TROTE BANDIDO

18 \18\UTC dezembro \18\UTC 2015 at 13:48 Deixe um comentário

A gente se acha muito esperto, malandro, escolado, com uma experiência de vida que não nos deixa cair em armadilhas. A gente ouve alguém contar que fulano caiu num trote ou coisa parecida, como conto do vigário, e pensa, o peito impando de orgulho: comigo isso não acontece, sou inteligente, percebo de longe quando é um golpe. Nem sempre é assim. Com meus mais de 40 anos de Rio de Janeiro, escapando de mil e uma mutretas, pensando ser mais esperto que outros, de repente, numa noite tranquila de quase verão, caí numa esparrela na minha cidade.
Assistia no telejornal as espertezas do deputado Eduardo Cunha quando o telefone tocou. Geralmente quem atende é minha mulher mas, como se de propósito, nesse momento ela estava ocupada e não pode atender. Artimanha do destino, tinha que ser eu, que não gosto de telefone. Atendi e uma voz feminina, angustiada, gemeu: pai, acabo de ser assaltada! Tremi na base. Minha filha vive e trabalha a mais ou menos 200 km de minha casa e esses assaltos são tão comuns que não tive como não acreditar. Inquiri onde ela estava para saber como fazer para socorrê-la. Estou no carro, disse a voz, com uma arma encostada na minha cabeça. A essa altura, graças às minhas expressões de temor, minha mulher estava a meu lado, ansiosa. Nesse instante uma voz de homem, dura e assustadora, entrou no circuito para dizer que havia sequestrado minha filha e queria pagamento em dinheiro, senão ia matá-la. Baixinho pedi a minha mulher que ligasse para minha filha, tentando localizá-la. No fundo eu adivinhava que era trote, mas na dúvida… o coração de um pai também fraqueja. E enquanto minha mulher telefonava para a casa dela e para o celular de minha filha e ninguém atendia, o bandido aumentava as ameaças, avisava que se chamasse a polícia atiraria nela. Quem em sã consciência arriscaria? E se fosse verdade? Simulei estar passando mal, disse a ele que eu era um velho, e friamente ele respondeu: segura sua onda senão vai receber no hospital o corpo de sua filha. É muito duro ouvir essa ameaça. Tremi, mas continuei negociando.
O bandido pediu trinta mil reais, avisei que não tinha esse dinheiro, sou funcionário público federal aposentado, ele baixou para 10, perguntou se eu tinha alguém a quem pedir o dinheiro sem dizer pra que e eu disse que não e que o terminal do banco estava fechado naquela hora, baixou para 5 mil, continuei negociando, fazendo das tripas coração, dando tempo a que minha filha atendesse, minha mulher discando sem parar para meu filho que estava viajando, para parentes e amigos que moram perto da minha filha, enquanto soluçava até que, cerca de meia hora depois minha filha atendeu. Tinha chegado muito cansada do trabalho, nessa época de tantas demissões por causa da crise o serviço duplica para quem fica, e estava dormindo. Minha mulher gritou: é trote, eu disse um palavrão e desliguei. Mas até nos recuperarmos, foi um grande sofrimento.
Não consegui dormir depois disso. Eu, que costumo ir para a cama por volta das 10 da noite só consegui pregar olho depois das 3 da madrugada. E no dia seguinte estava um caco. Esses bandidos escolhem aleatoriamente a quem atacar com o celular, dentro de presídios, o que considero um absurdo, como os guardas não veem a entrada desses aparelhos malditos na prisão? De outra feita recebi um telefonema de alguém com voz jovem dizendo ser “meu sobrinho preferido”, pedindo ajuda pois seu carro enguiçara em plena rodovia e dessa vez não me deixei levar e desliguei. Soube que esse mesmo tipo de ligação já ocorrera com outras pessoas, assim como o assustador telefonema de bandido que alega estar sequestrando um parente próximo da vítima. Alguns caíram e perderam dinheiro e agora eu sei que é muito difícil não acreditar naquela voz angustiada que pede socorro. Enquanto não houver um videofone, que mostre com quem se está falando, esses trotes continuarão.

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ZIZI E ANTONIETA RETROSPECTIVA 2015

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