OS ENCANTOS DA RESTINGA SANJOANENSE

28 \28\UTC agosto \28\UTC 2016 at 11:04 Deixe um comentário

Leio na edição de 27 de agosto deste ano do filhote de O Diárionf, de Campos, para nossa cidade, que a Prumo Logística Global lançou on line seu belo livro “O tempo e a restinga”, coordenado pela Química ambiental Maria das Graças (Graça), Vicente Mussi Dias, Geisa B. de Siqueira e Daniel Nascimento. O livro é uma preciosidade e merece ser lido por todos os que se interessam pelo nosso município e pela ecologia.

A restinga, que engloba a mata do Caruara faz parte da RPPN – Reserva Particular do Patrimônio Natural – administrada pela Prumo, que anteriormente pertencia à MMX. Acho que engloba também a parte sanjoanense de outra preciosidade, a Lagoa do Salgado, descoberta e assim nomeada pelos Sete Capitães em 1634. Caruara, segundo o Google, significa feitiço, mau olhado e tremedeira nas pernas, e no Nordeste designa um vento de trovoadas que ocorre em janeiro. Engloba ainda a lagoa de Iquipari (águas espinhentas, graças ao surgimento em seu leito de uma planta com espinhos em certa época do ano) e já se chamou Lucrécia e a de Gruçaí, que tem esse nome por causa da abundância dos grauçás, aquele pequeno caranguejo amarelo que vive correndo como um desesperado pela praia.

O livro praticamente examina à exaustão a restinga, de ponta a ponta, só não fala sobre seus habitantes de carne e osso, o tamanduá mirim e outros. A supervisão do livro é do professor Renato Aquino, que assina o Prefácio. Renato, que foi meu colega do Ginásio São Salvador e do Liceu de Humanidades de Campos, me pediu e a outros autores um texto sobre o verão em Gruçaí. Foram incorporados ao texto principal.

Os autores do livro produziram material de primeira qualidade. A Prumo é responsável pelo reflorestamento e conservação de área de 3.845 hectares, onde plantou 500 mil mudas de plantas da restinga, algumas ameaçadas de extinção como pau-ferro, o ingá-mirim e o ocambucá. A ação repõe plantas de uma área devastada que protege a faixa marginal das lagoas. A primeira parte do livro, bilíngue, fala desse esforço e conta que foram resgatados e reintroduzidos na RPPN cerca de 16 mil animais de 245 espécies natas da restinga, algumas também na lista de animais ameaçados de extinção.

A segunda parte do livro, intitulada Cores e Aromas, é sensacional. Com fotos lindas das plantas recenseadas, traz ficha catalográfica com todos os dados de cada uma das plantas fotografadas que possam interessar a estudiosos e leigos. A ficha traz seus nomes científicos e populares e assim fico sabendo que a saborosa pitanga é uma eugenia uniflor que, além do prazer gustativo, tem efeitos antitérmicos e antidiarreicos, analgésicos, diuréticos, vaso-constritor e anti-hipertensivo. Quanta coisa que eu desconhecia mas que certamente os moradores ali nascidos e criados sabem e usam. As eugenias são muitas e estão espalhadas por aquelas areias; uma delas é a famosa aperta cu, para os íntimos aperta, boa para deter diarreia, o famoso chá de rolha, e é uma eugenia astringens. Também o cambuí, que nos meus tempos de criança era vendido em molhes pelas ruas, é uma eugenia, a candoleana.

Entre outras curiosidades fico sabendo que o coquinho que chamávamos de coco catarro, que maduro tem uma cor linda e um perfume gostoso, é uma allagoptera arenaria e pode ser consumido cru – como fazíamos no chão da varanda da casa de vovô depois de quebrá-lo com uma pedra – ou amassados com farinha de mandioca e usados para preparar bebidas, cocadas, geleias e biscoitos, veja só! A salsa da praia, com seus cordões subterrâneos, que nos fazia tropeçar nas corridas pelo areal, é uma remírea marítima e serve para aromatizar a cachaça, e diurética, sudorífica e auxilia no tratamento de males da bexiga. Os biriteiros sabiam o que bebiam. O murici, com suas era usado para tingir redes de pesca com o sumo de suas raízes e casca para enganar os peixes. Com suas flores amnarelas é utilizado na decoração de salas.

Aquelas florzinhas espalhadas pelas areias que distraída a gente pisa sem prestar atenção, nas fotos deste livro viram obras de arte, com cores e formatos diversos, cada qual mais bela. Quem acessar o livro vai ficar encantado, garanto, e nunca mais vai andar pelas areias da restinga sem prestar atenção nesses presentes da natureza.

Liberar o livro na internet é essencial para se conhecer um pouco mais de nossa região e suas características. Sempre estimulo a produção e divulgação de livros sobre nosso tão esquecido município. Além de esperar outro volume com texto e fotos sobre os animais típicos da restinga, gostaria de ver um outro sobre a Lagoa do Salgado e seus biohermas calcários, monumento geopaleontológico da região.

Seria bom se pudesse ser divulgado, não só em publicação científica, o trabalho de conclusão de curso “Estrutura e composição florística de quatro formações vegetais de restinga no complexo lagunar Grussaí/Iquipari”, de Jorge Assumpção e Marcelo Nascimento, publicado na ACTA BOTANICA BRASILICA, vol, 14, nº 3, São Paulo, set/dez 2000. O município precisa dessas publicações, bem como dos dados coletados e analisados pelo economista Alcimar Ribeiro, para definir sua identidade.

27.08.2016

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