VIAGEM

4 \04\UTC outubro \04\UTC 2015 at 10:23 Deixe um comentário

Fazer uma viagem de ônibus de São João da Barra a Campos e vice-versa é um exercício de humildade, de mortificação, de desconforto, de paciência e tolerância, mais indicado para candidatos a beatos ou santos.
O veículo, com muitos anos de uso, sacode-se pela rodovia que já foi boa, com maiores solavancos nos quebra-molas. Seu interior raramente é lavado e seus bancos são desconfortáveis, distante dos assentos de outros coletivos que trafegam pela mesma estrada. O anunciado ar condicionado depende da força dos passageiros que tentam abrir as janelas. De tempos em tempos ele quebra pelo caminho. Haja paciência!
Depois que o governo determinou que os idosos podem viajar sem pagar, é grande o número de senhores e principalmente de senhorinhas indo às compras e a médico em Campos ou em visita a filhos, netos e amigos que moram longe. Perfeito, justo, ainda mais com a diminuição progressiva do valor de suas aposentadorias. Pelo muito que trabalharam, pela deterioração de suas juntas e outras condições de saúde, merecem viajar sentados, e é doloroso ver jovens esparramados nas duras poltronas, fechando os olhos como se estivessem dormindo para não ceder o lugar. Coisa feia! Será que nem em casa nem na escola aprenderam que a educação é um bem precioso e que a generosidade deve ser praticada sempre? São poucos os estudantes que agem bem.
Isso é apenas o prólogo do drama que se desenrola durante todo o trajeto. Num certo momento entra na viatura uma jovem morena, bonita, com o cabelo encacheadinho indo até à cintura. Senta-se e em seguida mete as duas mãos sob a cabeleira, na altura da nuca, joga o cabelão para o alto, depois para um lado, depois para outro e repete o gesto várias vezes, sem pensar que incomoda os passageiros sentados logo atrás.
As conversas entre os passageiros se entrecruzam, geralmente mulheres, que gritam de um banco na frente para outro bem atrás, contam coisas, marcam encontros, falam mal de A e B, fofocam, comentam brigas de família, separações de casais e mortes, as suas e as doenças de vizinhos e conhecidos, com detalhes mórbidos, um inferno. Nenhuma informação que interesse aos companheiros de viagem. Gargalham às vezes, parecem tresloucadas.
Claro que isso não acontece em todas as viagens, só na maioria. Poluição sonora, reforçada pelo que chamo de síndrome do celular no ônibus. É batata, seja nessa curta viagem até Campos seja em outras mais distantes, basta o ônibus se movimentar para o celular começar a funcionar. Parece uma compulsão, é algo que preocupa estudiosos e já existem trabalhos e pesquisas buscando descobrir a causa e tratamento dessa patologia social, desse distúrbio de comportamento que enlouquece atores nos palcos, professores em sala de aula e pessoas em ambientes fechados. Parece irresistível a necessidade de usar o aparelhinho enquanto viajam. Será que não dá para esperar chegar em casa ou num local aberto para fazer as ligações? O falatório incomoda. E como era antes do celular? Como os falantes sobreviviam?
Além do barulho dos celulares – na mais recente viagem falavam simultaneamente minha vizinha do lado, um do banco de trás e outro do banco da frente, o que juntado aos barulhos da lataria desconjuntada do ônibus, enlouquece qualquer cristão – ainda se sofre com a chamada música ambiente do veículo, geralmente música AM de alguma emissora de rádio da região em tom alto, quando se sabe que é proibido o uso de aparelhos sonoros no interior do veículo. Por uma razão fácil de entender: preso dentro do carro, os passageiros não tem pra onde fugir caso não queira se aturdir com a música de baixa qualidade e alta intensidade de som.
Após utilizar esses veículos por muito tempo, o candidato a santo ou a beato pode pedir dispensa de algumas penitências exigidas para o ingresso em convento, retiro ou qualquer outro local de dedicação religiosa.
SJB, out/2015

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