PERUADAS

12 \12\UTC julho \12\UTC 2014 at 11:24 Deixe um comentário

Em abril, logo depois da Semana Santa, fui com minha mulher conhecer Machu Pichu, no Peru, e ainda não comentei aqui a viagem. Não que acredite que isso interesse muito ao leitor, mas por que acho que falar, dividir as emoções e descobertas, é uma das melhores partes de uma viagem. A outra é voltar pra casa e curtir as fotos. Meu silêncio pode dar a impressão que não gostei do passeio. Nada disso, gostei sim, e muito. Só não dispunha de muito tempo, envolvido que estava com o lançamento de meu novo livro de contos, A PAIXÃO DE JOÃO, na 8ª Bienal do Livro de Campos dos Goytacazes.
Tranquila, a viagem. Temos dado sorte com aeroportos e horários de voo. Lima, a capital do Peru, foi agradável surpresa: limpa, sofisticada, moderna. mas tratando seus monumentos históricos com carinho. Erguida à margem do oceano Pacífico, de água geladíssima, onde surfistas só entram com roupas especiais, uma longa faixa de praia no bairro Miraflores foi aterrada para receber um parque ainda em construção. Para nossa surpresa, o parque exibe um shopping de quatro andares abaixo do nível do mar, portentosa obra de engenharia. Ali encontram-se lojas modernas de grifes internacionais, salas de alimentação e cinemas e no piso, além da garagem, um supermercado, onde comprei espigas de milho preto – até a batuera (sabugo) é negra – e de milho branco, cujos caroços têm o tamanho da unha do polegar da minha mão, surpreendentes. A ressaltar que a parte aterrada foi palco de tsunami há muito tempo. E fica em área sujeita a terremotos.
Em Cusco, antiga capital do império inca, encravada nos Andes, a uma altitude de 3.400 metros, vi que não é lenda os sintomas provocados pelo soroche (mal das alturas) que atinge quem ultrapassa determinada altitude. Mal pisei no aeroporto e já senti falta de ar e uma grande tristeza. Estranho, não? É no entanto rotina na cidade. Minha mulher nada sentiu, mas à noite fui vítima de uma dor de cabeça medonha, que o analgésico que levei não curou, nem os goles de chá de coca, nem o mascar de folhas de coca que os hotéis põem à disposição dos hóspedes. Só amenizaram.
Fiquei dois dias em Cusco, apreciando suas casas seculares com balcões de madeira, que viram a brutal inavasão dos espanhóis em busca de ouro. Cusco mistura a religiosidade dos incas com a dos hispânicos, suas igrejas são monumentais e seus santos vestem roupas coloridas e de vez em quando esbarrávamos com grandes cruzes enfeitadas em esquinas ou recantos de ruas. No telhado das casas dois pequenos touros de barro apoiam uma cruz para afastar maus espíritos, segundo nos disseram. A superstição se mistura à religião. Aos pés das igrejas ficam as cholas, descendentes dos incas, com saias rodadas e coloridas, que puxando suas lhamas, se oferecem para posar para fotos em troca de poucos soles, o dinheiro local. Em ambulantes comprei uma romã (granada) muitíssimo maior que as nossas. Trouxe uma, de quase meio quilo, que esqueci na geladeira em Rio das Ostras.
Dali fomos de trem para Águas Calientes, para mim um imenso entreposto de artesanato nativo. Um mercadão só de produtos de artesãos locais, onde a gente pode até se perder. Tivemos de comprar mala – de lã de alpaca – para trazer o excesso de compras. Vendedoras simpáticas, que esperam que você pechinche os preços. E crianças, aos montes.
Come-se bem e a comida peruana é excelente. Provei e gostei de ceviche – peixe cru marinado em limão. O trem que nos levou através da mata até Águas Calientes, uma estância termal, era de uma falsa simplicidade, com seus bancos e mesas cobertas com panos artesanais, com desfile de modas e brincadeiras nos corredores para vencer as duas horas do percurso. Viagem gostosa, apreciando alguns trechos do encachoeirado rio Urubamba.
O guia que nos deveria atender desapareceu na estação ferroviária e só reapareceu para indicar onde deveríamos pegar condução para Machu Pichu (montanha velha), a cidade pré-colombiana dos incas, erguida no meio da selva, a 2.400 metros de altitude, no vale do rio Urubamba, o vale sagrado, patrimônio mundial da humanidade. Eu ainda sofria do soroche e não andei muito pelas ruínas de uma cidade fantástica, onde só agora, na reconstrução de alguns prédios, foi usada argamassa para ligar os grandes blocos de pedra. Apesar da falta de ar me curvei diante do feito de uma civilização capaz de criar nos cocorutos dos Andes uma cidadela daquele porte e sentado num muro de pedra admirei os abismos andinos. Uma experiência inesquecível. Machu Pichu levou séculos desaparecida, oculta pela mata, e só foi encontrada em 1911.
Num mesmo país a sofisticação de sua capital, Lima, e os tesouros históricos das cidades dos incas. Teria de me alongar para falar ainda da excursão pelas cidades do Vale Sagrado, como Pisac, com casas incas escavadas no paredão rochoso, a não sei quantos metros de altura, Ollanta, Urubamba e outras igualmente notáveis. Fica pra outra vez.
SJB, 28.06.2014

 

 

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