UMA PALESTRA SOBRE FERROVIA

23 \23\UTC outubro \23\UTC 2014 at 08:22 1 comentário

Na tarde fria e cinzenta dessa terça-feira 21 um toque de cor: a plateia inteligente que encheu o salão de festas do Clube da Terceira Idade. Homens e mulheres, entre eles o dr. Fidelis Stefan, Vânia Pantoja, o vereador Alex Firme, a secretária municipal de Educação, Tininha, e Tininha (Maria Eni) e sua irmã Marlene, Sônia Ferreira, a atriz Diana Hintz e muitos outros deram toda a atenção ao que o palestrante André Pinto narrava, texto ilustrado por fotos preciosas. Além de presença cênica, André tem bela voz, dicção perfeita e baseou-se em amplas pesquisas sobre o meio de transporte que ajudou e prejudicou nossa cidade no início do século vinte. Digo prejudicou apenas para frisar que a chegada do transporte ferroviário foi a pá de cal em nossa navegação, tendo, porém, consciência de que a atividade que tanto progresso havia trazido à cidade estava condenada pelo descaso, pela politicagem local e em parte, pelo marchar inexorável do progresso. Marcha, porém, que não impediu o crescimento do porto de Santos, servido por ferrovia.

André foi muito aplaudido.Sob o título “Apontamentos para a história ferroviária de São João da Barra”, ele discorreu longamente e manteve atenta a plateia. Em nossa cidade isso não é muito comum. André soube conduzir a palestra e reviveu aqueles difíceis tempos, com a cidade perdendo operários especializados para centros maiores em razão do fim de muitas atividades da indústria naval , dos seis estaleiros restava um, que logo depois naufragou. Havia muito temor na cidade com a chegada da ferrovia. O jornal S. JOÃO DA BARRA perguntava em editorial em 1892: “Se essa falada estrada de ferro da Barra (Atafona) a Campos for com efeito uma realidade, sendo ela construída pela mesma Cia. de Navegação Campista, qual é o melhoramento de São João da Barra? Uma estação onde o trem para o tempo necessário de receber passageiros e deixar alguma carga?”
Coloquei o nome Atafona entre parentes, pois não consta do texto original e porque na época a nossa praia era conhecida como Barra. Ali os rebocadores iam puxar os navios que vinham ao porto.
Voltando à dúvida do jornalista Zenriques, editor do jornal, e que verbalizava a angústia da população da cidade, foi exatamente isso que aconteceu. Com a chegada da ferrovia o porto perdeu importância e começou a naufragar. Os operários especializados partiram em busca de empregos em cidades como Niterói, Rio de Janeiro e Vitória; o comércio definhou; os hotéis foram desativados; os empreendedores que, sabe-se pelo jornal, tinham projetos industriais e comerciais que utilizariam o porto, os devolveram para o fundo das gavetas ou, desanimados, emigraram para outras cidades. Iniciou-se a decadência que duraria muitos anos e ainda não passou de todo, apesar da implantação de outro porto no Açu.
Outro efeito visível da chegada da ferrovia foi a mudança de posição da cidade. Quando vivia do porto todas as construções eram voltadas para o rio. A entrada da cidade era o porto do mercado – hoje aterrado – que dava acesso aos símbolos de urbanidade: Casa da Câmara, Cadeia pública e Igreja. O cemitério ficava bem distante do centro, em terras quase ermas. Com a chegada da ferrovia, que acessava a cidade pelos fundos, vinda de Campos, o cemitério tornou-se o portão de entrada e todos os prédios públicos ficaram de costas para o centro, o que originou piadas maldosas do pessoal que vinha usufruir de nossas praias. Mais tarde, com a chegada da rodovia, a situação se cristalizou.
A ferrovia durou menos tempos que a navegação. Chegando à cidade no final do século XIX, não foi até o final do XX. Em 1965 começou seu desmonte com o fim do pitoresco trem passeio, que tantos namoros suscitou, incluindo-se o dos meus pais, e em 1966 enfim a ferrovia foi desativada, o que considero um crime.
As razões para seu fim, ao olhar de hoje, talvez não se sustentem, se considerarmos que em países continentais como Estados Unidos e Rússia as ferrovias complementam as rodovias e na Europa são consideradas viagens práticas e baratas. Aqui, para se implantar o rodoviarismo acharam necessário desativar as ferrovias. Hoje tentam ativar as hidrovias que, como o canal Campos-Macaé, que pretendia substituir nosso porto, e não resistiu a uma tempestade, não servem para todo o ano.
Valeu, André, valeu muito. Acho que tudo que se fizer para analisar e interpretar os fatos do passado de nossa cidade serve para substituir o inexistente Arquivo Público, cuja hora de ser implantado já está passando. Não vá acontecer como na enchente de 1966, quando o Paraíba do Sul ainda era um rio poderoso e investiu mais uma vez sobre a cidade e carregou e destruiu importantes documentos oficiais antigos que estavam “guardados” no chão do térreo do prédio da prefeitura. Já chega de não termos memória. SJB,21/10/14

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1 Comentário Add your own

  • 1. Andre Pinto  |  23 \23\UTC outubro \23\UTC 2014 às 10:21

    Querido escritor, jornalista, romancista e poeta Carlos AA de Sá,
    Agradeço a sua presença na minha palestra – objeto de profundos estudos que estão sendo feitos junto ao Arquivo Público Municipal de Campos, na hemeroteca da Biblioteca Nacional, na Biblioteca digital do Senado Federal e nos Diários Oficiais. Agradeço suas belas palavras e suas colocações históricas de fontes fidedignas que muito engrandecem e tem servido de bússola para o encontro de outras fontes primárias de minha pesquisa. Como eu lhe disse antes, você contribuiu muito para que eu tomasse o amor a pesquisas históricas de minha cidade, o que tem me tornado uma pessoa ainda mais feliz em carregar essa bandeira tão gratificante. Em abril de 2015 teremos o lançamento do meu primeiro livro, em comemorações dos 120 anos de início de construção da Ferrovia Campista ! Conto contigo como passageiro de 1ª Classe !

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