MICOS

22 \22\UTC outubro \22\UTC 2014 at 07:31 Deixe um comentário

Conversei com o amigo jornalista Herbson Freitas, que tem a minha idade, para ter certeza do que vou contar a meus leitores, a história do primeiro mico que paguei. Como muita gente, paguei micos a vida inteira e alguns transformei em contos. Os micos são o lado B da biografia da gente, o que nos faz amadurecer. A lembrança de alguns micos, passados os anos, nos provocam risadas ou suspiros, outros patéticas indignações e a pergunta clássica: como fui capaz?
Vamos ao mico inaugural: quando morava em Campos, com mais ou menos nove anos de idade, costumava aos sábados, quando o movimento na farmácia de papai diminuía, ficar no laboratório, junto com os empregados, ouvindo rádio. Gostava muito de um programa de auditório da Rádio Cultura de Campos que tinha um quadro de perguntas e respostas comandado, soube agora pelo Herbson, pelo ator Jece Valadão, que iniciava sua exitosa carreira artística. E lá ficava eu, atento às perguntas e acertando todas as respostas. Os que estavam por perto ficavam maravilhados e tanto fizeram que papai me levou um dia ao programa e certamente alguém contou ao animador que eu era bamba nas respostas e sem titubear ele me chamou ao palco. Não lembro se eu estava nervoso, devia estar, era minha primeira performance pública. O fato é que, após ouvir a pergunta – e lá em casa todos estavam de ouvido grudado no rádio – fiquei calado. Dera um branco total na minha cabeça e não consegui dizer um a. Depois de vários minutos junto ao microfone, sem nada dizer, fui puxado pelo ajudante de palco e voltei a meu anonimato. A resposta era “papagaio real” e eu sabia. Só que naquela hora ela não surgiu na minha mente e fiquei mudo. Um vexame. O primeiro mico.
Outros micos desse tipo surgiram na minha trajetória de vida, como na entrevista que o poeta Heraldo Lisboa, meu amigo, e eu deveríamos dar ao jornalista Dalton Castro, numa outra rádio de Campos, sobre o lançamento de nossos livros. Não consegui responder uma pergunta sequer: um bloqueio mental me impediu de falar. Heraldo Lisboa salvou a pátria. Até hoje não lembro o que Castro me perguntou.
Antes disso, durante o curso ginasial, dei vexame semelhante. Cursava o 1º ano no Ginásio São Salvador e o professor Ferreira, seu dono e diretor geral, aos sábados à tarde promovia uma sessão literária no auditório, quando os alunos se apresentavam, declamando poemas ou discursando. Os indigitados eram escolhidos por ele nas salas de aula, não havia escapatória. Era quase como dever de sala de aula. Escalado, só restava ao aluno encontrar um texto para apresentar.  Na tarde fatídica era chamado à tribuna e diante de casa cheia de colegas e professores devia desincumbir-se da tarefa. Escolhi, ou escolheram por mim, não lembro, uma poesia de Casemiro de Abreu cujo título, se não me falha a memória era DEUS e começava assim:
“Eu me lembro, eu me lembro, era pequeno,
brincava na praia e o mar bramia,”
Era um lindo poema e passei a semana inteira a decorá-lo, com mamãe sentada no galho cortado do pé de pêssego a escutá-lo, até eu ficar pronto. Eu só parei quando sabia declamá-lo de cor e salteado e estava certo de que me sairia bem. Não foi o que aconteceu.
Na bela tarde de sábado, refrescada pela brisa que bulia nas folhas das frondosas mangueiras que cresciam diante do prédio onde ficava o auditório, metido no engomado uniforme caqui, cabelo duro de gumex, nervoso, subi a tribuna e sob o olhar atento da plateia me pus a declamar o poema.Não passei do segundo verso. Um vazio absoluto tomou conta de minha mente e apesar dos esforços das alunas da primeira fila, que o recitavam movendo os lábios para me ajudar, nem mais um som saiu de minha boca. Nunca mais voltei à tribuna.
E o pior é que alguns anos antes, meu tio Zezé, um guapo e desinibido aluno do internato do colégio, famoso por causa de seu futebol, tinha participado de uma sessão literária no mesmo auditório e proferido um discurso que fez história e ainda estava na memória dos alunos. O resto vocês já devem ter imaginado.
Os micos da fase de minha formação serviram como vacina e me imunizaram contra o sofrimento e a vergonha que os micos da vida adulta poderiam me ter causado. SJB,out/14

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PERUADAS UMA PALESTRA SOBRE FERROVIA

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