Macornei.

-Eles são munto boa gente é o que posso dizê, falou Eliezer, o dono da barraca. Têm feito o possível para organizar o povo, mas esse pessoal aqui é muito chucro, desconfiado. Continuamos praticamente na estaca zero. Pensa que os gringos desistiram? Ficaram só um pouco desanimados com a morte de Macornei. Logo voltaram a falar com os homens.

Malicioso, Conjuro indagou:

-E a mulher, a nova dona do lugarejo, não ajuda?

-Aquilo é a judas, respondeu com um olhar de desprezo, e num é dona nem dela mesmo. Eles num querem saber dela, se recusam a conversá com ela, acham que ela é a maió culpada de tudo o que aconteceu e acontece. E tão fazendo a maió força pra que aquele buraco onde mecês moram não vire vila.

-A vida lá tá miorando, os jacarés foram retirados da lagoa, informou Conjuro com a mão no ombro de Boa, graças ao amigo aqui. Ele trabaia com ela mas é um dos nossos.

-Cuidado, avisou Eliezer, aquilo até quando é boa ela é ruim. Macornei é a prova disso.

Conjuro o interrompeu.

-Olha lá, Boa, os gringos.

Boa olhou. Envoltos na intensa claridade do meio-dia, dois homens caminhavam ladeados por crianças com quem conversavam animadamente. O mais alto olhava o rio por cima das cabeças dos garotos.

-Vamos falar com eles, propôs Boa. E virando-se para Eliezer: convide eles pra comer conosco, o peixe está muito bom.

Eliezer olhou para Conjuro que concordou com um abaixar de pálpebras. Ansioso, Boa ficou atento à abordagem. Depois de certa hesitação os dois aceitaram o convite, mas só para conversar.

-Já almoçamos, avisou o mais alto. Qual é mesmo o assunto sobre o qual querem nos falar?

-Sobre Macornei, respondeu Boa.

-Ah, disse o outro, o pobre amigo Mac Cornel. Querem saber o que?

-Estou trabalhando para a mulher, explicou Boa, o que não significa que concordo com o que ela diz e que faz. Preciso de um emprego para me manter aqui, não sou bom pescador. E também para esclarecer a morte de seu amigo. Ela me entregou uma grande quantidade de papéis e uns dois cadernos, mas não entendo nada do que está escrito.

-Claro, disse Larry, está em inglês. Nosso amigo percebia bem quem era a dona que ele contratou para ensinar as crianças a ler, mas não tinha alternativa, não há por aqui mais ninguém capaz de ensinar.

-Conversamos muitas vezes, disse o que se chamava Uilson. Ele não confiava nela e sempre pedia que a gente o ajudasse. Mas temos nosso trabalho aqui e nem sempre… e ela, muito esperta, distorcia tudo o que a gente falava e fazia. Ele, porém, macaco velho, como se diz, não acreditava e vinha conversar. Aquela mulher é uma peste.

-Macornei tinha família no estrangeiro, não tinha?

-Claro, e já comunicamos a morte dele ao único irmão que ficou na terra deles. Qualquer dia ele virá, inclusive por causa da herança, as terras estão todas em nome de Mac Cornel.

-Não achei qualquer escritura dessas terras, afirmou Boa, só uns recibos.

-Nem podia achar. Como contei, ele não confiava nela, assim, foi no cartório e tirou mais duas cópias. Uma mandou para o irmão, a outra está conosco, bem guardada. E tem ainda o testamento que está sob a guarda do cartório. Estamos esperando o irmão chegar para providenciar a leitura. Pode dizer isso àquela infeliz.

-E dinheiro? Onde ele guardava o dinheiro?

Um olhou para o outro e nada se lia de bom nos olhares. Larry disse secamente:

-Não faço a menor ideia.

-Bom, raciocinou Boa, ele chegou de viagem depois de entregar os marrecos e certamente de receber pela venda e no entanto ela me disse que só encontrou alguns tostões nos bolsos dele quando morreu. Para onde foi esse dinheiro?

-É uma boa pergunta que talvez só ele seria capaz de responder.

-Ou ela, disse Uilson, ácido.

Larry levantou-se.

-A conversa está muito boa, mas temos compromissos. De uma outra vez, quem sabe, a gente conversa com mais calma?

Boa estendeu a mão que ele apertou.

-Se eu trouxer os papéis escritos em sua língua, mecê seria capaz de ler?

-Acho que sim, respondeu Uilson também estendendo a mão, mas não sei se vale a pena, devem ser só anotações sobre os marrecos.

-Mesmo assim eu gostaria de saber.

-Pra contar para a mulher? Não sei se Mac Cornel aprovaria. Se ele escreveu em inglês certamente foi para que ela não conhecesse o teor… Traga pra gente ver, se for o caso a gente faz a tradução.

-Não vou contar pra mulher, Conjuro sabe disso.

-Tá certo, disse Larry se afastando, depois a gente conversa sobre isso. Até mais ver.

Boa ficou desconcertado com a desconfiança dos gringos.

-Eu não falei que eles não gostavam da mulher?

-Poxa, mas eu disse que não ia contar pra ela. E agora? Não vou saber nunca o que está escrito ali.

-Não se amofine. Em outra oportunidade vou conversá com eles. Fique certo que a bronca não é com mecê, mas eles conhecem o caráte da bruxa e temem que consiga arrancá de mecê as informações. Agora, se qué um conselho, fale com ela o menos possível sobre o que conversamos.

-Tenho uma ideia e acho que se não der certo pelo menos vai deixar ela de cabelo em pé.

A tarde escorregava lentamente no horizonte quando retornaram ao lugarejo de Marreco Azul. Ele ia tranquilo, ela só estaria de volta no dia seguinte, mas não foi o que aconteceu. De longe ele a viu na sua pose típica, o ombro esquerdo apoiado no umbral da porta da frente, testa franzida, na mão a canequinha de aguardente e pendurado no queixo o fedorento cigarrinho de palha. Dos olhos saíam chispas de raiva.

-Pode-se saber por onde andava?

-Fui conhecer a vila da Praia Preta.

-Com ordem de quem?

Ela bufava e ele podia ver bolhas de cuspe brotando dos cantos da sua boca.

-Cumé quié? Por ordem de quem? Por acaso tenho que lhe dar obediência dos meus passos? Sou seu escravo não, dona. Sou seu empregado e de qualquer maneira, estava a seu serviço, fui conversar com os gringos que eram amigos de Macornei.

Os olhos dela pareciam querer sair das órbitas.

-Com aqueles crápulas? Teve coragem, sabendo que não suporto eles?

-Tenho nada com seus sentimentos por eles. Como toda a papelada está escrita em inglês, eu precisava de alguém que soubesse ler aquilo.

A voz dela saía embargada de ódio, os queixos pareciam ter endurecido.

-E achou que eles saberiam?

– Achei, mas eles não sabem ou não estão afim de traduzir. Mas fiquei sabendo de coisas importantes, que mecê devia conhecer para se precaver. E me agradecer, em vez de querer dar bronca.

-Como cê sabe que estão escritas em inglês, levou os papéis para eles ver?

Ela babujava. Engoliu o trago de parati de uma só vez.

-Claro que não, não sou idiota. Eles sabiam que Macornei escrevia tudo na língua dele, era uma forma guardar segredo. Conversando me disseram coisas importantes. Mecê sabia que eles deram notícias da morte de Macornei ao irmão dele que mora lá fora? E que esse irmão, de nome Estive, está juntando dinheiro para vir com detetive e advogado para saber da herança e apurar a razão da morte do irmão?

Os olhos arregalados ficaram imóveis e o pito de palha caiu no chão. Ela ficou branca.

-Que herança?

-A de Macornei, ora. A que consta no testamento que ele deixou no cartório.

As palavras saiam com dificuldade, como pedras cuspidas.

-Que bobagem é essa? Sei de nada disso.

-Pergunte a eles. Cê acha que esse tempo todo o Macornei nunca se comunicou com a família, ou melhor, com o irmão?

-Não sei desse irmão.

-Claro que sabia que ele existia, cê me falou dele. Sem dúvida o Macornei contava ao irmão sobre as propriedades que tinha aqui, sobre os marrecos, e o dinheiro que ganhava. Ou mecê acha que um homem que vence na vida não se gaba para os parentes? Acha que ele não mandava cartas ao irmão informando como estava, falando sobre sua saúde e sobre sua condição financeira que era boa, hein? Mandou até cópia do testamento.

Ela havia empalidecido e ele percebeu que acertara no alvo. Conjuro tinha razão, Carmela tinha culpa no cartório.

-Ele nunca me disse que tinha mandado nada para o irmão.

-Pensei que fosse mais esperta. Mecês conversavam muito?

Ela olhou pro lado, desconfortável, as mãos enclavinhadas.

-Munto não. Ele não era de munto falar. E isso não tem importância, a gente se entendia.

-Não proseava com mecê, mas com os gringos soltava a língua. Eles sabem tudo sobre isso aqui e vão ajudar a polícia quando ela chegar.

Ele se alegrava com o desespero que a tomava. Ela rilhava os dentes.

-Eles que se metam comigo. Vão saber com quantos paus se faz uma canoa.

-Que cê pode fazer? Pensa bem no que pretende fazer para não piorar as coisas. E agora, com licença, vou pedir a Tabira para me preparar um banho.

A mulher continuou encostada na porta, olhos vermelhos de ódio fitando o horizonte. E se eu mandar Otonio acabar com esses gringos? se indagou. E se ele for pegar o tal testamento? Será perigoso? Polícia estrangeira… o que eles podem descobrir? Tão querendo me amedrontar. Se matar os gringos vou acabar presa. Mas os índios num imputáveis, num são? Cuidado, mulher, pensa bem no que vai fazer.

-Que droga, disse alto, preciso fazer alguma coisa.

Entrou e foi direto ao quarto de Boa, que desabotoava a camisa.

-E do dinheiro, o que eles falaram? perguntou, desabrida.

-Que não sabem de nada, a não ser que a cada entrega dos marrecos Macornei voltava cheio da grana. É outro ponto que o irmão vai querer investigar. Mecê não tem ideia de onde ele guardava a grana? Será que ele parou em algum lugar antes de chegar aqui e morrer? E o dinheiro dessa última venda, cadê? Os polícias vão querer saber.

Ela deu meia volta e foi pegar a parati na cozinha, Tabira soprava as brasas do fogão e parecia alheia a tudo mais. Mordia os lábios enquanto encheu a canequinha. Ele lavou o rosto, os braços e os sovaco na baciinha.

-Tenho que dar um jeito nisso, ela murmurou. Mas como, meu Deus? E perguntou, alto: eles podem se meter aqui, uma terra que não é deles? Temos polícia na vila.

Ele enxugou-se e riu com escárnio:

-Cê tá falando do amarelo que passa o dia bebendo pinga na beira do rio? Que não consegue nem pegar os ladrões de galinha?

-É polícia, não é?

-Por favor, não se faça de burra. O irmão deve estar providenciando junto ao governo brasileiro permissão para sua polícia agir aqui. É como se faz. E o governo não pode negar. Houve um crime e uma boa quantidade de dinheiro desapareceu, eles querem investigar.

Ela bebeu outra talagada. Seus olhos estavam vermelhos.

-Crime? Ela quase se engasgou. Foram os gringos que disseram isso?

Balançou a cabeça afirmativamente e por dentro ria. Tudo aquilo viera de sua cabeça, de histórias que ouvira durante sua caminhada tumultuada pela vida. E agora tinha certeza de que alguma coisa de muito errada acontecera ali. Ela pode não ter matado o velho, mas alguma fizera pra que ele morresse. Vai ver que pensou que com o homem morto logo localizaria o dinheiro. O cabelo de fogo era mais esperto que ela. Sua prosa dera certo. Atirara sem ver e acertara num bicho bravo. Ela bufava. Tinha de contar a Conjuro e falar pra ele contar aos gringos, que podiam até correr risco de vida. A mulher era maluca e ambiciosa. Era capaz de tudo.

Na manhã seguinte ela acordou cedo, o que nem sempre acontecia. Sua cara era uma máscara de ódio. Tomava café quando ele sentou-se. Tabira veio servi-lo.

-Deixa em cima do fogão que ele pega, rosnou a mulher. Ele é tão meu empregado quanto mecê, não pode ter regalias.

Como se não tivesse ouvido, Tabira botou a caneca na mesa. Carmela gritou:

-É surda?

-Não e num sou burra. Empregado como eu num dorme com patrão.

Ele riu e despejou o café na caneca. Ela olhou a empregada com ódio.

-Como pode ver, nem todo mundo abaixa a cabeça como seus caboclos, Boa comentou, com um sorriso de deboche.

Ela se levantou, furiosa.

-Não quero saber disso na minha casa, gritou para Tabira. Faço mecê voltar pra miséria. Vai pedir esmola pra ter o que comer.

Tabira balançou os ombros com desdém e nada disse. Boa interveio:

-Deixe de ser burra, mulher, não faça mais inimigos do que os que já tem. Pense que na hora de testemunhar vão se voltar contra mecê.

Cara desfeita, ela saiu da sala batendo no chão com os saltos das botas.

-Liga não, Tabira, disse ele, daqui a pouco isso passa. Conheço um remédio para isso que é tiro e queda.

A mulher riu, maliciosa. Ele deixou a mesa e foi para o escritório. A porta estava trancada.

-Tabira, o que isso?

A mestiça surgiu na porta da cozinha, pressurosa.

-Foi a dona que pegou a chave ontem de noite.

-Ah, é, não quer que eu trabalhe? Melhor.

Saiu pela porta de cozinha e foi se sentar na carroça de roda quebrada. Daí a pouco Tabira veio chamá-lo:

-A mulé disse que é pra mecê ir trabaiá.

Devagar se levantou e foi para o escritório. A escrivaninha estava revirada, os papéis fora de ordem, uma canequinha de tomar pinga na borda, quase caindo.

-Quem foi o animal que fez isso? indagou alto, sabendo que Tabira estava na porta.

-Eu num fui, disse ela. Num mexo em nada.

Carmela surgiu por trás dela e a empurrou com força para o lado para poder entrar.

-Fui eu, por quê? Não posso? Sou a dona de tudo aqui.

Ele deu um muxoxo.

-Por quanto tempo não sei. E dono que se preza cuida do que é seu. Tô vendo que alguns papéis ficaram manchados. Isso aqui está uma bagunça.

Os olhos dela fuzilavam.

-Para com essas ameaças bobas, não sou criança. Se alguém queria investigar a morte de Macornei já teria vindo, que coisa.

-Boba é mecê, achando que só porque o policia não veio ainda falei mentira. Esses homens são muito ocupados, ladrões e assassinos existem pelo mundo todo.

-Então vamos esperar, disse ela com petulância. Faça seu serviço e não fique passando informações para os outros. Contei quantos papéis têm aí e se um sumir, unzinho só, a coisa vai ficar feia.

Boa estava disposto a irritá-la, pessoas zangadas perdem o controle do que dizem e ela podia revelar mais coisas sobre Macornei e seu dinheiro.

-Pode esperar que seu tempo tá chegando, não há bem que sempre dure nem mal que nunca se acabe, dizia minha avó. E riu, satisfeito.

-Idiota. Já gastei tempo demais com suas bobagens, ela disse, trincando os dentes.

E saiu. Desapontado, ele arrumou os papéis da melhor forma que pode. Pelo jeito estavam todos ali. Na verdade não sabia o que fazer olhando aquela porção de letras e números sem sentido. Não entendia nada do que estava escrito. Coçou a cabeça. Sabe o que mais, decidiu, vou sentar um pouco lá fora para refrescar as ideias. Ao passar pela cozinha Tabira lhe ofereceu uma caneca de café coado. Sorria. Ele agradeceu e ficou na porta bebericando e olhando o terreiro. Como que atraído por uma força, seu olhar parou num corredor de casinhas que nascia de um pequeno casebre na ponta mais distante do curral. Tabira parara a seu lado e ao ver a direção de seu olhar entristeceu.

-Ali ficavam os ninhos, murmurou. Ele que fez tudinho, com as próprias mãos.

-Imaginei, disse ele, depois de tomar o último gole de café e entregar a caneca a ela. São muito bem feitos, já observei.

-Na casinha maió, quando as galinhas tavam no choco, ele ficava oiando, todo contente, inté os patinhos nascê. Era um homem munto bom. Nunca gritô comigo, nunca me maltratô. Num era como essa bruxa.

Ele a olhou surpreso, ela lhe indicava que não gostava da patroa.

-Me diga, Tabira, mecê gostava de Macornei?

Ela mostrou os olhos rasos dágua.

-Munto, era como meu pai. Pigarreou para se livrar da emoção. Ele tratava bem tudo aqui, as gentes, os bichos…

Ele a observava atentamente, sem mostrar desagrado.

-Quer dizer que ele ficava naquela casinhola olhando as galinhas. Eram elas que chocavam os ovos das marrecas?

Ela concordou com a cabeça, seus olhos estavam úmidos.

-Ficava, por causa dos gaviões. Quando os patinhos nascia e ficava andando pra lá e pra cá, feito uns tontinhos, apareciam muntos gaviões pra pegá eles. As galinhas não podiam fazê nada, ficavam só cocoricando, piando alto, abrindo as asas. Ele sozinho tombém não dava conta e arrumô uns meninos do arruado pra ajudá. Dava dinheiro e os meninos cuidavam direitinho dos patinhos. Espantavam os gavião e era difícil eles pegá algum patinho, só mesmo por distração.

Ela suspirou e se encostou no batente da porta.

-Ele era munto bom, o seu Macornei. Tratava a gente como gente. Quando vim trabaiá pra ele fiquei nevrosa, mas logo fiquei bem.

-Eu pensei que mecê veio trabalhar com Carmela.

-Deus me livre. Fiquei por que num tinha pra onde ir, minha mãezinha tinha morrido e eu sou só no mundo. Conheci seu Macornei logo que ele chegou aqui. Morava ali na beira do rio, minha mãezinha cuidava da capelinha e eu limpava peixe e quando ele percisô de uma empregada fui trabaiá na casa dele. Nunca me arrependi. Ele cuidô de minha mãe quando ela adoeceu, era um homem munto bom. Nunca deixou de me pagá.

-E ela paga direitinho?

-E esse cabrunco paga a arguém vivo? respondeu com desprezo. Deve a Deus e a todo mundo, pergunte só pros pescadores. Ela qué mais é explorá todo mundo. De vez em quando se encrespa comigo, mas eu num abaixo a cabeça. Faço o que tenho que fazê e ando pensando munto em ir embora. Mas pra donde? Ela num tem coraja de me mandá embora por causa de seu Macornei. Ia ficá com mais esse remorso.

Ele queria pegar mais informações sobre a morte de Macornei, na certa Tabira estava por perto quando aconteceu, mas achou melhor esperar um pouco mais.

-Mecê fez munto bem em enfrentá ela, só assim ela respeita a gente. Mas quero le dá um conseio: cuidado com Otonio, aquilo num presta e parece escravo dela, faz tudo o que ela quer. Se ela mandá dar uma sova em arguém ele dá, se mandá matá, tombém. Agora, se me dá licença vou lá pra dentro que a lamparona deve de estar vortando e aquele índio, tá vendo, aquele debruçado ali no currá, o Macaí, é pau mandado dela, conta tudo prela. Cuidado com ele tombém.

Ela entrou e ele desceu para o terreiro. O índio se mexeu, arrancou um talo de capim e se pôs a mascá-lo, sempre a olhá-lo de esguelha. E eu que pensava que esse aí era um bobão com essa cara de lua cheia. Ela também eu achava coisa completamente diversa do que é. Melhor assim. De qualquer forma devia vigiar o que falava, as coisas podiam não ser como aparentavam. E se Tabira tivesse sido instruída a falar assim com ele para sondá-lo? Tudo era possível. Cuidado, Boa!

Caminhou devagar ao longo da cerca do curral até chegar ao casebre. Queria sentir como vivia Macornei. O casebre não devia medir mais que um metro quadrado. Um caixote de tábuas de boa madeira, com tampo retangular e bordas curvas, ficava ao fundo. Era aqui que ele devia se sentar para tomar conta dos marrequinhos, concluiu. Sentou-se com cuidado, não fosse o banco se quebrar e derrubá-lo no chão imundo, coberto de folhas secas e bostas de cabrito. O móvel era sólido, feito com madeira boa, aguentou seu peso sem ranger. Aqui é um bom lugar pra vir quando quiser me refugiar, ficar longe do baixo astral dela. Depois que passou a não ir mais pra cama com ela, lhe descobriu um monte de defeitos. Mas sou capaz de continuar a dormir com ela se isso servir para me salvar.

Jantou só, carne seca macia com pirão de farinha que Tabira lhe serviu sorrindo. A mulher não apareceu e foi dormir sozinho, tendo o cuidado de escorar a porta com uma cadeira. Na manhã seguinte também não a viu.

-Fica preocupado não, disse Tabira, ela deve ter dormido na maloca desses fedorentos.

Estranhou ela assim se referir aos caboclos, já que supunha que era um deles.

-Sou não, disse ela, ainda bem. Meu pai tinha canoa, era homem considerado no arruado. Eu tombém andava meio desconfiada de mecê, achava que era cupincha dela.

Ele sorriu. Se ela não tivesse tomado a iniciativa de criticar Carmela ele não saberia de que lado ela estava. Olhou-a com carinho, era uma cabocla de seus 50 anos, morena, cabelos grisalhos mal penteados, cara larga, gorducha e de pernas curtas. Simpática, via agora.

-Pois é, Tabira, vamos nos aliar. O que mecê souber sobre o velho me conte. Aonde ele guardava o dinheiro da venda dos marrecos? Tô perguntando por que tenho medo que ela descubra antes que o irmão dele chegue.

Ela se espantou:

-O seu Estive vai vi?

-Parece que sim.

Ela alargou o sorriso.

-Que bom, seu Macornei falava tanto nesse irmão que tinha ficado na terra deles porque tinha um defeito na perna, andava mancando.

– Macornei falava nele? E a bandida não me disse nada, falou que ele não tinha família. Quem me contou desse irmão foram os gringos da vila. E o dinheiro?

-Sei do dinheiro não, respondeu mal humorada.

-É uma pena. O irmão vai ter trabalho para achar esse dinheiro que, com a morte de Macornei, passa a ser dele.

Ela não respondeu e voltou ao fogão. Ainda não confia inteiramente em mim, ele pensou. E não devo perguntar diretamente sobre o dinheiro, isso dá má impressão. Passou pelo escritório, mexeu em alguns papéis e se debruçou na janela. Não adiantava ficar olhando para os papéis sem entender o que ali estava escrito. Decidiu voltar ao casebre-observatório dos marrecos. Estava no meio do caminho quando viu o cavalo de Carmela entrar desembestado pela cancela. Cabelos alvoroçados, braços agitados, quase fora da sela, ela gritava estimulando o animal. Ele parou e ficou olhando. Por pouco ela não esbarrou na parede da casa, puxou a rédea um minuto antes. No seu rastro, galopando com a mesma impetuosidade, três caboclos, Otonio à frente. Ela sequer olhou na sua direção, entrou na cozinha batendo com os saltos das botas. Deu o espetáculo costumeiro, ele pensou.

-Sai da frente, sua besta, ouviu-a gritar.

Acho melhor ficar por aqui mesmo até ela se acalmar, pensou. Seguiu lentamente para o casebre, dando tempo para que ela o chamasse, se tivesse urgência. O índio do curral entrou também na cozinha. Bom, vamos ver o que vem agora. De propósito levou o dobro do tempo para alcançar a casinhola. Algumas galinhas ciscavam por ali, um sabiá-una bicava um fruto quase maduro no mamoeiro. Isso aqui é um pedaço do paraíso dentro do inferno. Segundo Tabira lhe contara, tanto o banco onde estava sentado, como as casinhas que abrigavam os ninhos, e agora guardavam uns poucos ovos de galinha, fora feito pelo velho. Era habilidoso o sujeito, e criou um recanto tranquilo e fresco para observar seus marrecos. Para uma disgramada como Carmela destruir. Mas será que ela o matou ou inquizilou tanto que o coração dele não aguentou? Acho que ela não teria peito para assassiná-lo. Ao longe ouvia-se o berrar de um bezerro procurando a mãe. Saíras saltitavam pelos galhos dos arbustos que cercavam o lugar. Os animais deviam ter pertencido a Macornei, tinha de alertar os caboclos a não deixar nenhum se perder, como acontecia antes, como um deles lhe contara.

-Aí os bezerros iam pros lados da lagoa, vinha um jacaré e comia eles. Outros se metiam nos matos e eram engolidos pelas areias movediças.

-Aqui também tem disso? E ela não me disse nada. Se eu fosse praquele lado podia ser engolido pelas areias.

Era um descalabro a administração da mulher, que só pensava em fazer o arruado virar vila. Por alguma boa razão deve ser, pois ela não é de pregar prego sem estopa, especulou. Tem que ter muito dinheiro nessa história, ela não é boba. Não há de ser só pelo privilégio de prender e soltar. Levantou o corpo para ver melhor o campo onde o bezerro mugia e o banco deu uma balançada. Parece que os cupins estão em ação. Qualquer hora dessas vou dar uma olhada e se puder, conserto.

Tabira surgiu na porta da cozinha e o chamou. Levantou-se a contragosto e o banco deu mais uma balançada. Assim que puder vou ver isso, senão qualquer dia vou dar de cara no chão. Carmela estava sentada na mesa da cozinha diante de uma canequinha de aguardente. Perguntou em surpreendente voz calma, embora pastosa:

-Quer um pouco?

-Não, é muito cedo para beber, respondeu.

-A sede não marca hora para atormentar a gente, disse ela sorrindo e ele ficou preocupado. Por que ela estava tão cordial?

-Sente-se aqui, disse ela, que quero lhe dar uma notícia antes que os intrigantes da vila o façam. É o seguinte: ontem, um dos meus caboclos foi apedrejado covardemente lá na vila do Praia preta. Pobrezinho do caboclo, ainda não entende direito algumas ordens dos brancos, bebeu umas doses a mais de parati, uma parati de má qualidade, e lá pras tantas encarnou um guerreiro caçador. Dançou no meio da praça, cantou, e até seus amigos gringos se divertiram. É, seus amigos, os gringos que estão intrigando mecê contra mim por causa de Macornei. Ela bebeu um gole da canequinha. Tabira olhava, preocupada, sem perder uma palavra. Ele fingiu interesse. Poisé, o pobre Macaí, grande guerreiro, não se cansava, o espírito da mata havia se encarnado nele e ele subiu no pé de aroeira que fica em frente à tasca do Eliezer. Os gringos estavam lá, almoçando e se divertindo com as presepadas do caboclo. Num dado instante, o caboclo viu um tapir entrando debaixo da mesa dos gringos. O tapir tem carne gostosa e Macaí não hesitou, armou o arco e atirou na direção dele. Acontece que não havia tapir nenhum, era alucinação de bebum, e ele acertou a flecha na coxa de um dos gringos. Foi o maior reboliço, eles não conseguem aceitar que o pobre Macaí estava bebido e que tinha imaginado ter visto um tapir. Acusaram o índio de ter tentado matar o gringo a meu mando, vê se pode? Por que eu havera de querer acabar com o gringo? E ali, na frente de todo mundo? Num sou doida. Deram uma surra no pobre.

Boa fingiu acreditar na história e decidiu que no dia seguinte iria procurar Conjuro para pedir que ele avisasse aos gringos que corriam risco de vida. Não tinha dúvidas que o ataque de Macaí era obra da mulher, que estava a fim de destruir provas para atrapalhar a pretensa investigação do irmão de Macornei. O caboclo tentara matar um dos gringos, só que para sua história ter credibilidade deveria beber um pouco e se fingir ou ficar levemente bêbado, o que teria atrapalhado sua pontaria. Vão tentar de novo, concluiu, e os gringos devem ficar de sobreaviso. Tenho de dar um jeito de avisá-los e com a atenção de Carmela em cima de mim não vai ser fácil. Devo falar com Conjuro, mas como?

Não dormiu bem à noite. Índio é bicho traiçoeiro, não sei onde os gringos moram, mas os selvagens podem aproveitar a noite para matá-los. Não, isso não, eles não atacam de noite. Rolou de um lado para o outro, o sono não vinha, acendeu a lamparina. Vou beber uma caneca de leite morno pro sono chegar. Sabia que a chapa do fogão custava a perder o calor. Fazendo o mínimo ruído saiu do quarto. Do corredor viu as brasas acesas do fogão e ao chegar mais perto viu Tabira sentada num tamborete pitando o indefectível cachimbinho de barro.

-Ainda acordada, Tabira? perguntou baixo.

Ela fez sinal de silêncio e sussurrou:

-Fala baixo. Eu sabia que mecê não ia conseguir dormir depois que sube do ataque ao gringo.

-Mecê também acha que foi ataque?

Ela balançou a cabeça afirmativamente.

-Vá dormir tranquilo, índio não ataca de noite, tem medo dos fantasmas deles. E de manhã, depois que a lamparona sair, peça a alguém no povoado que avise aos gringos que eles correm sério perigo. Ou dê um pulo lá.

Ela se levantou e sacudiu as cinzas da saia.

-Tome seu leite e se deite. Eu já vou indo.

Realmente ela está do meu lado, concluiu ele. E fez o que ela disse. Dormiu bem, acordou na hora normal e tomou café. A mulher não estava presente. Tabira lhe fez um sinal.

-Botei o pó de uma erva no café dela e o sono tá pesado, vai custá a acordá. Ela se queixa de cansaço, nem vai desconfiá. Corre até a praia, fale com seu amigo e vorte. Os caboclos só aparecem quando ela me manda chamar eles, são uns preguiçosos. Vai logo, num demore.

Como um azougue, procurando um caminho onde não pudesse ser visto por muita gente, ele chegou aos fundos da casa de Conjuro.

-Seu pai já saiu? perguntou a um dos filhos do pescador.

-Não, tá tomando café.

-Chama ele aqui, depressa.

Conjuro chegou espantado e intrigado, ainda mastigando uma tapioca.

-Que houve, Boa? Quer confirmá o ataque do caboco na vila? É verdade sim, já mandei meu filho mais velho pegá a canoa e falar com os gringos. Num adianta avisá o poliça daqui, é um frouxo. Eles têm que ter munto cuidado, a mulé é uma fera.

-Ai, graças a Deus. Foi isso que vim lhe pedir. O que a gente pode fazer, Conjuro? esses ataques não vão parar enquanto não matarem os homens.

-Pedi a meu filho pra tombém procurá o subdelegado, na vila maió, que é muito meu amigo, para pedi proteção pros gringos. O amarelo daqui nada resorve e tem medo dela. Já o sub pode, tombém é um descansado, proibir a entrada desses bandidos na vila, pode sê, concluiu desanimado,

-Obrigado, amigo, disse Boa, apertando-lhe as mãos. Depois eu volto pra gente conversar melhor. Tenho novidades.

A mulher ainda dormia quando ele retornou.

-Eles estão avisados, contou a Tabira. Eu vim pensando na erva que mecê disse que botou no café da dona. Será que foi feito o mesmo com Macornei?

Ela sacudiu cabeça negativamente com vigor

-Se eu visse alguém botá alguma coisa no café do veio não deixava. Se foi verdade que acabaram com o pobre, foi de outra maneira. Seu Macornei morreu de susto.

-Como é isso? Ninguém morre de susto.

-Morre sim. E seu Macornei num tava se sentindo bem há munto tempo. Se queixava de dores, às vezes de tonteiras, dor no braço e no peito tinha demais. Eu dava uns chazinhos, ele prometia que ia ao médico na cidade, aí vinha a dona coisa e dizia que não era nada, ria dele, ele ria tombém, ela sabia que ele tava doente.

Então não foi bem um assassinato, concluiu ele. Mas foi uma morte induzida, eu acho. Carmela surgiu no corredor, de camisola, bocejando.

-Dormi demais, droga. Cadê meus homens, Tabira?

-Sei lá.

-Mecê não chamou?

– Eu não, nem os caboclos do seu Boa apareceram. Devem ter bebido muito cauim essa noite. E depois, chamá pra que, se mecê tava ferrada no sono?

-Ando muito cansada. Então vá agora chamar esses preguiçosos. Bota o meu café e chispa, velha imprestável.

Devagar Boa tinha seguido para o corredor.

-E mecê venha cá ouvir minhas ordens. Senta aqui.

E apontou a ponta do banco onde se sentara. Ele veio, muito sério.

-Tá zangado ainda? – adocicou a voz – Não fiz por mal, me desculpe. É que fico nervosa com tudo que tá acontecendo. Esses índios são uns bocós, não entendem o que a gente diz, fazem tudo errado.

-O que tenho para fazer hoje além de olhar os papéis? replicou com lassidão.

-Quero que conserte a cancela do curral dos bezerros, esses caboclos não servem pra nada, né?

-Só pra caçar com flecha bichos invisíveis.

Ela sorriu torto e tomou um gole de café.

-Como eu disse são uns capiaus. Pede ajuda a seus cabocos, ensinando eles consertam direitinho. Sabe que essa noite senti muito frio naquela cama larga?

O olhar dela era significativo mas ele fingiu não ter entendido. Levantou-se,

-Onde ficam as ferramentas?

-No lugar de sempre, ora.

Os caboclos logo apareceram e depois de explicar a eles o que fazer com a cancela, ele seguiu para seu refúgio. Nem bem havia sentado quando ouviu ela gritar, irritada:

-Só sabem fazer merda. Eu falei para dar só um susto,

-Foi o que Macaí fez, disse Otonio.

-Não, não foi. Primeiro por que o lugar tava cheio de gente, depois por fazer a palhaçada da dança de guerra, chamando a atenção do povo, e atirar. Cês tão ficando malucos?

Silêncio. Boa arriscou um olhar por entre as varas da cerca e viu o grupo de conspiradores, mal abrigado por uma moita de canema. Ela de pé, sacudindo a soiteira e os caboclos em volta, cabisbaixos. Ele sorriu divertido com a trapalhada.

-Macaí tá machucado, lamentou Otonio.

-Bem feito pra ele deixar de ser burro e não seguir minhas ordens. Da próxima vez quero ver. Ai, de quem errar.

Ele se encaminhou abaixado para onde seu grupo tentava consertar a cancela. A próxima vez será liquidar com os gringos, aposto. Preciso informar isso ao Conjuro.

Durante a noite a chuva caiu, forte. Ouviu Carmela andar para baixo e para cima no corredor, mas em nenhum momento tentou abrir a porta, que estava escorada. Dormiu tranquilo ouvindo o baticum da chuva no telhado. O que plantei vai brotar, imaginou, antes de cerrar os olhos e mergulhar num sono profundo. Ela já deve temer o tal irmão.

Logo cedo o bando de índios que a acompanhava surgiu no terreiro e correu a encilhar os cavalos. Conversavam entre si, baixinho, e quando o viram parado no batente da porta lhe lançaram olhares raivosos. Ele continuou a seguir o trabalho com os cavalos. Ela dormia e por duas vezes Otonio falou alguma coisa a Tabira, em tom baixo.

-Vai mecê, respondeu ela, alto, nas duas vezes.

Otonio voltava com a cara mais amarrada ainda. Boa se cansou da observação, voltou à mesa, encheu outra caneca de café e foi para o escritório, a olhar desalentado a pilha de papéis do velho. Momentos depois ela apareceu na porta do escritório, olhos inchados, cara amassada de quem fora tirada à força da cama.

-Tô saindo, vou lá na aldeia apartar uma briga de irmãos que tá se tornando perigosa. Macaí fica aí pra atender a qualquer necessidade, ele sabe onde me encontrar. Pretende passear de novo na vila? Me traga notícias, disse ela com um esgar irônico.

Cínica, ele falou baixo e foi para a janela apreciar a partida do bando. A chuva só parara pouco antes do dia clarear e o pasto estava encharcado. Os cavalos galopavam espalhando água para todos os lados. Ir à vila não, mas daqui a pouco vou prosear com Conjuro, se ele não for pescar. Inquieto, caminhou pela casa até achar que podia sair para o arruado. Por falta de sorte, Conjuro tinha ido pescar. Passou algum tempo andando pela beira do rio e não se surpreendeu ao ver Macaí sentado junto à árvore em frente a capela, mordiscando um talo de capim, como se estivesse alheio. Perdeu seu tempo, índio velhaco, não vai ter o que contar à patroa.

De volta à casa tomou uma caneca de café. Vistoriou o local onde mandara plantar as sementes, que começavam a brotar. Andava patinando na lama. Catou os ovos de galinha que achou nos ninhos dos marrecos e depositou-os sobre o assento-baú de Macornei. As saíras cantavam alegres e um sabiá desceu para se lavar numa poça. Uma porca e seus bacorinhos seguiram em busca de poça maior para se espojarem. Um cachorro se coçava com fúria sentado no capim. O assento-baú tinha uns 40 centímetros de comprimento por uns 30 de largura e 20 na parte alta do abaulado e se apoiava em quatro pernas no momento uma pequena parte enfiada na lama. Boa rasgou uma folha de bananeira e envolveu os ovos, formando um saco, cuja boca amarrou precariamente com um talo de capim grosso. Fez ainda uma alça com o mesmo capim e pendurou num esteio da cerca. Esfregou as mãos, satisfeito com o resultado. O ideal seria amarrar com embira de banana, o que demandaria algum tempo. Sentou-se no baú para gozar alguns momentos de sossego e prazer. Porém as pernas do assento-baú, talvez carcomidas pelo longo período enfiadas na terra e ora amolecidas pela lama, não suportaram seu peso e arriaram. Boa caiu esparramado no meio da lama e viu, surpreso, que um dos lados do baú se abrira e deixara à vista uma série de amarrados de dinheiro. Seu coração disparou. Que dinheirama era aquela?  Mais que depressa se levantou e olhou em volta em busca do índio. Será que ele vira o que acontecera? Não havia ninguém por perto senão os passarinhos. Galinhas ciscavam no lamaçal junto com o peru e galinholas; a porca se afastava com seus filhotes balançando as banhas.

O dinheiro de Macornei, quase gritou. Suas mãos tremiam enquanto tentava recompor o baú e devolvê-lo a seu lugar, como se nada houvesse acontecido. Preciso ser rápido para ninguém perceber. Sua garganta estava seca e seus olhos ardiam. O dinheiro, o tesouro de Macornei, pensou, caiu direto nas minhas mãos, é meu. Foi Doxinha que me ajudou, sinal que me perdoou, que não tem mais praga em cima de mim. A emoção o sufocou e enquanto recompunha o baú soluçou convulsivamente. O castigo acabou, murmurava enquanto lágrimas entravam em sua boca.

Anoitecia quando finalmente se acalmou. Escorado e amarrado com embiras grossas em mourões o assento parecia perfeito embora, provavelmente, não aguentasse que ninguém mais nele sentasse. Terminada a descarga de adrenalina seu corpo ficara mole e com pernas bambas seguiu para casa. Respirou fundo, tirou um pouco da lama que secara em sua roupa e procurou se recuperar. Nem Tabira deveria perceber que algo estranho e perturbador lhe acontecera.  Respirou fundo várias vezes. Acalmou-se.

Caminhou pensando febrilmente no que fazer com o dinheiro que imaginava muito. Numa rápida olhada, com medo da curiosidade do caboclo-espião, observara que havia notas de outros países, algumas já vira no porto, no passeio à vila, e muitas nacionais. O que devia fazer com elas? Dar a Carmela estava fora de qualquer cogitação, talvez entregar aos gringos para que fossem repassadas ao irmão de Macornei? Mas quem garantia que os gringos fariam isso? Como o tal Estive não sabia desse dinheiro, sabia que havia dinheiro mas não o que o irmão fizera com ele, podia ter gasto com mulheres vagabundas, por exemplo, ou com jogo carteado, com pinga, tudo era possível, não iria sentir sua falta. O que os olhos não veem o coração não sente, filosofou como sua mãe. O melhor mesmo era ficar com ele. Afinal, sofrera tanto, passara por muitos perigos e situações vexaminosas, tinha marcas por todo o corpo, pesadelos, era um sobrevivente e merecia uma recompensa. O dinheiro dos marrecos era, considerava, a contrapartida do tesouro que Sem braços escondera ninguém sabia onde.

Era sim, concluiu, direito seu gozar plenamente a descoberta do dinheiro que caíra do céu, podia dizer assim, em suas mãos. Sorriu, sentindo-se vitorioso. O problema todo agora se resumia em como sair dali com o dinheiro, sem que ninguém visse. Tabira não estranhara a demora nem a roupa suja de lama seca. Havia no ar só o silêncio dos sons emitidos pelos animais. O índio não estava visível. Será que ele correu atrás da mulher para contar que vira ele achar o dinheiro de Macornei? preocupou-se. Perguntou a Tabira no tom de voz mais casual que conseguiu:

-Cadê o Macaí?

-Sei lá. Saiu logo atrás de mecê e num vortô ainda.

-No mesmo rumo que eu?

-Não, seguiu pra beira do rio.

-Que será que ele anda fazendo? perguntou meio assustado. Será que foi pegar os gringos?

Ele precisava disfarçar sua ansiedade.

-Pode sê, coisa boa é que num é, ela disse. Deve de tá na beira do rio roubano peixe.

Testa franzida, ele perdeu um momento a especular por onde andaria o espião. Logo mudou de ideia. Vou cuidar da minha vida e pensar em como fugir desse inferno sem chamas. Virou-se para a mulher:

-Vou tomar um banho no poço antes que escureça de todo.

-Percisa não, ela respondeu. Eu sabia que ia chegá enlameado e esquentei o caldeirão de água. Bote a bacia no banheiro que já preparo seu banho.

O banheiro era um cômodo estreito construído do lado de fora da casa, com uma entrada independente. Sentindo-se feliz, se lavou, esfregando a bucha com sabão vagarosamente, se dando mais um tempo para pensar. Precisava de uma canoa rápida para levá-lo à vila da Praia Preta, onde certamente encontraria condução para a cidadezinha portuária de Boas Novas. Ali encontraria um vapor. E o dinheiro, como levá-lo sem despertar suspeitas? Matéria de muito pensar.

Voltou a chover durante a noite e o pasto, baixo, estava encharcado e até os animais procuravam um lugar menos molhado para ficar. Boa levou uma cadeira para junto da janela da sala e ali viu passar as horas. Olhava preocupado a chuva cair com fragor. Vigiava a choça onde estava o baú com seu dinheiro, não fosse algum descuidado passar por ali e ver sua fortuna. Estremeceu. Ao longe trovoadas e raios cortavam o céu escurecido.

Eu podia aproveitar, pensou, já que todos estão ou dentro de casa ou no meio do mato, pegar o dinheiro e ir em busca de uma canoa. Não queria envolver Conjuro, mas além dos pescadores se recusarem a me levar, por causa da tempestade, a mulher, imprevisível, podia surgir no meio da cortina de água com seus capangas. Eles conheciam o terreno palmo a palmo e não seria uma tempestade que os impediria de voltar pra casa. Não, é melhor fazer como pensei a princípio. Primeiro contratar uma canoa, talvez o filho mais velho de Conjuro pudesse me levar. Como o pai, o rapaz era de confiança. Antes embalaria o dinheiro de forma a passar por todos sem revelar o que levava. Não posso agir com precipitação.

Carmela chegou na manhã nublada do terceiro dia. Ele bocejava de tédio. Tinha de esperar tudo secar para fazer seus preparativos. Encorujada junto à boca do fogão, tendo a seus pés dois cachorros, Tabira cabeceava de sono. Carmela entrou gritando, batendo com a soiteira nas paredes.

-Acabou a folga, meu povo, vamos trabalhar. Tabira prepare o almoço que hoje vou comer mais cedo. E o parasita aí, fez alguma coisa nesse tempo, além de comer e dormir? E cadê o malandro do Macaí? Voltou à porta: Macaí, gritou. Cadê o caboclo, Tabira?

Antes que a empregada respondesse um índio chegou correndo e gritando:

-Mataram Macaí, patroa.

-Como é isso? ela gritou.

O índio falava aos arrancos, arquejando. Ela o olhava, pasma. Boa se levantou num pulo.

-Foi onte, não, foi antes de onte, nem sei mais. Macaí foi na vila, fui atrás, o povo num queria deixá ele ficá lá, teimoso como uma mula ele insistiu, aquilo era um jumento, disse que só queria bebê um trago, tava desarmado e mostrô as mãos vazias. Então deixaram ficá e ele ficô bebeno no balcão. Eu fiquei do lado dele, mas não bebi.

Carmela o ouvia com a testa franzida. O índio interrompeu o relato para sorver ar.

-Vamos, berrou ela, conta tudo. Mecê sabia disso, Boa? E Tabira, sabia?

-A última vez que vi esse bugre foi no arruado, me vigiando, esclareceu Boa. Depois sumiu, pensei que tivesse voltado para as brenhas.

-A venda do Liezé se encheu de gente, o índio continuou. Tava todo mundo de cara zangada, oiando pra nois com raiva. Chamei Macaí pra vir embora, puxei ele pelo braço, ele me deu um empurrão e continuô bebeno e rindo. A dona não vai gostá, avisei. Vou mostrá pra ela que sei fazê as coisas dereito, ele respondeu. Daí a pouco chegaram os gringos. Quando viram o Macaí mais eu começaram a falá naquela língua engrolada deles, tavam nervosos, e quando menos se esperava Macaí deu um pulo, pegou em cima do balcão o facão que Liezé usa pra cortá toucinho e foi direto nos gringos. Nem chegô lá. Agarraram ele, jogaram no chão e com o mesmo facão cortaram o pescoço dele.

Tabira estremeceu e fechou os olhos. Boa sentiu gastura. Carmela estava furiosa.

-Índio burro, gritou Carmela, foi bem feito! e mecê, seu pateta, cumé que se livrou? Não quiseram pegar mecê também?

-Pra dizer a verdade, nem sei como escapei. Quando o bolo se formô saí de fininho e fiquei oiando de longe, morreno de medo. Quando se ajuntaram em cima dele pra metê o facão saí dali correno pois sabia que ia sobrá pra mim. Me escondi atrás de uma canoa e inda ouvi eles gritá: cadê o outro safado, vamos acabá com essa raça. Me arrastei pela areia té um lugar mais seguro, tremeno de medo. Eu avisei a Macaí que era perigoso, ele não acreditô e deu no que deu.

Boa escutava, horrorizado.

-E o corpo dele?

-Vi quando, de noite, levaram ele num bote e jogaram no meio do rio.

-Ninguém viu mecê? Tem certeza? Já avisou a Otonio?

Parado do lado de fora da porta Otonio ouvia atento, com a cara impassível. Ela o olhou com raiva.

-Não sabe controlar seus homens, né mesmo? É um banana. Cambada de incompetentes.

O índio continuou a fitá-la com olhos duros e boca contraída.

-Agora é que seu pessoal tem que ficar colado comigo, pois não duvido nada que o povo da vila organize uma incursão para acabar com sua aldeia. Acho bom mudar as ocas de lugar. O mais rápido possível e bem longe. Vai, cabeça de bagre.

Foi mais de uma semana de recolhimento depois da morte do caboclo. Uma turma de pescadores, a mando dela, encontrou o corpo do caboclo boiando e o enterrou. Os demais índios tomaram chá de sumiço, como explicava Tabira.

-Estão se mudando para mais longe, informou Carmela a Tabira. Eles não param num lugar mesmo.

Foi o tempo necessário para Boa elaborar seu plano de fuga. Como a mulher se ausentava muitas vezes para conversar com os pescadores, pediu à Tabira um saco de estopa em boas condições.

-Pra quê? ela perguntara e ele, para mais uma vez testá-la, explicou que pensava em ir embora. Ela concordou.

-Já devia ter feito isso há tempos e quano marcá o dia de ir me avisa pra eu prepará algumas coisas procê comê na viaja. Mas espera ela viajá, o que não deve demorá munto, pois ela há de querê conhecê a nova taba dos cabocos. E aí eles vão dá um festão, nunca vi povo gostá mais de festa que esse. Ela vai bebê munto cauim, vai drumi caída no chão, como eu sube que foi doutras vezes, aí mecê aproveita e vai embora. Vou senti sua falta, juro, se pudesse ia junto.

Assim foi. As notícias que vinham da vila eram tranquilizadoras, a morte do índio aplacara a fúria dos moradores. Em surdina Boa combinara a viagem com o filho de Conjuro.

-Ele vai levá mecê até o mestre Nibinha que tem o barco mais seguro, explicou o pai.

-E quanto ao pagamento?

-Não se preocupe, o veio me deve alguns favores e vai levá mecê de carona. E tombém detesta a mulé e vai tê prazê em levar mecê pra longe dela.

Um pouco envergonhado por não ter dito a Conjuro que encontrara o dinheiro, ao mesmo tempo certo de que agira com precaução, pois o vento leva as palavras e se Conjuro, seu filho ou Tabira soubessem, podiam, sem querer, espalhar a notícia e ele seria obrigado a usar o dinheiro de outra forma e não da que planejara.

Nas horas em que a dona se ausentava ele retirava os maços de dinheiro, com maior precaução, enrolava em folhas de bananeira e guardava sob uma moita ali perto. Para facilitar juntava as notas de acordo com sua aparência. Apenas das brasileiras conhecia bem o valor. Retirou mais de dez maços das notas estrangeiras e enfiou no saco de estopa junto com cachos de banana de vez. A eles juntou tapiocas e um bolo de tabuleiro cortado em pedaços que Tabira assara. Antes de sair cobriu tudo com peças de roupa de Macornei e uma caneca. O resto das notas, das que conhecia, guardou no bolso para a viagem. Outra parte amarrou na barriga, junto dos pentelhos.

Tenho que ser astuto, ele pensava, ou vou botar tudo a perder. Não que a dona seja inteligente, mas está sempre me vigiando. Não posso facilitar, nem dar oportunidade a Doxinha para mais uma vez me espezinhar.

No princípio do mês Otonio deu as caras. Mais tarde vieram alguns de seus cupinchas, ela se reuniu com eles debaixo de uma árvore, longe dos ouvidos de Boa.

-Boa coisa não estão tramando, alertou Tabira, tome muito cuidado.

Ele achava que o objetivo dela era acabar com os gringos, ele não representava ameaça. O filho de Conjuro apontou na fímbria da matinha e lhe fez sinal. Ele verificou se estava sendo observado, agora que Macaí fora morto ele não sabia qual seria seu novo espião, e vendo que todos estavam entretidos na reunião da árvore, esgueirou-se e foi a seu encontro.

-Já tem dia para viajar? perguntou o rapaz.

-Não, mas num deve demorar. Agora mesmo ela tá lá – e apontou a copa da árvore que aparecia sobre a cerca – reunida com seus capangas.

-É que Nibinha tem viagem marcada para esses dias, depois não sabe quando fará outra. Parece que sai no domingo.

-Depois de amanhã? Vou dar um jeito.

-Quero lhe avisá que ele zarpa munto cedo, ainda no escuro. Seria bom se mecê pudesse segui comigo de madrugadinha, o mais cedo que pudé.

-Deixa só eu saber se ela sai hoje. Se sair também saio e vou dormir em sua casa.

-Tá certo, vou avisá a papai.

A reunião de Carmela com os caboclos durou muito tempo. Boa ficou impaciente e preocupado. Se ela não viajasse neste dia, Deus sabe quando poderia ir ao encontro do mestre Nibinha. Andou em volta da casa, conversou bobagens com Tabira, enfim, quase se desesperou. No fim da tarde a reunião acabou, os índios voltaram pro mato e Carmela entrou em casa.

-Prepare um de comer, ordenou a Tabira, daqui a pouco vou viajar.

-Pouco ou munto decomer? indagou Tabira. É pra levá na viaja?

-Pode ser, ainda não sei exatamente a que distância fica a taba nova.

Atento ele sentiu um alívio tão grande que teve vontade de beijar aquela boca fedendo a parati. Tabira preparou um ensopado, quase um cozido, que ele também comeu. Não sabia quando voltaria a se alimentar. Escurecia quando ela montou no cavalo na porta da cozinha. Não lhe dirigiu a palavra uma vez sequer. Ele foi para a janela apreciar a mais uma partida do bando. Espero que seja a última, torceu. Quando o grupo se fundiu com o horizonte aproximou-se de Tabira.

-É hoje, minha veia, que me vou daqui. Assim que o dia amanhecer vou pra beira-rio pegar uma canoa.

Ela nada falou, se arrastou até o armário e se pôs a separar o que ele devia levar. Por sua vez ele pegou o saco de estopa, foi à moita onde escondera o dinheiro, jogou os maços no fundo, voltou à cozinha, cortou algumas pencas de banana do cacho que ficava acabando de madurar junto do fogão, pegou umas poucas peças de roupa de Macornei, acrescentou o bolo cortado e as tapiocas dadas por Tabira, beijou-lhe a mão e pediu:

-Reze por mim, Tabira, preciso ir depressa para bem longe daqui, senão essa mulher me mata.

Ela o encarou com os olhos rasos dágua.

-Eu tava rezando era pra mecê ficá aqui no lugá dela. Sei que era o que o veio gostaria. Por isso ele le mostrou onde tava o dinheiro dele. Vai com Deus e tenha munto juízo. Se pudé, um dia vorte.

Ela me viu pegar o dinheiro na lama e achou justo. Saiu caminhando com segurança pelo pasto escurecido. Conhecia o lugar muito bem. Uma ave espantada voou rente a seu rosto. Não se assustou, devia ser uma coruja. Bois mugiram ao longe. Em instantes estava no terreiro do casebre de Conjuro.

Continuava escuro quando o filho de Conjuro o chamou com uma caneca de café na mão.

-Vambora?

Engoliu o gole de café com a boca queimando, pegou o saco e seguiu o rapaz. Conjuro continuava dormindo. A noite estava fresca e o café ajudara a sacudir a moleza. Sentou no meio da canoa com o saco de estopa entre as pernas. Tabira sabia de tudo o que aconteceu, devia saber onde estava o dinheiro, e acreditou que o velho derrubara o banco para que eu o achasse, imaginou. Boa mulher, não merece a patroa que tem. Se pudesse a levava comigo.

O canoeiro remava em silêncio e só muita perícia para conduzir a canoa em meio à escuridão. Graças a ele e ao pai dele vou ser livre e tendo com que me sustentar. Devo lhe dar algum dinheiro? Não, concluiu, ele não precisa desse dinheiro e ficaria indignado ao ver que lhe neguei o conhecimento dele. Quem sabe um dia possa recompensá-lo? Alguns ruídos enchiam a noite, o leve bater do remo na água, os saltos de peixes, rumores suaves e por pouco não dormiu sentado. O que impediu foi a lembrança de Doxinha. Fechou os olhos e como num sonho ela lhe apareceu, vestida como naquele maldito dia, sorrindo. Já sofreu bastante, né, Boa? Teve mulheres que não amou, filhos que não são seus e que nunca mais verá, tudo por causa de um ciúme infundado e de uma ambição desmedida. A praga se realizou. Estou satisfeita, que mecê saiba o que fazer nessa nova situação, adeus.

A canoa embicou na areia e com o impacto ele abriu os olhos. Não estava dormindo, tinha certeza. Estonteado, apoiou-se no remo para saltar na areia.

-Venha, disse o rapaz, meu pai falou pra deixá mecê no barco de mestre Bibinha.

Uma leve claridade surgia no horizonte. A silhueta de um grande barco começou a ser delineada. Bem maior que o barco do Sem Braço, pensou Boa. Será nele que vou viajar? Mas pra onde vou? Pra onde ele vai? Caminhou atrás do rapaz que seguia a passos largos.

-Ainda tenho de voltá na vila da Praia Preta, justificou.

-Me desculpe estar atrapalhando,

-Bobagem, faço essa viagem muitas vezes por dia. Ali está o mestre Bibinha, mestre, chamou, aqui.

O mestre Bibinha era pouquinho mais alto que Boa, carnudo, não musculoso, pele muito branca e rosada no rosto ou nas partes que ficava exposta ao sol, cabelo encarapinhado, ruivo, formando uma espécie de auréola em volta da cabeça. Olhou-os sem entusiasmo.

-É esse o sujeito que vai comigo?
O rapaz concordou com a cabeça.

-Sabe fazer alguma coisa pra ajudar na navegação? perguntou a Boa com rispidez.

-Durante uns meses trabalhei num barco. Mas faz tempo.

-Tá bom. Tô precisando de um cozinheiro, sabe cozinhar?

Boa não gostou da recepção. O homem o olhava de alto a baixo, desconfiado.

-Não, mas posso ajudar na limpeza.

-E tá querendo ir pra onde?

O filho de Conjuro entrou na conversa.

-Desculpe interromper, mas tenho de ir em frente. Papai pediu, mestre, que cuide bem desse nosso amigo.

Bibinha o olhou sem prazer.

-Tá bom. Pelo Conjuro… tudo bem, pode subir, como é mesmo seu nome?

-Boanerges. Vou procurar ajudar e não atrapalhar.

-Sobe logo que ainda tenho que pegar gente e carga mais adiante. E mecê, rapaz, dá um abraço no seu pai e diga que vou cuidar bem de sua joia.

Depois que subiram a bordo perguntou a Boa:

-O que leva aí nesse saco?

Boa esperava e se preparara para a pergunta. Respondeu com tranquilidade:

-Roupas usadas do Macornei que a mulher me deu, umas pencas de bananas de vez, uns pedaços de bolo e algumas tapiocas para não passar fome até arrumar uma maneira de ganhar a vida. Por falar nisso, até aonde mesmo o senhor vai?

Bibinha não respondeu. O barco seguia devagar, deixando Boa um tanto preocupado, olhando sempre para trás, não fossem os caboclos com suas velozes igaras alcançá-lo. Não dava para saber quanto tempo Carmela ficaria nas malocas. Uma canoa balouçando no mar deu-lhe um susto passageiro, eram apenas cargas e alguns passageiros a serem embarcados, o que se repetiu algumas vezes. Fardos e cestas foram içados para bordo, com legumes, frutas, aves vivas e farinha em saco.

-Mecê vem sempre pressa cidade? perguntou Boa com uma vaga sensação de ansiedade.

-Pelo menos duas vezes por semana, garantiu. Quando mecê quiser voltar me encontrará sempre aqui.

Não era o caso, apenas uma preocupação a mais boiava em sua mente. Também a dona poderia pegar o barco para vir no seu rastro se não o encontrasse na vila. Preciso ir para mais longe, decidiu.

-É fácil arrumar onde trabalhar por aqui? indagou, sabendo que estava só disfarçando sua verdadeira intenção.

-Posso lhe arrumar uma pensão bastante boa e conheço gente que lhe dará trabalho se mecê não for muito exigente.

Por enquanto, havia pensado Boa, vou ter de trabalhar e viver com o dinheiro que ganhar até ver o que posso fazer e onde vou ficar pra gozar meu tesouro em paz. Não posso me exibir sem me trair, mas a tentação de aproveitar a vida depois de tantos sacrifícios é muito grande. Não sei o que pode acontecer se souberem que tô com o dinheiro de Macornei. Por enquanto não posso ser rico. E tenho que me escafeder daqui o mais rápido que puder. Sorriu, humilde:

-Vou aceitar o oferecimento. Dizem que essa é uma cidade perigosa, recheada de ladrões.

-É verdade, ladrões e vigaristas, jogadores e mulheres da vida, tem que ter muito cuidado. Toda cidade que tem porto costuma ser assim. Durante a viagem, vou lhe dar alguns conselhos, amigo de Conjuro é amigo meu. Cuidado também com o que falar, melhor ficar de boca fechada, esse povo é candongueiro e gosta de arruaças.

De qualquer forma, durante o período que durou a viagem ele não se afastou do saco com o dinheiro nem do mestre. Como as bananas estavam ainda duras, comeu pedaços de bolo e tapioca. Água boa, pelo menos, o barco tinha. Só não dava para tomar banho.

Chovia quando o barco atracou no cais da cidade de Boas Novas. Uma chuva fina, morrinhenta, que afofava o chão e espalhava umidade pelas paredes das construções. Fazia um pouco de frio, árvores exibiam pássaros encolhidos. Boa desceu colado ao mestre Bibinha. E assim que teve uma folga o mestre o levou a uma casa, duas esquinas adiante, onde funcionava não uma pensão, mas um dormitório para homens solteiros. Boa olhou o dormitório e não gostou:

-Não posso ficar aqui, mestre, não tem nem onde guardar minhas coisas.

O dormitório, um amplo salão que abrigava mais de 10 camas, tinha janelas estreitas e nenhuma saída de emergência em caso de incêndio. Boa teria de dormir agarrado seu saco de estopa, com um olho aberto e outro fechado para não ser roubado.

-É um lugar bom, mas tem esse inconveniente. Como pode ver, os moradores guardam seus trecos em malas que ficam embaixo das camas.

-Vou procurar um quarto assim que arrumar trabalho.

-E enquanto isso, vai dormir aonde? Até amanhã mecê pode dormir no meu barco, mas e depois?

-Sei lá, no banco da praça. Eu me ajeito, obrigado.

Ao constatar que a viagem da vila até ali não demorara tanto, ele voltara a se preocupar. Entendera que seria muito fácil para a mulher pegar um bote ou um barco um pouco maior e vir atrás dele. Nem precisava vir no barco do mestre Bibinha, que não gostava dela. Não posso ficar aqui, preciso ir para um lugar mais distante. O mestre voltou para o barco e ele foi tomar café numa venda. O dono era um português gordo, simpático, de olhos espertos.

-Por favor, me diga uma coisa: tem alguma outra cidade grande como essa perto daqui?

-Ora pois, a poucos quilômetros temos a Chafariz de Pedra, que fica a dois dias de trem.

-De trem? Ele já ouvira falar, mas nunca vira um trem. E como se faz para pegar um trem?

-Na estação da estrada de ferro, homem. De onde mecê vem não tem trem?

-Tem não. E onde fica a tal estação? É cara a passagem?

-Depende do vagão, os de primeira classe são caros. Pra chegar lá siga pela rua principal até o fim e até ver uma construção à inglesa, com tijolos aparentes. Lá compra a passagem no guichê e espera o comboio. Muito simples.

Como percebeu que o muxuango não entendera muito bem, tornou a explicar o processo de viajar de trem. Ele mastigou um pedaço de broa de milho, pensando que era uma boa ideia pegar o trem.

-É uma viagem perigosa?

-Mais segura que a de barco.

Curioso e desconfiado, observando tudo, sempre agarrado ao seu saco do tesouro, Boa caminhou até à estação da linha férrea e ficou deslumbrado com o prédio. Essa é a tal construção inglesa. Muito bonita. Levou um bom tempo a olhar as instalações, as pessoas sentadas nos bancos, umas a conversar, outras a cochilar, com a mala presa entre as pernas, crianças correndo pela gare, a portinhola do guichê onde as passagens eram vendidas. Achou tudo maravilhoso. Sorria beatífico. Sentado num dos bancos um homem jovem olhava os trilhos. Boa sentou-se a seu lado:

-Desculpe a confiança, disse, mas o senhor conhece a cidade de Chafariz de pedra?

-É pra lá que eu vou, o outro respondeu, olhando-o de lado.

-Sei. Tem onde a gente arrumar trabalho lá?

-Pra quem gosta de trabalho sempre tem. Que mal lhe pergunte, o senhor faz o que?

-Qualquer coisa. Tenho saúde e disposição, falta lugar pra trabalhar.

-Trabalhava em que antes?

-Numa fazenda. Saí por que não aguentava os maus tratos da dona.

-Era mulher, é? E pagava direitinho?

-O necessário pra não morrer de fome.

Boa estava impressionado com sua facilidade para mentir.

-Sei como. Tenho um amigo que passou por uma dessas. Se preocupa não, quando a gente chegar lá lhe arrumo alguma coisa. Estendeu-lhe a mão. Meu nome é Valtinho, e se precisar tenho até lugar pra mecê morar. Pagando uma pensãozinha, é claro. Sua bagagem é só isso aí no saco?

-Foi só o que consegui salvar, mas se Deus quiser logo me aprumo.

-Se Deus quiser.

O homem tirou o chapéu, respeitoso. Boa fez o mesmo. Pra onde vou agora? se indagou, o que será que me espera?.

-A que horas chega o trem?

-Daqui a um pouco mais, não demora. Às vezes se atrasa um pouquinho. É bom comprar passagem logo. Naquela janelinha ali.

Meio temeroso, não sabia se o que reservara para a viagem daria para pagar a passagem, o lugar era longe e não sabia quanto o dono do trem cobrava, caminhou devagar a até a tal janela onde um velho cochilava.

Sobrou bastante dinheiro da compra da passagem. Ficou com algumas moedas na mão, sem saber o que fazer com elas, que tintilavam e denunciavam onde seriam guardadas. O moço do banco o olhava, curioso.

-Estava pensando onde deixei minha bolsa, explicou, se lembrando de ter visto uma bolsa pequena nos bens de Carmela. Não gosto de ficar com elas chacoalhando no meu bolso.

Sorriu, contrafeito. No olhar do outro viu uma curiosidade divertida. Não é por maldade, imaginou, que ele me olha assim. Enfiou as moedas no bolso, ele já sabe mesmo que tô com elas. Um rapazote passou com um tabuleiro, gritando coisas de comer, empadas, bolinhos, pasteis, cocadas, caramelos. Descobriu que estava com fome. Chamou o sujeito e comprou empada e bolinhos.

-Quer? perguntou a Valtinho, estendendo a mão cheia.

-Se não fizer falta, disse o outro, sem jeito, mas agarrando uma empada.

-Pega mais, vamos gastar essas moedas.

Fez um amigo, o outro o olhou agradecido. Sei o que é sentir fome, lembrou, não deixo ninguém sofrer por isso.

-Tem o de beber? perguntou ao vendedor, batendo de leve na barriga, essa empada me insuquiu.

-Lá na frente tem caldo de cana, disse o rapazote, posso ir buscar?

-Será que essas moedas dão para pagar?

Ele não queria meter a mão no bolso para sacar uma outra nota, não fossem o rapaz e o novo amigo perceberem que tinha mais dinheiro. Esperto, o rapazote olhou as moedas e concluiu que dava.

-Vou lá buscar, avisou fechando as moedas na mão.

Enquanto o rapaz não voltou ele ficou ansioso a ponto de Valtinho perceber.

-Fique tranquilo, o garoto é sério e se fugir a gente chama o guarda da estação.

O rapazinho trouxe os copos com caldo e ficou aguardando que bebessem. Justo a tempo do trem apitar lá muito adiante. Boa arregalou os olhos ao ver o monstro avançando. Seu coração acelerou. Após uma golfada de fumaça o comboio parou na plataforma. Boquiaberto, Boa parecia em estado de choque. As portas se abriram, pouca gente desceu ou subiu. Boa não se moveu. Valtinho percebeu o problema e pegou-o pelo braço:

-Vamos, que esse bicho é manso.

Boa se deixou levar e sentou-se ao lado do outro, sempre com o ar apalermado.

-Mecê nunca tinha visto um trem? perguntou Valtinho, de que cafundós mecê saiu?

-Nunca, balbuciou, nem de ouvir falar, juro que fiquei assustado. É muito grande! Eu morava numa fazenda.

-Fica tranquilo, é uma condução segura, moderna, melhor que barco, não afunda e é bem rápido, cê vai gostar.

Boa adorou a viagem, não saía da janela, boca e olhos arregalados, amando cada minuto, ficou até mais generoso, em cada estação comprava comida e bebida para os dois. Valtinho observou:

-Mecê tá com o bolso recheado de dinheiro, né?

-É o pagamento desse último mês. Mas já tá acabando e tenho de guardar um pouco para a pensão até arrumar trabalho. Me fale da sua cidade, como ela é?

-Mecê vai se assustar com o movimento, é muito maior que lá em Boas Novas. Ah, e tem o bonde, um tipo de trem puxado por burros, muita coisa pra ver, muita mulher bonita. Nem andando um dia inteirinho dá pra ver tudo. Mecê vai gostar,

Qual, exclamou Boa, que gostou de tudo que viu, seus olhos não paravam de arregalar e a boca de cair, maravilhada.

Impressionou-se com a cidade, andava com cuidado, não fosse esbarrar nas pessoas, derrubar os cavaletes na frente das lojas.

-Quero ficar aqui, disse ele, tentando abarcar tudo com os olhos. Nunca pensei que existisse um lugar assim. E no meio desse mundo de gente vai ser muito difícil a bruaca me achar, pensou segurando com mais firmeza o saco que não largou em momento algum. O novo amigo praticamente o rebocou no caminho para sua casa, algumas esquinas longe da estação ferroviária.

A mãe de Valtinho, dona Eponina, tinha o nariz franzido como se estivesse sentindo mau cheiro. Os olhos eram pequenos, penetrantes e o cabelo puxado para trás num coque. Gordota, usava vestido fechado até o pescoço, com cheiro de roupa lavada. Ele gostou, parecia sua mãe. Sorriu cálido para ela.

-Pode ficar aqui sim, no quarto que foi de Quinzinho, só que cobro por quinzena e adiantado.

Ele se instalou com satisfação. O quarto era pequeno, janela na face da rua, tinha um armário velho, de portas empenadas e uma cadeira em iguais condições. Como vou guardar meu dinheiro? se preocupou. O pessoal é sério, posso ver, mas nunca se sabe, né? Logo depois o almoço foi servido e Valtinho o chamou para dar uma volta pra conhecer a cidade. Ele se entusiasmou.

-Vamos de bonde?

Valtinho anuiu sorrindo. Na hora de sair pegou o saco e botou debaixo do braço.

-Pode deixar no armário, ninguém mexe em nada.

-Eu sei, ele afirmou, mas é que se eu deixar o saco é como se desligasse de mim mesmo, esse saco é a única ligação com o lugar de onde vim, inventou. Olha só, tem nada de valor aqui não. E tirou a última penca de bananas, que botou em cima da mesa. Pra nós comer. Ao demais são roupas usadas que era do antigo dono dos marrecos que morreu e que a dona me deu. Deixa que assim que acostumar com essa nova vida, ou arrumar trabalho, largo o saco no quarto.

-A gente vê cada uma, resmungou a velha. O filho sorriu, compreensivo.

-Vambora, – Boa deu um tapa no ombro do outro, sorrindo – que tô doido pra bater perna nesse mato.

O passeio foi um deslumbramento para Boa, apesar do incômodo de ter de carregar o saco. Entre exclamações e sustos percorreu ruas e praças, entrou em lojas e passeou por animadíssima feira que vendia de tudo. Nunca conhecera nada igual, a pequena cidade de Boas Novas e as vilas que conhecera eram nada diante do movimento de gente, do falatório, do barulho, dos prédios, dos maquinários. Coisas nunca imaginadas, mulheres nunca vistas. Era emoção demais a cansá-lo e chegou em casa arfando. A seu lado Valtinho ria. Largou-se num sofá, exausto. Doxinha realmente o perdoara, concluiu.

Dia seguinte Valtinho voltou a trabalhar e pôs se a passear sozinho, descobrindo a cada dia novos encantos urbanos. Sentou-se em bancos de praça, entabulou conversa com estranhos, olhou vitrines, conversou com vendedores ambulantes, pescadores e empregados de navios, com os quais tinha certa intimidade, graças ao convívio com Conjuro, e flanou pela beira rio até que, cansado, sentou-se num banco em frente a ilha chamada das cobras. Quis visitá-la, verificar se havia cobras mesmo ou era invencionice do povo. Valtinho já tinha estado lá e falou de um capão de mata cerrada do lado oposto ao que dava para a cidade, onde costumava caçar passarinho quando garoto. Quem sabe essa matinha me serve? Ele queria um local seguro mas de fácil acesso para esconder seu tesouro. Não podia continuar a andar carregando o trambolho em baixo do braço. Rico trambolho, mas incômodo, capaz de provocar curiosidade e risinhos.

-Deve ter cobras sim, confirmou Valtinho, o matão ali é cerrado e dizem que até onça já apareceu. Cê sabe que onça nada, né? Quando ia lá, morria de medo. Por isso acho bom não ir.

Enquanto não se decidia, passeava sempre com o saco debaixo do braço. Conversava com homens, mulheres e crianças, com quem estivesse disposto a lhe dar atenção. Apreciava garotos jogando bolas de gude e de meia, soltando pipa, meninas brincando de roda e de boneca. Assim se conhece uma cidade, concluiu, e não visitando lugares bonitos ou cheios de história.

Objeto de intensa curiosidade era o saco que carregava para onde quer que fosse. Cristalizara a versão de que o saco estaria ligado à sua identidade e que abandoná-lo seria renegar suas origens. As pessoas riam e o consideravam meio lelé da cuca, um louco manso e de boa aparência. Boa passava um pouco dos 30 anos cheio de energia e vigor. Flertou com algumas moças, mas não quis nada sério antes de poder se manter.

As notas que separara para gastar estavam no fim. Com o quarto fechado a chave abriu um outro maço, separou outras e uma nota estrangeira caiu sobre a cama. Botou no bolso junto com as demais. Vou ver o que posso fazer com ela. Vira perto do cais uma porta onde um cartaz anunciava que trocava moedas. Alguém lhe explicara o que isso significava. Alegando que ganhara aquela nota guiando um visitante pela cidade, pediu para o homem do guichê trocá-la. Ele a examinou, olhou contra a luz e comentou, matreiro:

-Inglês generoso esse, hein? foi só mesmo guiamento o que mecê fez?

E riu, malicioso. Boa não entendeu muito bem a pergunta, mas deixou pra lá, pegou o pequeno maço de notas de réis e enfiou no bolso junto com as demais. Quando saiu ouviu o homem comentar com alguém no fundo do guichê.

-Esses caipiras são espertos, esse bonitão aí vai ver comeu o tal francês.

Quis voltar para protestar mas achou que não valia a pena. O dinheiro não era honesto mesmo. E se o homem chamasse a polícia e se visse obrigado a contar a real origem das notas? Afastou-se rápido. A cada dia constatava que o dinheiro lhe trazia alguns inconvenientes e muitas vantagens. Valtinho ia trabalhar e ele ficava perambulando, sem pressa em arrumar trabalho. Podia comprar o que desse na telha, comer nos tabuleiros de rua, enfim, gozar a vida. Para dormir punha o saco por baixo do travesseiro, dificultando seu sono.

Uma mulher nova e bonita, parada numa esquina perto do porto, lhe sorriu. Valtinho lhe falara delas, as meretrizes. Não que ignorasse a existência deles, já se aliviara com algumas, mas não eram finórias como as dessa vila deviam ser. Teve medo. Quis parar, conversar, ir ao quarto dela, mas temeu pelo seu rico dinheirinho. Aqui tudo é perigoso, decidiu. Muita coisa deixou de fazer por cauda do saco. Preciso colocar ele num lugar seguro, mas onde? Por mais séria que a mãe de Valtinho fosse, podia numa hora não resistir à curiosidade e olhar o que tinha no saco, e aí, como explicar a dinheirama?

Pensou em comprar uma bolsa até que viu um moleque arrancar uma bolsa das mãos de um senhor e fugir correndo pelo cais. O saco vai continuar a servir. Na hora do almoço, se comia em casa sentava sobre ele e se estava na rua fazia o mesmo. As roupas de Macornei estavam amassadas e teve de pagar à mãe de Valtinho para lavar algumas peças para poder usar. Decidiu então comprar mais umas peças. Camisa era fácil, mas as calças tinham de ser feitas por alfaiates, que estavam sempre sobrecarregados de serviço. Por fim achou-se em condições e com vontade de pleitear emprego, sempre com o saco a tiracolo. Percebeu que o saco e sua versão para carregá-lo haviam custado a possibilidade de alguns empregos. O povo não entendia. Foi Valtinho quem lhe trouxe uma boa oportunidade na firma em que trabalhava.

-Mas vai ter de se livrar desse saco, informou. Senão o pessoal da firma vai pensar que mecê é doido.

Dilema proposto, dilema resolvido. Boa se apaixonara pela cidade, não queria ir embora e entabulara conversas na janela com uma jovem a uns quarteirões de onde morava. Moça bonita, direita, moça para casamento, ele viúvo, tudo à feição, menos o saco de dinheiro. Gastou horas a verrumar os miolos com o problema e chegou à conclusão que a única maneira era se livrar do saco. Queria ter vida normal, namorada, amigos, quem sabe ter outros filhos, já que os primeiros estavam perdidos. Pediu um tempo a Valtinho e foi se sentar na beira rio para encontrar a saída.

O rio passava lento, se espraiando em ondinhas simpáticas que lhe sorriam. Peixinhos buscavam insetos em pulos graciosos e garças pegavam os peixinhos. Alguns papa-fumos pairavam sobra a água. Um mundo de paz, que a ilha decorava com seu arvoredo fechado, suas palmeiras e coqueiros, seu céu muito azul. Alguém lhe contara que os cajus dali eram os melhores. No tempo dos cajus vou lá pegar alguns.

Então, num estalo, veio a ideia: enterrar o saco na ilha das Cobras, fazer como Sem braços. Entraria no meio do matagal, escolheria um lugar fácil de ser lembrado, bem lá no meio, colocaria o saco num bauzinho e enterraria a uma profundidade razoável e quando precisasse de dinheiro era só voltar e pegar o necessário. Ficou tão feliz que deu um pulo e um grito, assustando as lavadeiras que batiam roupa ali perto.

O dia seguinte era dia da grande feira da vila. Barracas vendendo de tudo, de verduras a móveis. Ficou tonto só de olhar. Comprou um baú de lata com quase 30 centímetros de comprimento e uma espécie de bolsa de couro cru, com chave. Esperou o sol baixar e depois que as lavadeiras recolheram suas roupas limpas pediu emprestado um bote menor e tocou para a ilha. Levava uma picareta. Um pouco nervoso, com a imagem de Sem Braço na cabeça, e tomando cuidado para evitar animais perigosos e que alguém visse o que fazia, adentrou o bosque. A areia tornava-se barro a partir da primeira linha de plantas e observando com toda a atenção descobriu o lugar ideal, bem no meio da matinha, como queria: um espaço sem plantas nem capim ao pé de uma palmeira, uma frondosa jeribá carregada de cachos de pequenos frutos. O silêncio só era cortado pelo trinar e piar de muitos passarinhos. Nenhum sinal de onça ou qualquer outro quadrúpede. Nem de cobra. Um camaleão passou correndo.

Boa se deu um tempo a escutar e observar tudo a sua volta e quando entendeu que estava só, sem testemunhas, se pôs a cavar até uma fundura que considerou ideal. Sentou-se no chão, abriu o saco e sacou as notas. As que conhecia colocou na bolsa, que ficou estufada; as demais arrumou com carinho no baú de folha e agradeceu mentalmente a Macornei antes de depositá-lo no buraco. Cobriu com cuidado, procurou disfarçar com folhas secas e pequenos frutos da palmeira caídos no chão o local do seu tesouro e levantou-se. Falta só a caveira de burro, pensou, sorrindo. Tirou da carteira as notas que a estufavam e botou nos bolsos.

Sorriu feliz. Esse deve ter sido o ato final da praga. Tchau, Doxinha.

À sua volta as árvores farfalharam e achou que era Doxinha se despedindo.

Depois disso a vida de Boanerges de normalizou, trabalhou e abriu um negócio, casou-se com uma bela moça da cidade e foram felizes para sempre, criando filhos, cachorros e galinhas no quintal. Os dois tesouros, o seu e o de Sem Braço, continuaram nos lugares onde foram enterrados e até hoje ninguém teve a sorte de encontrá-los.

   

Revisão final em 27/01/2017                                          

                                  F I M

 

 

 

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RETROSPECTIVA 2016

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