ZIZI E ANTONIETA

3 \03\UTC dezembro \03\UTC 2015 at 16:31 1 comentário

Por acaso, surfando na Sky, esbarrei no filme “À tímida luz de vela das últimas esperanças”, baseado em peça teatral do meu primo Milson Henriques. Nelsinho Pereira já me havia falado dele. Reli o livro e fui bruscamente jogado na minha infância, no tempo em que voltei a São João da Barra, depois de ter vivido no Rio e Campos.
Nesse tempo vovó América, viúva de Zenriques, ainda estava viva e passava do dia sentada numa cadeira de balanço na varanda fazendo croché. Era exímia e tinha feito, sem tirar a agulha do trabalho, uma pequena bandeja, com bule e xícaras, tudo em linha branca. Ainda guardo um pano de mesa em croché feito por ela. Era uma figura magra, muito branca, os cabelos alvíssimos presos num coque. Bela figura.
Em frente a seu branco sobrado morava minha avó, sua filha, no suave sobrado azul de minhas recordações. Com vovó Meca moravam Meca, uma agregada, que também se chamava América, Pedro, outro agregado, que vinham do tempo do meu bisavô, a filha Zizi (Luzia) e a empregada Antonieta, uma negra gorda, filha de escravos. Com a morte de Meca e de vovó, as duas passaram a morar juntas. E era o paraíso infernal narrado por Milson em sua peça.
Zizi é uma das tias que fazem parte do folclore familiar. Foi moça bonita, e nos saraus promovidos em casa de meu bisavô era eleita a mais bela, merecendo poemas. Era vaidosa e simpática. Mas ao envelhecer sem se casar, pois vovô se opusera a seu amado, foi ficando agressiva e autoritária, principalmente com Antonieta, uma criatura doce, sempre pronta a atender seus chamados e a discutir com ela, coisa que ela considerava inadmissível, queria apenas ser obedecida. Sabíamos que Antonieta tinha sido sua babá e até o fim de sua vida continuou sendo. Zizi ia tomar banho e da bacia grande, que se usava naquele tempo e que fora enchida pela outra, gritava pedindo a toalha de banho, que em São João da Barra se chama enxugador, depois sabonete, roupas, meias, sapatos, tudo o que deveria ter levado para o banheiro.
Depois de arrumada Zizi aguardava o soar da sirene da fábrica de bebidas para ir para o portão, onde um grupo de alunos esperava para acompanhá-la ao Grupo Escolar onde lecionava trabalhos manuais ou coisa parecida. Essa rotina foi quebrada um dia pelos famosos esquecimentos ou distrações de Zizi. Ela costumava almoçar lendo e comia devagar. Numa dessas refeições se atrasou e como Antonieta estava ocupada e só algum tempo depois lembrou-lhe o horário, ela ficou nervosa, empurrou o prato, reclamou, pegou a pasta de trabalho e saiu porta afora, num passo apressado. Os alunos, porém, não se cansavam de chamá-la, dona Zizi, dona Zizi, e ela irritada a caminhar, até que um dos alunos falou: Dona Zizi, senhora esqueceu de vestir a saia. Na pressa ela vestira apenas a anágua, peça de roupa hoje em desuso.
Outros fatos hilários, causados por sua distração, divertiam a família e os amigos. Uma vez no lusco-fusco do entardecer, no ponto final dos ônibus em Campos, sempre entretida com um livro, resolveu se encostar num poste para ler melhor e tomou um susto quando ele andou. Era um homem negro vestindo um terno preto. Quando meu pai construiu uma casa no local onde existiu o sobrado azul, derrubado para que a rua dos Passos fosse ampliada, Zizi, já sem Antonieta, que havia falecido, passava o dia em casa e à noite ia dormir na casa de uma amiga, na beira rio, a quem fazia companhia. O banho tomava na sua casa. Quando estava preocupada atravessava a rua e ia tomar banho em minha casa, sempre com a porta só encostada, porque achava que se passasse mal poderia ser socorrida, o que ensejou outros momentos de diversão, quando reclamou com papai que o sabonete não estava fazendo espuma; só que ela havia se esfregado com o jabuti que papai criava no box.
São muitas as histórias de Zizi, todas divertidas. Quando ia a minha casa, quando os sobrinhos estavam presentes, assim que a viam abrir o portão, gritavam: Olha a beijoca, e corriam a se esconder porque ela gostava de beijar os sobrinhos bisnetos, que diziam que além de beijar ela os babava.
Antonieta era descendente de escravos e desde nova vivia na casa de vovô, como babá e auxiliar faz tudo. Teve dois filhos, o rapaz morreu num tiroteio na favela onde foi morar, no Rio de Janeiro, e da moça nada sabemos. Era uma mulher alegre, gostava de comer – mesmo em idade provecta devorava feijoadas, cozidos, e outros pratos que o povo dizia serem remosos, ou seja, alimentos gordurosos de difícil digestão. No final, apoiada numa bengala, andava manquejando por toda a cidade onde tinha amigos. Quando vovó Meca faleceu, muito velinha, ela poderia se afastar e viver sua vida, mas se manteve fiel à casa. Faleceu antes de Zizi, que depois de sua morte passou a viver praticamente na casa da amiga, onde morreu anos depois, deixando sua casa com um sobrinho neto.
É essa obrigatória e difícil convivência dessas duas mulheres que Milson retrata em sua peça. Ele teve mais tempo com ela, era seu sobrinho neto enquanto eu era um sobrinho bisneto. Coriolano, seu pai, irmão de Zizi, vinha sempre de Campos com sua família e passava dias ali. Com sua sensibilidade e talento, o autor presta uma comovente homenagem a elas, que encheram sua infância de atenção e carinho. A peça foi editada e um exemplar do livro foi comprado pelo ator global Jackson Antunes, que o filmou. A peça foi sucesso em Vitória/ES, onde vive o autor. O filme é bem inferior ao livro e à peça, as duas atrizes escolhidas não demonstram a idade das personagens, o ritmo é arrastado e o som nem sempre audível. Só diálogos, sem externas, tornam as cenas cansativas. Mas valeu. Onde quer que esteja – se é que está em algum lugar – Zizi deve estar contente

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RIQUEZAS MINERAIS E OUTRAS TROTE BANDIDO

1 Comentário Add your own

  • 1. Edevigens Monteiro Cardozo  |  6 \06\UTC dezembro \06\UTC 2015 às 19:36

    Histórias saborosas e também reveladoras. Não me lembro da D. Zizi, mas lembro da vovó Antonieta. A via sempre na casa de D. Maria do Rosário, na vizinhança.

    Responder

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