PASSARINHANDO

25 \25\UTC julho \25\UTC 2015 at 11:19 Deixe um comentário

Sentado na varanda, interrompo por momentos a leitura para passarinhar. Observo com prazer a vida que vem nas asas das andorinhas, rolinhas, pardais, pombos e outras avezinhas. Deploro a situação dos canários que vejo em gaiolas penduradas do outro lado da rua, que nunca tiveram e não terão o doce prazer da liberdade de ir e vir. Sei que ali nasceram e se forem soltos talvez morram por não saber onde buscar alimento e água. Me dá tristeza vê-los pulando de um puleiro a outro, cantando alegremente, como se o seu belo canto não fosse uma das causas de sua prisão. Pior é a situação dos papa-capins, coleiros, sanhaçus, sabiás e outros, que viviam soltos e foram apanhados em solertes armadilhas e têm de se acostumar às novas condições de vida, como se fossem marginais pegados em flagrante delito. Seu delito é ser belo e ter belo canto. Será que seus donos não sentem remorsos, pelo menos uma vez por dia?
Da varanda vejo num quintal vizinho os galhos superiores de uma árvore que secaram durante a mais recente estiagem. Os ramos secos e retorcidos parecem garras querendo pegar as nuvens. Há uma certa beleza nessas cicatrizes e quem mais gosta delas e aproveita bastante são os pássaros. Elegeram os galhos secos como um local de encontro, de troca de confidências ou informações, tanto ali pipilam. Também fizeram dali seu parque de diversões, saltando de um ramo a outro, alegres, barulhentos. Beleza. É também local de repouso e reflexões, muitos ficam nas pontas dos galhos, como uma folha extra, encolhidos, certamente pensando ou planejando alguma coisa. Serve ainda como local de repouso, quando chegam cansadas. E melhor, como local de paquera, de fazer novos conhecimentos, de modificar seu futuro.
Provo isso com o casal de pombas-rola que há alguns dias engatou ali seu romance que vai acabar em casamento, estou certo, pois já os flagrei levando gravetos e palhas para mostrar a quem vai convidar para formar família. É fácil ver o andamento do proceso de sedução, ficam saltitantdo para galhos mais próximos, lançam olhares sensuais, pios sedutores, voos convidativos.
Também são usados pelas rolinhas-caldo-de feijão, bem menores e mais ousadas, que chegam aos pares, se bicando, brigando, arrulhando, se acariciando num despudor natural e, para animar, se perseguindo pelos ramos às bicadinhas. Aperitivo. São umas tontas, gastando energias que deveriam ser exclusivas para o amor. Ou serão movimentos necessários para criar um clima? Tem um casal delas que voltou a frequentar o jardim, onde um pé de buganvílias vermelhas tem recebido ninhos. A cada primevera pelo menos quatro filhotes nascem no meio das folhas. Chato é quando os gatos das cercanias vêm em absoluto silêncio por cima do muro se mete entre as folhas e… adeus rolinha. No dia seguinte algumas penaas no chão são testemunhas do rolinhicídio.
Os pardais tenho-os aos montes, abrigados nos beirais de minha casa e nos das casas da vizinhança. Alegres, adoram uma briguinha, às vezes em grupo. Haja alarido! Seus ninhos são marcados pelo excesso de forragem – palhas e gravetos saem para fora de seus limites – e pelas manchas de cocô nas calçadas. Amanhecem pipilando furiosamente, acho que para acordar os que ficam dormindo demais nos ninhos e é comum ouvi-los discutindo a relação com fortes e indignados piados. Na sequência, pedaços dos ninhos e ovos são varejados no chão, mais um lar desfeito. São sociais até nas brigas, pois seus vizinhos interferem e sai o maior fuzuê, até que um decide voar para longe. Gostam tanto de discutir, que vivem procurando um parceiro para conversar ou brigar. No terraço tenho uma luminária em forma de lanterna, encimada por uma espécie de dedo e eles descobriram que é o parceiro ideal para os papos, pois não responde, não os contradiz, só escuta. Pardais de todos os tipos passam horas sobre a lanterna.
Os bentevis acordam cedo e lá dos galhos calcinados pelo sol fazem seu alarido. Eles nidificam nas palmeiras do jardim – adoram altura, que os livra dos predadores felinos – e agitam as asas furiosamente sempre que chegam ou saem para se alimentar. Os galhos secos também são usados para brincadeiras e flertes. Brigam muito e são ousados, pois do ninho arrumado nas axilas das folhas da palmeira de vez em quando cai um filhote que, por incrível que pareça, não se esborracha no chão. O que vejo no chão são pedaços de cascas de seus ovos, indicando que nasceu mais um gritador. Os bentevis usam os galhos ressequidos para esticar as asas ao sol e fazer sua higiene, limpando cuidadosamente pena por pena.
As juritis gemem ou então fazem o gênero coitadinha, atraindo companhia com seus pios lamentosos que, no dia em que a gente não está muito bem, chegam a apertar o coração, criando falsos pressentimentos. Os pombos não param nos galhos secos, talvez com medo que quebrem sob seu peso, e preferem os beirais do sobrado restaurado ou as árvores da praça próxima. Beija-flores só são vistos quando há flores e ficam librando no ar, se alimentando. São instantes da mais profunda beleza e emoção. São jóias que brilham ao sol e alegram a vida.
Ah, e também registro a presença ocasional das cambaxirras que, assim como os tizius e os sebinhos, vão se tornando cada vez mais raros, preferindo a segurança dos matos próximos, pois ninguém quer gastar gaiolas com eles. São feios e cantam mal, são livres. É a nossa vingança!

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