JORNAL NOTURNO (poema)*

22 \22\UTC agosto \22\UTC 2015 at 15:56 Deixe um comentário

Oito horas da noite. Estou sentado
no sofá estropiado e na tela colorida
surge o logotipo de um jornal nacional.
Você não chegou ainda. Pego um cigarro,
acendo e, embalado pela música-tema,
vou fumando e me preocupando mais uma vez.
A cidade está violenta, você é pequena,
frágil e tudo pode acontecer. Bobagens,
você me responderia, isso é puro ciúme.
E por que não, você é tão bonita, penso
enquanto os rostos produzidos
dos locutores invadem meu espaço.
As notícias me são servidas
em doses curtas e contínuas, e mudo
as pernas de posição vendo massacres
na Bósnia, carros de corrida, escândalos
financeiros cá na terra e violência
no futebol. Há sempre crimes, pessoas
são mortas com a facilidade com que se trocam
personagens de novela. Não comove mais, é
tão rotineiro, duas ou três em cada edição.
Pelo menos. Parece que sem elas o jornal
fica insosso, incompleto, falta emoção.
E você não chega, fato que eu deveria
encarar com a mesma indiferença.
Mas sua demora importa mais que as casas
levadas pela enchente no sul ou as caras
famintas das crianças nordestinas
em sua seca renovável. Acabou o cigarro. Um carro
freia lá fora, estridente. Não me abalo.
Você vem de ônibus, entre punguistas,
tarados sexuais, pessoas nervosas e
irritadas. Como me comover com o sequestro
do milionário? Durante os comerciais
faço qualquer coisa para matar a angústia:
olho os livros, as flores, mexo no maço
de cigarros. De volta às empostadas vozes
ouço que o dólar subiu e a inflação ameaça
retornar, mais gulosa que nunca. Frente
fria no verão inviabiliza praias que você
tanto gosta. Não consigo me concentrar,
que bosta, nos sucedidos do mundo, estou
atento a passos no corredor, batidas na porta.
Um soba africano é julgado
por devorar os inimigos. Devia ser perdoado,
quem não gostaria de jantar os adversários?
Na Bahia acontece mais uma festa de santo,
em mar e terra. As crianças esperam
pelo aviso da hora de estudar. Retardo
o grito em nome do silêncio da sala,
só quebrado pela empregada batendo panelas
na pia. No pantanal matogrossense coureiros
ameaçam extinguir jacarés e no Rio assaltantes
prometem fazer o mesmo com turistas.
Divago e no exercício de me reconcentrar
perco uma fuga de presidiários e um acidente
na Dutra. Batem afinal na porta, e as crianças,
correm para a sala e entre o abrir e fechar
da porta, beijos, reclamações, comentários,
o locutor se despede com um boa noite
sorridente, como a dizer que tudo passou
e não acontecerá mais
a não ser amanhã, nesse mesmo horário.

* Do livro “Anotações de viagem e outros poemas”, Editora Códice, Brasília/DF,1994

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Entry filed under: Crônicas.

PASSARINHANDO LEMBRETE

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