DIA DA PÁTRIA

8 \08\UTC setembro \08\UTC 2016 at 09:33 Deixe um comentário

As comemorações do Dia da Pátria em Campos e São João da Barra me trazem recordações.

Sendo feriado e a farmácia de papai em Campos não estando incluída entre as que ficavam de plantão naquela vez, na década de 50, a gente visitava as casas dos avós. A do avô materno em São João da Barra era uma delícia, o sobrado permitindo que a gente apreciasse da sacada o pouco movimento da rua e brincasse no jardim e no quintal; a do paterno, uma fazenda em Pipeiras, apesar dos animais domésticos e outros, das roscas de milho, do ovo batido, do doce de jenipapo na chapa do fogão de lenha, de um doce com pimenta chamado farte, dos biscoitos, bijus, tapiocas e queijos, das canas finas espremidas diretamente na boca ou cortadas em roletes, nem sempre era boa, a começar pelas acidentadas viagens de dia e volta.

Depois de saídos da estrada principal, a que levava até Atafona, entrando por Cajueiro ou por Caetá, pegávamos caminhos de areia ou lama. Como a fubica de papai era antiga, geralmente comprada de segunda ou terceira mão e frequentadora constante de oficinas, ela sempre atolava e seus eixos não tinham força para levá-la adiante. Era um sufoco cavar a areia e cobrir com galhos de árvore para dar firmeza aos pneus. Cada viagem uma epopeia. Lembradas agora essas viagens eram verdadeiras comédias, com momentos de non sense, brigas e risos. Dão saudades.

Lembro-me de uma, os filhos já adolescentes e morando na cidade sanjoanense, em que a camionete parou de funcionar junto à casa de um paciente – por que papai fazia a ronda dos doentes da parte sul do interior do município, levando remédios e orientação – na área chamada de Perigoso. Antes da descoberta da falta de gasolina, razão do carro não funcionar, papai ganhara um bacorinho – quase sempre seus pacientes o remuneravam com pequenos animais, frutas e legumes – bem gordinho e forte. Pois o danado escapou na hora de ser manietado para ser colocado na carroceria, onde viajavam os filhos mais velhos, a empregada e metros de lenha seca.

Depois de muita correria, gritaria e arranhões, pois o bichinho se enfiava impávido nas macegas em volta e nós íamos atrás, caindo e rindo pra valer, ele foi apanhado e colocado aos guinchos na carroceria da fubica. Satisfeitos, nos despedimos dos donos da propriedade e nos preparamos para chegar em casa, tomar um banho, jantar e se possível dar uma volta na praça. Anoitecia. Papai girou a chave e nada do motor pegar. O que foi, o que não foi, descobriu-se que a gasolina acabara. Se não tivéssemos parado ali íamos ficar no meio da estrada. Era pouco o movimento de automóveis e lá fui eu, escolhido para embarcar no primeiro ônibus que passasse e que deveria ser o último horário do dia da empresa. Deveria chegar em casa, pegar a bicicleta que tinha uma espécie de rack na frente do guidão, pegar um latão de cinco ou dez litros, encher no posto de gasolina e levá-lo de volta aonde o porquinho e nossa família aguardavam transporte para o lar, para onde seguiam também abóboras, melancias, abacaxis, cachos de bananas de vez e outras miudezas comestíveis. Como pedalei naquele anoitecer!

Quando estudava em Campos morava na pensão de um primo de papai, Alfeu, primeiro na Rua 21 de abril (Hotel Novo Mundo) e depois na Alberto Torres, em frente à entrada lateral dos cines Coliseu e Goitacá. Gostava da parada escolar em si, a gente desfilava com garbo, ao som da bateria da escola. Tanto a bateria do São Salvador quanto a do Liceu de Humanidades eram consideradas de primeira linha. Nas duas semanas antes do desfile a gente treinava à noite, marchando ora pelos espaços externos dos colégios e ora pelas ruas. No último ano no Liceu, por causa a minha altura – naquela época era considerado alto – fiz parte da guarda de honra das bandeiras do Brasil, estado, município e escola (acho que era isso) e a exigência de marchar bem era maior. Íamos quatro em destaque, ladeando cada uma das bandeiras e qualquer fora do ritmo era fatal. Atrás de mim marchava um colega que vivia reclamando da minha marcha, avisando que ia trazer um alfinete para me espetar quando errasse. Não sei se por isso marchei direitinho no dia da Pátria.

Eram muitos os colégios a desfilar. No tempo em que estudei no Ginásio São Salvador, de doce memória, vestíamos impecáveis uniformes brancos e camisa com gola rolê e logotipo colorido da escola no peito. Muito bonito, eu sentia orgulho ao vesti-lo. À frente, devidamente ajaezado, ia o belo carneiro do colégio, mascote do diretor. Depois vinha a turba de alunos. Era bonito o desfile, mas cansativo.

Pior era o desfile do Liceu. Como o colégio era o último a desfilar, precedido por uma briosa cavalgada dos alunos-cavaleiros, cujos pais eram fazendeiros, ficávamos um tempão parados na beira-rio esperando a vez. Os cavalos davam um toque especial ao desfile e enquanto esperavam cabriolavam. No ano em que desfilei como guarda de honra da bandeira tive de usar luvas. Dado o longo tempo de espera, e eu não tirava as luvas com medo de perdê-las e por achá-las muito bonitas, minha mãos incharam e quando tudo acabou, já de volta à pensão, para tirá-las foi o maior sufoco. Tive de botar as mãos numa bacia de água fria, para que desinchassem.

Tudo isso ficou pra trás, muito lá pra trás. E o que não era muito bom tornou-se risível e o que era bom ficou ótimo.

SJB, set/16

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