SINCERIDAD

1 \01\UTC abril \01\UTC 2014 at 12:05 Deixe um comentário

Conto que ilustrou a edição de 25º aniversário da revista Capricho e foi publicado no livro “ESTÓRIAS DE DESAMOR”, Ed. Presença, Rio de Janeiro, 1975
Bebeu o segundo chope com mais vagar, a sede já saciada. Acendeu um cigarro e ficou olhando o mar quase diluído no fim de tarde. A essa hora ainda estariam trabalhando no escritório e por certo comentando sua saída intempestiva após o telefonema. Que se danassem. Que falassem até ficar com os queixos duros. O que não podia era ficar ali tentando, sem conseguir, se concentrar no serviço.
Pediu outro chope. Estava se sentindo mais calmo, embora ainda não estivesse disposto a pensar no problema. Procurou fixar sua atenção no ruído do mar, que lhe chegava nítido. Apesar dos automóveis e suas buzinas. suspirou de prazer. Há quanto tempo não se deixava ficar assim, desligado de tudo, bebendo e escutando o marulho da água…
As mesas à sua volta estavam todas ocupadas. As pessoas que bebiam, conversavam e riam não tomavam conhecimento de sua existência, que bom! As vozes lhe chegavam como um rumor difuso, costurado por um fio de música. Bebeu mais um gole e procurou ouvir a música. Um velho bolero…velho? se indagou, e riu devagar. Era uma das músicas que haviam feito sucesso em sua juventude e não fazia tanto tempo assim. Não mesmo? Riu de novo, complacente. Tentou situar a música no tempo. Primeiro, o título… como é mesmo o nome desse bolero, gente? Incrível que não se lembrasse de pronto. Foi gravado por Lucho Gatica, aquele cantor com cara de índio civilizado… vamos ver se acompanhando a música consigo me lembrar da letra e daí chegar ao título… não, não conseguia se lembrar.
Ven a mi vida con amor…
Por alguns segundos a rua ficou vazia e as pessoas que o cercavam mergulharam no silêncio. A música, ainda que em tom baixo, ficou mais audível, acompanhando o ruído do mar. O céu escurecia devagar e as luzes da rua só se acenderiam um instante depois. Aturdido pelo silêncio inesperado, esqueceu o cigarro e a bebida. E então, trazida pelo bolero, ali estava Sueli, um riso de menina no rosto tostado pelo sol de um verão dos anos 60, tão distante, o rabo-de-cavalo balançando a cada movimento da cabeça irrequieta.
Durou um momento a visão, logo os carros voltaram a passar ruidosamente, as luzes se acenderam e o vozerio recomeçou. Restou um fiapo do bolero no ar, apagado por um grito estridente de mulher e o retinir de um copo que se quebrava. O mar se diluíra na noite.
As rodinhas coloridas se acumulavam. Quantos chopes já bebera? Não importava. Havia, para contrabalançar o que lhe estava acontecendo, um rosto adolescente que insistia em aparecer. E aquela música… pero no tardes mucho, por favor… tardara? Não, esquecera. Esquecera completamente até o nome da música que um dia fora tão importante.
– Mais um chope?
Olhou meio abobalhado o garçom sorridente, que repetiu a pergunta.
– Não, não, me vê a conta.
Pagou e saiu. Ficou parado na calçada, sentindo uma vontade doida de urinar. Onde? Pensou em voltar ao bar, mas ouviu a voz moleque de Ramiro:
– Lá na beira da praia.
Atravessou a pista sem olhar, ouviu os palavrões dos motoristas que freiavam assustados e chegou à areia. A seu lado Ramiro desabotoava a braguilha.
– Aqui não, ouviu-se dizer, ainda dá pra ver.

Caminhamos até à beira dágua e urinamos metade dos cubalibres bebidos. Por coincidência nos voltamos ao mesmo tempo para olhar o clarão do que chamávamos boate e perguntei:
– Será que não vão ficar zangadas por ficarem sozinhas?
– Que nada. Vão é aproveitar para mijar também.
Senti que fiquei vermelho e tive raiva de mim mesmo. Será que não conseguia ser como os outros? Sueli devia estar reparando na minha timidez. Devia ser muito chato pra ela ter um namorado que só sabia ficar olhando pra sua cara feito um boboca, apenas ouvindo.
– Eu queria escolher uma música para nós. Pra mais tarde a gente se lembrar…
– Eu gosto dessa que está tocando.
– Escolher por escolher não adianta. Tem que ter um significado, tem que marcar a gente. E elar riu, embora seus olhos estivessem sérios. Você gosta de mim?
Sorte que a luz não deixou ver a vermelhidão que invadiu meu rosto. Balbuciei um “gosto” quase inaudivel, sua mão apertou a minha. Fiquei nervoso, pisei no seu pé, errei o passo e na confusão nossos lábios se tocaram. Me esfriei todo na expectativa da bronca, comecei a me desculpar, mas ela se achegou mais e murmurou:
– Agora sim, essa pode ser a nossa música. O nome dela é Sinceridad. Mas você vai ter de jurar que me ama.
Sueli. Um rosto moreno de sol mergulhado numa penumbra azulada. Um riso muito branco e uns olhos ternos que me encaravam fixamente.
– Sabe que gostei do beijo? Só que foi tão curtinho…
Audácia que me agradou e estimulou. Firme e delicadamemte ela fez-se conduzir para o meio do salão apinhado de dançarinos.
– Aqui é bom, sussurrou tão pertinho que não conseguia ver-lhe os olhos, porque ninguém presta atenção na gente.
E sua boca estava tão próxima que nunca cheguei a saber quem começou o beijo.
Y enamorados quedamos…
O sol. As areias faiscantes se estendiam por quilômetros. Gostava de caminhar ao sol. de olhos quase fechados, sabendo por intuição onde costumava ficar a barraca da família dela. Sempre a encontrava, de olhos abertos ou fechados.
– Não queria ver você hoje.
Não, não essa não! Não, Sueli, depois de ontem, por que, por favor? Ela deve ter lido as angustiantes perguntas em meus olhos. Abaixou os seus.
– Fiquei com medo.
– De que?
Olhou de esguelha seus pais, que tomavam sol placidamente.
– Vamos pra água?
Melhor, a água aplacaria o calor raivoso que me invadira. Depois dos mergulhos ficamos deitados de bruços na areia, molhados pelas ondas que se esticavam até nossos pés.
– Você deve estar fazendo mau juízo de mim…
– Eu? Por que?
– Por ontem à noite… deve estar pensando que sou fácil.
Tomei coragem, aquilo era um absurdo.
– Só estou pensando que gosto muito de você.
Seus olhos cintilaram.
– Jura? Por Deus?
Deitou a cabeça em minha mão espalmada, a água inesperada de uma onda entrou-lhe pelo nariz. Levantou-se meio suficada, espirrou, tossiu. Rimos felizes. O sol esstava quente, a água fria e gostosa e estávamos juntos.
– Gosta do meu maiô? perguntou coquete.
Olhei-a surpreendido. O quê? Ah, o maiô.
– Eu que escolhi, contou, mas minha mãe achou muito cavado. Você acha?
Acompanhei seu olhar brejeiro até o decote. Pequenas sardas espalhadas. Perguntou:
– Vamos dar outro mergulho?
– Daqui a pouco, agora não posso.
Eu continuava deitado sobre a barriga. Ela riu e endireitou o busto. Eu não conseguia despregar os olhos daqueles morrinhos. Ela me olhava e ria, sensual. Sueli ria sempre e seus dentes eram pedrinhas onde o sol reverberava.
– Você gosta do seu colégio? É longe de sua casa? Tem namorada lá?
As perguntas vinham assim disparatadas, sem encadeamento lógico. Às vezes me aturdiam pela disparidade, outras me encantavam. Era difícil acompanhar seu pensamento. Ninguém no mundo como Sueli encontrei, nem muito tempo depois. Ninguém no clarão do sol ou na penumbra azulada.
– Você vai fazer o que hoje de tarde?
– Nada de especial… só esperar a hora do trem pra ver você.
O trem chegava às cinco da tarde e encontrava a esperá-lo toda a turma jovem que veraneava. No fim da tarde as meninas passeavam pela rua poeirenta, olhavam os rapazes em suas bicicletas, conversavam, namoravam. Ali se combinavam os prováveis encontros para a noite.
– Sabe jogar volei?
– Mais ou menos.
– Eu nunca joguei. Só rebater bola na praia, vôlei mesmo, nem no colégio. Você gosta de vôlei? Joga bem?
– Na falta de coisa melhor…
– Toda tarde tem jogo na casa dos Serreiras, hoje mesmo eu soube que tem. Sabe onde é, quase no fim da da praia?
– Acho que sei. Tem uma rede no terreno do lado?
– Isso. Nós vamos lá hoje, por que você não vai também?
– Posso ir, mas não conheço ninguém da casa.
– Nem eu, melhor ainda, a gente pode conversar sossegada.
A bola cortando o ar, os gritos, os corpos jovens saltando, correndo, caindo, suando. Sueli e eu sentados no chão, falando à toa, fazendo funil com a mão para a a areia escoar, rindo. Doces tardes em que a brisa levantava os pelinhos doirados de seu braço e criava uma aflita e nova sensação em meu corpo.
– Você se importa que eu use short?
Ao contrário, gostava muito. Suas pernas morenas se esticavam, se encolhiam, nunca estavam quietas. As minhas também. E assim soubemos que nossas peles se atraíam, sentiam falta do roçar constante e disfarçado.
– Sabe que meu pai falou em você?
Meu susto visível provocou seu riso.
– Nada de mais não. Disse que percebera o que estava se passando conosco e andara se informando sobre você. E que soube que você era um bom rapaz, estudioso, quieto, de boa família. Disse que faz gosto.
– Tenho que ir lá falar com ele, é?
Estava disposto a enfrentar tudo, embora bastante amedrontado, mas ela me acalmou.
– Precisa não, bobagem. Ele falou só pra poder dizer que deixa a gente namorar. E pra me dar uns conselhos, é lógico. Disse uma porção de coisas, que namoro de verão não tem futuro, que na nossa idade namoro deve ser encarado como passatempo, que precisamos ter muito cuidado para não arranjar motivo de sofrimento depois. Que idade você tem?
– Vou fazer dezessete em junho, e você?
– Fiz quatorze no natal passado. Eu fui o presente que papai noel deixou lá em casa. Riu. Pelo menos é o que papai diz.
A areia escorria da minha mão e ia fazendo um montinho na perna dela.
– Você vai me esquecer logo?
– O que?
– Estou perguntando se você vai me esquecer depressa.
– Você muda de assunto tão de repente que às vezes fico meio tonto.
– Você estava era pensando em outra coisa. Tem ou não tem namporada na escola? Eu tinha, namoro só de bilhetinhos, nunca cheganos a conversar direito, era bom porque ele sempre me mandava balinhas de mel, uma delícia. Terminei com ele quando entramos de férias. Não adiantava mesmo, ele vai estudar no Rio.
O ciúme deu um beliscão em meu peito.
– Gostava dele?
Ela deve ter percebido ciúme e despeito em minha voz, pois respondeu depressa, buscando parecer indiferente.
– Não sei… acho que não. Gostava era das balinhas. Agora gosto de você.
– Como é que você sabe?
– Sabendo, ora essa. Você é engraçado… acha que se não gostasse estava aqui? Eu, hein.
Nas noites de lua cheia nos reuníamos em um grupo grande e íamos para a praia. Levávamos um violão e muita vontade de cantar mesmo desafinado. Se todos tivessem par seria ótimo, mas assim, com alguns sobrando, ficava até chato a gente se isolar para curtir as ondas prateadas que se desmanchavam na areia. Ficávamos em volta do violão, ombro com ombro, nos esgoelando.
-Sabe tocar Sinceridad? Ela perguntava ao violeiro.
A lua deixava a praia clara como o dia, com reflexos prateados. No ar os acordes de nosso bolero. Nunca creímos amarmos al fin com tanta sinceridad. Ninguém sabia cantar a música direito, interrompíamos, voltávamos o princípio, misturávamos as palavras, a letra saía truncada, às vezes em portunhol, diferentes a cada tentativa. E ríamos felizes.
Sueli se afastou um pouco do grupo e deitou-se na areia, olhando o céu, muito séria. Deitei-me a seu lado.
-Acho que você não gosta muito de mim, murmurou.
– Que ideia, gosto sim, juro.
– Não parece… sabe que essa é a nossa música?
Tomei coragem, virei-me devagar e beijei-a depressa, com medo que a turma visse. Ela segurou meu ombro.
-Não se preocupe com eles não.
Sorria e apertava meu ombro. Beijei-a de novo, sempre preocupado e procurando observar os outros com o canto dos olhos. Ninguém parecia prestar atenção. Quase a meu lado, Ramiro beijava sogregamente a namorada. Beijei com mais força, como nos filmes. Ela unhou meu ombro.
-Jura que não vai me esquecer?
– Nunca, nem que eu morra.
– Nem eu. Você é o primeiro homem que me beija.
Homem. Um orgulho infinito encheu meu peito. Era o dono do mundo, tinha uma namorada bonita a quem beijava nas noites de luar. Quando contasse isso no colégio ninguém iria acreditar. Mas eu sabia, eu beijara uma garota.

Sueli era bonita? E a pergunta o devolveu à praia de Copacabana e ao gosto do chope que começava a amargar-lhe a boca. Acendeu um cigarro e tragou demoradamente olhando o mar roçando em seus sapatos. Um mar diferente, escuro e sem poesia. Na curva da baía as luzes piscavam em cores diversas, nem o clarão do luar nem o azul da penumbra. Forçou a memória, buscando detalhes do rosto da namoradinha. Só conseguia um riso, o movimento de um rabo-de-cavalo, um olhar maroto e cheio de ternura. No entanto tivera aquele rosto colado ao seu durante um verão inteiro na praia. Sob o sol, sob o luar. Na claridade azulada da música que Gatica cantava.
Caminhou um pouco, sempre beirando a água. Um copo de plástico ia e vinha nas marolas. Casais de namorados eram vultos escuros na areia manchada de luzes. Caminhar pela praia, de uma ponta a outra, era o exercício que faziam todas as manhãs. Iam fiscalizar, como diziam. E andavam como trôpegos, dando pequenos tropeções e passos em falso que os jogavam um contra o outro. E riam como bobocas de pequenos nadas, de uma mulher gorda num maiô vermelho, de uma criança que a onda derrubava, de um cachorro latindo esganiçado para o mar.
De tarde, o vôlei. De noite os longos papos pelas ruas sem calçamento, com pequenas paradas em lugares pouco iluminados para um beijo rápido. Algumas vezes íamos dançar na casa de algum conhecido que tinha radiola. Voltávamos em bando, fazendo algazarra, cantando alto pelas ruas desertas. Se havia lua, era praia e violão. Nos fins de semana a boate, onde o início de Sinceridad nos lançava no meio do salão azulado.
-Nossa música…
– E meu beijo?
Que la vida es de momentos, nada más…y la esperanza de los dos es la sinceridad
-Você não vai me esquecer?
-Nunca, jamais, em tempo algum.
– Jura?
Ele jurava cruzando os dedos.
-E como é que a gente vai se encontrar quando as aulas começarem?
-Aos sábados você tem aula? Você estuda de manhã ou de tarde?
– Todos os dias, é de lascar.
-Você vai ao cinema?
– Só aos domingos, assim memso quando tiro boas notas.
– Chato, isso? Seus pais são cricri?
-Vou procurar tirar boas notas. Por você.
– E a gente podia então se encontrar na matinê.

Solo una vez, platicamos tu y yo…
Ramiro era um gabola. Esperava os momentos em que os amigos estavam reunidos para contar as safadezas que fazia com a namorada. E no caso de alguma dúvida de seus ouvintes apelava para o meu testemunho.
-Nós saímos sempre juntos, explicava. Perguntem só pra ele. Cada um pega a sua garota, vamos pras pitangueiras e, ó!
Era um dilema que eu enfrentava a cada vez. Dizer que não fazíamos nada daquilo seria o certo. Mais que beijos e mãos dadas, o que de proibido fazíamos era fumar. Por outro lado, confirmar as mentiras era a maneira de agradar ao Ramiro, meu amigo, que pagava cubalibres pra nós e crescer aos olhos daquela turminha enfezada, daquele bando de guris ansiosos por crescer e fazer as safadezas que os adultos faziam.
Eu não tinha coragem de confirmar e nem de negar, optei por baixar a cabeça e sorrir. Era uma forma de confirmação. No fundo sabia disso, mas tentava acreditar que não compactuava com as gabolices de Ramiro, ao mesmo tempo que não o magoava com um desmentido. De qualquer forma era bom ver nos olhos da garotada aquela mistura de inveja e admiração.
A única coisa que contei e era verdade, foi a história do beijo ao som do bolero. E num preito de admiração passaram a me chamar de sinceridad e o Ramiro de pitangueira. Eu fingi não gostar, pedia sem convicção que não me chamassem assim ou só o fizessem quando estivéssemos sozinhos. Isso não era cumprido e meu nome o de Ramiro, naquele verão, se tornaram sinônimo de garanhões.
Não sei se a Sueli e a outra menina chegaram a saber do que se passava e se souberam não deram a importância devida. À medida que nossa fama crescia, Ramiro começou a se meter na pele do personagem que criara. Já não ficávamos os quatro sentados platonicamente atrás das moitas, fumaçando feito locomotivas e trocando beijinhos e falando bobagens. Passamos a ir lá todas as tardes e mal chegados ele puxava a namorada pelo braço e ia procurar uma pitangueira em lugar bem distante. Pensei que fosse uma trama para que eu também acreditasse em suas lorotas; por acaso vi que não, Ramiro estava fazendo o que dizia a todos que fazia.
Não me lembro se os pais de Sueli desconfiaram de alguma coisa, acho que sim, pois surgiram as primeiras dificuldades. Sueli não podia mais ir à boate, sob a alegação de que estavam falando mal das garotas que a frequentavam. À boca pequena espalhavam histórias picantes que estariam acontecendo ali. Nunca vi nada demais, nem podia, engolfado que estava nos olhos brejeiros de Sueli, embalado pelos acordes de Sinceridad.
Depois que ela não pode mais ir lá passei a me juntar aos garotos que formavam a turma do sereno, a dos que, muito novos para entrar e dançar, ficavam pelos arredores observando com olhos maledicentes o salão azulado e os casais. Foi essa turma a possível disseminadora das histórias que afastaram muitas garotas do lugar.
A praia era permitida e o vôlei também. Na praia os mais velhos estavam presentes, de olho, e nada de mal podia acontecer além de umas roçadinhas dentro dágua. E no vôlei porque havia muita gente por perto e não sabiam que não íamos lá há muito tempo. Dobrávamos duas esquinas antes e nos metíamos nas pitangueiras que se espalhavam pelos terrenos baldios, onde ninguém nos via. Fizemos circular o boato que havia muita cobra brava na região, o que mantinha afastados até os garotos mais afoitos que tentassem comprovar nossas aventuras.
Faltava pouco para o fim do verão. Sueli fazia planos para a época das aulas. Como e onde nos veríamos e o que faríamos. Certamente continuaríamos a namorar platonicamente, como dois bobinhos. Me lembro bem que numa tarde combinamos trazer nossos endereços na cidade por escrito na manhã seguinte. E nessa manhã ela não apareceu. Nem ela, nem sua família, nem mesmo Ramiro e sua namorada. Fiquei zanzando pelo praia, batendo bola com o pessoal, sem me preocupar muito. À tarde ela me diria o que acontecera.
Na hora de sempre estava eu lá na esquina. Fiquei um tempão esperando por eles. Nenhum dos três apareceu. E nenhum dos conhecidos que passavam os haviam visto. Fiquei intrigado, será que havia acontecido alguma coisa séria? Resolvi passar pela casa de Sueli, ver se conseguia vê-la. Jamais me passaria pela cabeça parar para chamá-la, mas ocasionalmente, poderia ela estar na varanda ou na janela e arranjaria um jeito de vir a meu encontro. Ou será que estava doente?
No camiho encontrei o Careca, um garoto chato e aéreo, que vivia enrrolado nos fios de pipas e papagaios e que nunca sabia de nada.
-Só sei que a casa dela está fechada. Parece que não tem ninguém. Acho que já voltaram pra cidade.
– E o Ramiro, você viu?
– Também não. Será que não tá nas pitangueiras?
E deu um risinho cretino. Fiquei pensando: será que a Sueli tinha ido embora e o Ramiro fora pras pitangueiras com a namorada sem me avisar? E a Sueli, tão cheia de juras, teria sido capaz de ir embora sem se despedir de mim? Quem sabe não fez comigo o que fizera com o namorado da escola? Fiquei chateado com a desconsideração e caminhei pras pitangueiras. Ia perguntar ao Ramiro. E se ele não gostasse da interrupção?
Não, melhor era ficar em algum ponto do caminho por onde passariam na volta. Eu estava fulo de raiva.Para espairecer, por que ainda era cedo, dei um pulo na sinuca, olhei sem ver algumas partidas. E lá para as cinco horas fui para a esquina. O vôlei acabava sempre às cinco e meia, quinze para as seis, mais ou menos. Pelas cinco horas, que aprendemos a marcar pela sombra projetada por uma vareta, deixávamos os escondxerijos e vínhamos encontrar a turma que vinha do jogo e nos misturar com ela.
A turma, ao passar, me olhou meio desconfiada, alguns rapazes me acenaram, sem jeito. As meninas cochichavam, olhavam pra minha cara emburradas ou com um risiinho debochado. Fiquei mais danado da vida. Estavam rindo de mim porque Sueli fora embora sem me dar o mínimo cartaz. De que adiantaram as promerssas todas, a história da música para se lembrar? Tudo fingimento. Mas deixa estar, jacaré, a lagoa há de secar. Quando voltasse a me encontrar com ela não lhe daria a mínima confiança. Pior fizera o Ramiro, que se dizia amigão. Amigão, uma ova! Falso! Com certeza soubera de tudo e nem para me avisar… bem que me haviam prevenido contra ele. O Ramiro era filho de gente rica, não ia dar importância a uma amizade de férias. Eu só servira para ajudá-lo a fazer suas safadezas.
Depois do jantar, sem ter o que fazer e remoendo meu despeito, resolvi prpcurar alguns dos garotos. Só encontrei o enjoado do Careca, que continuava a não saber de nada, a não ser que a garota do Ramiro também fora embora.
-Quer dizer, a casa dela também tá fechada. Ih, rapaz, eu soube que ontem ela levou a maior surra da mãe. Me contaram por que, mas esqueci.
Que teria acontecido? Será que a mãe dela soubera de tudo? E era motivo para ir embora assim de repente, antes do fim das férias? E Sueli? Será… comecei a procurar quem me pudesse esclarecer o mistério. Passei pela casa de umas amiguinhas dela. Estavam sentadas na varanda, conversando. Quando me viram se levantaram apressadamente e sumiram dentro de casa. Esperei algum tempo, não voltaram a aparecer. Desisiti e fui pra casa. Surpresa: meu pai, que normalmente passava a semana na fazenda que administrava, estava no meio da sala e soube que viera por minha causa quando me avisou, mal eu havia entrado.
– Precisamos ter uma conversa muito séria.
Senti um frio na barriga e procurei pensar rapidamente, vendo se me lembrava de alguma coisa errada que pudesse ter feito sem querer. Ele não me deu tempo, passou o braço pelos meus ombros e falou:
-Vamos conversar no quintal.
Meus irmãos haviam desaparecido como por encanto e mamãe nos olhava muito assustada. Parecia preocupada com o que pudesse acontecer e ao passar por ela, sem saber o que viria a seguir, tive vontade de me jogar a seus pés e pedir proteção.
Havia um banco no quintal, um desses bancos compridos e antigos, que por estar meio bambo fora colocado encostado na árvore. Ali nos sentamos. Eu tremia e esperava. Não conseguia lembrar que merda eu fizera. Meu pai, que não era de muitas palavras nem de muita conversa, me olhava como se me estivesse vendo pela primeira vez. Custou a começar.
-Você não é mais do que um garoto grande.
Eu via que ele não estava sabendo falar o que pretendia.
-Sempre foi um garoto comportado, nunca me deu maiores trabalhos… e agora… acho que você se meteu numa encrenca danada…
Como eu nada replicasse, só pálido e aturdido o encarava, continuou:
-Você já soube o que aconteceu a seu amigo?
Balancei a cabeça, não só negando saber o que poderia ter acontecido, como sobre qual amigo ele falava. Naquela época eu costumava chamar de amigo qualquer garoto que conversassse comigo mais de duas vezes. Ele falou devagar, acentuando bem as palavras.
-Vai ter de se casar.
– Quem?
– O Ramiro, ora, ele não é seu amigo?
Ah, era do Ramiro que ele estava falando. Casar por que?
-Quero dizer que vai dar um bolo dos diabos, pois ele é menor, ela também e os pais dele não querem nem ouvir falar em casamento.
Me olhou sério e baixei a cabeça:
-Parece que vocês andaram fazendo o que não deviam…
-Eu não! gritei assustado.
-Não, é? E o que iam fazer atrás das pitangueiras? O pai de sua namorada veio me procurar.
-A gente não fazia nada demais, choraminguei.
-É o que a menina também diz, mas por via das dúvidas vão levá-la a um exame médico.
Na minha ingenuidade pensei que ela tivesse ficado doente.
-Pra que?
-Ora, pra que! Pra saber se ela ainda é virgem.
Eu continuava a não entender nada, nos anos 60 a garotada pouco sabia. Ele deve ter visto a ignorância na minha cara.
-Escute aqui, o quê que vocês faziam lá nos matos?
-A gente conversava, balbuciei, se beijava…
-Só?
Relutei um pouco em terminar a confissão temendo o castigo que poderia vir. Os olhos dele estavam em minha boca, ansiosos. Senti que devia falar tudo e continuei:
-Fumava também.
Pode até ter sido impressão minha, mas senti um pouco de decepção em sua voz ao perguntar:
-Só isso mesmo?
Confirmei com a cabeça, aliviado por ele não ter se zangado ao saber que eu fumava.
-Quer dizer então que vocês nunca… não, nem adianta perguntar, já vi que vocês só faziam isso mesmo. Mas seu amigo foi bem mais longe.
E ali me tornei realmente um homem. Com paciência papai foi me explicamdo o que havia acontecido com Ramiro e outras coisas mais. Bem diferente de tudo que eu aprendera com os colegas de rua e do colégio.
-Culpa minha essa confusão. Já devia ter conversado com você e seus irmãos sobre isso, mas… faltou oportunidade. E quase que você estraga sua vida por causa disso. Se fosse mais entrão, como seu amigo… – balançou os ombros e tornei a achar que estava decepcionado. – Bem, se você fosse mais entrão já saberia tudo o que acabo de contar.
Continuei calado, cabeça baixa.
-Agora já sabe. Juízo.

No fim daquela semana arrumaram as malas e voltamos para a fazenda. O verão estava oficialmente terminado. Mais alguns dias e voltei para o colégio. Os poucos dias na fazenda foram de glória pessoal. Meus irmãos menores e os empregados me olhavam com orgulho e respeito. Com certeza os manos ouviram as conversas que rolavam entre a meninada e as espalharam entre o pessoal da roça. Um deles, garoto gozador, chegou a me chamar de sinceridad. Dei-lhe um peteleco.
Em princípio foi bacana. No colégio souberam de tudo e me tornei uma espécie de herói pornográfico juvenil. Meu irmão mais novo, que naquele ano ingressara no colégio, exibia orgulhoso o título de irmão do sinceridad. Aceitei orgulhosaamente as homenagens.
Pero no tardes mucho, por favor…

Um vento frio varreu a praia.Se encolheu dentro do paletó e seguiu caminhando. Trechos da música iam e vinham em sua memória.
Y la esperanza desto amor es la sinceridad
Soube pouca coisa do Ramiro. Os pais dele conseguiram armar uma trama envolvendo a garota. Um ou dois rapazes afirmaram perante o juiz ou o delegado, sei lá, haver tido relações sexuais com ela. Um médico atestou que o hímem havia sido rompido há bastante tempo e não no verão. Meses depois Ramiro viajou para a Europa.
Nunca mais ouvira falar de Sueli. Seguindo instruções de seu pai, procurara esquecer o que acontecera e não pensar mais nela. Ramiro fora amigo só de verão.
-Você está num colégio perto de nossa casa da cidade, pode vir passar os fins de semana conosco quando der vontade. Mas se procurar aquela garota vou lhe mandar para o Rio, para ficar interno num colégio de padres. E você vai ver o que é dureza. Não quero outros problemas. Vou ficar apertado, é um colégio caro, mas prefiro isso do que deixar você desgraçar seu futuro sendo obrigado a casar com uma galinhazinha qualquer.
Achava que o pai preferira continuar acreditando que houvera entre eles mais que beijos e tragadas. Se tocava no assunto era com malícia. Os amigos do pai sorriam cínicos e lhe davam tapinhas nas costas. Como ninguém queria acreditar na verdade, depois de mais algumas tentativas de esclarecimento, resolvera não mais se preocupar.
Com o tempo se esquecera por completo do incidente. Passaram-se tantos anos… tudo mudara, até o mar e sua visão da vida e do amor. Mudança tão radical que não havia na sua vida lugar para recordações desse tipo. Não tinha tempo nem disposição para elas.
O torpor da bebida estava passando. Olhou o relogio e se espantou: já? Sua fuga do presente levara bastante tempo. Fugira para a lembrança de um problema resolvido para se livrar de outro por resolver. Atravessou o areal. Na calçada, enquanto esperava que o sinal abrisse acendeu um cigarro. Já não ouvia mais a música.

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