O FOGUETÓRIO

18 \18\UTC novembro \18\UTC 2016 at 14:47 Deixe um comentário

Seis horas da manhã de qualquer estação do ano. Chite pum, um estrondo no céu, foguete explode seguido de música da banda. É gostoso, eu acho, melhor do que acordar com o barulho de rajadas de metralhadora ou tiros de AR 15, como acontecia quando eu morava no Rocha, no Rio. Mesmo se gostando tudo demais enjoa. E aqui fogueteia-se demais, por qualquer motivo, pelo início de uma reunião oficial e pelo seu fim. Em aniversário importante ou que assim se considere é demais. Festa de santo católico então, é de ensurdecer os pobres coitados, que se veem bruscamente acordados de seu sono eterno. Tenho um conhecido, advogado, que fica tão irritado que promete qualquer dia desses entrar com um processo de indenização contra a igreja por quebra de sossego, não permitindo seu sono. Danos físicos e morais.

Foguete aqui na cidade é que nem papa-capim, uma loucura. De manhã, principalmente aos domingos, mal o sol aparece, em gaiolas cobertas de panos brancos, de bicicleta, de moto, a pé ou de carro lá vai o papa-capim carregado pelo seu fanático dono, capaz de levá-lo até para o seu local de trabalho. Um espanto.

Não sei se com os goitacá era assim, se gostavam de ouvir papa-capins em suas tabas e caçadas, mas o povo antigo daqui já gostava do pipocar dos foguetes que devia assustar os indígenas. Vejo isso em “D. Pedro II na Planície Goitacá”, livro da historiadora Talita Casadei sobre a primeira visita do imperador Pedro II a nossa cidade, onde ela conta que “logo cedo, a galeota levando o imperador iniciou a descida pelo rio Paraíba em demanda à sua foz. Acompanhando o monarca seguia o comendador Joaquim Thomaz de Faria, que em seu escaler levava quatro oficiais de fuzileiros e outras pessoas que anunciavam com foguetes, segundo o Jornal do Commercio, que sobre as águas do Paraíba viajava o monarca do Brasil.”

Imagino que a turma que ficou à espera no cais não fez por menos e disparou uma saraivada de foguetes assim que a galeota apareceu na curva do rio, o que deve ter feito fugir pra ilha em frente os bem-te-vis das 21 palmeiras plantadas para comemorar a ilustre visita. E certamente durante o tempo em que cá permaneceu os foguetes encheram o ar. Como o imperador era jovem, tinha 21 anos, e a viagem cansativa, deve ter dormido profundamente na cama que o comendador Alves Rangel teve de arrumar às pressas para o repouso de sua augusta pessoa. Na cidade não havia camas dignas desse nome, só catres e esteiras.

Nas visitas seguintes, casado e com filhas, o imperador deve ter se sentido um tanto incomodado com a barulheira. Em 1875, depois de inaugurar o fatídico canal Campos-Macaé, cavacado por escravos para acabar com nosso porto – o comércio campista não gostava da dependência de só exportar por aqui – visitou a cidade e a praia de Atafona, então chamada de Barra. Em 1878, com a imperatriz Teresa Cristina, fato raro, veio inaugurar o Engenho Central de Barcelos a convite do Barão. Visita de um chefe de estado era sinal de prestígio; com a primeira dama ao lado era prestígio multiplicado.

O foguetório da primeira visita, seguido de rapapés, agradou tanto que três anos depois, em 1850, o imperador elevou a Vila de São João da Praia a cidade, com o nome de São João da Barra e deu ao presidente da Câmara de Vereadores, o título de Barão de São João da Barra, dois anos depois, com grandeza acrescentada em 1854.

SJB, nov/16

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