AS ESPORAS DO PADRE

15 \15\UTC dezembro \15\UTC 2016 at 14:13 Deixe um comentário

Conto versejado, 3º lugar no Concurso Nacional de Contos José Cândido de Carvalho, 1993, Campos dos Goytacazes.

 

Em passos lentos o cavalo chapinha

na estrada – pura lama.

Está velho, cansado, e toneladas

pesa-lhe o padre no lombo.

Aflitos seus olhos buscaram

um pouso, um naco de chão seco

ao menos; desiludidos se voltam pro céu.

O padre ora: que cheguem logo!

Deus não escuta

atordoado com o ribombo dos trovões

que assombram a noite.

O cavalo bufa, o padre deplora

o sacrifício que lhe impõe.

Apiedado, por duas vezes apeou

e afundou na lama até os tornozelos.

Suas juntas gastas tanto reclamaram

que pediu desculpas ao animal

e voltou a se escarrapachar na sela.

Sabe-se gordo e isso tanto o aflige!

Um pouco mais e a pobre besta arrebenta

e ele baterá os queixos de frio

perdido nos matos

sem vivalma para ajudá-lo

– nem os anjos se atrevem

a sair com esse tempo.

 

Suspira o padre fundamente,

condoído de si e da besta,

e foge ao problema voltando ao passado

à insensata besta que foi

ao escolher profissão tão ingrata.

“Profissão não!” gritava o padre Inácio

com vinagre na voz esganiçada.

“Dedicação exclusiva

à missão divina é o que vos espera!

Os sacrifícios serão recompensados

no eterno banquete ao lado de Deus-pai!”

E os meninos faziam caretas

quando ele lhe voltava as costas.

Eram bons aqueles tempos e não percebiam.

Quis ser teólogo, passar a vida entre orações,

cânticos, incenso, mortificações,

e altos estudos sobre a natureza divina

e suas incompreensíveis intenções.

Pai-nosso-que-está-no-céu foi contra

e lhe deu uma paróquia tão extensa

– com um rio a parti-la em duas –

que levou anos para conhecê-la toda

e em que condições!

Deu-lhe também uma irmã solteirona

e doente dos nervos, a pobre.

São as linhas tortas por onde Ele escreve certo.

Lutava para crer nisso,

mas tinha horas…

 

Paróquia pobre, miseráveis fieis dispersos

por entre uns ricos fazendeiros

– que longe dali viviam –

e decadentes comerciantes.

Por si pouco importava

seu lugar estava reservado

à imensa mesa do ágape divino,

Mas sua pobre irmã.

Se morresse antes dela

quem aturaria seus achaques, chiliques,

amuos, resmungos, esquisitices,

doenças reais e imaginárias?

A negra Xixa se ia finando

de tanto suportar desfeitas,

malcriações e exigências da mana

– suave cilício que Deus lhe destinara.

Era meiga a irmã, piedosa

e educada em seus bons dias.

Mas eram tão raros!

Dela quem cuidaria, se não teria dinheiro

para pagar os tormentos que cumularia

quem os substituíssem, a ele e à negra?

 

O cavalo arfa, o padre suspira,

relâmpagos iluminam o lodaçal sem fim,

quando enfim chegariam?

Todo seu corpo reclama dos solavancos

enquanto sua irmã dorme entre lençóis cheirosos

a alfazema, trocados todos os dias, penitência

imposta à exausta negra a caminho do céu.

Cuidar da irmã, quem mais ousaria?

 

Chegam finalmente ao pontilhão do Quincas,

fim da penosa jornada, ponto de luz na treva,

sopa e cama quentes e milho pro cavalo.

Quincas é generoso, temente a Deus,

sitiante de magras posses e gorda fé.

Há sempre uma sorda para o visitante

vindo em nome de Deus. Deo gratia!

regozija-se o estômago vazio,

 

Um ricaço fazendeiro possuíra aquelas terras

e muitas mais que filhos malucos fatiaram

em pedaços que bebem nas vendas da estrada.

O fazendeiro, um tal capitão Silsantos,

vivera em pecados tais que ao sentir a morte

chegando cada vez mais perto,

chamara a ele, padre, para esvaziar a alma

e poder aspirara a um cantinho no purgatório.

E ele a missão tão bem cumprira, fortes

esperanças lhe dera de curto estágio

entre as alminhas aspirantes ao paraíso,

que o pobre homem rico, leve, agradecido,

certo de conseguir se elevar aos pés

Daquele que pouco dá e muito cobra,

inundado de gratidão berrara pelos herdeiros

– os mesmos que hoje caem bêbados nas poças

de seus catingosos vômitos –

e lhes pedira o par de esporas de ouro.

Era o último peso a prender seu devastado corpo

à terra e num derradeiro esforço doou-as

ao padre. “Reze por minh’alma, santo homem!”

lhe pedira, desfeito em lágrimas. Os filhos

tentaram se opor, mas num esgar de autoridade

nunca contestada os calara, e o padre deixara o casarão

com seu único bem terreno, sob olhares furibundos.

A lembrança era oportuna por lhe mostrar

que a maninha não ficaria desprovida se antes

dela partisse para o céu. Pesadas esporas, maciço ouro,

de pequena fortuna ela disporia.

Deus escrevera torto por certas linhas

uma vez mais.

 

Respira aliviado o padre, muita fome sente, mas o cavalo

Dobra as exauridas peras, dá um último bufido

– se cavalo tem alma ela galopara direto

Às baias celestiais – e cai de borco.

Também o padre voa para a frente, o inesperado

tira-lhe o prumo. Roça no mourão da ponte

e mergulha nas barrentas águas, engrossadas

pelas chuvas, do riacho de comum franzino.

Por entre peixes ensandecidos o padre

afunda; seu volumoso corpo encontra

macio e definitivo leito no lodo. Ele

e suas esporas de ouro maciço

para todo o sempre enganchados nos gravetos.

*

Madrugada nevoenta na cidade deserta.

pelas pedras úmidas da rua

o verdureiro contrariado empurra

a carrocinha cheia enquanto a megera

da sua mulher ainda ronca, sentada

junto ao fogão, onde a água do café ferve à toa.

Tomara que numa cochilada, pragueja ele,

ela enfie a cara de tacho no bocão aceso

e as achas e lenha lhe queimem a fuça

e os cabelos ensebados. Nunca mais aporrinharia

ninguém, a desgraçada, e o diabo

pros quintos dos infernos a carregaria.

Ninguém na rua, só o infeliz se matava

pra sustentar a mulher e a filharada inútil.

O sereno lhe empapa os cabelos. Funga.

Se eu pegar uma gripe ela vai ver.

O horizonte se aclara devagar e o verdureiro

resfolega ao peso dos pensamentos malsãos.

Chega à esquina da praça e, como se chamado,

ergue a cabeça para a janela do sobrado,

para a janela do quarto do padre e lá está ele,

o parasita, careca lustrosa, com seu falso

ar de humildade. Presepeiro! Conhecia a bisca,

padre nenhum presta, exploram as almas, isso sim.

O padre o chama pelo nome. Freia a carroça

mais para a descansar e tomar fôlego

que para atender àquele disfarçado.

E o padre fala manso, como se estivesse

a lhe pedir um dinheirinho para a festa

de São João, em que é craque.

Em amanhecendo, diz o padre, que ele, verdureiro,

por obséquio, procurasse sua pobre irmã

e lhe informasse, com muito jeito, que ele se fora

para sempre, mas não a deixara desamparada. Que ela

mandasse gente, de toda a confiança, mergulhar

no valão junto ao pontilhão do Quincas para tirar

de seu corpo encharcado as esporas de puro ouro.

“Mas cuidado, verdureiro, não cobice as esporas

de ouro nem tente enganara  pobre velha

que sou capaz de deixar todas as noites

meu assento no banquete celestial

para vir lhe puxar as pernas tortas.”

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