SONHOS

12 \12\UTC julho \12\UTC 2014 at 11:22 Deixe um comentário

Lendo “A interpretação dos sonhos”, de Sigmund Freud, sou levado a recordar meus muitos sonhos recorrentes, que só desapareceram depois de anos de apoio psicoterápico. Não por causa deles, sonhos, claro, mas em que eles surgiam como sintomas das perturbações nervosas que me assolavam.
O primeiro deles surgiu no tempo em que morei na rua João Pessoa (antiga do Conselho), em Campos dos Goytacazes, atrás da farmácia de papai. Deve ter sido por volta dos anos 1944/45, a Segunda Guerra Mundial estava terminando e suas lutas estavam eram manchete em todos os jornais e programas radiofônicos.
Morávamos quase em frente ao portão lateral do cine-teatro Trianon, onde estava instalado o gerador que garantia a energia elétrica para as sessões cinematográficas. Nos finais de semana, principalmente, ouvia-se as pacadas ritmadas do motor: tum, tum, tum por horas. No silêncio de uma noite com poucos carros trafegando pelas ruas estreitas, o som parecia ameaçador.
Menino assustado, vivendo praticamente confinado no quintal, ouvindo sem querer o noticiário e as conversas da família e dos empregados da farmácia sobre a guerra terrível, passei a sonhar que estava parado, quase paralisado, no meio de uma rua, enquanto um pelotão de soldados portando suas baionetas, caminhava, inexorável. Transido de pavor, e sem conseguir mexer um só músculo, via o pelotão feroz avançar em minha direção, batendo no chão, com muita força, seus coturnos. Não lembro se os soldados chegaram a me alcançar, pregado no chão que eu estava, mas lembro a terrível angústia e o medo que me faziam acordar aos berros. Esse sonho se repetiu incontáveis vezes, mesmo em outras casas onde morei.
Outros sonhos recorrentes envolviam procissões religiosas e neles sempre havia algo que me assustava. Transcorriam em frente ao sobrado sanjoanense de meu avô, lugar onde sempre me senti bem e seguro. No sonho mais nítido eu estava feliz na sacada do sobrado, com toda a família, esperando a passagem de um préstito carnavalesco. Eu adorava ficar na sacada e ver o que acontecia na rua, em especial no carnaval, sem correr os riscos de ser atacado pelos mascarados sujos, dominós, caveiras, mortes e outros bichos apavorantes. Ali ninguém conseguiria me pegar e embora o coração batesse aceleradamente, me sentia seguro.
No sonho olhávamos na direção da praça de São Pedro, sentido contrário ao que os carros alegóricos costumavam desfilar. E então eu via, num crescente pavor, a aproximação do desfile carnavalesco/procissão religiosa, com muitas luzes e estandartes coloridos, no meio de chamas altas e muita gente ao redor cantando. Não sei porque me parecia tão ameaçador.
As procissões antigas eram dramáticas, com os santos sendo carregados em andores enfeitados com flores de papel, em meio a cânticos e rezas, como ainda hoje, acompanhados por enormes filas de homens e mulheres contritos, com opas e tocheiros. Moças de brancos portavam estandartes, cercadas por meninas vestidas como brancos anjos. As procissões da Semana Santa eram terríveis, trágicas, com suas cruzes manchadas de sangue e suas matracas. Eram igualmente ameaçadoras as que saiam da igreja do Carmo, em Campos, próximo de onde morávamos, com seus estandartes e fitas em cores sombrias.
As procissões religiosas me fascinavam e assustavam. E frequentavam meus sonhos com assiduidade, nas mais diversas situações. Uma delas, por exemplo, entrava com seu séquito pela escada principal do sobrado de vovô, atravessavam-no e saía pelo portão da rua do Rosário. Outras iam caminhando até o portão de casas em outras cidades.
E havia algumas de caráter religioso-erótico, como a que surgia de um caminho inclinado, ao lado de uma espécie de matagal, com um homem portando um estandarte, ou uma cruz, não lembro bem, e os participantes acenando com fitas vermelhas e dançando e cantando canções pornográficas. Eu não entendia o que estava sendo cantado, mas sabia que eram letras indecentes. Todas capazes de fazer minha alma tiritar de medo.
Essas são algumas de minhas assombrações particulares. E só consegui me livrar delas no sofá de uma analista. Outras ainda continuam a mexer comigo. Um dia as venço.

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