ALELUIA, ALELUIA

1 \01\UTC abril \01\UTC 2016 at 10:26 Deixe um comentário

Não tem jeito, à medida que a gente avança na idade, recua no tempo das lembranças.  A chegada de mais uma páscoa me devolve aos anos 40/50 em minha cidade. Morava em Campos, onde meu pai tinha farmácia, mas todas as Semanas Santas passávamos em São João da Barra, minha cidade natal, no sobrado azul de vovô, na esquina da rua dos Passos com rua Coronel Cintra, local onde nasci e onde vivo hoje, depois de tantos anos vividos no Rio de Janeiro e em Niterói.

As imagens de antanho me vêm de atropelo, umas sobre as outras, se misturando, se sucedendo fora de ordem, ricas de emoção, coloridas, bafejadas pelo vento nordeste que nenhum sanjoanense esquece quando vai viver em outro lugar. Tem é vontade de engarrafá-lo e guardar para as horas mais quentes do dia.

A imagem que me ocorre agora é a do sol batendo nos vidros coloridos – verde, vermelho e amarelo – na sala da frente, colorindo o chão imaculadamente encerrado do sobrado. Lá estou eu brincando com carretéis de linha vazios, bagas de mamona, balebas e outras coisas. As crianças de hoje, não só as de hoje, já as dos tempos de meus filhos infantes não sabiam a dificuldade que era para um menino solitário, entre as paredes de uma sala que lhe parecia imensa, arrumar um jeito de se distrair naquele tempo. Não havia brinquedos como hoje, a gente fabricava carrinhos com cavacos de madeira, cavalinhos com mangas verdes, bois com batueras e assim por diante.

Criança na rua nem pensar, mesmo numa cidade com pouco movimento de veículos como a São João da Barra de então, poucas bicicletas mas com cavalos em disparada, carroças sacolejantes, cachorros que podiam estar munados (portadores de hidrofobia), enfim, as mães visitantes não deixavam os garotos na rua. Meninas então, nem pensar. Já os moradores da cidade corriam alegres e descalços pelas ruas de areia e era isso que eu também observava com medo e inveja de uma das janelas laterais do sobrado de onde podia ver a rua do Rosário, em cuja esquina,  perto do beco do Araújo, havia sido pendurado um “judas” para ser malhado.

O judas era um boneco do tamanho de um homem, vestido com roupas comuns e recheado de palha. Havia sempre um cartaz afixado em seu pescoço com um nome escrito. Em volta dele uma chusma de garotos alvoroçados armados de gorumbumbas e porretes, esperando ansiosos pela chegada do meio-dia, quando terminava o horário sagrado de recolhimento da Semana Santa e o judas podia ser malhado. Ouvia-se o vozerio infantil cantando “Aleluia, aleluia, peixe no prato, farinha na cuia”.

Lá da janela eu só olhava, o coração acelerado pela ansiedade, querendo e temendo estar entre a garotada eufórica. Medroso sempre fui, desde criancinha, e acho que para isso contou muito as noites passadas em torno do fogão de lenha da fazenda de vovô Sá em Pipeiras, ouvindo as histórias escabrosas de crimes e assombrações contadas pelos empregados ali reunidos após o jantar. Eu podia fugir dali, ir para a sala onde ficava minha avó e as tias bordando, mas quem disse que conseguia me furtar de passar por aquelas emoções noturnas? E depois, para dormir… a chama da lamparina num canto do quarto projetava sombras horripilantes na parede.

Talvez tenha vindo daí o medo inerente e naquela manhã presente, apesar da luminosidade do sábado de aleluia em São João da Barra, uma das cidades mais luminosas que conheço, só perdendo para Atafona e para a luminosidade quase cegante da cidade de Natal, no Rio Grande do Norte. Eu havia passado os dias anteriores com o coração apertado pelo barulho das matracas percorrendo as ruas, som que me parecia ameaçador e de mau agouro e pelas assustadoras figuras dos santos envolvidos em panos roxos em seus altares. Era muita emoção forte para menino de tão pouca idade, eu devia ter entre cinco e oito anos de idade. Apoiando os antebraços no peitoril da janela, nervoso eu me sacudia e ria ao som dos gritos da meninada. Na certa para me sentir participando da alegre brincadeira, os olhos arregalados e a boca entreaberta se  normalizavam quando finalmente soavam os sinos da matriz anunciando o fim da semana penitencial. Era uma fabulosa descarga de adrenalina, vocês não fazem ideia. O boneco do judas era despedaçado pelas pauladas e logo adiante incendiado e arrastado pelas ruas. Jesus estava vingado e eu podia voltar para a casa de Campos completamente relaxado.

RDO, 27.03.2016

 

 

Anúncios

Entry filed under: Crônicas.

METEOROLOGIA VISITA AO PORTO DO AÇU

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Últimos Posts


%d blogueiros gostam disto: