O VELHO TREM

10 \10\UTC novembro \10\UTC 2016 at 08:12 Deixe um comentário

Uuuuu, tchi, tchi, tchi, lá vem papai, lá vem seu pai, uuuu…

Era o som que a gente ouvia, provocado pelo deslizar das rodas do trem nos trilhos…

Manhãzinha de segunda-feira, gosto de café ainda na boca, olhos meio empapuçados de sono, no coração um misto de revolta por ter de abandonar a cama quentinha e de irritação pelo que viria no resto do dia… Não tinha jeito, a família, pressionada por problemas econômicos, tinha se mudado para a praia de Atafona e a gente continuava a estudar em colégio de Campos, já que perto de casa não havia uma boa escola que pudesse nos preparar para o maravilhoso futuro imaginado pela família. Ficávamos numa pensão durante a semana, mas na sexta-feira, casa pra que te quero! Muitas vezes no domingo pegávamos o último ônibus para Campos, um monte alegre de estudantes, mas de vez em quando perdia-se esse horário e… madrugar para pegar o trem!

Na estação a máquina bufava soltando fumaça, provavelmente enraivecida também por ter sido tirada tão cedo do descanso. Vagões quase vazios, em São João da Barra e estações seguintes mais passageiros sonolentos entrariam. Um bimbalhar de sino, um apito longo e cheio de mágoa por ter arrastar os vagões por mais de 40 quilômetros, e o comboio se movimentava, a princípio devagar, aumentando a velocidade aos poucos, bufando sempre. O menino ainda bocejava, mas logo sua atenção era capturada pelo que via passando ao lado da composição: mato molhado de orvalho, onde árvores se misturavam a cactos, coqueiros rasteiros e cipós pendentes. Cabritos saltitavam e mastigavam folhas de pitangueira com uma disposição invejável, era possível que não tivessem de ir para a escola. Aos poucos os olhos do menino brilhavam de prazer enquanto o trem, passada a estação da cidade, serpenteava alegre, acompanhando o curso do rio Paraíba do Sul, um desfilar de beleza de garças majestosas, socós tímidos, miuás mergulhados até o pescoço, anus em bando, bois e cavalos nas ilhas do meio da corrente. De vez em quando uma parada, ora para abastecer o monstro de água e lenha, ora para pegar gente, latões de leite, caixotes de legumes e frutas. Quando a gente entrava em Campos, perto de duas horas depois, já começava a sentir saudades da viagem.

Passear de trem era tudo de bom. Sem pressa, sem atropelo, sem confusão. Só um pouco de fumaça e faíscas. Quando meu avô ia a Campos para pegar o expresso que o levaria à casa dos filhos no Rio, vestia um guarda-pó branco, como os demais passageiros. A viagem era longa, levava-se um farnel com frango assado com farofa, arroz soltinho e batata frita. No vagão restaurante comprava-se algo para beber. Podia se adquirir também o almoço, mas a viagem era considerada muito cara e levado de casa poupava-se para gastar na capital federal.

O trem foi um veículo desbravador e integrador que a era juscelinista deixou pra trás, abrindo caminho para o surgimento do automóvel e seus problemas. Em países com a dimensão continental do nosso, como os Estados Unidos e Rússia, os dois tipos de transporte coletivo convivem sem problemas, mas aqui, por alguma razão, a grande rede ferroviária precisou ser desmontada para que as montadoras de automóveis e caminhões prosperassem. No meu fraco entender, foi um erro.

Continuei amando os trens, mesmo depois do nosso ramal ter sido transformado numa saudade gostosa. Viagens memoráveis fiz como a Pindamonhangaba (paulista usa esses esdrúxulos termos indígenas para atrapalhar os turistas) e de lá a Campos do Jordão, esta uma viagem de filme, o trem se arrastando pelos flancos da montanha, passando por petizes japoneses de bochechas coradas acenando da cancela do sítio e a São Paulo. Dormi toda a viagem de Madri a Lisboa e acordei com a visão inesperada de um castelo surgindo no meio de um rio. Toda a viagem a Portugal, com pequenas exceções, foi de trem. A estação de Tomar, onde fui visitar o castelo que abrigou os últimos Templários, era um cromo, com seu jardinzinho cheio de flores e suas pereiras debruçando sobre a gare os galhos pejados de fruta que ninguém tocava.

O trem faz muita falta e gostaria que voltasse a apitar sobre trilhos. Seria bom para a economia, pois reduziria o consumo de combustível, transportando um maior volume de carga por viagem, liberaria as rodovias para os automotores, diminuindo o número de acidentes, mortos e feridos que maculam as páginas dos jornais nacionais, entre outras coisas. Volte, trem, não o do passado, tão romântico e rústico, mas sem espaço nesses tempos de tecnologia galopante, mas voando sobre colchões de ar como no Japão e em outras modernas sociedades. Não se esqueça, porém, de fazer soar um apito, já que a fumaça, as faíscas e o uuuu, cadê papai, cadê seu pai, não terá mais.

SJB, novembro.16

 

 

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