PRATA DA CASA

26 \26\UTC maio \26\UTC 2016 at 14:58 Deixe um comentário

Alguns poderão pensar que esta crônica é missa encomendada por que em breve vou lançar mais um livro, desta vez com estórias infantis, e gostaria de ver gente fazendo fila de dobrar esquina, como vejo acontecer com alguns autores em lançamentos na cidade do Rio de Janeiro. E em parte é isso mesmo. Se não fosse um excelente marqueteiro e não divulgasse seus trabalhos com eficiência Paulo Coelho não seria o escritor brasileiro mais vendido aqui e no exterior.

Isso é realmente importante, mas o que me leva a escrever hoje é uma reflexão antiga, que sempre me perturbou: a indiferença dos sanjoanenses pelos fatos e pessoas notáveis do município. Sempre comento que nas minhas pesquisas para escrever Aspectos culturais sanjoanenses e postá-lo neste blog  descobri que temos uma série de eventos e vultos importantes absolutamente esquecidos em sua terra, como o médico e professor Caetano de Campos, o escritor e jornalista Pessanha Póvoa, o professor Castro Faria , considerado o pai da antopologia no Brasil, o também professor  Valle Ribeiro,  a maior autoridade em matéria de relacionamento igreja/estado na idade média e outros, muitos outros, uma constelação de estrelas que orgulharia qualquer comunidade. Menos a nossa.

Quando o então vereador Domingos Vieira sugeriu dar a uma escola nova na BR-356 o nome do astrônomo sanjoanense e diretor do Observatório Nacional Domingos Fernandes da Costa, que descobriu e nomeou uma estrela, alguém me perguntou se caso o Domingos andasse pela cidade alguém o reconheceria. Fiquei mudo. O homem era importante no Brasil e participara de uma descoberta que confirmou a Teoria da Relatividade com Albert Einstein quando este veio ao nosso país e só aqui, na sua terra ninguém, praticamente ninguém o conhecia. Não fosse outro astrônomo, Marcomedes Nunes, filho de sanjoanenses, lutar pelo seu reconhecimento e ninguém saberia da existência desse notável sanjoanense.

Tá certo, ninguém é profeta em sua terra, mas pelo menos em meios acadêmicos ou escolares seus nomes e seus feitos são revividos e incensados. Toda comunidade precisa de ter um panteão de sábios e heróis para cultuar e dar exemplo às novas gerações, mas aqui…

Quando pus um ponto final na biografia do jornalista José Henriques da Silva, que no do auge do porto flúvio-marítimo que existiu em nossa cidade editou três jornais, sugeri que o esquecimento da cidade pelos seus vultos importantes talvez fosse por vergonha da situação de mediocridade atual do município. Na época de Zenriques, como ele era chamado, São João da Barra vivia um surto de progresso, seu comércio era pujante, o porto recebia 75 navios/mês para transportar pessoas e cargas para o país e o exterior, a atividade cultural era intensa, vinha um inspetor do governo federal para aplicar provas nos estudantes das escolas locais, era um mundo em ebulição. Tudo acabou com o fim do porto e da indústria naval e parece que uma certa letargia tomou conta dos que aqui ficaram, pois os especialistas em atividades navais se mudaram para centros onde suas habilidades pudessem ser aproveitadas.

Porém, a meu ver isso não justifica a indiferença dos conterrâneos. Existem ruas e escolas na cidade de São Paulo batizadas com o nome do professor Campos que modernizou o ensino público no país, aqui não, nem Pessanha Póvoa, poeta e jornalista, que nomeia escolas e ruas em cidades do Espírito Santo. Eles os homenagearam, nós não. O capitão Agostinho, herói da /guerra do Paraguai, chegou a ser nome de rua, mas foi substituído.

O que mais me impressiona e mortifica é ver que os professores do município, os assistentes pedagógicos não se lembram de estudar vida e obra desses homens e mulheres notáveis. Vejo também que os alunos que terminam seus cursos – em Campos, claro – precisando fazer uma monografia, não se lembram de estudar homens como o Barão de Barcelos e outros ilustres conterrâneos. Falei demais sobre isso quando editava o jornal S.JOÃO DA BARRA. Parei por cansaço, não por achar que os nóveis mestres não queriam se dar o trabalho de ilustrar a história do município com a história da vida e da obra dessas figuras maravilhosas cobertas pelas areias do esquecimento trazidas pelo vento nordeste.

Talvez coubesse à secretaria municipal de Educação incluir a história do município na grade curricular de suas escolas, o que faria com que autores da terra produzissem livros sobre o tema. Como isso pode demorar, como uma espécie de aperitivo os mestres poderiam analisar em sala textos de autores sanjoanenses novos e antigos. Célio Aquino tem ótimos textos evocativos de uma São João da Barra que não mais existe, Antônio Nunes (Tonunes) tem um texto sofisticadíssimo, Alcimar tem pesquisas econômicas sobre o município, os Raposo, Elvo e Marcos, fixaram momentos importantes da nossa comunidade, João Oscar então, nem se fala, com seus poemas que cantam a terra, bem como Antonio Braga, também tenho bons textos, com boa vontade se encontra uma montanha de textos que não precisam ser comprados, podem ser digitados e copiados para se estudar na classe. O importante é que se faça alguma coisa para valorizar nossos autores.

Até quando a prata da casa não vai ser posta na mesa?

RDO, maio/16

 

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