MEUS CAMINHOS I

1 \01\UTC junho \01\UTC 2016 at 16:45 Deixe um comentário

Na farmácia do meu pai, em Campos, havia um longo balcão, coberto por placa de mármore branco, onde eram processadas pomadas e cápsulas de remédios que nesse tempo eram feitos artesanalmente, hoje substituídas por comprimidos e cremes. Eu teria entre 8 e 10 anos e passava tempos ociosos ali, vendo o fabrico de poções, aplicação de injeções e ouvindo conversas de adultos. Acaso me caísse nas mãos um lápis preto, usava o espaço branco como uma folha de papel e desenhava. Casas, bonecos, bichos, tudo o que me desse na telha. Meu pai não se importava e demonstrava até um pouco de orgulho e os adultos se mostravam admirados e preconizavam que eu seria engenheiro. Ledo engano.

Enquanto convalescia de impaludismo, isolado num quarto na meia água que fechava o quintal, onde tinham sido deixadas as cédulas da eleição anterior, sem ter o que fazer eu usava o verso em branco para rabiscar. Minha mãe costumava desenhar cabeças de mulheres com cabelos espiralados em volta do rosto que aprendi a fazer e passei desenhar também os corpos. Me lembro que papai ria muito ao mostrar aos amigos os desenhos das mulheres com peitos pontudos, voltados um para cada lado.

Na escola rabiscava alguma coisa, o artista adormecera com o peso das informações que recebia e havia colegas que desenhavam muitíssimo melhor que eu. Certa vez, adolescente, fui passar uns dias na fazenda de minha avó, em Pipeiras, e como não havia com quem me distrair me vali de um bloco e lápis preto que levara – já imaginava como seria o tédio ocioso daqueles dias – e desenhei bois, carroças e árvores e o retrato de Paulinho, um rapazola de minha idade, mais ou menos, que ajudava vovó em certas tarefas. Os elogios me estimularam a fazer um curso de desenho a mão livre com um professor de Campos. Fiz alguns bons trabalhos, mas as aulas duraram pouco tempo. Aprendi a desenhar com caneta de nanquim e a usar esfuminho.

Nessa época, em que devia escolher que carreira seguir, não sentindo interesse por nenhuma, optei por fazer vestibular para medicina, talvez por papai ter farmácia. Durante dois anos estudei em curso pré-vestibular em Niterói e morava numa pensão na rua Saldanha Marinho, onde um tio meu vivia. Ali conheci Francisco, oriundo da região dos Lagos. Tinha minha idade ou pouco menos e gostava de trabalhar com aquarela para se distrair. Eu não conhecia aquarela e me apaixonei por sua facilidade e leveza. Durante muito tempo, ao invés de estudar me dedicava a desenhar e pintar os telheiros que via de minha janela e outras paisagens mentais. O primeiro quadro a óleo que pintei, com cerca de 30 centímetros de altura, retratava a atriz Norma Benguel fumando, encostada num poste, copiada do anúncio de um filme.

Não passei no vestibular, medicina não era minha praia, ajudando papai na farmácia não suportava ver o sofrimento das crianças. Tentei o vestibular no ano seguinte e novamente fui reprovado. A verdade é que não estudava, me metia no quarto com um livro, desenhava ou escrevia minhas histórias. De volta a Atafona, onde a família estava morando, desenhava e lia gibis – por lá não encontrava livros – e atendia na pequena farmácia que meu pai construíra na lateral frontal da casa, enquanto a moçada ia a praia. Eu só pensava em voltar para o Rio, não para estudar. Queria trabalhar, viver minha vida. Em algumas horas desenhava e pintava com aquarela. No verão o jogo de cartas, especialmente pôquer e pif-paf, funcionava na garagem, aonde ia levar café e fazer pequenos mandados, como comprar sanduíches, cerveja e cigarros para aos jogadores.  A esposa de um deles viu dois quadrinhos que eu havia feito com figuras de desenho animado e resolveu comprá-los. Só que nunca me pagou e era o dinheiro que eu pretendia usar para comprar uma passagem para o Rio. Como também apontava jogo de bicho no balcão da farmácia, tinha um dinheirinho de comissões guardado e de saco cheio resolvi tentar a sorte.

No Rio trabalhei por cinco anos na RioLight, uma companhia canadense que administrava a energia elétrica e os bondes na cidade do Rio de Janeiro. Além de almoço a Companhia oferecia a seus empregados um lanche à tarde e diversos tipos de curso. Cursei inglês e desenho. O curso de desenho durou cerca de um ano, pois o professor, Fernando Lamarca, ganhou uma bolsa de estudos na Europa. Além de uma cabeça de Cristo em carvão, que muito me orgulhava, desenhei o rosto de colegas de trabalho. Ficaram bons. Fiz trabalhos em pastel que não sei onde foram parar.

Tínhamos, sob a batuta de Alberto Simões, fundado a Casa de São João da Barra, que além de baile e missa no Rio no dia de São João Batista, promoveu em São João da Barra a I Mostra de Arte Sanjoanense. Nessa época enviava regularmente para a coluna “Letras & Problemas” editada pelo professor Joel Mello no jornal A Notícia, de Campos, desenhos e textos.

Trabalhei anos no DNER e nos momentos de folga desenhava. Fiz um curso no Instituto Oberg que interrompi por falta de dinheiro.  Fiz mais trabalhos em aquarela, técnica que muito aprecio e que exige a paciência que nunca tive. É um trabalho delicado. Nesse período desenhei vários rostos, inclusive o da minha mulher e de colegas da repartição, mas a bronca de uma colega que se achou feia no desenho interrompeu a atividade. Em casa pintava e tendo comprado cavalete e mochila saía com um companheiro para pintar. Retratamos, por exemplo, cenas na favela da Praia do Pinto, onde moravam muitos sanjoanenses e na ilha de Paquetá.

Nessa altura, tanto o médico quando o engenheiro tinham ido para o espaço. Eu vivia esperando que algo acontecesse, não sei o que. Enquanto esperava fiz cursos, de jornalismo na Associação Guanabarina de Imprensa, de Língua e Literatura Espanhola no Instituto de Cultura Hispânica, de pintura com Ivan Serpa, no Museu de Arte Moderna e outros de menor duração na Biblioteca Nacional e na Academia Brasileira de Letras. Fiz Curso de Mídia e de Publicidade e Marketing na ESPM mas não dava para cursar faculdade, o que fiz depois de casado. Foi um dos caminhos que trilhei, depois conto mais.

SJB, maio/16

 

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