NOITES DE LOBISOMEM E MAIS 15 HISTÓRIAS DO LIVRO EDITADO EM 2012

30 \30\UTC janeiro \30\UTC 2014 at 16:13 Deixe um comentário

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  NOITES DE LOBISOMEM

A água caía do céu em bátegas e o vento vinha em rajadas. Açoites de água. Vento alucinado. Não dá pra continuar, decidiu Miguel, atento aos nervosos movimentos do cavalo patinhando na trilha encharcada. A luz dos relâmpagos lhe mostrava um animal assustado que o estrondar dos trovões fazia tremer e relinchar. Ficar embaixo de árvore ou no meio do campo podia provocar a queda de um raio na sua cabeça, sabia disso. E muitos eram os raios que lanhavam o céu de alto a baixo e de um lado a outro.

    Adiante ficava o telheiro de um antigo curral de Zé Menino e para lá guiou o animal. A chuva não dava trégua, clarões arroxeados antecipavam o ribombo do cair das faíscas. Apeou do cavalo, encostou-se no cocho quebrado do telheiro, braço passado no pescoço dele, com leves afagos no pelo castanho para acalmá-lo. Era esperar a chuva amainar.

     E então o viu. Antes mesmo de se conscientizar de que estava diante do lobisomem, tão comentado nas vendas nas últimas semanas, sentiu um arrepio lhe correr pela espinha e eriçar os pelos dos braços. O cavalo relinchou e tentou empinar. Usou de toda a força de seu braço para contê-lo. Com o rabo do olho seguiu o lobisomem que caminhava devagar, curvado sob o aguaceiro, o pelo sujo encharcado se mostrando em cachos rebeldes entre as duas orelhas espetadas de cão. Mãos ocupadas, persignou-se mentalmente. Indiferente a tudo, o monstro seguiu seu rumo e desapareceu na noite. No ar restou um fedor estranho.

    Não falou a ninguém do repulsivo encontro, não ia virar personagem de anedota. Nas conversas jogadas fora no oco das noites de sábado na venda do Zeca e nas outras da vizinhança, sempre havia alguém a contar que esbarrara em lobisomem, mula sem cabeça, boitatá e discos voadores com tripulantes extraterrestres. João de Sandra jurava que fora abduzido e como prova mostrava uma marca redonda atrás do joelho esquerdo que Zenildo, seu companheiro de infância, afirmava ser a cicatriz de um furúnculo.

     Que vira um lobisomem era indiscutível e em outras noites Miguel retornou, a cavalo ou a pé, aproximadamente na mesma hora, ao local onde o vira. Estava certo de que tornaria a encontrá-lo, não fora uma alucinação.

       Numa tarde encontrara, sem ter procurado, um tufo de pelo encardido enganchado na farpa da cerca de arame. Será do lobisomem? se perguntou. Pegou o chumaço, examinou-o bem de perto, cheirou-o, esfarelou-o entre os dedos. De rabo de boi ou crina de cavalo não era, a textura era diferente. Parecia um cacho de cabelo grosso, engordurado. De gente não é, pensou, aprofundando-se no exame. De cão também não, só pode ser do tal bicho. Com um esgar de nojo largou-o na estrada

     No sábado seguinte ouviu mais uma história arrepiante de lobisomem na venda do Zeca, bem semelhante à que se passara com ele, só faltou a chuvarada. Não conseguiu dormir à noite, não por medo, mas intrigado com os acontecimentos narrados. Existe um lobisomem, tantos homens de bem não iam mentir à toa. Alguns da roda não mereciam crédito, mas homens como Ezequiel do Poço ou João Pelado eram incapazes de fabular essas lendas. Por eles punha a mão no fogo. O lobisomem existe, concluiu, e vou pegar esse cabrunco, se prometeu.

    Por acaso, e as coisas importantes acontecem ao sabor do acaso, no sábado observou que Vilarino, sempre de olhos baixos, calado, a rodar indefinidamente o copinho de pinga entre os dedos ossudos, ouvia com atenção a lorota contada por Bené, de que dera uma corrida num saci.

     Vilarino tá meio esquisito, pensou, parece que anda com um troço preso na garganta, isso merece atenção. Não sei porque, mas meu instinto diz que merece. Ele tá com cara de quem viu lobisomem de verdade. Como eu.

     Continuou atento às conversas, mas sem tirar os olhos do sujeito, que lhe parecia cada vez mais indócil. Logo depois, num gesto inusitado, Vilarino virou o copo de pinga duma vez na garganta, muito estranho, pois costumava saborear a pinga aos golinhos, pra durar mais tempo, pôs uma nota no balcão e saiu. Ele foi atrás.

– Ei, Vilarino, guentaí que vou com ocê.

     Ele freou o cavalo e esperou. Iam pras bandas de Mundéus e o caminho ficava mais curto quando se ia acompanhado. Cavalgaram em silêncio.

– Que cê acha, Vilarino, dessas histórias de lobisomem que a toda hora a gente tá ouvindo? Estou lhe perguntando por que ando curioso e sei que cê é um homem sério, não acredita em patranha.

       À luz avermelhada da lua que surgia o outro o olhou de soslaio, ar desconfiado.  Nada falou. Tornou a olhar para diante e continuou a cavalgar.

– Num me leve a mal, Vilarinho, só tô perguntando porque acho que ocê é de confiança. Quero saber porque preciso desabafar, contar um sucedido que não me sai da cabeça. Mas num quero contar praquele povo da venda do Zeca, não quero virar piada. – Hesitou, olhou o outro que seguia de cabeça baixa, sem emitir um som. – Cê pode não acreditar, tá no seu direito, mas numa noite dessas, quando caiu aquele temporal dos infernos, quase esbarrei num maldito lobisomem ou sei lá o que aquilo era.

    O outro diminuiu o trote de sua montaria. Miguel contou, tintim por tintim, seu encontro com a fera, ou melhor, o quase encontro, pois o bicho passara ao largo e por certo não o vira encostado no telheiro. Senão o teria atacado. Vilarino não deu um pio, apenas uma vez voltou a olhá-lo de banda, arisco.

     Consciente de que não ouviria a opinião do outro, mas que também não seria motivo de gozação, Miguel deixou as mãos caírem no arção da sela e o cavalo seguir. A lua  espiava por detrás das cercas vivas. Muito ao longe um animal mugiu.

– Noite boa essa noite pra aparecer lobisomem, disse de repente Vilarino. Lua cheia, de quinta pra sexta-feira, tá na feição. Mas não gosto de brincar com assunto sério.

     Ele se assustou com o tom cavo da voz e se preocupou com o pensamento que lhe cortou o raciocínio: e se o Vilarino for o tal que vira lobisomem? Será por isso que fica tão calado, jururu? Ai, meu Deus! Será por isso que o lamparão não quer tocar no assunto, e me falou essas coisas nessa voz de pesadelo pra me alertar que estou correndo perigo, que ele pode, a qualquer momento, virar lobisomem? Acho que mexi em casa de marimbondo.

– Eu também não, Deus me livre, respondeu apressado. Por isso não contei nada lá na venda. Só falei com você porque sei que é um homem sério, discreto, não vai por aí propalando, me sacaneando.

– Tá certo, resmungou Vilarino, fez bem.  E aqui nos separamos, vou tomar outro rumo, té mais ver.

     E se afastou com certa pressa. Ele ficou parado, sem saber o que pensar. Na garupa do cavalo de Vilarino ia um amarrado, alguma coisa enrolada num pedaço de lona. Pouco mais adiante, ao atravessar um pontilhão, o animal deu uma sacudidela e ele teve a nítida impressão que de debaixo do amarrado escapava um cacho, que ao luar lhe pareceu uma vírgula encorpada e encardida. Tem coisa errada nessa história, lhe diziam seus pressentimentos. Ficou olhando Vilarino se afastar com a desagradável sensação de estar sendo enganado. Ou ele era o lobisomem ou sabia quem virava o bicho feio.

       Na manhã seguinte calhou de fazer o mesmo caminho. A lembrança de Vilarino veio de imediato à sua mente. Por instinto diminuiu o passo do cavalo e prestou atenção a cada detalhe do caminho. Novamente os fiapos presos na cerca. Bom, pode ser estopa, pensou, alguém andou muito junto da cerca e a estopa enganchou. Por via das dúvidas apeou e andou de olhos fixos na cerca enquanto puxava o cavalo pela rédea. Um pouco mais à frente outro tufo de estopa no chão. Abaixou-se para pegá-lo.

– Perdeu alguma coisa? perguntou uma voz dura de mulher.

    Era Elenice, moradora da fazenda limitada pela cerca. Estava do lado de dentro, montada numa égua baia e viera tão sorrateira que ele mal notara sua chegada. Elenice fora muito popular entre a rapaziada do lugar nos tempos de escola, ele mesmo passara uns momentos agradáveis com ela atrás de moitas. Não era uma beleza de garota, era quente e fácil, e só sossegara o facho quando se casara com um sujeito que ninguém sabia de onde viera. Dizia-se que o bonitão dera o golpe do baú e era muito ciumento. Não era para menos, zelava pelo seu patrimônio. Além da fama de galinha, que ele por certo não ignorava, era filha única, herdeira das melhores terras ao redor, animais de primeira, raçados, máquinas e implementos da melhor qualidade. Seu pai era um dos mais fortes fazendeiros da região. O marido, ao que se sabia, só entrara no casamento com a testa para levar chifres.

– Bobagem, respondeu Miguel, levantando-se e limpando as mãos nas calças. Pensei que fosse uma coisa, – atrapalhou-se, sacudiu um pó inexistente das mãos – não era, besteira minha, bobagem.

– Fico impressionada com certas coisas, comentou ela, irônica. Como é que o povo daqui é antiquado, meu Deus, que em pleno século XXI ainda acredita em lobisomem! Me disseram que você, um homem inteligente, moderno, engenheiro agrônomo com mestrado em universidade de São Paulo, está investigando a existência de lobisomem na região. Deus do céu, lobisomem, que coisa mais anacrônica! Toma tento, Miguel, olha o ridículo! Em vez de se dedicar às novas tecnologias pra melhorar suas lavouras, cê fica aí que nem caipira do tempo de nossos avós a seguir rastro de um cachorrão fabuloso?

     Dito assim, com voz debochada, era constrangedor. Sentiu-se envergonhado. Era mesmo uma bobagem. Onde estava com a cabeça? Enquanto ela se afastava, num trote que parecia conjugado com sua ironia indignada, paralisado como um menino apanhado fazendo arte, ele se indagou:

– Peraí, como é que ela sabe que estou rastreando o lobisomem, se só comentei o assunto com o Vilarino?

    A pergunta o perseguiu no caminho de volta à casa. Como Elenice teria sabido de seu interesse pelo lobisomem? Só podia ser através do Vilarino. E por que ele falaria sobre isso com ela? Pelo que sabia, eles mal se falavam desde que haviam rompido namoro do tempo de adolescentes. Atualmente ela estava casada e eles moravam em fazendas separadas por quilômetros de canaviais. Esquisito… e por que ela se dera ao trabalho de vir no seu rastro tirar satisfações? A troco de que? Aí tinha coisa…

     Encabulado, meio sem jeito, resolveu suspender as investigações. Chegou a ficar muitas noites de sábado em casa para não ter de ouvir histórias sobre o lobisomem. Já estava cheio de noites de lobisomens. Pensou em perguntar ao Vilarinho se comentara o assunto com Nice, depois achara melhor esquecer o assunto. Viajou ao Rio, divertiu-se, foi a cinemas e teatros, comprou livros, tomou um banho de civilização. Para alguma coisa o lobisomem servira, há muito não saía da fazenda.

     Na noite do sábado em que voltou à venda do Zeca o assunto era política, a eleição estava perto e mobilizava corações e mentes. No seu canto, Vilarinho rodava o copinho nos dedos e bebericava. Nem o olhou direito.

     Uma freada brusca, cantando pneus, desviou a atenção de todos para a porta, por onde rompeu Atilano, o corpanzil apertado num largo cinto de couro que puxava para cima a todo o momento. Os olhos fuzilavam e os lábios tremiam sob o bigode avermelhado.

– Dessa vez quase matei o bicho, bufou, orgulhoso.

– Que bicho? perguntou Zeca, enquanto punha um copinho no balcão.

– Quem mais? O lobisomem, porra! Atravessou na frente da minha camionete, por pouco não atropelo ele!

     De relance Miguel observou Vilarino, que pareceu pouco se interessar pela notícia.

– Como cê soube que era ele? Quando vim pra cá o nevoeiro vinha invadindo tudo, não dava pra distinguir nada direito, aparteou Ezequiel, danado para atrapalhar as narrativas dos fregueses.

– Nevoeiro…uma cerraçãozinha de merda. Você não viu por que tá meio cego, véio.

– E aí, interveio Zeca, cortando o bate-boca, o bicho atravessou a estrada e veio na sua direção, e aí…

– Não veio pra cima de mim não, ele vinha meio desnorteado, ia sem olhar pros lados, passou por mim que nem um raio, raspando o carro. Dei uma freada tão forte que…

– Cê chegou a ver o bicho? indagou João Pelado, com descrença na voz. Dependendo de quem contasse a história os fregueses da venda tinham suas reservas.

– Bom, ver, ver, eu não vi, o bicho passou à toda, mas posso dizer que não é tão grande quanto o povo diz e parece mais porco que cachorro. Orelhas grandonas, espetadas pra cima, bocão com dentes enormes, uma coisa horrível. Se estou com meu revólver…

     Durante todo o relato Miguel arriscou olhadas para Vilarinho, que se manteve indiferente, olhos fixos no fundo do copinho de pinga.

– Ele gania, gemia, latia, que barulho ele fazia? indagou Bené.

– Como vou saber se eu tava dentro do carro? Cê tem cada uma!

    Como sempre acontecia quando o assunto era algum dos seres fantasmagóricos que percorriam nas noites as estradas da região a conversa se espalhou, vozes se alteraram, se entrecruzaram, degeneraram em discussão, xingamentos, enquanto a garrafa de pinga corria pelo recinto enchendo copinhos e perturbando os ânimos. Miguel saiu de fininho, a cabeça zonza com tanto falatório.

     O lobisomem voltara à rotina das conversas da venda e ele voltara à rotina das noites de lobisomem. Miguel sentiu-se cansado, impaciente. Acho que está na hora deu casar, assentar cabeça, largar dessas noitadas bestas. Com o fim da safra passou a chegar em casa mais cedo, tomava um banho demorado, jantava, pegava um livro ou sentava-se na frente do aparelho de televisão.

      Numa noite de primavera, com o vento ainda frio a pedir casaco, Miguel selou o cavalo para fazer uma visita. Uma mulher que conhecera numa festa, moradora do arruado. De vez em quando precisava sair de casa, arejar a mente. A lua em quarto crescente acinzentava os aceiros entre as lavouras. Pios, arrulhos, cicios, a risada casquilha de um bacurau, o resfolegar de um bicho maior…

      Miguel se inteiriçou, uma massa informe se deslocava um pouco mais à frente, rente às cercas, procurando a sombra das árvores! Essa não, o lobisomem! Sentiu pela catinga no ar. Segurou as rédeas e parou, observando. Lá ia o miserável, todo curvado, o pelo encaracolado ressaltado pelo luar. Hoje não me escapa, decidiu. Desceu do cavalo, amarrou-o numa árvore e se pôs a seguir o bicho a uma distância conveniente. Com o vento a seu favor, o tal não sentiria sua presença. Usando os mesmos artifícios, andando colado nas cercas e na penumbra dos arvoredos, o acompanhou. Houve um momento de susto, quando o bicho atravessou a estrada, exposto à luz da lua. Miguel viu com nitidez que a pelagem que o cobria era como uma manta posta sobre o corpo encurvado.

   Filho da puta, murmurou, tem um homem embaixo daqueles pelos. Lobisomem coisa nenhuma, é gente mesmo, gente safada, disfarçada. Apressou o passo, ia saltar sobre o bicho quando chegasse bem perto. O lobisomem entrou pela passagem lateral de uma cancela, frustrando seu intento. Ei, pensou, Miguel, é a fazenda do pai da Nice! Num instante a situação se aclarou: alguém estava usando um disfarce de lobisomem pra se encontrar com a bisca da Nice. Quem disse que as pessoas se regeneram?

    De mais perto, entre duas árvores no caminho que levava a uma construção ao lado da casa da fazenda, percebeu que a manta que cobria o pretenso lobisomem era o pelo de um outro animal, provavelmente de carneiro. Devia ser guardado em algum canto úmido pra ficar com a catinga que confundia quem o encontrava. Bem bolado, mas será que a mulher valia esse sacrifício?

     Os cachorros da fazenda não estranharam a figura que se aproximava e continuaram deitados na soleira da porta. É gente conhecida, imaginou Miguel, que tomou cuidado, caminhando mais perto do bicho para não ser notado pelos animais. Tão próximo ficou que se o lobisomem não estivesse tão envolvido com o passeio noturno, teria percebido sua presença.

     A porta do prédio abriu-se e por ele o lobisomem se meteu. Antes que a fechasse, no instante em que ele se livrou do pelego de carneiro, Miguel deu um salto e entrou. Uma lâmpada fraca iluminava um quarto que mais parecia de hotel de beira de estrada, com a cama de casal, mesa de cabeceira e uma cadeira. Aos pés da cama, de camisola, Nice, de olhos arregalados. Em frente a ela, meio voltado para trás, Vilarino.

– Que palhaçada é essa aqui? gritou Miguel, sentindo uma onda de raiva subindo pelo peito e invadindo a cabeça, tornando tudo vermelho.

     Nice avançou com os braços estendidos em sua direção:

– Pelo amor de Deus, Miguel, não grite senão vai acordar todo mundo!

      Miguel respirou fundo, olhos fuzilando um e outro.

– Foda-se. Banquei o palhaço, bufou. Ocês me fizeram de bobo o tempo inteiro e de todo o jeito. E a vagabunda aí ainda quis me dar lição de moral. Ridículo, é? E agora, o que me diz? Quem é ridículo aqui? O lobisomem apaixonado?

– Você precisa entender nossa situação, cara, por favor. Não fizemos mal a ninguém, só usamos desse artifício para proteger nosso amor.

    A voz de Vilarino estava lamurienta.

– Nós sempre nos gostamos, mas naquele tempo éramos meio pirados, por causa de bobagens brigamos, dei ouvido a fofocas, durante muito tempo ficamos sem nos ver, mas nunca esqueci a Nicinha, nem ela me esqueceu. Quando ela se casou foi que vi como gostava dela. Fiquei mal, quis morrer, entrei em depressão, ocê tava na faculdade, não soube, mas fui parar no hospital. Nicinha soube e foi me ver, escondida do marido. Olha, não dá pra contar tudo o que passamos.

– E por que não resolveram logo a situação, pombas, casamento hoje é a coisa mais fácil de se desfazer. Em dois anos podiam se casar.

     Os olhos de Miguel pareciam brasas incandescentes. Fogo raivoso que corria por suas veias, contraía seus músculos e enclavinhava suas mãos. Estava muito zangado, logrado por um lobisomem de mentira, usado para enganar um corno.

– Preferiram enganar todo mundo, assustar as pessoas, rosnou Miguel.

– Meu pai, Miguel, cê conhece o velho, já havia sofrido com minhas, vamos dizer, travessuras, e não suportaria mais esse escândalo. Naquele tempo as meninas da roça estavam descobrindo a liberdade, eu pintei e bordei, reconheço. Era tida como moça falada, fácil, cê sabe disso. Meu pai se desgostava, achava que para tapar a boca do povo só me casando. Casei por casar, sabia que gostava do Vila, mas ele tinha sumido, eu estava chegando aos 30, o velho pressionando. Casei com o primeiro bonitinho que me apareceu pela frente.

      Vilarino parecia uma estátua, era do tipo que uma emoção maior congelava. Só devia estar sentindo falta do copinho de pinga para bebericar e rolar entre os dedos.

– São as tramoias da vida, essa safada, exclamou ele. Quando nos reencontramos e demos conta das besteiras que tínhamos feito, era tarde. Ela estava casada. Mas foi um bater os olhos nos olhos do outro e toda a tesão e todo o amor voltaram com força.

     Nos olhos de Vilarino brincava a melancolia gostosa das lembranças dos momentos do reencontro. Amor no carro, no meio dos canaviais, nos motéis, amor ameaçado por tudo e por todos, mais gostoso talvez, por causa disso. Elenice sentou-se na beirada da cama e ajeitou as pontas da camisola.

– Claro que a primeira coisa em que pensamos foi na minha separação. Imagina você, que conhece bem meu pai, se me separo pouco depois de casada! Ia ser um escândalo. Meu pai está velho, tem preconceitos rígidos, pra cê ter uma ideia, depois de uma briga séria com meu marido eu disse que estava farta do casamento e ele me passou uma bela descompostura, gritou que eu tivesse pensado melhor antes de casar, o casamento é indissolúvel aos olhos de Deus, essas coisas. Sem se lembrar que praticamente ele me forçou a casar. O que podíamos fazer? Renunciar ao amor mais uma vez? Nem pensar.

– E se você contar o que viu aqui, comentou Vilarino com voz sumida, nem quero imaginar o que pode acontecer. Pense no sacrifício, na tensão, no medo de sermos descobertos. Você não imagina o que é sair pela noite, vestindo esse troço fedorento, sujeito a levar um tiro ou ser atacado por cobra e outros bichos. Só por amor se faz isso.

    Confuso, ombros caídos, olhos sem brilho, com raiva e com pena, Miguel não sabia o que pensar nem como agir. Tudo errado e tudo certo. Bufou:

– E vão ficar assim até quando? Até seu pai morrer? perguntou com desprezo.

– Ai, nem me fale nisso, choramingou ela. Não pode ser assim, não quero que ele morra para poder ser feliz. Não é justo. Mas também não é justo viver sem meu amor. E ainda tem o meu marido, não que ele morra de amores por mim, mas vai lutar para preservar sua aura de macho. Corno? E seu orgulho? Capaz de nos dar uns tiros se vier a saber.

– Não tem jeito, já pensamos em tudo. Vamos continuar a nos encontrar às escondidas, mesmo que nos denuncie. Vamos mentir, dizer que é calúnia, só ocê nos viu juntos.

   Vilarino abriu os braços, dramático:

– Você matou o lobisomem, vamos ter de encontrar outro disfarce … até quando Deus permitir. Renunciar a ela é que não vou.

     Sentou-se ao lado dela. Miguel os encarou com desprezo misturado com simpatia, o amor o comovia, mas irritava lembrar-se de como ele e os moradores da região tinham sido enganados. Gozavam de nossa cara de palhaços. Imaginava os pombinhos, deitados na cama, saciados de amor, e se divertindo com a peça que pregavam nos outros.

– E você, Nice, ainda foi atrás de mim só pra dizer que eu era ridículo em perseguir um lobisomem. Ridículos foram vocês com esse disfarce idiota. Fantasia ridícula, boba, trabalhosa e catingosa. Vilarino podia ter morrido com um tiro. Como dizia aquele ditado antigo, quem não tem competência não se estabeleça.

– Talvez fosse melhor que eu levasse um tiro, suspirou. E quem sabe se ainda vou levar?

– Fiquem tranquilos, não vou dizer nada. Mas arranjem uma fantasia menos perigosa. Deu-lhes as costas e saiu. A lua, gloriosa, ria-se de todos lá no alto. Sua raiva se esvaía a cada minuto. Só não vou contar, concluiu Miguel em pensamento, porque não falei a ninguém sobre minha perseguição ao lobisomem. Ridículo… aí, sim, eu seria ridículo.

                                                              FIM

ISABEL, A SOLTEIRONA

Isabel chegara aos 30 anos solteira. No lugar em que vivia isso significava que era uma solteirona, ficara na prateleira, nenhum homem por ela se interessara. Era um rejeito da vida, no mínimo uma incompetente, pois muitas mulheres, menos interessantes que ela haviam se casado e ela ficara para titia.

Não se considerava feia. Nem linda. Era uma mulher comum, com um rosto comum, pele lisa e clara, simpática, educada, discreta, bom porte, inteligente, capaz de manter uma conversação, além de ser prendada, ou seja, saber cozinhar, cuidar de uma casa e de filhos, já que ajudara algumas cunhadas a cuidar de seus filhos.

Isabel era a filha caçula e única do sexo feminino de conhecido fazendeiro, delegado e político de sua região, que morrera antes de concluir o mandato de vereador. O quarto mandato. Homem respeitado, muito procurado por vizinhos, conhecidos e eleitores para solucionar problemas, ouvir confidências, dar conselhos, batizar crianças, apartar brigas de casais, ajudar financeiramente os eleitores mais necessitados. Enfim, um homem de valor, como não se vê mais, ela acreditava.

No seu tempo de adolescência era mantida longe da sala de visitas, onde homens de todo o tipo apareciam. A mãe temia que se engraçasse com alguém comprometido, casado, sem posses ou mau caráter, não vira o caso da menina de Filhinha Barbosa, que fugira para o Rio de Janeiro com um vigarista que agora vivia às custas da família dela, dando golpes na praça e passando temporadas na cadeia?

Frequentou a escola até a terceira série primária, na localidade era o máximo oferecido, e além do mais, segundo seu pai, mulher não precisava de tanto estudo, ler, escrever e fazer contas era o suficiente. Supondo-se que seria uma dona de casa. Como ela não se casara, ficara a lacuna em sua formação.

Depois dos 18 anos passou a frequentar festas, dançava direitinho, flertou com rapazes logo descartados pela mãe vigilante. Filha minha não é pra qualquer um, dizia a mãe.

E então o pai adoecera, a princípio coisa simples, tratado em casa, logo levado para um hospital da cidade, sofreu cirurgia complicada, de recuperação lenta no lar, muitos cuidados, alimentação especial, estranhos aparelhos montados no quarto do casal, na casa comprada às pressas por um preço que os irmãos consideraram absurdo, mas que tinha amplo terreno na frente, ladeado por árvores frutíferas, mangueiras, sapotizeiros, jambeiros, goiabeiras, até uma moita de cana caiana, muitos pássaros viviam por ali, nos dias melhores o pai adorava ficar recostado na espreguiçadeira, o sol morno a aquecer o corpo sofrido, parece que estou na fazenda, dizia ele, comovido.

O que engorda boi é o olho do dono, diz o ditado, e de longe não podia acompanhar o nascimento de bezerros, a produção de leite, a engorda dos garrotes e aos poucos a renda foi diminuindo, o canavial rendeu pouco, o preço do açúcar caíra no mercado internacional, algumas promissórias tinham de ser pagas, algumas usinas lutavam com suas dificuldades. Os filhos desatentos, tinham seus próprios negócios. A criação miúda, galinhas, patos, galinholas, perus e até um bacorinho foram trazidos para a cidade onde ficavam confinados no chocalho no fundo do quintal até serem abatidos para melhorar a refeição do doentinho.

E os remédios, muitos e caríssimos, médicos desalmados que quase matavam a família do paciente com preços exorbitantes, uma simples operação custava tanto assim? O jeito era vender as carroças e seus bois de tração, os cavalos e mulas, o trator, gente, pra que trator, deixe a cana na ressoca, com preço aviltado do açúcar nem valia a pena replantar. Por fim a fazenda foi passada nos cobres e o doente só piorando, de volta ao hospital, quarto, UTI, enfermaria, de novo UTI, o dinheiro a escorrer pelos ladrilhos do hospital.

Os amigos e parentes mantiveram as visitas até à primeira internação, os afilhados só vieram tomar a bênção na sexta-feira santa seguinte, no natal nem apareceram, apenas o rapaz meio afeminado, filho do Zé Coiteiro, viera trazer bolo com os votos de pronta recuperação.

Eleitores apareceram no enterro, pois a morte do antigo vereador não tardou. Muitos acompanhantes em automóveis, o negror imperando nos roupas e nas almas, coroas de flores a cobrir as paredes da sala do velório, choros, abraços apertados, palavras consoladoras, discursos inflamados, grande homem, político honesto e dinâmico, perda irreparável, o mundo fica um pouco menor. Cenas que se repetiram na pomposa missa de 7º dia na catedral, fora as flores e os discursos.

O pai morto e ela solteirona. Isabel, a rejeitada, a que fora queridinha do pai nas horas em que ele estava em casa, era muito solicitado, se sentia excluída, sozinha.

A dura realidade chega depressa ao cenário desolado. Mãe e filha continuaram na casa da cidade, a da fazenda tinha novos donos, os irmãos voltaram às suas propriedades, muito trabalho, filhos e esposas a tomar seu tempo, nas raras visitas uma abóbora, um cacho de bananas, uma dúzia de ovos de galinha, um bocado de raízes de aipim e batata doce. A vida difícil, tudo pela hora da morte,crianças dão despesas, a senhora, que criou oito sabe bem como é, escola, material escolar, uniformes, roupas, um gastar sem fim.

A filha, preocupada, a Câmara custava a começar a pagar a pensão à viúva, trocados contados, não tinha capacitação para conseguir bom emprego, os políticos procurados para arrumar um empreguinho na Câmara sorriram, compreensivos, tinham que ter cuidado, a imprensa não tirava os olhos deles, vamos ver o que podemos fazer. E os meses corriam e os trocados diminuíam.

Isabel decidira, após a morte do pai, já que estava morando na cidade, de onde não mais sairiam, com escola por perto, voltar a estudar. Gostou do curso noturno, gente simples, interessada, mas cansada do trabalho diurno, alguns roncavam enquanto a professora escrevia no quadro negro.

Quem sabe você encontra um marido ali? aventou uma vizinha, preocupada com seu futuro. Mas ela não se interessou maritalmente por nenhum, homens toscos, a maioria comprometida, tentando mudar de vida através do estudo. Cabeças abaixadas sobre os cadernos, dificuldades em absorver novos ensinamentos, intimidados, pouco conversavam nos intervalos com mulheres desiludidas, ansiosas por promoções, oportunidades, faltando às aulas porque os filhos adoeceram, o marido se acidentara, males do dia a dia.

Conheceu Edivaldo, pedreiro de profissão, apaixonado por plantas, se tivesse tido chance na vida estudaria botânica, tinha dedo verde, você com aquele terrenão na frente da casa sem plantar nada, posso ajudar nos fins de semana, compre sementes, faço canteiros, adubo, boto remédio contra pragas, sei fazer de tudo um pouco. Vamos plantar. Dinheiro não dá, mas pelo menos é um derivativo para essa vida chata, sem perspectivas. Mexer com a terra livra a gente da energia negativa, andei lendo livros que um freguês me emprestou, esotéricos, sei de ervas boas, vamos plantá-las, cidreira, boldo, manjericão, alecrim, alfavaca, arnica, coentro, orégano, mais cebolinha e salsa.

Enquanto as ervas cresciam, viçosas, cheirosas, ela se lembrara de suas decantadas prendas culinárias e assava empadas, fritava pastéis, bolinhos recheados e crocantes para a parte da manhã, e docinhos, bolinhos, cocadas, para o filho mais velho de Edivaldo vender pelas ruas, atividade de sucesso crescente, realmente era uma quituteira de mão cheia. Por sua vez a mãe tricotava sapatinhos de bebê, casaquinhos, toquinhas e outros itens do vestiário dos recém nascidos que eram vendidos nas barracas de artesanato na praça principal. Os irmãos, nas espaçadas visitas, para não serem instados a contribuir para a manutenção da mãe e irmã, ficavam surpresos com a aparente independência das duas, nada pediam, as noras apareceram, temerosas mas curiosas, será que a solteirona arrumara um senhor para ampará-las? Isso justificaria os sorrisos.

Isabel andava feliz, se cuidava mais, comprara roupas novas, o preto do luto só sugerido. Nas poucas horas vagas estudava, pensava em fazer curso de inglês, chave para bons empregos. Vou ser moderna, se dizia, senão vou virar um peso para minha família. Os colegas de classe incentivavam, indicavam cursos, cabeleireiros, lojas com bons preços, pequenos empurrões que sua fantasia fazia com que fosse muito longe.

No segundo ano depois da morte do pai, no Dia de Finados, as dálias que Edivaldo cuidava estavam lindas, corolas exuberantes e coloridas a atrair a atenção de quem passava pela rua. Amarelos, roxos, vermelhos e vinhos se balançavam na brisa da tarde. Primeiro Isabel cortou ramos de uma folhagem bem verde e brilhosa, depois as dálias mais esplêndidas para compor o buquê que depositaria no túmulo do pai. As rosas não estavam no ponto, mas as dálias deixariam os parentes dos outros defuntos invejosos. Com o buquê diante dos olhos extasiados, Isabel não percebeu um senhor bem vestido, cabelos grisalhos e rosto corado, se aproximar e fixar os olhos nas flores. Fiel, o cão que viera da fazenda, dera o alarme e latira em direção ao muro gradeado.O homem lhe sorrira, ela se aproximara.

– Que maravilha essas flores! É a senhora quem as cultiva?

Desvanecida, sentiu-se ruborizar, o que há muito não lhe acontecia. Sentiu-se mais envaidecia do que se ele tivesse elogiado sua aparência. Sorriu, modesta. Ele continuou:

– Ontem passei por aqui e vi as flores. Achei muito bonitas. Mas hoje estão ainda mais bonitas arrumadas nesse buquê e em suas mãos.

Com o rosto pegando fogo, cada vez mais vermelho, ela mirava o buquê e mal olhava para o homem.

– Estou até com vergonha, disse ele, de lhe dizer o que vim fazer.

– Pode falar, ela disse.

– Não faz nem seis meses que minha mulher faleceu, contou ele, uma sombra a invadir seu rosto bem escanhoado. Eu pretendia comprar flores para levar para ela, as da floricultura são tão vulgares e ela era uma mulher fina, elegante.

Ela continuava a contemplar o buquê, com ligeiros relances ao rosto dele. Suspirou.

– São as primeiras do meu jardim e vou levá-las para por na sepultura de meu pai.

– Então, disse, agitando as mãos, não há o que pensar. me desculpe tê-la importunado.

– Por favor, ela queria encontrar uma forma de satisfazê-lo sem ter de entregar as flores, apreciara muito o moço, não conseguiria chamá-lo de velho e ele não era, não devia ter mais que 50 anos, não fique chateado. O que posso fazer é lhe prometer cultivar mais dálias para que no próximo ano…

O sorriso dele a tranquilizara. Ele estendeu a mão, ela segurou o buquê com a esquerda e enxugou a outra mão na saia para cumprimentá-lo. E ficou observando ele caminhar calmamente para um carro preto estacionado um pouco adiante. Simpático, ela pensou, mas ele foi parar no baú das lembranças inúteis, já atulhado de bobagens.

O mês transcorreu na rotina apaziguante de casa/escola, cozinha/jardim e o natal chegou sem alarde, a mãe preparou bolo e biscoitos de polvilho para os netos que viriam vê-la. Surpresa foi a chegada de Marina, filha bastarda do irmão José, o mais velho dos oito. Marina nascera de uma aventura do pai, estava com 11 anos, e seus irmãos legítimos beiravam os 15/16. Vivia bem com a mãe, sustentadas pelo pai, e a mulher dele só aceitava esse gasto extra, esse desperdício, como dizia com a boca torta, porque tinha a certeza de que a mulher, caso ele se negasse a sustentar a filha, entraria na justiça em busca de pensão, o que poderia sair bem mais caro. Sabia de casos.

Magra e miúda, quieta, inteligente e simpática, Marina em datas especiais se reunia à família, que no resto do tempo fingia ignorar sua existência. No início do mês a mãe da menina fora atropelada e morta em frente ao mercado municipal. Não havia quem ficasse com ela e a mãe de Isabel a acolhera, tirando-a da casa de vizinhos. Isabel gostava da sobrinha e vice-versa. A chegada da garota, os arranjos para consolá-la e acomodá-la tornaram o mês rápido em seu transcurso. Prestativa, a menina ajudava na confecção de doces e salgados, no trato da criação miúda e do jardim. E foi ela, às vésperas do natal, que avisara a Isabel que um senhor distinto a chamava no portão.

Quem será, perguntou-se, as mãos brancas de farinha de trigo, que foi limpando no avental enquanto caminhava para o jardim. Eu não esperava, disse mais tarde a uma cunhada mais perguntadeira, mas era o Robson. Robson era o apreciador das dálias.

– Desculpe o incômodo, disse ele, o sorriso simpático a humanizar o rosto de executivo atarefado, passei por aqui, me lembrei das dálias e vim vê-las. A senhora me permite? Sorriu encabulada pelas mãos esfarinhadas e abriu o portão. Os pés de dália ainda não se haviam recuperado dos cortes de finados, mas as roseiras estavam em plena floração, duas ou três cores diferentes, exibidas e exalantes. Os olhos dele se perderam na observação. Nosso país é engraçado, disse ele, a primavera acabou há poucos dias mas seu roseiral está lindo. Olhou-a com carinho. Acho que é a senhora a responsável por tanta beleza fora de hora.

Mais uma vez ficara vermelha, o que a enraiveceu. Não era mais adolescente, droga. O que o homem havia de pensar? Sentada no murete da varanda, a sobrinha via divertida o seu constrangimento. Desculpe minha ousadia, disse ele ao perceber o desconforto dela, mas não há outra explicação. Ela sorriu, ainda encabulada. Ele achou que a incomodava, se apressou em dizer. Não se preocupe, sei que está ocupada, já vou indo. Mas antes me diga, sobrou alguma das suas empadas deliciosas?

Dessa vez quase se engasgou, como ele sabia? Rapidamente disfarçou sua surpresa e gritou para a sobrinha buscar o tabuleiro de empadas. Qual o problema, se perguntou, dele saber de sua atividade culinária? Não estava ali na frente dele com as mãos sujas de farinha de trigo? E era alguma coisa feia, clandestina, pecaminosa, produzir empadas para vender? Recuperada estendeu-lhe o tabuleiro. Ainda não dissera uma palavra em todo aquele tempo, só um grito. Gente, quando vim da roça não era muxuanga assim.

Ele pegou duas empadas e sorriu pra ela. Vou comer em casa, com uma taça de vinho, me deliciar. São uma especialidade, as suas empadas. Quanto custa?

Trouxe do bolso da calça a mão com dinheiro. Ela se chocou, não soube dizer porque, só achou inadmissível que um homem sensível, que apreciava dálias e rosas, pagasse pelas empadas. Foi como se justificou com a mãe, que a ouviu surpresa e divertida.

Mesmo com a mão suja, sem nada dizer, impediu que a mão dele com o dinheiro continuasse a se exibir. Não foi choque, descobriu mais tarde, e sim uma sensação atordoante o toque em sua pele daquela mão branca, fina, bem tratada, tão diferente da de seu pai e irmãos.

Bom, se não quer receber, ele disse sorrindo, de repente desajeitado e aturdido, só me resta lhe desejar um feliz natal. E se curvando beijou-a de leve no rosto. De leve, uma pinóia, pensou ela, ficou cravado em sua face o toque úmido dos lábios dele.

Nos dias seguintes encarou o encontro como uma espécie de vertigem, sonambulismo, miragem. Perguntou a sobrinha se ela vira o homem, se esquecendo que a menina lhe levara o tabuleiro de empadas. Claro, tia, um homem bonito, bem vestido, cheiroso, fala bem, tão distinto. E acho que está apaixonado pela senhora. Deixe de bobagem, menina, gritou, exaltada, ela que nunca perdia a linha, ninguém se apaixona por uma mulher na minha idade, muito menos um homem de categoria como ele. É educado, gostou das empadas, já devia ter comido alguma em outro lugar, veio comprar mais, tudo muito natural. Não seja maliciosa! Só acho que fui grosseira, devia ter arrumado um buquê com as rosas que ele gostou e lhe presenteado.

A vida voltou à pasmaceira do primeiro trimestre. Providenciou a transferência de escola para a sobrinha, comprou-lhe roupas e cadernos, o pai achou que ao entregá-la às parentes se isentava de ter de sustentá-la. Foi atrás dele, não senhor, a filha é sua, a cunhada deu chilique, ainda bem que a garota não estava por perto, já não basta eu ter de sustentar a mãe fazendo salgadinhos? E acha que uma abóbora e uma rama de aipim são suficientes para nos alimentar e vestir? Não senhor, para mim e mamãe nada quero, nunca pedimos nada, mas eu mesma vou dar entrada na justiça de pedido de pensão alimentícia se você não continuar a sustentar a menina, aí incluído pagar os meses de dezembro e janeiro, propositalmente esquecidos por causa da morte da mãe dela, pensa que não percebi? Quero o dinheiro na minha mão, no máximo amanhã. Essa sua irmã é uma mercenária, reclamou a cunhada. Custa cuidar dessa coisa? A paz do nosso lar não é mais importante do que a bastardinha?

De rejeitada basta eu, pensou ela, enquanto voltava para casa de ônibus, furiosa. Quanto a mim nada posso fazer, foi a vida quem me rejeitou, me deixou na prateleira, virei refugo, boa para cuidar de mãe viúva e sobrinha órfã. Tudo bem, não posso lutar contra a vida, mas não vou deixar que Marina passe pelo mesmo sufoco e frustração.

Na Páscoa foi surpreendida pela chegada por um mensageiro com uma cestinha com ovos de chocolate e um simples cartão onde o senhor distinto dizia que por melhores que sejam as delícias de chocolates não se comparavam às suas empadas divinas. O cartão era assinado por Robson, o que fez seu coração se acelerar. Espere um pouco, pediu ao rapazinho uniformizado, correu para dentro de casa e esvaziou a cesta, colocou todas as empadas que haviam sobrado e de volta ao jardim cobriu-as com rosas, que cortou nervosamente, com ânsia. O rapaz levou a cesta e ela sentou-se num banco de madeira improvisado sobre tijolos, arfante, a mão sobre o coração. Não posso pensar bobagens, não devo me iludir, se houvesse interesse, ele não ficaria tanto tempo sem dar sinal de vida. Tenho de me acostumar a, em algumas datas festivas, receber um mimo da parte dele e agradecer com rosas e empadas. Bem prosaico.

À noite Robson veio agradecer as empadas. Não contava com a visita, não tinha se arrumado, sentiu-se uma mocoronga diante do homem sorridente e bem vestido que exalava uma fragrância suave que parecia grudar nas paredes de suas narinas e detonava uma gastura em seu peito que lhe tirava a naturalidade. Sua mãe gostou dele, vê-se que é um homem de classe, roupas finas, deve ter dinheiro, e a sobrinha concordou, dizendo que era um coroa enxuto. Tia, não perca a chance, disse ao acompanhá-la à cozinha para pegar mais salgadinhos. Psiu, respondeu Isabel, olha a saliência!

Quase não falou, intimidada, a instâncias de sua mãe ele contou que era empresário, viajava muito e vivia só. Pensava sim em tornar a se casar, só que não queria mulher pra ficar em casa esperando por ele, queria uma companheira para viagens de negócio ou a passeio. É difícil achar a pessoa ideal, né? indagou a mãe. Não, ele respondeu, já achei.

O casamento de Isabel e Robson aconteceu seis meses depois, festa discreta como a noiva e importante como o noivo, um dos maiores empresários do estado, cobiçado por mulheres de todos os estratos sociais, principalmente os mais altos. Marina foi adotada pelo casal, estudou nos melhores colégios, fez pós-graduação no exterior e hoje mora e trabalha em Brasília. A velha mãe não durou muito, desde a morte do marido vinha decaindo, mas teve o conforto e atendimento médico especial até morrer. Isabel custou um pouco a se adaptar à nova vida, até que um dia teve uma conversa séria consigo mesma e passou a usufruir de tudo de bom que a vida lhe oferecia. (SJB,26.05.2010                   

O BELO ADORMECIDO

A mulher olhou o rapaz esparramado na cama, entre lençóis e travesseiros, um fio fino de baba a lhe escorrer pelo queixo. Por mais que o chamasse, sadisse, gritasse, sequer abria os olhos. Escancarara a janela para que a luz do sol o incomodasse e nada. Não sabia mais o que fazer. A hora, impiedosa, corria. Respirou fundo, enfurecida mais que desanimada, ciente de que ele nunca conseguiria cumprir horários.

– Se você continuar assim, comentava, consternada, nunca será nada na vida. Vai perder todas as oportunidades por causa dessa preguiça infernal.

Como mãe sentia-se com todas as razões do mundo para se preocupar.

– Não é preguiça, informou um médico a quem ela consultara informalmente. Pode ser anemia ou apenas o ritmo existencial dele. Tem gente assim, de manhã não funciona, à noite está com força total. Cada um tem seu próprio ritmo vital.

Ricardo não conseguia acordar antes das 11 horas da manhã, por mais barulho que ela fizesse. Certa manhã jogou um copo dágua fria na cara dele. Abrira os olhos, parecendo nada enxergar e no primeiro descuido caiu de novo no sono. De manhã dormia em qualquer lugar, na poltrona, na mesa do café e até pendurado no balaústre do ônibus.

– Desisto, dizia a mãe, deixando cair os braços roliços, você não tem jeito. Por que não é como seus irmãos? choramingava.

Eram três irmãos, sendo ele o do meio Totalmente diferente dos outros na disposição para o trabalho e estudo, no humor e no físico. Humor no período em que estava acordado. Alberto, o mais velho, magro e alto como um varapau, estava pra se formar em medicina e Leandro, o mais novo, gordinho e simpático, cursava engenharia. Ele tinha altura média, era bem feito de corpo, um tanto atlético graças a uma sugestão do médico para que freqüentasse uma academia de ginástica, o que fazia à noite, onde namorava mais que se exercitava. E tinha olhos cor de violeta.

– Nunca tinha visto olho dessa cor em ninguém, estanhava a mãe. Se não tivesse parido você em casa, podia jurar que tinha sido trocado na maternidade.

– Tem olho cor de flor, festejava a vizinha adolescente, que morria de tesão por ele.

Um parente que morava longe e nunca o vira, encontrou-se com mãe e filho na rua e encarou-o – na época um pré-adolescente – e disse, encantado: ele tem os olhos do bisavô!

– Você conheceu o bisavô?

– Claro, morreu lá em casa, mamãe cuidando dele.

A partir daí respirou aliviada e pode dizer a quem estranhasse a cor, até com orgulho:

– Puxou ao bisavô, parece que o velho era alpino.

– Albino, você quer dizer.

– Não, respondeu impaciente, alpino, dos Alpes, na Europa. Descendemos de europeus.

Com o tempo, o menino Riquinho se transformou num belo e insaciável homem. Não resistia a uma mulher. Desde que não fosse pela manhã, claro!

Pelo excesso de sono e de beleza, Riquinho era uma fonte de permanente preocupação para a mãe. O pai achava que era resultado da adolescência que tardava a deixar o filho.

– Deixe ele arrumar um bom emprego que tudo isso vai passar. Quero ver se trabalhando o dia inteiro vai ter disposição pra essas orgias.

– Que orgia? gritava a mãe, que emprego? Esse menino não quer nada com a hora do Brasil. E desde quando levar uma garota a um motel é orgia? Que coisa!

O pai se orgulhava muito do filho bonitão e garanhão. Era tudo que sonhou ser a vida inteira. Por ele o filho viveria sempre assim, usufruindo do bom e do melhor que a vida podia dar, comendo as mulheres lindas, ele nunca fora fisicamente bem dotado, nem audacioso o suficiente para conquistar as mulheres. Os outros dois eram uns bolhas. Saíram à mãe, afirmava.

Riquinho, porém, precisava trabalhar, os rendimentos do pai somados às economias da mãe mal davam para sustentar a casa. Os irmãos ganhavam o suficiente para prover o próprio futuro, nenhum conseguira ingressar em faculdade pública. Era necessário que Riquinho arrumasse uma maneira de ganhar dinheiro. Estudara até o curso médio, aos tombos, ajudado por mestras e alunas apaixonadas, e pensava em cursar uma coisa leve, turismo, relações públicas, artes ou cursos semelhantes, nada que tomasse muito seu tempo e pudesse ser estudado à noite.

Convidado a trabalhar como modelo se decepcionara, não vira glamour em ficar horas de pé experimentando roupas, empurrado daqui e dali, mexido, avacalhado, como se fosse um boneco. Até a mão no seu sexo haviam passado e recebera convites marotos para sair com uns caras afrescalhados e abusados. Nada disso, muito cansativo. A mãe, que havia ficado orgulhosa com o convite, curtira a ideia de ver o filho brilhando numa passarela e ganhando um salário alto, desanimou.

– Mãe, tem dó! O pessoal tem que chegar lá muito cedo, eu não ia conseguir! E passar o dia inteiro de pé, trocando de roupa na frente dos outros, ouvindo piadinhas, nunca mais!

Convidado a trabalhar como barman, recebera treinamento, uniforme, e o principal, o horário era ideal, começando depois das cinco da tarde. Mas, sempre havia um mas na vida de Riquinho, não tinha salário, viveria das gorjetas, um ganho instável, dias bons, dias péssimos, o tempo todo em pé, sacudindo a coqueteleira, enchendo copos, sacando rolhas e tampas de garrafas, ouvindo má-criações, cantadas, desaforos, não, não!.

Outro convite que o tentara foi ser estriper ou gogo-boy, dançar tirando a roupa num clube de mulheres, protegido pelo palco e em horário noturno, dinheiro enfiado na sua sunga e… não, nada disso. Ia se sentir um prostituto.

Estava difícil, começava a se sentir mal, todos da casa trabalhando, até a mãe, ora na cozinha, ora no tanque, ora passando roupa, ora costurando, só ele sem fazer nada, dormindo, comendo, assistindo televisão, eta vida de bosta!

Saía andando sem rumo, talvez encontrasse colegas da rua, pelo menos não se sentiria constrangido em ver o esforço dos familiares, enquanto ele… Numa das caminhadas sem rumo, seguindo reto ou dobrando esquinas, na porta do bar da esquina encontrara o velho Ariosto de guerra, copo de cerveja na mão, cigarro pendurado no queixo, sorriso de sedutor sem sorte, que abriu os braços ao vê-lo, cheio de entusiasmo.

– Salve, Riquinho, o homem dos olhos cor de violeta. Tudo bem, mermão? Comendo muita mulher boa por aí?

Na voz dele a velha ponta de inveja. Ele se encostou no umbral da porta do bar.

– Tô é puto!

E falou longamente da pasmaceira em que vivia, da dificuldade de se adaptar ao ritmo de vida da família, de arrumar emprego, descolar uma grana.

– Quanto a ganhar uma nota, mermão, é facinho, replicou Ariosto, depois de encher o copo Tem umas madames aí a perigo… coisa fina, gente graúda.

– Sem essa, cara, nada de sexo pago, respondeu se irritando, quero é emprego de verdade, carteira assinada, não sou garoto de programa.

Ariosto tomou mais um gole de cerveja.

– Peraí, deixa eu me lembrar, acho que foi o Zeca, não sei, um nosso conhecido estava falando de uma empresa, ui, falar em empresa me deixa arrepiado, acho que é alergia. Sério, tem uma empresa, onde trabalha o Zeca, acho que é, que estava abrindo inscrição pruns cargos. Não deve ser grande coisa, mas já que tu tá tão aflito, vai lá.

No dia seguinte, por volta do meio-dia, Riquinho chegou na empresa. Hora de almoço, salas e corredores vazios. Sentou-se na cadeira estofada da sala de espera, junto com um monte de esperançosos candidatos. Outro tanto havia sido entrevistado pela manhã. Não, ninguém sabia dizer se a vaga fora preenchida. Chegara tarde, mandaram que esperasse a chefe do RH. Riquinho encostou a cabeça na parede e fechou os olhos de flor. Não havia dormido o suficiente, ao saber da possibilidade de emprego, sua mãe quase o derrubara da cama.

– Acorda, Riquinho, acorda pelo amor de Deus, meu filho! Você não pode perder essa oportunidade. Acordaaa!

Ela queria que fosse de terno e gravata, nem pensar. Com esse calor? Botou camisa de malha, decididamente não nascera para trabalhar em escritório. O ar condicionado da sala de espera silenciosa estava ligando e num minuto ele adormecia, abraçado ao currículo. Sonhou coisas incríveis, nada dos sonhos torturantes do seu quarto quente, nem lembranças do rompimento com a última garota, ela aos berros, não aceitando que o romance acabara. Fazer o quê? Riquinho não conseguia gostar de ninguém, enquanto sentia tesão tudo bem, era amante ótimo, todas diziam, mas no dia em que a cara da mulher lhe provocava azia, aí não tinha jeito. Um beijo, me liga depois.

Ia o sonho em meio, gostoso de provocar sorriso no sonhador, quando um berro atroou os ares da sala. Como passava de uma da tarde, o barulho surtiu efeito e abriu os olhos para ver uma senhora, de mais de 40 anos, numa roupa horrível, rosto vermelho, na sua frente a berrar, não entendia bem o que. Olhou para o lado e viu os outros de pé, o terror estampado nas caras.

Essa mulher é louca, pensou, e levantou-se. Olhou-a com desgosto, e pensou que não ia ficar ali a ouvir seus gritos. Virou-lhe as costas e se encaminhou para a porta.

– Onde o senhor pensa que vai? berrou ela, furibunda.

– Pra bem longe seus gritos, respondeu sem alterar a voz. Vim me candidatar a uma vaga e não pra ouvir uma velha histérica a me aporrinhar.

Sabia que o emprego se fora a partir do momento em que ela o surpreendera cochilando, como se isso fosse um crime, e portanto não tinha de ficar ali a aturar seu ataque de falta de educação. Se ela fala assim comigo sem ser empregado da firma, imagine depois.

– Olhe pra mim enquanto eu estiver falando, continuou ela, várias oitavas acima do permitido por lei para o ouvido humano.

Foi seu erro. Debochado, atrevido, ele a encarou, sem medo. Depois ela contaria às amigas do pôquer:

– Uma covardia. Ele me atingiu em cheio com os raios ultra-violeta de seus olhos e me arriou. Estava carente, meses sem interesse e de repente… olha, fiquei passada, muda, arrastada por aquele olhar para o fundo do mundo, onde nada importa, nem idade, nem compromissos. Só sei que berrei, estava realmente histérica, depois de passar a manhã entrevistando um monte de idiotas e ainda tendo outro monte pela frente. Tresvariei quando, indiferente, ele voltou a andar em direção à porta.

As amigas sideradas, cartas imóveis nas mãos, fixavam seu rosto alterado. Estava quase em pé, o assento da cadeira esperando a volta de suas nádegas.

– E aí? perguntou Adele, nervosa.

– Aí? Nem te conto. Como ele continuava a andar e pressenti que mesmo num pulo não o alcançaria, mandei o segurança detê-lo. Não podia deixar aquele homem escapar. Ele levantou os braços e avisou, com calma:

– Não bota as mãos em mim, que faço uma merda.

Foi o tempo para conseguir chegar até ele, e por incrível que pareça, nesse espaço de tempo minha raiva se evaporou e sem me importar com quem passava, com a voz mais doce deste mundo pedi que me acompanhasse à minha sala.

– Vai me prender? perguntou, sentindo o que acontecera, o safado está acostumado c essas cenas.  Depois me senti ridícula, gloriosamente ridícula, quando finalmente, depois de muita conversa, inclusive de assinar sua carteira como empregado da firma, o que sua mãe exigia, mergulhei no roxo mar de seu corpo, digo, de seus olhos.

            F I M 

 

O MUNDO VAI ACABAR…

O mundo vai acabar em 2000, repetia o pessoal do bairro, entre descrente e apavorado. Alguns moradores, como eu, adolescente de 16 anos, perdido entre adultos debochados ou supersticiosos que falavam no assunto em meio a piadas e risadinhas nervosas e expressões tensas, ficava com as mãos suadas e o pensamento descontrolado. O medo me dominava. Ninguém era capaz de me garantir que isso não aconteceria. Era uma ameaça ouvida dos pais e avós: o mundo iria fatalmente desaparecer no ano 2000. Uma profecia bíblica. Mas o Firmino do bar, que lia as muitas revistas e jornais que catava nas lixeiras em seu passeio diário pelas ruas do centro, e sabia de muitas coisas, dizia:

– Eu não acredito. Os judeus estão comemorando mais de cinco mil anos, é sinal que o ano 2000 já passou. Os papas é que inventaram essa nova numeração do calendário

– É 2000 depois de Cristo, sua besta! rebatia Genando.

– Do nascimento ou da morte de Cristo? replicava Firmino, irônico.

O assunto era sério e mobilizava corações e mentes do bairro supersticioso.

Meu medo deu um salto de qualidade depois de ouvir, numa ida à cidade para pedir dinheiro ao homem que minha mãe dizia ser meu pai, o que eu não acreditava, acho que nem ele, pois nem me olhava direito ao entregar a grana, vi um cidadão grisalho, metido num terno escuro e brilhoso, o gogó apertado por uma gravata amassada, suando muito sob o ardente sol de verão no Largo da Carioca, feições torturadas e voz rouca, apontar o livro ensebado que portava e exigir aos berros que os passantes se arrependessem dos seus pecados, pois faltavam poucos dias para o mundo se acabar.

– O mundo vai arder, desaparecer em meio à fumaça, abatido pelos pecados de vocês, berrava. O mundo não suporta mais tanta iniqüidade, tanto desrespeito às leis divinas.

Olhos de fogo, mãos em garra, era um monstro o que eu via. Um frio percorreu minha espinha.

– De dois mil não passará, diz a Bíblia, gritava alucinado, os olhos entortados em direção ao céu. – A baba escorria de sua boca desdentada e a mão batia vigorosa no livro de capa negra. – Está aqui no Livro Sagrado. De dois mil não passarás, terra de ímpios! Palavra do Senhor!

E citava sem pestanejar nem gaguejar o versículo da Bíblia que informava o fim da aventura terrena. Muitos paravam para ouvi-lo. Alguns se afastavam compungidos, sua figura impressionava. Quase me borrei de tanto medo, mas não conseguia sair dali. Não me lembro como voltei pra casa.

Durante muitos dias ressoou em meus ouvidos sua voz cavernosa a imprecar:

– “Arrependei-vos, pecadores, que o Juízo Final está próximo!”

Naquela noite, depois do jantar, que engoli com dificuldade tal a constrição da garganta por causa do terror, inquieto, nervoso, sentei na calçada alta em frente ao bar do Firmino e contei o que me preocupava a meu amigo Miguel, poucos anos mais velho que eu, meu amigo de fé. Miguel era o único que dava atenção a meus problemas, me ouvia e discutia de igual para igual, não ria de minhas bobagens nem se mostrava superior ou desdenhoso. Como eu gostaria que meu pai fosse, se soubesse quem ele era.

– Cê acha, Miguel, que o mundo vai acabar mesmo em 2000? Falta tão pouco tempo…

Ele levantou os ombros magros, manifestando sua dúvida, o que me deixou ainda mais angustiado. Olhou para a frente, para o clarão das luzes da cidade.

– Vai ser no início ou no fim de 2000? perguntou, com voz sumida.

Para mim a pergunta indicava que ele acreditava na profecia.

– Se for no final, continuou, ainda temos uns meses para fazer algumas coisas, mas se for no início…tô ferrado, o natal tá chegando, minha formatura também… pô, o mundo vai acabar logo na época de fazer o vestibular? Sacanagem…

– E o que a gente vai fazer então? indaguei cheio de medo, torcendo as mãos.

A pergunta tinha cabimento por que Simone, a vizinha estudiosa que completava nosso trio, numa conversa dias antes sobre o mesmo assunto, tinha declarado, decidida, que não ia esperar para ver o fim do mundo.

– Imagina, disse, fazendo um gesto circular com o braço, tudo isso aqui pegando fogo, gente morta no chão, o Sorvete com o pelo em chamas – Sorvete era um poodle que ganhara de uma colega da escola, branquinho como sorvete de coco – minha mãe, meu pai caídos, ui, nem gosto de pensar, me dá vontade de chorar, de sair gritando, não quero ver isso não, me mato antes.

Miguel, que sempre fora louco por ela, desde pequeno, envolveu seus ombros com o braço, apertando com carinho, o que me fez levantar e sair de fininho pra não atrapalhar. Fiquei perambulando por ali, pensando no que ela havia dito, a imaginar as pessoas caídas no chão, olhar esbugalhado para a testa, como se quisessem ver o céu em fogo por trás de suas cabeças, que pavor, meu Deus! Chorei bastante e custei muito a dormir.

– Será que Deus não vai ter pena de nós? indagava Simone, chorosa.

– Quem tem pena é galinha ou passarinho, interveio Firmino, sempre zombando do nosso medo, embora de vez em quando manifestasse suas apreensões.

Miguel e Simone eram meus melhores amigos e minha mãe ficava satisfeita com isso, dizia que os dois eram os únicos jovens decentes da rua, que não fumavam, bebiam ou usavam drogas. Estávamos sempre juntos, estudávamos na mesma escola, embora Miguel se formasse no fim do ano, Simone no ano seguinte e eu um pouco depois. Tínhamos um sonho comum, estudar, nos formar em alguma coisa, arrumar um bom emprego e nos mudarmos dali. Miguel queria mais, queria ser doutor, mas para isso precisava de dinheiro. Sua família era pobre, o pai carroceiro, a mãe diarista, e os irmãos mais velhos, ignorantes e preguiçosos, pouco ajudavam a realizar seus sonhos. A mãe o adorava, era o caçula, o mais inteligente e estudioso, e ela pretendia morrer no batente desde que ele pudesse se formar. Em qualquer coisa. Ela dizia que diploma era a chave mágica que abria as portas dos palácios.

Desde que passara a faxinar a casa de dona Mercedes Silva, viúva rica e generosa, que a presenteava com roupas, livros e objetos usados em boas condições, conseguira a televisão a cores, que reinava na sala e impedia que os filhos marmanjos saíssem pelas noites a arrumar encrencas. Sua próxima aquisição – assim chamava os presentes – era um computador.

Sentado na beira da calçada, olhando a lua subindo pelo céu, vermelha como uma bola em brasa, eu imaginava que o fim do mundo deveria começar assim, com a lua pegando fogo, caindo na terra, espalhando faíscas, provocando incêndios nas cidades e no mato. A cada manhã eu me perguntava: será hoje? Um tormento. Não me cansava de falar no assunto com meus amigos e acho que contagiei Miguel, que certo dia me disse:

– Tava pensando em procurar emprego, olhar uns anúncios nos jornais, mas acho que o esforço não vale a pena se o mundo vai acabar logo. Trabalhar um mês? Pra quê?

Miguel era sensato e decidiu que o melhor a fazer era cuidar da formatura, a sua turma ia fazer festa, só havia cortado a missa, ainda não chegara o tempo dos cultos ecumênicos, mas a colação de grau era indispensável. Receber o diploma e correr pros braços da mãe orgulhosa isso ele não dispensava. Nem ela.

Ela entrou numa maratona para conseguir o traje da formatura. Com o velho Simeão, cuja casa limpava às sextas-feiras, conseguira um par de sapatos pretos quase novos, ele só usara uma vez, tinham ficado apertados, as meias e um lenço com o Dr. Jacinto, das quartas-feiras, e dona Mercedes arrumara o terno, novinho em folha, tinha sido do marido, que nem chegara a usá-lo, sofrera um infarto fulminante um dia antes da festa onde ia estreá-lo. Com alguns ajustes, ficou ótimo nele. Com o mal-humorado Scaffin, dono de uma loja de roupas que ela atendia às segundas-feiras, a gravata. Italiana, ele garantia, com seu sotaque enjoado.

Minha mãe trabalhava na limpeza de um escritório de contabilidade e usou parte do seu 13º salário para comprar uma roupa decente e um par de tênis que eu namorava há tempos para ir à festa do amigo. A mãe de Simone era costureira e ela andava sempre bem vestida.

– Pena que seja meu primeiro e último terno, murmurou Miguel, melancólico, olhando a roupa estendida na cama, pronta para ser usada.

A festa de Miguel foi linda, fiquei orgulhoso de meu amigo. Simone chorou abraçada a ele. A mãe impava de orgulho, os irmãos riam de lado, cheios de despeito.

 – Agora, disse a mãe à professora, com os olhos cheios de lágrimas, ele vai conseguir um bom emprego e prosseguir nos estudos. Esse vai ser doutor, se Deus quiser.

– O mundo vai acabar, eu disse, desconfortável, cortando a euforia.

– Que bobagem isso de mundo acabar, zangou-se a professora, desde que me entendo por gente que o povo diz isso, é hoje, é amanhã, as pessoas se acabam e o mundo continua.

– Quem garante? perguntou Miguel quando ficamos sozinhos.

– Fiquei mais aliviada, confessou Simone, se a professora disse isso…

– É, mas por via das dúvidas, na noite do ano novo vou vestir essa roupa nova porque se morrer quero estar apresentável para ver são Pedro. Ninguém recebe bem quem está mal vestido e quero chegar no céu bem arrumado.

A conversa me provocou um mal estar que me tirou a fome e desarranjou o intestino. Eu só pensava no fim do mundo que se aproximava com a velocidade de um avião a jato. Adoeci e de pernas bambas acompanhei Miguel no seu ato final.

Ele estava imponente no terno de formatura e o sorriso fora substituído por uma tensa  carranca. De mãos dadas com Simone fomos para o bar do Firmino, de onde teríamos boa visão dos fogos do reveion na orla. Eu sentia cólicas, mas me segurei, não ia deixar meu grande amigo só numa hora dessas.Chegaríamos juntos no céu.

Nunca mais me senti tão mal como naquela noite. Na nossa rua não havia reveion ou nada parecido, apenas a comida que em algumas casas era um pouco melhor. Minha mãe ganhou um chester dos colegas de trabalho, dona Mercedes deu um peru e um presunto para a mãe de Miguel. A ceia seria servida às famílias depois dos fogos. Se o mundo não acabasse, claro.

E não acabou. Transido de medo vi o céu, iluminado por cores fosforescentes, voltar a ficar escuro, só um ou outro foguete a iluminar o espaço. Muito sério, Miguel aguardava o fim que não vinha, de mãos dadas com a namorada. E eu junto.

Foi quando Firmino, que já devia ter tomado uns vinhos, surgiu na porta do bar, a rir bestamente. Gritou pro Miguel, com voz engrolada:

– Viu, seu babaca, o mundo não acabou. Já passou da meia noite. Vai fazer o quê agora?

Miguel pensou um pouco, ergueu os ombros, olhou para o céu e disse:

– Amanhã vou procurar emprego.

         10/11/2010

                                                       F I M

RECORTE DE VIDA           

A velha casa ficava do lado direito da rua, bem no centro de um terreno mal cuidado. Diziam que fora a residência do caseiro de um sítio que ali existiu. A casa grande fora demolida ou desmoronara e a que restara não estava longe disso, com suas paredes descascadas, portas e janelas bambas. Ao fundo, esquálidas bananeiras agitavam incessantemente suas folhas rasgadas. Quase junto ao ângulo esquerdo, uma jaqueira frondosa, sempre carregada de seus rugosos frutos, que nenhum moleque da rua pegava, mesmo quando se esborrachavam no terreiro, espalhando seus gomos cheirosos no capim ralo.

    Ali morava um homem jovem, fraco dos pulmões, doença mortal, contagiante, que pegava até pelo ar. Sua figura esquelética, quase diáfana, pálida, era pouco vista pela vizinhança. Nas manhãs de sol podia ser entrevisto o vulto amarelo e transparente, vestido com largos pijamas, que qualquer brisa fazia dançar em torno de seu corpo anguloso e o levava de volta à casa. Esse antecipado fantasma era o terror da criançada e das velhas, que compungidas se benziam ao vê-lo de longe.

     Numa manhã nublada uma ambulância o levou, estirado numa maca, as mãos ossudas se mexendo ao ritmo de sua respiração difícil. A seu lado, uma mulher sem idade, cabelos grisalhos presos num coque, um grande lenço quadriculado cobrindo a parte inferior do rosto. Só era vista na rua quando ia à venda ou à quitanda, supunha-se que fosse sua mãe ou parenta próxima, abnegada. Uma aura de simpatia a envolvia por parte daquele povo que nessa manhã se ajuntava a certa distância para observar a partida do moço. Era admirada, de longe.

     Nunca mais voltaram e a casa ficou fechada, fantasma de tijolo e cal, um abismo, uma gruta, uma caverna onde nem os moleques mais atrevidos se aventuravam penetrar. Bananas apodreciam nos cachos, jacas se desfaziam no chão, atraindo pássaros e insetos com seus cheiros e cores irresistíveis. Ninguém ia pegá-los.

    Em frente à casa abandonada se abrira uma nova rua, ainda não de todo ocupada por moradias, como uma gengiva com falta de dentes. A rua, tão enlameada quanto a rua  principal, se perdia num matagal ao longe. Era terreno propício a aventuras, correrias, esconderijos, sacanagens, da garotada indócil.

    Os dois primeiros lotes custaram a receber construções. O da direita, esburacado com ferocidade para a colocação de alicerces, transformara-se numa piscina barrenta, onde flutuava um tronco da bananeira, boia, trampolim, embarcação para a imaginativa turma de garotos. A chuva interrompera a colocação das pedras. Choveu muito naquele ano e tudo, crianças inclusive, parecia flutuar no lodaçal.

      O lote do lado oposto era um terreno baldio de igual tamanho, coberto por capim e moitas de plantas rasteiras, que ostentavam entre seus ramos raquíticos e retorcidos, inesperadas e gritantes flores de um serelepe alaranjado. Largas folhas de aboboreira, ásperas e hostis, surgiam por entre o capim e escondiam poças, carrapatos e outros bichinhos incômodos.

     Uma cerca de madeira indicava o limite desse lote e toda manhã, cinco ou seis barulhentas crianças ali pousavam, agitadas como um bando de maritacas, gritando ritmadamente para o gordo pai que seguia para o trabalho, o paletó escuro e seboso aberto sobre o barrigão, a pasta de couro preto lhe pesando nas mãos:

– Té logo, papai! Vai com Deus!

      Ao que ele respondia com dificuldade, enquanto avançava cautelosamente por entre as poças:

 – Amém!

F I M

ZECA                         

A brisa noturna vinda do mar refrescava o salão do hotel cassino que regurgitava de pessoas alegres, que dançavam, conversavam, apreciavam o movimento ou escutavam a música tocada pelo regional. No final do salão, havia um arco com um biombo de madeira que ocultava, sem esconder de todo, o salão reservado aos jogos de azar, bingo, roleta e bacará. No fundo do salão, sobre o estrado de madeira, Ivone, bela morena, cantava ao microfone os números gravados nas bolas que retirava da esfera de metal.

Garçons corriam esbaforidos de um lado para outro, suando, equilibrando bandejas nas pontas dos dedos, se desviando de obstáculos de toda a espécie. Ao sair da cozinha, por pouco Zeca não bateu de frente no colega que chegava com a bandeja cheia de copos e pratos usados.

– Olha por onde anda, gritou o que entrava.

Zeca seguiu seu caminho, sorrindo. O gaiato sorriso só deixava seu rosto quando se transformava numa gargalhada. Alegre e brincalhão por natureza, Zeca era moreno, com cerca de 1,60 metros de altura, tinha um rosto bonito emoldurado por cabelos lisos e castanhos. Era esperto, conversador e querido pelos que o conheciam. Gostava de azucrinar o juízo dos outros, fazer molecagem como passar discretamente a mão na bunda do colega enquanto ele atendia uma mesa, fazendo que perdesse a concentração e se irritasse. Não raras vezes a brincadeira terminava em desastre e Zeca levava um baita esporro do chefe. Não aprendia. Não fora despedido por causa da simpatia e eficiência.

Naquela noite, antes de ir para o trabalho, pela primeira vez beijara a namorada e seu ânimo era excelente e agitado. Era a namorada mais difícil que encontrara e enquanto seguia para o cassino, excitado, jogava beijos para a multidão de estrelas que assistira a moça atender ao que, naquela época, era considerada uma ousada prova de amor.

Pensava seriamente em se casar com ela, que tinha os lábios mais doces e macios do mundo. Além da alegria, Zeca estava cheio de paixão. Na cozinha do restaurante, apertara as gorduras do cozinheiro, se esfregara gemendo na bunda do ajudante, mexera com os garçons, ensaiara uns passos de dança ao som da música que vinha do salão, sua inquietação não tinha limites. Todos reclamavam.

Com a bandeja oscilante, seguiu pelo salão, se esquivando de um aqui, mexendo com outro ali, expandindo sua alegria e hiperatividade. Num momento em que se curvou para trás para passar por um casal que dançava apertadinho, sentiu um volume na coxa.

Por um momento ficou intrigado, o que seria aquilo? Logo se lembrou que seu amigo Rique, marinheiro em visita aos pais, lhe presenteara com um isqueiro importado que imitava perfeitamente uma mauser, arma da moda. Como não fumava, entendeu que o amigo lhe dera um brinquedinho.

Nesse momento de distração tornou a esbarrar no colega que quase derrubara ao sair da cozinha.

– Toma tento, gritou o outro. Não olha por onde anda?

Foi a deixa que ele precisava. Fingindo aborrecimento, meteu a mão no bolso, sacou a pistola e a apontou para o outro, rosnando:

–  Vou lhe mostrar quem não olha por onde anda. Vou lhe ensinar o caminho do inferno.

Com o susto o garçom deixou cair a bandeja com estrondo. Pratos, copos e garrafas se esfacelaram. As pessoas sentadas nas mesas mais próximas, viram Zeca apontando a arma para o outro e entraram em pânico. As mulheres gritavam, homens voavam pelas janelas, esbarravam uns nos outros, tropeçavam e caíam. A balbúrdia foi geral, o caos se instalou e espraiou pelo salão social e em seguida pelo salão de jogos. Ninguém sabia o que estava acontecendo, mas ao olhar na direção da porta da rua viram Zeca, de olhos arregalados, segurando a arma, surpreso com a confusão que provocara, e o outro garçom estático, braços levantados e olhos esbugalhados de pavor.

Daquela vez Zeca foi despedido.

(SJB,11/05/2010)

 

QUEM CONTA UM CONTO…

…aumenta um ponto, diz o ditado. Não é o caso, embora esta história tenha todos os ingredientes de uma lenda ou anedota exagerada. O caso se deu nos anos 50 do século passado e envolve gente da minha família. Não vou dar nomes, mas em que pese o tom rocambolessco, é a mais pura verdade. Beijo os dedos cruzados.

Nosso personagem principal era moreno, cabelos crespos, de baixa estatura, lavrador, e embora adulto, ainda vivia na casa do pai, um produtor rural. Atrevido, alegre, terno, irresponsável, sedutor, brigão, sempre a se meter em confusões, o que deixava seu pai, líder político na região, furioso, por lhe atrapalhar o trabalho de conquista de eleitores. Nosso simpático herói estava sempre pronto para uma caçoada ou brincadeira pesada. Tinha dois ou três amigos de fé, os mais baderneiros da região.

Naquela época, quando o rádio estava se expandindo para o interior e ainda não nascera a febre das radio-novelas, a diversão do povo eram os bailes das noites dos sábados. Era quando as moçoilas se empetecavam, os rapazes tomavam o banho completo – no resto da semana só se lavavam a cara, sovacos e pés – e iam ao barbeiro. Lindos e lindas se excitavam ao pensar no arrasta-pé noturno na casa do conhecido que comemorava ou não alguma coisa. Muitos casamentos surgiram nesses bailes.

Nosso herói e seus amigos adoravam os bailes, não para dançar ao som da sanfona e do pandeiro, mas para arrumar confusão e acabar com a festa. Era chegarem e a bagunça começar, fosse por causa da menina bestinha que se recusava a dançar, fosse por causa do regional caipira que não sabia tocar a música pedida. Armado o sarilho, a festa acabava entre gritinhos, empurrões, palavrões, socos e gorumbumbas voando sem rumo. Ele adorava, mas o pessoal se aborrecia e chegou a parar com as festas.

O tédio e a falta do que fazer para se distrair um pouquinho depois da dura lida na lavoura, fez com que as festas retornassem. Os dançarinos tomaram providências. A uns duzentos metros da casa puseram um observador, que viria disparado avisar quando os quatro cavaleiros do apocalipse caboclo surgissem ao longe. De imediato a música silenciava e os lampiões eram apagados, até que eles estivessem longe. Nesse ínterim, no escurinho da casa, beijos rápidos, algumas bolinagens e arrochos aconteciam, sem ninguém ver. Ou fingindo não ver, o que dá no mesmo. Era o melhor dos mundos, todo mundo feliz.

Mas, e há sempre um mas a perturbar a felicidade, alguém contou aos pilantras o que estava acontecendo. Ah, é assim!, exclamou nosso herói, indignado com o fim de sua diversão. Também criaram uma estratégia para anular a dos dançarinos, que consistia em infiltrar um agente entre os festeiros que descobriria onde seria o próximo baile. Conseguiram a adesão de um boboca que queria integrar o grupo, por não ter muito sucesso com as damas dos bailes.

A trinca esfregou as mãos de pura alegria e explicou seu plano de ação aos amigos.

Numa noite, quando o vigia vislumbrou o grupo, saiu quase às quedas para avisar aos bailantes que de imediato e sem rumor, tomaram as providências tranqüilizadoras.

A casa da festa tinha cobertura de sapê, como a da maioria das casas da roça na época. Os cavaleiros vieram num trote ritmado, conversando trivialidades, contando piadas, rindo e balançando a corda do laço com elegância, como se não soubessem do baileco. A lua prateava os canaviais. Na casa da festa o silêncio só era cortado por risadinhas em surdina das moças apalpadas.

O teto do casebre era composto de cumeeira e ripas segurando a cobertura de palha de sapê. Dois cavaleiros se adiantaram e, ao mesmo tempo que os outros dois, laçaram as pontas da cumeeira e açoitaram os cavalos, que dispararam pela estrada embranquecida pelo luar. O caos se instalou na casa quando o telhado foi arrancado e as palhas do sapê e as ripas voaram, deixando os convidados apavorados, a olhar a lua pela improvisada janela. Saíram gritando da casa destelhada.

Serelepes, os jovens baderneiros seguiram em frente. Nosso herói, depois de muito gargalhar, meteu-se debaixo dos lençóis, como se nada tivesse a ver com o feito.

A vida e a lida na roça começam cedo. Nem bem o sol acabara de barrear o horizonte e um grupo circunspeto de homens atravessou a cancela e bateu na casa do pai do nosso amigo. Ele dormia, claro, era domingo, dia de acordar mais tarde. O pai, porém, surgiu imponente na varanda, preocupado, algo de sério teria acontecido para aquele farrancho de gente amanhecer na sua porta.

Mandou que entrassem e se aboletassem nas cadeiras, mas o que parecia ser o líder, agradeceu e declinou, a visita era curta, apenas para lhe dar ciência de certas ocorrências que estavam azucrinando a comunidade. E contou, tintim por tintim, o que e quem os incomodava. E mais, se ele não pusesse cobro naquilo, iam tomar a liberdade de reclamar com o deputado. O homem se avermelhou, respirou fundo, disse desconhecer tudo aquilo, e prometeu que não iria acontecer mais. Não precisavam importunar o deputado.

Sentou-se na cadeia de balanço, a biqueira da botina a coçar o cachorro que se deitara a seus pés. Esperou a comitiva sumir na estrada e gritou para a mulher acordar o filho.

Ele chegou estremunhado, enfiando a camisa do pijama nas calças, sabendo o que ia se passar e o que precisava dizer para se safar da embrulhada. Custava crer que os capiaus tivessem ousado dar queixa a seu pai de uma brincadeira boba. E o que viu o assustou: o pai, de pé, a brandir o cinto que acabara de arrancar da calça. E não soube o que fazer senão urrar quando o cinto bateu forte no seu lombo incontáveis vezes, rasgando a camisa e lanhando sua pele. Riscos de sangue faziam sua mãe, encolhida num canto, cobrir a boca com as mãos para não gritar e os olhos arregalar para assistir à memorável surra. Os irmãos, atraídos pelo alarido e gritos do herói, se acotovelavam na porta do corredor, com os mesmos olhos arregalados da mãe diante da inacreditável cena, jamais vista depois que lhes nasceram os pentelhos.

Quando o pai se cansou e arfando voltou à cadeira de balanço, ele enxugou as lágrimas com a ponta da camisa e entrou no seu quarto, de cabeça baixa, fechando a porta. Logo depois, aturdidos ainda pela cena, todos ouviram, com nitidez, um disparo vindo do quarto. Susto, gritos, tentativas de abrir a porta, trancada por dentro. O pai, os olhos já vermelhos de arrependimento, não precisava ter batido tanto, a mãe uivando em desespero. Os irmãos fortes, unidos, se arremessaram contra a grossa porta e a arrombaram. O pai continuou sentado, os olhos turvos de lágrimas. A mãe, descabelada, buscou o corpo do indigitado filho.

Mas onde estava ele? O cheiro de pólvora enchia o ar, mas e o sangue no assoalho? E o maltratado corpo? Sem entender, os olhos de todos foram atraídos pela brisa matinal, refrescante, que entrava pela janela escancarada. De nervosismo, um dos irmãos soltou uma gargalhada. O pai nem se ergueu, nem secou as lágrimas, a vergonha e a raiva as absorveram. Onde estava o safado?

Os irmãos, como se recebessem a mesma ordem, se espalharam pela propriedade em busca do indigitado. O pai permaneceu sentado, um domingo para se lamentar por muito tempo. O moço levado foi achado metido no canavial, chupando a cana que descascara com os dentes. Pelo irmão mais novo a mãe lhe pedia que ficasse longe por um tempo, até o pai se acalmar. E pelo mesmo filho mais tarde lhe mandou o almoço, que saboreou debaixo de frondosa ingazeira. Também chegou roupa limpa. Ele sorriu, matreiro, e murmurou para os irmãos: bate forte, o velho! Ria de tudo ao contar aos amigos de farra que, sabedores do ocorrido, tinham ido se solidarizar sob a ingazeira. Com uma garrafa de pinga. O engraçadinho dormiu na casa de farinha, entre sacos de semente, enxadas, pás, facões e galinhas poedeiras. A noite refrescaria os ânimos do pai.

Acordou de supetão, não com o sol a lhe bater na cara, mas com o pai, cada vez mais solene lhe chutando a sola do pé e a lhe apontar a soiteira:

– O senhor não mora mais na minha casa, rua!

Foi morar com um dos irmãos, comerciante em Campos. Tentou aprender as técnicas de venda e atendimento aos clientes. Era ótimo com as carinhas bonitas das mulheres que iam comprar botões e fitas e desinteressado com as demais. Às vezes até grosseiro. Broncas e broncas do mano. Não gosto de trabalhar em balcão, alegou, cortar fitinhas, rendinhas, mostrar fivelas, botões, coisas de mulherzinha. Quero fazer outra coisa.

O que? se perguntava a família preocupada. Ele passara quase vinte anos de sua vida fugindo das escolas, correndo de qualquer letra escrita, mal sabia somar e diminuir, só a memória era boa. Não se esquecia de nada, garantia, orgulhoso. Os caras que me

denunciaram a papai ainda vão ver comigo. Pândego, quase analfabeto, irresponsável, mas simpático e trabalhador, desde que o deixassem dormir até mais tarde. Depois era uma máquina de trabalho.

O irmão comerciante, jeitoso, lhe conseguiu uma colocação: ia ser polícia. Comprou-lhe farda, com boné e apito e foi lançado numa esquina, depois de algumas instruções sobre como controlar o trânsito. Moleza, garantiu. Só não suportou o sol quente a transformar a farda num forno, a lhe cozinhar os miolos. Suava como animal de carga. Nas horas de folga freqüentava a repartição em busca de nova colocação. Conseguiu. Devia continuar de farda, o que foi muito bom, pois uma das funções era fazer a triagem dos candidatos a motorista para o exame de vista. Com dentes trincados e a mão dura traçava os dados necessários. Dureza, ele dizia, cada nome grande!

E como a sorte parecia persegui-lo, fez chegar à sua mesa um colega das derrubadas de telhado na roça. Se abraçaram, recordaram, riram muito, e o colega lhe contou que tinha um problema: no ano anterior, ao desbastar um bardo de gaiolinha,  gotas do leite da planta lhe queimaram o olho esquerdo, quase não enxergava nada por ele. E precisava da carteira para dirigir o caminhão para levar a produção ao mercado. E na hora do exame… Não ia deixar o amigo sem a carteira de habilitação. Mandou que ele sentasse, entrou na sala do exame e com sua boa memória decorou as letras nas suas posições.

De posse da carteira, o colega melhorou de vida, o caminhão vinha abarrotado com a sua produção agrícola e as dos vizinhos, desde que arcassem com o frete. Até que um dia, ao dobrar à esquerda, não viu o outro caminhão carregado e quase se quebrou todo.

O pior foi que a perícia descobriu que ele não enxergava desse lado e como conseguira a carteira? como foi, como deixou de ser? outros apareceram, parece coisa do demo, numa semana três sujeitos bateram e todos com exames de vista fraudados. Jornais tiveram de ser silenciados e como nosso herói era um amor de pessoa, risonho, educado, prestativo, sua punição foi ser transferido para Niterói, na sede da secretaria.

Não gostou da mudança, tinha arrumado em Campos a madura caixeira de livraria que morava sozinha e lhe dava amor, cama, comida e roupa lavada. Foi um drama separar-se dela, que queria ir junto. Como andava meio cansado da possessividade que ela demonstrava, saiu dizendo que ia trabalhar e não voltou mais. Na pasta levava o essencial.

Levou menos de quinze dias para se adaptar à nova vida. Com seu jeito carinhoso e alegre arrumou meia dúzia de amigos entre os novos colegas. Uma pessoa fantástica, disseram, colega precioso, amigo. Arrumou vaga numa pensão no centro, e mostrou-se um modelo de funcionário público. Não usava mais a farda, deixara de ser polícia.

Um mês depois o destino voltou a mexer seus pauzinhos e matou de infarto o motorista de um grandão da cúpula da repartição onde fora lotado. Por pouco o grandão não morre no acidente provocado pela doença do motorista. A sorte, disse ele a nosso herói, é que estando sem fazer nada, você está sendo convidado a dirigir a viatura oficial. Trabalho de segunda a sexta, só atende a mim ou com minha ordem. Viagens ocasionais.

Moleza o trabalho. Buscar e levar o chefe, às vezes uma encomenda para entregar ou uma autoridade para pegar, mas na maior parte do dia ficava estacionado no jardim da repartição, lavando e polindo a viatura, batendo papo e paquerando as mulheres.

Na pensão se dava bem com todos, mas desenvolvera amizade mesmo com os gêmeos coloridos, como apelidara os irmãos idênticos, só que um moreno e outro louro, e com o Barbosa, pernambucano que não comia verduras porque não era bode e tocava violão e cantava como gente grande. Depois do jantar os quatro davam uma volta pela rua da praia, buliam com as putas e terminavam a noite no boteco pé-sujo, na esquina antes da rodoviária. Tocavam e cantavam até dar sono. Menos nosso herói que parecia um pato rouco quando soltava a voz.

O chefe o adorava, até os casos amorosos em que só pensava baixo, com gente fina, lhe contava. O subordinado virou o leva-e-traz nos casos clandestinos do chefão bonitão e mulherengo. Era seu homem de confiança, sabia de todos os seus segredos, financeiros e de alcova. E ainda o levava aos locais dos encontros de prazer.

De agora em diante, disse-lhe o chefe um dia, como merece minha confiança, você vai levar e buscar minha filha no colégio. A linda garota, que acabara de completar 17 anos, faria em breve o vestibular. Pra que carreira não sabia, na hora escolheria. A princesinha arrumara flerte indigno de sua posição social e o pai pretendia que indo de carro para a escola não se encontrasse com o moleque atrevido.

Nos primeiros dias ela ia chorando, o belo rostinho virado para o estofamento do banco de trás, que molhava com suas lágrimas de amor contrariado. O mororista, jeitoso, terno, compreensivo, ganhou-lhe a confiança e em breve ela passou a sentar-se no banco da frente e o chefão ficou encantado com a habilidade de seu funcionário em resolver o problema do namoro da filha. Ela parou de reclamar e se lamentar.

Então, deu-se a melódia: os laços afetivos entre os dois ocupantes do carro oficial se estreitaram a tal ponto que decidiram fugir juntos, arrostando a ira e decepção do pai-chefe. Numa bela tarde ela não foi deixada em casa. Ele estacionou o automóvel perto da estação ferroviária e tomaram o primeiro trem para Campos. Ele achava que se fossem de ônibus, opção mais rápida, seriam apanhados em Macaé, onde o veículo parava para os passageiros comer e urinar. O chefe, geração motorizada, não imaginaria que seu motorista embarcaria num trem, transporte que começava a ficar obsoleto.

Foram apanhados na estação de Rio Bonito. Depois de encontrar seu carro perto da estação, a polícia concluíra que tipo de transporte os pombinhos utilizavam na fuga e deteve o casal antes que pudesse trocar mais que alguns tórridos beijos num canto do vagão, a época não permitia grandes expansões amorosas.

O cenho franzido do pai-chefe na delegacia era assustador. Não para o apaixonado, que tinha mais essa virtude: era corajoso e sabia que sendo a menina menor de idade o pai a casaria com ele, mesmo sabendo que nada de mais acontecera. Ao denunciar o sumiço do carro oficial, o pessoal da secretaria despertara a curiosidade da imprensa, que seguira os polícias, principalmente depois que descobrira o rapto embutido na ação.

Para o casamento foi acionado por telefone e um parente do herói que morava na pensão, que munido de roupas e documentos, apresentou-se na delegacia pedindo para falar com o parente que praticara o roubo e provocara estrondosas gargalhadas nos duros policiais ao explicar que ele “roubara uma moça.”

O casamento foi realizado na fria sala do delegado, roupas, padrinhos e convidados improvisados. O casal, nadando em felicidade, foi para um hotel em Icaraí, único luxo admitido pelo indignado pai, que se imaginou vítima de golpe do baú bem aplicado.

Nosso herói, mais uma vez, andara certo por caminhos tortos. E se viu alçado a um posto melhor, com direito ao carro onde transportava o sogro para o trabalho e para casa. A princípio sério, magoado pela ofensa, o chefe mal falava com seu motorista. Mas não era a toa que ele tinha a fama de sedutor. Aos poucos se reconciliaram.

Os primeiros anos de casamento são os melhores, até certo ponto. Há coisas para se descobrir juntos, sonhos cevados nas batalhas de amor, planos de constituir família, crianças correndo, estudando, namorando… coisas que são boas sonhadas. Sonhadas.

Foi assim com nosso herói. Além de bonita e bem educada, a mulher que levou pra casa era de nível sócio-cultural superior ao seu, o que o fascinava. Nos primeiros anos. Ela lhe ensinou como se portar à mesa, como usar talheres e copos, para poderem ir às recepções e jantares oferecidos pelo pai político, a quem ele continuou a chamar de chefe, o que a irritava. Não nos primeiros anos.

Ele a levou para conhecer sua família, aproveitando para fazer as pazes com o pai. Toda a família a admirou, elogiou suas roupas, seus modos. A impressão dela sobre a família, porém, não foi lisonjeira. Achou que dizer que os cunhados eram selvagens era elogiá-los, assim como chamar a propriedade familiar de fazenda. Moça citadina, imaginara as fazendas como as que via nos filmes, cercada por cercas pintadas de branco, palmeiras, cavalos briosos em estrebarias limpas, jamais uma galinha pondo ovo numa cama, nem crianças barrigudas, olhos remelentos, narizes escorrendo, um horror!

Voltou lá poucas vezes e nunca mais para dormir. Quando começava a escurecer ia com o marido e a filha para uma pousada numa cidade próxima. Ele aceitava, alegava aos parentes que a menina sofria de alergia, deixava a família na pousada e com os velhos amigos emendava numa serenata até a manhã seguinte. Dormia na pousada, pois seu velho quarto estava ocupado pela família de um dos irmãos. Voltavam para o almoço e iam vivendo essa vida de aparências, o que não o incomodava, desde que o deixassem fazer suas serenatas.

Um dia eles se sentaram para conversar, discutir a relação, como se diz, e daí resultou uma separação consensual, não se entendiam, viviam em mundos distintos, que não se tocavam, ela voltou para a casa do pai com a filha, que o avô adorava, e ele ficou na sua casa. Menos de um mês depois se encontraram por acaso na sala de trabalho do pai, aonde ela quase nunca ia. A filha, que a babá levava para ele ver toda semana, não estava presente. Também por acaso saíram na mesma hora. A tarde, belíssima, sugeria um passeio e foram para a beira mar, sentaram-se num banco da praia, beberam água de coco e num momento de distração ele confessou que sentia saudades dela. Surpresa, ela titubeou, mas acabou confessando que até sonhava com ele. Na cama, ela disse, você é perfeito, é meu príncipe encantado. Então vamos procurar uma, se precipitou ele, já sentindo a ereção chegando. O motel não ficava longe e a tarde foi perfeita.

Não tão perfeita assim, porque ela avisou, na hora de descer na casa do pai, que aquela seria a primeira e última vez. Não cederia a novos impulsos e viver com ele o dia a dia era difícil e desgastante. E ela tinha planos de voltar a estudar, era nova e já cuidara de se matricular no antigo curso pré-vestibular. Ainda não sabia que carreira seguir, mas como o pai tinha queda pela política, pensara em estudar sociologia ou administração pública, ou coisa parecida.

Duas semanas mais tarde o encontro foi numa festa da repartição do pai num clube onde nunca fora e ela fraquejou novamente. Droga, resmungou, não consigo escapar do seu fascínio, quando penso no seu corpo, nos seus beijos, sinto uma gastura, uma tonteira, que só passa depois que vamos ao motel, ela confessou enquanto se vestia a roupa. Mas juro que essa é a última vez que venho aqui com você, preciso tomar vergonha. Por outro lado, você não procura melhorar, fica satisfeito com esse empreguinho subalterno, nasceu para lacaio.

Há um ano se encontram semanalmente para matar as saudades. Ele nem insiste mais em pedir que ela volte para casa ou permita que ele vá morar com ela. Durona, nega tufo, entre dois beijos de língua. Hesita um pouco quando a mão dele alisa suas nádegas – eu não tenho bunda, avisou, tenho nádegas – ou lhe aperta os seios, mas resiste. Só quero você no motel, frisa. Sexualmente satisfeita, não suporto nem olhar para sua cara. Sabe que mente, prefere assim, preserva seu orgulho, sua privacidade, educa a filha a seu modo, é feliz.

FIM

                    APRENDENDO A AMAR

 Terrivelmente apaixonado foi como se sentiu quando, na festa de seu 12º aniversário, a mãe de um coleguinha de escola se curvava para beijar seu rosto. Que carícia gostosa, que lábios macios! Nunca achara alguém tão excitante e no instante em que ela se abaixou, sorrindo, deixando à mostra a delicada curva de seus seios, para lhe dar o clássico beijinho, sentira uma estranha gastura embaixo da barriga. Não era a primeira vez que via seios cobertos, semidescobertos ou totalmente descobertos, mas daquela vez a beleza do colo, mais o sorriso aconchegante num rosto belíssimo e o suave toque dos lábios em seu rosto, provocaram um curto circuito na sua fonte de emoções.

Sentiu o rosto em fogo, as pernas bambas e uma excitação crescente que o fez atropelar as palavras, correr pela sala, pisar em pés, quase botar abaixo a mesa de doces, esbarrar nos convidados e se engasgar com o refrigerante bebido diretamente da garrafa.

A mãe segurou-o pelo braço e lhe sussurrou, rascante:

– Sossega, que bicho te mordeu?

Sua festa de aniversário virou delirante fantasia envolta em brumas que não deixavam que se fixasse em detalhes. Divagava, sonhava de olhos abertos. No centro ela, a paixão.

Por fim, a calma, na saída ela ainda passara a mão em seus cabelos.

Que ansiedade! Queria vê-la de novo, correu até a janela, viu o carro dela se afastar e a mão do colega lhe acenar. Sabia que não poderia mais viver sem ela, era pura paixão, para toda uma vida, para enfrentar quaisquer obstáculos, única razão de viver. Ficou na janela, olhos perdidos nas estrelas onde o sorriso dela aparecia, insinuante.

– Agora, banho e caminha, falou a mãe a seu lado. Que festa, hein? Você gostou?

– Adorei! e seus olhos emitiam brilhos.

Na penumbra do quarto, nos ouvidos o zumzum da arrumação da casa que escorria por debaixo da porta, sem um pingo de sono, voltou a pensar nela, seus olhos a desvendar a escuridão em busca da curva dos seios, do olhar convidativo e dos lábios macios. A mão afastou a coberta e buscou o peito, onde mamilos inchados se eriçavam dolorosamente ao menor toque. Como se tivesse vontade própria, a mão foi descendo para sua barriga, roçando a pele com a ponta dos dedos, a imaginar que a pele dela devia ser macia como a sua, e que se arrepiaria ao contato de sua mão, e foi escorregando para a curva do púbis, onde devagar o pentelho se formava, pelo a pelo, agarrou a pica endurecida, parecendo de macio ferro, alisou-a a imaginar que estava alisando o seio entrevisto, e pôs-se a subir e descer a mão, mecanicamente, mas com carinho, nunca ninguém lhe dissera para fazer assim, mas era o que estava com vontade de fazer, sentindo que uma onda de sensações diversas, gostosas, vinha chegando, chegando, e a mão morna a deslizar cada vez mais depressa até a deliciosa aflição explodir num gozo inefável.

Dormiu em seguida, a mão agarrada ao promotor do gozo. Não sonhou.

Na manhã seguinte, na escola, sentiu-se um tanto constrangido na presença do colega-filho da mãe, depois pensou que não havia falado de sua paixão a ninguém, ninguém nunca ia saber de nada mesmo, deu de ombros e seguiu com ele para a sala. Sentia-se muito bem.

Mais tarde, no campo de pelada, perguntou ao colega se ela viria buscá-lo.

– Não, respondeu o garoto, ela vai na costureira, eu vou com a mãe do Gaguinho.

Ficou indeciso, achou que devia se sentir chateado, tentou lembrar o lindo rosto dela, já não lhe pareceu tão lindo, era como antes da festa, quando a via apanhando o filho para levar para casa, um rosto de mãe, comum. O que lhe acontecera na festa? Por que a mãe de seu coleguinha se transformara numa fada erótica?

A PESCARIA

Um bando de ensandecidos anus surdiu por trás do bardo de gaiolinha e se espalhou pelo céu ao som do primeiro estampido. Em seguida centenas de assustadas marrecas irerê encheram o ar e algumas foram abatidas em pleno vôo. O homem que pescava, sentado na beira do rio, olhou para cima, contrariado:

– Quem será o fidaputa que tá caçando? perguntou ao vira-lata postado a seu lado, de olhos arregalados e orelhas em pé. Derrubou um monte de bichinhas e não vai poder pegar nem metade, umas vão cair no meio das macegas e outras serão levadas pelo rio.

   Balançou a cabeça, desgostoso, vendo que até a garça que planava majestosa sobre o rio parecia desorientada.

– Cabrunco! rosnou, no que foi imitado pelo cachorro, espantou até os peixes.

    E olhou desconsolado o pequeno jacá onde alguns mandis e piabas davam saltos errantes, asfixiados pelo excesso de ar. Um barulho de galhos quebrados o fez se voltar para a ramaria, onde apareceu a cabeçorra de Jomildo.

– Ah, taí pescando?

– Não, respondeu mal humorado, tô em Noviorque caçando mulher. Ora, vá!

– Chi, disse o outro, parando a seu lado, que bicho te mordeu? Posso me assentar aqui?

– É essa praga de caçador acabando com as marrecas. Qualquer dia não vai sobrar nenhuma. Quer sentar, senta, mas tá ruim de beliscar.

    Lomildo acocorou-se, pôs a iba com o anzol do lado, e de um pedaço de garrafa plástica cortada, tirou a massa de farinha de mandioca e preparou uma bolinha.

– É o lamparão do Jorginho de Nico. Faz isso pra vender na cidade. Inda outro dia apareceu com um saco cheio de marrecas lá no mercado. Quase foi preso. Qualquer dia vai, já avisei. Num ouve ninguém, que se dane.

   Prendeu a bolinha no anzol e o lançou na água.

– Me dá vontade de pocar a cara dele para deixar de ser safado. Não sei o que esse povo aproveita dessas bichinhas. Que carne pode ter uma marreca, uma piaçoca, uma pucaçu, me diga? Se inda fosse uma jacupemba.

– A carne é pouca, mas é gostosa, falou Jomildo. Com arroz então! e riu, safado.

    O pescador voltou a fixar o olhar no rio. O cachorro bocejou e estirou as pernas magras. Jomildo pôs um cigarro entre os lábios.

– Ói, cê disse que num beliscava? Ferrei um. E pela força, é dos grandes.

   O pescador olhou curioso a iba que tremia, abrindo círculos na água barrenta. O peixe deu um repuxão mais forte e Lomildo se levantou.

– Rapaz, que é isso, tubarão?

   E puxou a iba com força. À flor dágua surgiu o lombo brilhante de um peixe se contorcendo.

– É uma traíra, constatou o pescador. Uma bitela. Sorte é pra feio e ladrão.

– Como eu sou um homem honesto, brincou o outro, lutando para trazer o peixe para terra, cê tá me chamando de bonito. Olha lá, hein? Sô disso não.

– Sai pra lá, bacurau. Tô eu aqui há um tempão e só peguei essas porcarias e lá vem ocê e mal se assenta ferra um bruto. Hoje não é mesmo meu dia.

    Novos tiros cortaram o ar, outros bandos de aves pincelaram o céu de pequenas manchas escuras. Algumas despencaram, atingidas. O pescador olhou para cima, cara amarrada, e se levantou. O cão o imitou.

– Tô enojado desses caçadores. Amanhã vai aparecer uma imundícia de marrecas boiando no rio. Vombora.

– Já vai, Zé? Vai ver que os peixes só gostam de quem sabe pescar. Fica aí, homem, vamos conversar mais. Na hora de embora, dou unzinhos procê.

   Retirou a bela traíra do anzol e jogou-a num saco de estopa. O outro o olhava com inveja.

– Se eu adivinhasse que o rio tá bom assim, ironizou Jomildo, tinha trazido meu juquiá. Aí é queu ia te mostrar o que é pescar. Ué, cadê o disgramado?

    E riu, deliciado.

 

                       O FANTASMA ASSUSTADO

Um choque. Pode dizer que é exagero, mas senti um choque ao ver a mulher, vestida com folgadas roupas claras, por trás das barracas da feira livre se esgueirando como fantasma assustado.

Era Marieta, não tive dúvidas, a bela Marieta, com quem escrevera um capítulo apaixonante de minha vida.

– Você se lembra dela, não, uma morena clara, alta, de grandes olhos enviesados? Foi rainha do baile das debutantes, rainha do clube, miss bairro, miss estado, chegou a finalista no miss Brasil, desfilou pela Casa Canadá, lembra essa grife? Ficou famosa, fez testes para manequim e a gente se pegava, o que a turminha de hoje chama de ficar, eu não queria compromisso, mas me opus, só de besteira, a que continuasse a desfilar, queria provar ser machão, dominador. A burra me obedeceu, parou de desfilar, quando é novo a gente faz cada asneira. Paixão não justifica burrice, fazer o que? Namoramos por um bom tempo, pedi o apartamento de um colega emprestado, era uma loucura, nossa! cada tarde íamos ao paraíso.

Terminei a faculdade e arrumei bolsa de estudos na França, não avisei a ela, nem dei tchau, era um grosso egoísta, fiquei dois anos por lá, arrumei outra garota, filha do dono de uma pâtisserie, também terminei com essa, voltei ao Brasil inesperadamente, era muito volúvel, instável. Arrumei um bom emprego e conheci Geórgia, lindíssima, de família rica, quase casamos, mas como sempre, ao me sentir preso, perdi a tesão e voltei para a solteirice.

Até encontrar Clara não consegui me firmar com mulher alguma. Bastava surgir a possibilidade de compromisso e eu escapava de fininho. Clara me pegou pela inteligência, disse que entendeu meu modo de ser e fingiu que só me queria para passar o tempo, se divertir. “Você tinha um corpão, disse ela, e quando o vi jogando frescobol na praia decidi que ia ser meu.” Distraído, pisei na casca de banana e escorreguei direto para o altar.

E agora, lá está Clara, coitada, há anos numa cama, tetraplégica em conseqüência de um acidente de trânsito, e eu, bom, disso falarei depois. Quero lhe contar do reencontro com Marieta, do susto que tomei, de verdade, cara, não estou brincando, tremi na base quando a reconheci. Decidi falar com ela, ver se a velha tesão ressuscitava, precisava me apaixonar novamente, estava cansado de ir pra cama com piranhas, queria voltar a sentir a maravilhosa sensação de amor realizado, de completude. Enquanto me embolava em dúvidas a mulher sumiu.

Apesar de não ter tempo de sobra, atarefado com meus negócios e no atendimento a Clara no lugar da enfermeira que tirou a semana de folga, consegui tempo para voltar, no mesmo horário, à feira, no sábado. Mais uma vez vislumbrei a mulher, fantasma fugidio, que mal notou minha presença desapareceu entre as  barracas. A feira é montada na rua aos sábados e me organizei de forma a poder chegar um pouco mais cedo no sábado seguinte, para surpreender meu assustado e alvo fantasma, que parecia ter vindo do passado arrastando as correntes de meus defeitos.

Fiz o mesmo nos sábados seguintes, mas o assustado fantasma não mais deu as caras. E minha curiosidade, acicatada duramente pela ansiedade, vagava pelos meandros do meu cérebro/coração convertidos num sótão cheio de teias de aranha.

Como Marieta estaria? Não consegui vislumbrar seu rosto, outrora tão belo. Fechando os olhos via nítido o rosto que me encantou e até o seu cheiro, um perfume muito usado na época, era capaz de sentir. Ah, os bailes que freqüentávamos, o calor macio do seu

corpo se apertando contra o meu, o hálito fresco, as músicas, meu Deus, as músicas de nosso tempo jovem como eram gostosas, boas para se ouvir e dançar! O roçar de seus cabelos em meu rosto voltou com força e por pouco não chorei. Não por Marieta, nem pelo amor perdido, mas pelo tempo em que éramos jovens, belos e livres, e o mundo estava ali, pronto para ser conquistado. Quanta esperança frustrada, quanto sonho jogado fora.

Fui rever o clube. Foi um impulso, compulsão impossível de ser contida. Ao entrar no salão, depois de tantos anos, minhas pernas tremiam. O suor empapava as axilas, as mãos se enclavinhavam.

Que isso, gente, pareço um garoto inexperiente! Logo eu, um homem vivido, que viajou pelo mundo, morou na Europa, ficar nervoso ao rever um clube com marcas de decadência! Fora um clube tão bonito, esplendoroso! Lembro um  baile da primavera,

Marieta linda num vestido longo, eu metido num terno de casimira, sapatos reluzindo de uma tarde inteira engraxando, pessoas belas, simpáticas, cheirosas, deslizando pelo salão encerrado, em cada canto um arranjo de flores entre cortinas, meu Deus, onde foi parar isso tudo?

Por que tudo se tornara tão feio, sem graça, com cheiro de mofo e cortinas puídas? E Marieta, minha bela, minha princesa, meu sonho transmudado em carne louçã e macia, cadê Marieta?

Senti um aperto no coração ao lembrar o fantasma apavorado deslizando pelos fundos das barracas da feira. Não era Marieta, era muito parecida, mas não era Marieta, não podia ser!

O fantasma sumira de vez. Ao invés dele esbarrei com Antonio Carlos, colega de ginásio que clinicava em nosso bairro e a quem raramente via. Escolhia laranjas numa barraca e tive a sensação de que fora enviado pelo fantasma. Com calor nos abraçamos, fizemos as corteses perguntas de praxe, não conhecia sua família nem ele sabia de Clara, hoje é de bom tom perguntar pela família de forma genérica, são tantos os divórcios e novas famílias, um terreno a ser pisado com o maior cuidado, Estávamos bem, boas roupas, bem dispostos, leve barriga de chope a cortar a elegância, sorriso

fabricado especialmente para nós, tudo ótimo.

E aí chega a hora de não mais ter o que falar, curiosidade satisfeita, e de minha boca, irreprimível, surge a pergunta:

– Tem visto a Marieta?

Coração aos saltos, aparentando uma indiferença cortês, olhos presos no seu bigode grisalho, aguardei um infinito segundo, tempo dele franzir as espessas sobrancelhas, num esforço rememorativo que me apertou o coração ao imaginar que nada sabia dela.

– Marieta, Marieta, ah, aquela morena cor de jambo que virou mulata do Sargentelli?

– Não, respondi com certa impaciência, essa é a Julieta. A Marieta, cara, a que foi miss.

– Ah, sei, sei, a que você namorou?

– Isso. Você a tem visto? Ela mora por aqui?

Mais alguns segundos de nervosismo. Sou mesmo um babaca, pensei, angustiado.

– Você foi meio calhorda com ela, não foi?

– Eu gostava dela, juro, mas ganhei uma bolsa no exterior, não podia perder a oportunidade.

– Ela sofreu muito com seu sumiço, me lembro bem porque meu irmão, o Lucas, lembra dele? faleceu há uns anos, foi quem a consolou. Era linda, ele gamou e queria casar de qualquer maneira, mas minha mãe, dona Alzira, gostava muito de você, tá lembrado?

Senti os olhos marejarem ao lembrar a figura gordinha, cozinheira de mão cheia, simpática mas dura na queda. Exercia vigilância severa sobre os filhos.

– Lembro, claro, como ia esquecer?

– Ela reclamava que você nunca mais tinha aparecido.

– A vida, cara, passei um tempo na Europa, depois muito trabalho, tanta coisa a fazer em tão pouco tempo. Muitas vezes planejei dar um pulo lá, sempre aparecia alguma coisa…

– Sei como é, deixa pra lá. Dona Alzira era fogo. Quando não gostava de alguém… e ela tinha uma implicância especial com a Marieta, por sua causa, malandro, porque um dia, na minha festa de aniversário, no quintal lá de casa pegou vocês no maior agarramento, ficou uma arara, falta de respeito, bradou na cozinha.

E me ordenou, ela não pedia nada aos filhos, ordenava, e ái de quem não obedecesse, botar vocês pra fora, que a casa dela era uma casa de respeito, foi um auê na cozinha, saí de fininho, consegui tirar vocês de lá, não lembro como e desde essa  época ela não podia nem ouvir falar no nome da Marieta.

Eu começava a ficar incomodado com as lembranças, culpa minha, imbecil, cutucar onça com vara curta dava nisso. E como uma torneira aberta ele continuava a lembrar, imitava a voz e a pose da mãe, sofria com as recordações do irmão, foram muito ligados, enfim eu não podia ter feito besteira maior. E o pior é que não sabia como interromper o jato deprimente.

– Quando Lucas falou que estava namorando a Marieta foi um Deus nos acuda. Mamãe chorou, esbravejou, perguntou aos céus o que tinha feito a Deus para merecer tal castigo, um inferno. Lucas se escafedeu rápido e nunca mais tocou no assunto, mas continuou o namoro. De vez em quando mamãe dava uma piada, fazia uma ameaça, se ele pensou que tinha se acomodado, se enganou redondamente. Um dia, sem mais aquela, Marieta terminou o namoro. Lucas desconfiou que tinha dedo da velha na decisão dela, implorou a Marieta, nós temos sangue italiano, somos dramáticos e barulhentos, meu irmão seguiu direitinho o que mandava o figurino, mas não teve jeito, Marieta era mulher de palavra, não voltou atrás  e meses depois se casou com um industrial, foram morar em Copacabana, onde ela viveu muito bem, com toda a mordomia.

– Menos mal, murmurei.

– Alivia seus remorsos, não é, seu sacana?

Sorri sem jeito e me preparei para ir embora, já tinha ouvido o suficiente para saber que o apavorado fantasma não era Marieta,  que nem feira devia freqüentar, encastelada na Zona Sul. Mas ele me havia segurado pelo cotovelo, exatamente como a doce e dura

dona Alzira costumava fazer com os amigos dos filhos.

– Ela teve uma filha que mora na França. Parece que é uma virtuose no violino e se casou com um músico francês.

– Então você a tem visto?

– Claro, ela mora aqui perto.

 Senti que arregalei os olhos. A boca ficou seca. Não era em Copacabana que ela morava? Por que o destino gostava de armar suas tramóias contra mim?

– Quando a filha fez 15 anos deram uma senhora festa num clube chique. Marcou época, todo mundo daqui foi, teve gente que se endividou para comprar uma roupa nova. Na semana seguinte, me lembro bem, porque meu filho mais velho teve uma crise de

apendicite e fomos parar no Souza Aguiar, onde encontramos Marieta e a filha, desesperadas. O industrial enfartara e estava sendo atendido. Ficamos rondando pelos corredores, meu filho e o marido dela sendo operados. Meu filho saiu-se bem, hoje é médico, mas o maridão partiu pra esfera superior.

Uma gastura me incomodava, por duas vezes tentei liberar meu cotovelo sem êxito e continuei a ouvir a história da linda mulher que eu amara com paixão.

– O pior é que o marido só lhes deixara dívidas. Era gastador, pródigo em festas, achava que assim mostrava aos clientes que a fábrica ia bem, toda semana reunia amigos num sítio em Teresópolis, churrasco no verão, fondue no inverno, casa sempre cheia, despesas se acumulando. A última loucura foram os gastos com os 15 anos da filha. Marieta precisou vender tudo, ate o apartamento em que morava. Ele não descontava para o INSS, não deixou pensão, seguro de vida, nada. Os amigos conseguiram bolsa de estudos para a filha continuar o curso de violino e foi trabalhar de vendedora numa butique. Linda, elegante e bem relacionada, virou gerente e arrumou um amante, um garotão que vivera nos Estados Unidos, de onde fora repatriado por ter entrado ilegalmente. Cara bonito, olhos verdes, moreno, corpo malhado, ela o exibia como troféu. A filha não gostou, brigaram feio, a menina conheceu o tal músico e  foi com ele para o exterior. Não voltou mais e raramente dá notícias.

Eu pressentia que devia sair logo dali, alegar que tinha que cuidar de Clara, mas aí teria de contar a história do acidente de carro no  qual tivera parcela de culpa e não me interessava lembrar, convivia pacificamente com minha culpa, só que de vez em quando…

– O tal garotão acabou com Marieta. Era safado, mulherengo e era até garoto de programa que atendia casais! Não sou preconceituoso, mas certas coisas, como diria dona Alzira, dão nojo. O canalha se engraçou com a dona da butique, Marieta soube, fez escândalo, foi posta na rua sem direito a nada. Ficou mal, não conseguiu pagar

o aluguel do apartamento alugado no Flamengo, foi despejada, um horror. Pobre Marieta, tão bela, com um futuro tão brilhante. Um  antigo freguês do marido, comerciante, a encontrou, catatônica, sentada no calçadão de Copacabana e a levou pra casa. Moram aqui perto, ela não bate muito bem da cabeça, acho que sofre de arteriosclerose. Imagine que a mania dela é sair catando sobras das feiras livres, metida num camisolão branco encardido…

Não deixei que terminasse, num puxão livrei meu braço e andei o mais depressa que pude, carros tiraram fininho de mim, nem notei, estava cego pelas lágrimas, a culpa a martelar meu peito e quando vi estava na emergência da clínica, a esperar o médico.

Jurei nunca mais passar nem por perto de feiras livres.                                                                                                                        

                                    FIM

                       CONTO FONADO

Fala rápido que estou no trânsito. Sei. E daí? Cê tá brincando. Negativo. De jeito nenhum. Tô trabalhando, Clotilde, acabei de visitar um cliente e já tem gente me esperando no escritório. E depois, o irmão é seu, se vire.

Não, não dá. É muito mais fácil pra você. É sim. Pede a seu chefinho, ora, ele não é tão bonzinho? Quando cê quer bater perna ele deixa, né? Não vou me meter nessa história do seu irmão. Por mim, eles podem se lascar, tô nem aí. Seu irmão é cafajeste de nascença e babaca por conveniência. E sua cunhada uma lesma. Quero distância.

Não vou me meter em briga de marido e mulher, tô fora. Pra te sustentar eu presto, né? Ah, não enche, Clô. Não vou e acabou-se.

Desliguei não, tô escutando. Só tô encostando o carro, porque quando você começa a falar, haja Deus. Tá bom, tá, fala logo, Clotilde.

Tá gastando seu latim à toa, não vou. E daí, vai fazer o que? Ah, não enche.

Vai você.

Cê tá enganada, quem fez a besteira fui eu. Eu, o grande babaca. Comprei gato por lebre. Foi sim, eu que…, pô, Clotilde, quer deixar eu falar? Que coisa, parece uma máquina de costura. Só você é que fala, fala, fala, cala a boca, pelo amor de Deus!

Vou desligar essa merda, hein? Tô sim, muito arrependido, se você quer mesmo saber. Porque você me enrolou, me seduziu…tadinho sim. Eu era um bobão.

Não era por isso não. Mulher boa, minha filha, em qualquer esquina se acha. Aos montes e bem melhores do que você. Foi enganação sim, você sabia que o que eu mais queria na vida era ser pai, conversamos muito sobre isso, lembra? Você me prometeu que assim que terminasse a faculdade engravidaria. Cadê?

Não vem com essa conversa não, que você só estudou pra não ficar em casa, ainda mais que tinha um bobo pra pagar as mensalidades. Com seu salário? Quá, quá, quá. Não seja mais idiota do que é, Clotilde.

Vai você. E se seu salário melhorou depois agradeça a quem?

Claro, se você seguisse a carreira, se atuasse como advogada…Mas não, preferiu ser assessora, secretária ou sei lá o que mais. Podia sim, tinha esse bobão aqui para bancar suas despesas, ora… mas pra encher os peitos de silicone cê teve, né?

Pra mim? Ora, Clotilde, vai procurar sua turma. Foi tudo por vaidade. Que corretiva. E foi por isso que não quis ter filhos…vai cair meu peito, cê dizia, vou me encher de celulite…não teve filho, estragou nosso casamento e tá aí fazendo massagens coreanas e não sei mais o quê para se livrar das gordurinhas e com os peitos inchados de silicone. Bem feito.

Vai você, já disse.

Não fala de novo senão vai se arrepender. Muita vontade eu tenho.

Tenho outra não. A experiência com você me jogou contra as mulheres. Cês só querem se aproveitar. É isso aí.

Sua mãe é uma bruxa, uma despeitada, o que ela fala não se escreve. Vai procurar o ombro muxibento dela, vai.

Vai? É mesmo? Faz então o seguinte: junta tudo o que é meu numa mala que vou mandar um mensageiro aí pegar. Isso mesmo, tô falando sério sim. Cansei, Clotilde, cheguei no meu limite. Não quero nem ver mais sua cara.

Tá certo, pode mandar seu advogado, pois nem pra defender sua causa você presta, sua advogada de merda. Ah, meu Deus, quanto dinheiro jogado fora naquela faculdade!

                                      FIM

                                  AMOR-TE

 Encostada no batente da porta semiaberta, a enfermeira Edite observou o médico realizar o ritual diário antes de sair para visitar pacientes em suas casas e na Santa Casa de Misericórdia.

Era um belo homem, alto, trigueiro, com pouco mais de 40 anos, e seu amante há mais de 10. Como de costume, após cruzar a porta da sala sacudiu a poeira invisível no terno bem cortado, chegou-se ao espelho, ajeitou o laço da gravata e passou as mãos pelos cabelos negros, onde nem poucos fios grisalhos saíam da linha. Alisou as sobrancelhas grossas e arqueadas e lançou à sua imagem refletida o insinuante sorriso, arma infalível de sedução, às vezes inconsciente.

Edite pensou que era um belo tipo de homem e ótimo amante. Sorriu: e meu.

Para finalizar ele pegou sorrindo a maleta com seus instrumentos de trabalho que a recepcionista lhe oferecia, fascinada, olhos brilhantes de admiração, boca entreaberta num sorriso abobalhado, outro gesto diário no consultório.

– Volto antes do almoço, mantenha a agenda de consultas, disse à moça.

A paixão explícita, sem pudores, da recepcionista e da maioria das clientes não a incomodava mais, sabia que perto dela ele não ousaria prosseguir com a conquista.

– Não sinto nada por elas, ele lhe afirmava, esquivando-se das acusações, elas é que dão em cima de mim, que que eu posso fazer? Jamais passei cantada em qualquer cliente no consultório, você é testemunha, está sempre entrando e saindo da sala e nunca viu nada de comprometedor, viu? Então? Elas se insinuam. Não resisto. Fico feliz com o carinho, é como se massageassem meu ego.

O problema começava quando ele punha o pé na calçada, longe dela.

Era assim desde que se conheceram e não tinha do que reclamar, sua história com ele tivera o mesmo começo. Fora seduzida pelo olhar e sorriso envolventes do doutor, como nunca deixou de chamá-lo, nem nos gozos do amor. Dizia que se jogara nos braços dele.

Ela o conhecera durante sua campanha vitoriosa para prefeito, bruscamente cortada pelo golpe militar. Estava, por acaso, na sala onde discutiam os rumos da campanha eleitoral, fazendo companhia a sua amiga Lívia, secretária de outro candidato. Clima tenso, partido dividido, as discussões esquentaram, o doutor se exaltara e acabara tendo um piripaque. Era o primeiro sinal da doença cardíaca que o acompanhava e à qual não dava importância e que ela não deixava de cuidar. Com conhecimento e a prática diária de enfermagem, o atendera com presteza, o reanimara e mantivera em condições de ser levado a um hospital para o atendimento de emergência.

Nunca mais se livrara dele. Nem queria.

Através de Lívia o doutor, que lhe havia mandado bombons em agradecimento pela sua ação rápida e salvadora, a convocou para trabalhar na sua campanha, contratada para atender pacientes num consultório improvisado em bairro da periferia, anotando nomes, endereços, sintomas e encaminhando-os à Santa Casa, onde ele os atendia pessoalmente e, se fosse o caso, internava. No preenchimento da ficha, se observava que o doente ou familiar não tinha título de eleitor ou certidão de nascimento, ela providenciava

Com ela trabalhava um adolescente cheio de energia e boa vontade, que levava a pessoa ao cartório ou anotava os seus dados para o registro, às vezes também os de outros membros da família que tinham ficado em casa. Ela lhes dava amostras grátis e latas de leite em pó, aplicava injeções e fazia curativos. Os documentos eram entregues ao paciente pessoalmente pelo médico na consulta, que ainda os brindava com seu sorriso caloroso que parecia afirmar que tudo ia ficar bem, que finalmente alguém lá em cima ouvira suas preces e mandara um anjo salvador.

Eram votos contados. Junto com os documentos ia o envelope com as cédulas eleitorais, dele e dos vereadores e deputados que o apoiavam. Esse foi um dos motivos alegados pelos militares para cassar seu mandato. Até hoje não entendia porque, todo mundo fazia isso! E continua fazendo, menos ele, que desistiu da política.

Edite suspirou quando ele fechou a porta e mergulhou na rua movimentada.

– Pode ir almoçar, Daiane, vamos ter uma tarde pesada.

– Não, rebateu ela, olhando a agenda, são poucas as consultas marcadas.

Em instantes a garota, serelepe, trocara o uniforme por uma saia justa, blusa bem decotada e bolsa a tiracolo. Edite acompanhou-a até à porta, mais para se livrar por um momento do enjoativo cheiro do consultório. Ali passava a maior parte de seu dia e de algumas noites. Pretendia ir cedo para casa, nesta noite nada de serão.

O doutor, depois de deixar a Santa Casa, caso não houvesse doente necessitando de assistência urgente, iria para um bar no centro da cidade se encontrar com amigos que tinham ânimo para beber e conversar depois do cansativo dia de trabalho. Bem que gostaria de estar na roda, chegara a ir algumas vezes, não com ele, claro, que a cidade tudo via e tudo comentava e a intriga iria acabar nos ouvidos de Olívia, a matriz, como ele a chamava. Ia com colegas. Mesmo depois de tantos anos, graças à discrição deles, sua mulher nunca tomara conhecimento do caso que os unia.

Por causa da compulsão dele de conquistar, comer e largar as mulheres, como se fosse uma maldição, Olívia passara por vários constrangimentos quando sabia das aventuras e muitas vezes ligara para ela, nervosa, chorando, para perguntar se era verdade que ele estava andando com a mulher de um usineiro ou com a professora do filho e  paciente, assumia a condição de confidente da rival.

– Sou um predador do sexo, ele dizia a todos, entre sério e brincalhão, não consigo resistir a olhar que implique convite. Às vezes estou até sem vontade, mas… o que posso fazer? É mais forte que eu! Sou sexomaníaco ou, como diz o doutor Segismundo, tenho os colhões na cabeça, sou testicocéfalo.

E ria, constrangidamente divertido.

Edite rompera com ele algumas vezes. Por pouco tempo. Havia momento em que sua paciência se esgotava e aprontava uma briga, geralmente no consultório, local de seus encontros de amor, ele nunca fora à sua casa, não só por causa de seu filho como pela língua solta e má do povinho da rua. Razão porque também nunca foram a um hotel.

Fechou a porta da rua e sem muito ânimo voltou à sala das consultas. Com a entrada do filho no curso noturno pré-vestibular, as noites eram solitárias, o aparelho de televisão, presente de aniversário do doutor, não preenchia o vazio de seu coração. Apenas atenuava seu cansaço e dormia durante os programas. O filho a acordava.

Devia estar acostumada com a solidão, desde o princípio ele lhe dissera que era casado, gostava da mulher e da filha, jamais as deixaria. Dissera isso com a maior cara de pau, depois da primeira trepada. Não se acostumara, apenas aceitava como um carma.

– Sou muito sincero, ele disse, não gosto de enganar ninguém, muito menos uma mulher maravilhosa e sofrida como você. – e passou, de leve, as costas da mão em seu rosto – por mim ficaria só com a mulher que me salvou a vida e é tão gostosa.

Ela sorriu sem entusiasmo e ele continuou:

– Mas o que posso fazer se sou assim, se trago esse defeito de fábrica?

Ela baixou os olhos e suspirou. Jogou as pernas para fora da cama. Ele pegou seu braço.

– Não vá ainda. Temos pouco tempo, vamos amar, vem cá.

Ia dizer uma besteira, mas foi encarou os olhos pidões e o sorriso caloroso e tornou a se estender na maca. Num pulo ele a enlaçou e, faminto, abocanhou seu seio.

Todas as vezes as brigas acabavam assim. E começavam de forma semelhante, ela era informada pelos queixumes de Olívia que ele arrastava a asinha para outra fulana, ela o interrogava e ele confirmava, displicente.

– Pra que perder tempo me perguntando, indagava ele, se sabe que é verdade? Por que criar esse clima de constrangimento, uma briga idiota que vai terminar com você nos meus braços, gemendo de prazer?

– Bobo, exclamava, e fazia exatamente o que ele afirmava.

Edite olhou sem ânimo o desarrumado consultório e sem pressa foi devolvendo as coisas a seus lugares. Fora um começo de dia difícil, logo cedo, antes da recepcionista chegar, se desentendera com o doutor. Mais uma vez ele pulara a cerca e mais uma vez soubera através das queixas de sua mulher. Dessa vez as havia traído com uma vagabunda metida a cantora.

Ela o acusou de infiel, traidor, e ele respondera, ácido:

– Se assim não fosse, como estaria aqui com você?

 Ela sentira ganas de voar no pescoço dele, apertar, apertar, até que ele… a beijasse com fúria. Não podia negar, ele a deixava louca. Mas precisava machucá-lo e rosnou:

– Ainda pego você em flagrante com uma dessas zinhas, e acabo com os dois na hora. Vai ser muito bonito no dia seguinte os jornais mostrarem aos clientes a outra vida que o doutor levava.

– Você seria capaz de destruir um homem que lhe dá tanto prazer?

Fingiu que não ouviu e continuou a tentar feri-lo.

– Sabe o que sua mulher me disse um dia desses, aos prantos? Que quer o desquite.

Fora há poucos dias, quando Olívia descobrira mais uma sacanagem do doutor e ligara para ela, desesperada.

– Não agüento mais, Edite, não represento nada pra ele, nada. Acho melhor me desquitar, mas minha mãe se horroriza com a idéia, diz que na nossa família… essas coisas de gente velha, mas não quero que a pobrezinha sofra.

– Calma, Olívia, ele vai se cansar.

– Sei… Você é que devia ser a mulher dele, choramingou ela, não tenho mais paciência. Ele convive mais com você do que comigo, passa não sei quantas horas no consultório, depois Santa Casa e à noite vai pra farra, o safado. Sobra o que pra mim? O cansaço, os roncos, as ressacas, as olheiras. Isso é vida?

Ele não se emendava, nunca se emendaria. A discussão fora tão séria que certa hora ele levou a mão ao peito, fuxicou as feições num ricto de dor, alegando sentir dor forte. Pura conversa, encenação, chantagem, não a enganava mais. Nas outras vezes em que passara mal do coração, quase nem dera tempo de ser socorrido, ele soltara um grito abafado, levara a mão ao peito e caíra no chão, desmaiado.

– Para com essas chantagens emocionais, doutor, que não me convencem mais, deixei de ser tola. Nem adianta vir jurando que essa foi a última vez, por que não acredito mais.

– Dessa vez estou falando sério, disse ele, não é uma dor forte como das outras vezes, mas uma dor fininha que vem dos dedos para o peito, acho que estou enfartando.

– Quem quiser que acredite, rebateu ela, seca, abrindo a porta para a sala de recepção. A menina já está voltando do almoço, avisou.

Com a chegada da recepcionista a rotina recomeçou. Eficiente como sempre, Edite o assessorou até a hora do almoço. Sem falar nem sorrir.

Logo que o último cliente saiu da sala, perguntou, sorrindo brejeiro para ela, tentando dissipar o mal estar.

– Vai almoçar aonde?

– Não sei, respondeu emburrada, não estou com fome. Não vou comer.

– Nesse caso, também não vou, disse, despindo o jaleco. Almoçar sem você não tem graça. Vou ali na esquina comer um sanduíche e já volto. Tenho consultas marcadas para a tarde.

Ela continuava a trabalhar em silêncio. Ele a olhou, ansioso.

– Não quer saber como estou me sentindo, Ditinha, se a dor no peito continua? indagou com voz queixosa.

Nem o olhou ao responder:

– Você é médico, deve saber melhor que eu o que fazer.

– E se eu estiver precisando de carinho, de atenção, de um olhar compreensivo da única mulher que eu amo neste mundo?

– Palhaço, ela rosnou.

– Poxa vida, você está se tornando cada vez mais dura, mais incompreensível.

Ia responder uma bobagem, quando a recepcionista bateu na porta.

– Entra, ele gritou, e lançou um olhar sestroso para a moça assim que seu rosto apareceu no vão da porta.

– Já voltei, disse, sorriu doce e puxou a porta de volta.

– Você podia ser assim, disse ele, guardando os blocos do receituário na gaveta. Aliás, você era assim, uma coisinha gostosa, carinhosa, compreensiva com meus deslizes. Por que mudou tanto? Acho que você está entrando na menopausa.

Ela deu um grito:

– Doutor, não seja grosseiro! Me respeite, por favor, não me faça perder o resto de carinho e consideração que sinto por você.

Ele se levantou, aborrecido, ela estava insuportável:

– Carinho… e quem é que quer carinho? Eu quero é paixão, fogo, tesão!

Ela largou bruscamente o que estava fazendo e resmungando saiu da sala. Ainda a chamou, mas em pouco passos ela estava na rua, acompanhada pelo o olhar curioso de Daiane. Precisava tomar um pouco de ar, ver gente, mudar o foco de seus pensamentos.

Ele deixou o consultório sem passar a chave na porta. Sentia-se perturbado, com a dorzinha a importuná-lo.

– Quem é que entende as mulheres? se perguntou. Não dou tudo que ela quer?- Levou a mão ao peito, no lugar onde sentia a pontada de dor. – Vou procurar o Luis e fazer uns exames. Preciso me cuidar mais, foi o que a psicóloga gostosa recomendou, preciso gostar mais de mim, me valorizar, não me aborrecer com as implicâncias de criaturas que estão envelhecendo sem…

Parou de falar, olhou para os lados, desconfiado.

– Estou falando sozinho. Será que também estou envelhecendo rápido demais?

Afrontada, sem observar que nem tirara o jaleco ao sair, Edite atravessou a rua e andou sem rumo pelo jardim ressecado. Há quase um mês não chovia e a grama e as plantas que apreciava estavam meio murchas, sem vida. Como eu, pensou.

Preciso tomar uma decisão, também não agüento mais a vida que estou levando. Não é justo. Dediquei a esse homem mais da metade da minha vida, não cuidei do meu filho como devia, larguei de mãos os amigos e parentes, virei uma espécie de freira, só me dedico a esse deus que não me respeita, que não gosta de mim como eu dele, que me trai todos os dias, senão em atos, ao menos em pensamentos e intenções, percebo os olhares lúbricos que lança para as mulheres que cruzam na sua frente, é devasso, debochado.

Parou junto ao laguinho, respirou fundo, observando um desajeitado cágado tentando subir na mureta que o impedia de alcançar o capim. Como eu, pensou, desgostosa, o doutor é a minha mureta, me limita, me encarcera e por mais que eu faça…

Certa vez, numa das crises de ciúmes, nos primeiros anos de paixão, resolvera aceitar o convite de Lívia e sair com ela pela noite, se divertindo. Não pensava em arrumar namorado, queria apenas respirar um ar diferente, sentir-se livre, dona de sua vontade, se divertir.

Foram a um barzinho, repleto na noite de sexta-feira. Gente bonita, alegre, brincando, rindo, bebendo, conversando, ouvindo música, sentiu-se muito bem, renovada. Há quanto tempo não fazia isso? Do outro lado da sala, no meio de um grupo alegre, um rapaz a encarava. Sentiu que ficava corada e riu, surpresa: Parece que voltei a ser uma mocinha! Que bobagem é essa, minha mãe! E sorriu de volta para ele. Ficou feliz, mas o caso não passou disso, ele não largou o grupo para falar com ela.

Era muito jovem pra mim, se consolou. Mas é um sinal de que ainda atraio olhares e o interesse dos homens. O doutor precisa saber disso. E através de Lívia fez com que ele tomasse conhecimento da paquera, a amiga enfeitara ainda mais o pavão e ele ficara furioso, discutiram e acabaram numa luta de amor em cima da maca onde examinava pacientes, como de costume.

No dia seguinte ele tinha uma visita a fazer, atender um paciente complicado, que morava numa localidade a uns tantos quilômetros dali e ela programara usar a tarde para, junto com a recepcionista, dar uma limpeza em regra no consultório, aí incluídos os arquivos repletos de fichas de antigos pacientes, alguns falecidos.

Não foi possível. Assim que acabou de almoçar, quando ele não estava ela comia da marmita que trazia de casa, Olívia apareceu de surpresa. Ressabiada, depois da cena de amor do dia anterior, parecia que o mundo inteiro estava ciente de sua felicidade e que, por alguma razão, mancha na cueca ou na camisa do doutor, seu romance fora denunciado. Sentiu-se desconfortável quando a outra falou:

– Precisamos conversar, Edite, estou muito nervosa.

Olívia era uma mulher jovem, bonita e elegante. Filha única de bem sucedido produtor rural, se formara em Direito, mas não advogava, vivia para o doutor, apaixonadíssima. Vivia para ele e para a filha. Abrira muitas portas para o marido, que se tornara um médico requisitado, bem sucedido.

– O problema de meu marido, confessou a Edite, são as mulheres. Umas sem vergonhas que pulam em cima dele, um inferno. Tem dias que fico quase louca, até na minha presença elas o assediam. Coitado, ele não sabe resistir e aí…

Edite concordou vagamente com a cabeça, como se não conhecesse o apetite sexual do doutor e não sofresse os mesmos horrores.

– Preciso muito de você, Edite, de seus conselhos, de seu apoio.

Sentia-se miserável, mas nada podia fazer. Ela era uma das mulheres dele e não estava disposta a renunciar ao grande amor de sua vida. Ficou calada, escutando. Conversaram no consultório, Olívia na mesa dele e ela na cadeira dos pacientes.

– Você passa mais tempo com ele do que eu, continuou ela fungando e enxugando o nariz com o lenço, só que trabalhando, e pode me dizer o que posso fazer para prender meu marido. Você é observadora, deve conhecê-lo, ver quem vem aqui só para passar  uma cantada nele… Ele deve precisar de um ombro amigo de vez em quando, sei que confia em você, uma conversa verdadeira. Sem envolvimento emocional ele pode se abrir, certamente precisa de uma confidente, e quem melhor que você que está ali, ao lado, amiga e discreta, para ouvir e aconselhar? Sinto que você é uma mulher forte, centrada, e pode adquirir ascendência sobre ele. Seria ótimo para ele.

Olhos baixos, dedos das mãos entrecruzados sobre o colo, Edite escutava, morrendo de vergonha e de raiva, como podia ouvir a mulher falar assim de seu homem?

A conversa só terminou porque estava perto da hora do doutor voltar e Edite estava cansada de a ouvir falar, falar, falar. Daí em diante, Olívia constantemente ligava, às vezes de madrugada, quando o doutor se demorava em suas farras, chorando, se queixando, se maldizendo. Ouvia tudo, fingindo ser compreensiva, aconselhando, acalmando a pobre coitada. É o mínimo que posso fazer, se dizia.

Edite olhou o cágado em seus esforços para escapar do laguinho e só de raiva o empurrou de volta à água com o pé. Quem não tem competência, não se estabeleça, dizia o cliente português que morrera no ano passado de câncer de próstata. Um comerciante inflexível com os concorrentes, só pensava em vencer, não conhecia obstáculos, não tinha pena dos derrotados.

Era o que eu devia fazer com Olívia, pensou. Vou tomar o marido dela, com jeito faço o doutor a largar essa chata faladeira e vá viver comigo em outra cidade. Ela não merece esse homem, eu sim.

Voltou para o consultório andando devagar, se demorando na rua o mais possível. Antes de se trancar no consultório fedendo a doenças e a remédios faria um lanche. No meio tempo amadureceria a idéia, que a cada momento lhe parecia mais sedutora, de arrancar o doutor dos braços de Olívia.

O doutor, depois de comer um sanduíche com suco de laranja e olhar sem muita tesão as escriturárias que devoravam pratos feitos, voltou ao consultório e atendeu um paciente. Edite não retornara, ia demorar um pouco, era sempre assim, não era a primeira crise, depois seria sua vez de se mostrar ofendido e irritado. Um jogo. As pazes viriam após a recepcionista sair para encontrar o namorado, que sem dúvida não sabia aproveitar aquele material de primeira, pitéu de pele suave e bundinha empinada. Sacudiu a cabeça com força. Assim não vai dar pra resistir, sou capaz de na primeira oportunidade fazer amor com ela, e mostrar como um homem experiente, não um bobão cheio de espinhas, era capaz de dar prazer a uma mulher.

Quando Edite chegou, mais de uma hora depois, a cara fechada, ele arrumava seus instrumentos na maleta.

– Vou sair, ele avisou, e vou demorar. O velho Abelardo está passando mal.

Será mesmo, duvidou ela, ou vai se encontrar com uma piranha? Em troca, terei mais tempo para me recompor e planejar minha estratégia de conquista. Hoje, doutor, você é minha presa e não vai escapar.

Botou as mãos nas amplas cadeiras, olhou em volta e decidiu dispensar a recepcionista.

– Já, dona Edite, não é muito cedo? Ainda tem duas consultas marcadas.

– Ligue e desmarque as consultas, falou, impaciente. Não estou nos meus melhores dias.

– Pôxa, nunca vi a senhora desse jeito.

– Pois é, tem sempre uma primeira vez pra tudo. Vai, telefona para os clientes antes que apareçam por aqui.

Quando o doutor retornou, ela se distraía arrumando as fichas do arquivo.

– Demorou, hein? Já é quase de noite.

– Já é de noite, corrigiu ele, mal humorado, você se enfurna no consultório e nem vê o tampo passar.

– É verdade. Até me esqueço que há mais de 10 anos lhe dou amor e carinho e recebo migalhas em troca.

– Ah, não, exclamou ele, cobranças não, já chega a mulher em casa.

Ele apertou o peito com os dedos. Ela se preocupou.

– Tornou a sentir dor?

– Bobagem, uma ardência de nada, daqui a pouco passa.

– Deixa eu ver, disse ela, acercando-se, é aqui que tá ardendo?

Concordou com um gesto da cabeça e ela aproveitou para lhe tirar a gravata. Depois desabotoou a camisa e alisou seu peito, detendo-se um pouco mais no mamilo. Ele deu-lhe um olhar sacana e um meio sorriso. Ela empurrou a camisa para trás.

– Assim eu fico bom rapidinho, ele ameaçou, sorrindo.

Ela riu e o abraçou pela cintura. Em seguida beijou-lhe o ombro que a camisa deixara exposto. As mãos dele estavam ocupadas em abrir o cinto e abaixar as calças.

– Ah, é, é? Tá querendo uma sacanagenzinha, é? Pois vai ter.

Num instante estava deitada na maca com as mãos dele subindo por suas coxas.

– Tá sem calcinha, né, safada? brincou. Estava pensando em se aproveitar de mim, né?

Sem tirar a cueca, subiu pra cima dela.

– Passei a tarde toda pensando nisso, admitiu ela, com o nariz dele a fazer cócegas em seu pescoço. Você é meu, sabia? Só meu.

Ele desceu a boca para seu seio coberto ainda pelo jaleco.

– Deixa eu tirar a roupa, disse ela.

– Não, arquejou, não precisa, hoje estou com tanta fome de você, que estou quase gozando.

– Gente, o que é isso? Parece menino.

Ele se ajeitou e penetrou-a.

– Fome de você, muita fome, respondeu lutando com o cansaço.

No instante seguinte, ejaculou. Ficou surpresa, ele nunca agira assim. Ficou mais surpresa ainda quando logo depois desabou sobre ela, como um fardo.

– Doutor, chamou, sem receber resposta. Poxa, não me esperou, hein, seu egoísta?

E ele mudo, largado, seu peso a sufocá-la. Será que… e ela teve medo de completar o pensamento. Assustada percebeu que ele não respirava e devagar virou o rosto dele na sua direção. Estava de olhos fechados e sorrindo. Chamou por ele de novo.

– Deixe de brincadeira, doutor, estou ficando nervosa.

De vez em quando ele fingia desmaiar ou morrer assim que terminava de gozar, ela gritava de pavor, ele abria os olhos e ria muito como um menino travesso. Dessa vez demorava a atendê-la. Decidiu sair debaixo dele e foi levando suas pernas para o lado, mas antes que terminasse de levar o resto do corpo ele escorregou pelo lado oposto da maca e caiu no chão, desconjuntado.

– Ah, minha mãe, choramingou ela, ele enfartou.

Ajeitou a roupa, abaixou-se e tentou reanimá-lo. Fez os procedimentos recomendados, mas ele não reagiu. E agora? Agachou-se ao lado dele e chorou muito. Ele continuava a sorrir, indiferente aos problemas que sua morte inesperada e inoportuna causariam. Quando achou um mínimo de resignação, pegou a roupa e o vestiu com todo carinho. Depois puxou o corpo até a mesa e deixou-o ao lado da cadeira. Certamente após um ataque do coração ele não permaneceria sentado.

Suspirou fundo e murmurou, vendo que o sorriso dele continuava:

– Pelo menos morreu feliz, fazendo o que ele mais gosta.

Limpou os olhos com as costas da mão e ligou para o doutor Luís, o cardiologista.

– Ele é que vai dar a notícia a Olívia, decidiu.

 

F I M

 

                  O AMOR COMO UM RIO

       Por mais que acelerasse o carro, a noite chegou primeiro. As árvores correram velozes pelas laterais das ruas, em sentido contrário, procurando me confundir, me atrapalhar, fazer com que me atrasasse. Da mesma forma que as tarefas do escritório, sempre a exigir novas providências, a retardar minha saída. Nada podia ficar por terminar. Tudo conspirou para me atrasar. Ou fui eu a me boicotar, como de costume?

Não desci, abri as janelas do carro, acendi um cigarro e fiquei a observar a porta e janelas fechadas através das volutas da fumaça. A lua besta não tirava de mim seu olho avermelhado, que ódio! Sobe, lua, me deixe em paz! Não basta o gato idiota, sentado no muro, fingindo que lambe o pelo fedorento, e observando pelo canto do olho enviesado tudo o que faço? Acho que estou ficando gira, como diz minha mãe.

Terminei o cigarro e fiquei olhando as janelas. Naquela casa vivera os mais deliciosos e angustiantes momentos da minha vida, embalado pela brisa que balançava as cortinas e pelo casal que amei. Dela não tenho notícias, ele, tenho idéia pra onde terá ido. Meus amores, nossos amores, nossos encantos, nossos desencantos.

A história do tríplice e triste amor não é fácil de contar, nem doce de lembrar. E difícil de esquecer. Principalmente quando, à menor lembrança, o corpo se inteiriça, enrijece, se cobre de uma película tão sensível que um pensamento mais forte o escarifica.

– Não é por sua própria vontade que o rio se entrega ao mar, explicava o professor Fenelon, apelidado de “frenético” pela turma. Nervoso, agitado, saltitava sempre que se entusiasmava, ficava na ponta dos pés, fosse por uma lição, fosse por um comentário de aluno, fosse pelas notícias do mundo. Como o amor, ensinava, com os olhos enevoados postos nas traves do teto, o rio é empurrado por contingências naturais ou artificiais. É uma força telúrica em ação, nada o retém, nada o acelera, nada modifica sua natureza, por mais que o ser humano tente. Assim o amor.

Na hora, lembro bem, por baixo da carteira ela segurou minha mão e ele enfiou o pé por trás, entre minhas pernas. Gestos banais, mas meu coração foi a mil por hora! Surpreso, me perguntei porquê. Não soube responder. Eram apenas colegas de sala, de bom dia e boa tarde, de copiar ponto e sorrir cordialmente. Por que seus toques banais provocaram tal reação? Nunca entendi. A mão do destino, talvez?

– Graças a seu caráter de força da natureza, explicava o professor frenético, o rio segue seu curso cegamente, atravessa planícies áridas e pastos verdejantes, lambe e contorna montanhas, se despenca por precipícios, se esgueira por entre pedras e penhascos e desliza por relvados banhados de sol ou penetra sem medo em escuras grotas.

Ele, sentado na carteira atrás da minha, se debruçara para a frente e escondidos pelo caderno grosso, seus dedos passaram muito de leve pela minha nuca e elevaram minha tensão; ao mesmo tempo, abertamente, sem nada a temer, ela pegava meus dedos em suas mãos de cetim e os percorria com a ponta da unha, de um a um, da unha à palma da mão. Meu rosto se avermelhara como pitanga madura. Eu sentia o calor que subia do pescoço. Por que os dois ao mesmo tempo? O que queriam de mim? Perguntas nunca respondidas. Juraram que fora coincidência ou a vida a comandar nossos atos, como um rio.

– O rio, continuava o mestre, apoiando seu corpo mirrado na biqueira metálica dos sapatos, não pára, não se cansa. Embrenha-se por densas florestas, se embarafustando por entre troncos, raízes e cipós. Não conhece obstáculos, não sabe por que corre, se deixa levar, sem perguntas.

Os dois me amaram? Eu os amei? Qual era o sentimento que me tomava?

– Seu alvo é o mar e nada é capaz de desviá-lo. No trajeto dessedenta animais e homens, rega e fertiliza lavouras, sem parar. Não se nega a nada nem a ninguém. Se lhe jogam em cima o fedorento esgoto ou a venenosa poluição, carrega-os sem medo, sem nojo nem revolta, até que se diluam. Segue impávido seu destino, nas mais diversas circunstâncias, sem se oferecer ou negacear. Espreme-se entre morros ou rochedos, tornando-se um fio dágua ou se espraia sem controle pelos areais Assim o amor, retratado pela alma humana. Pode ser apenas desejo. Ou perversão da alma.

Naqueles dias, em qualquer ocasião, os dois arrumavam um meio de me imprensar, de se esfregar no meu corpo eletrizado. Um sanduíche. E riam, como se condenados à felicidade. No princípio ficava abismado, por que despertava neles esse desejo ardente e urgente? O que teria eu de especial? Nunca cheguei a uma conclusão.

Contatos excitantes e prometedores de prazeres novos. Miragens que se desfaziam a um olhar mais acurado. Era essa minha brincadeira mental, a me excitar, me atormentar, me enlouquecer de desejo? Por que?

Pensei que eram irmãos ou parentes próximos, pirados adeptos de namoro aberto ou amor livre, que viviam ou moravam juntos.

– Não, ela contou, vivo com meus pais e dois irmãos, eu e ele nos conhecemos aqui mesmo, acho que no dia da matrícula.

– Comigo é diferente, ele afirmou, moro sozinho numa boa casa que meu pai comprou para eu poder estudar. Meu pai é um político muito conhecido.Contratou uma senhora idosa que arruma a casa e faz minha comida. Vai lá uma vez por semana e fica o dia todo, lava, passa, uma mãe de aluguel, eu diria. Você sabe, perguntou a ela, que a velha curte música erudita? Ela fecha os olhos e viaja quando ponho Brahms ou Debussy para tocar. Uma graça.

Ela encostou seu ombro no meu braço e me olhou, delicada como uma pétala de rosa se desprendendo. Disse com doçura:

– Um dia vou convidá-lo para vir à minha casa, conhecer meus pais, você vai gostar, são quadradinhos que nem você.

– Eu, quadrado?

– Liga não, disse ele, é brincadeira dela para encabular você.

Ele sorriu mais doce ainda, covinhas se formando nas bochechas rosadas como as de um bebê. Ficava até bonito. Passou a mão na minha cintura. Nos olhos faíscas de desejo.

– Quanto a mim, disse, como falei, moro sozinho e será um prazer indizível recebê-lo. – piscou-me, maroto – Tenho uísque, martini, cerveja, vodka, rum, tenho de tudo para embebedar e mais umas coisinhas. Ah, e música para todos os gostos, de rap a clássicos.

– Só se eu for junto, disse ela, petulante, também gosto de coisinhas e de música. E sou muito ciumenta.

Assim começou a estranha relação entre nós três e ninguém pode garantir quem era o pai do bebê que por azar ela abortou espontaneamente no segundo mês.

A casa dele era um pedaço de paraíso, linda, bem decorada, confortável, arejada e acolhedora e ele, como um anjo, flutuava entre os cômodos, iluminando com um sorriso gentil e desferindo maliciosas observações, que mais pareciam convites.

Nos recebeu com um beijo no rosto, próximo demais das bocas, braços a enlaçar nossos corpos como tentáculos. Ela se pendurou no pescoço dele, sussurrou coisas dentro de seu ouvido. Tentei ser discreto, comedido, mas junto com o beijo sua mão desceu pelas minhas costas seguindo a linha da coluna vertebral até à cintura, onde parou, brusca, cortando a idéia que ia descer mais. Me inteiricei e imaginei o que fazer caso descesse mais. Não me aborreci.

Nada aconteceu naquele dia, ficamos muito excitados, o que atrapalhou qualquer ação. Havia comida farta na geladeira, esquentamos nossos pratos no microondas e comemos conversando sentados, direitinho, como bons meninos. Numa hora ela disse:

– Bom, vou pra casa, acho que vai chover e tenho que estudar. – Olhou para mim – E você vem comigo, não vou deixar os dois sozinhos,

– Por que, ele indagou, acha que vou estuprar o colega?

– Violentar, animal, não se aplica o verbo estuprar para violência sexual contra homens.

Ele a olhou, surpreso com o tratamento, e procurei amenizar a situação.

– Que comida gostosa, cara, é a mulher que cuida de você quem faz?

Ele sorriu, ainda contrafeito:

– É, é ela sim, uma boa cozinheira. Nem na Europa se acha igual.

– Como você sabe, indagou ela, ainda hostil, já esteve lá?

– Algumas vezes, minha mãe mora na Alemanha.

Ela riu sem graça e continuamos a comer em silêncio. Não dava para entender a hostilidade da colega e trocamos olhares constrangidos. Ela pareceu finalmente ter percebido que o ambiente se tornara desagradável e ergueu-se:

– Vamos? me perguntou e me estendeu a mão para garantir que iria acompanhá-la.

O começo promissor terminou em baixo-astral. Imaginei que ele não nos convidaria mais. Na despedida, porém, ela tomou o rosto dele entre as mãos e com voz embargada e lágrimas nos olhos, se desculpou:

– Desculpe o vexame, baixou os olhos, suas mãos segurando as dele, é que estou com TPM, sabe, e às vezes fico insuportável. Desculpe.

Não sabia o que pensar nem como agir e fiquei na minha. Nada falamos na volta, ela emburrada a olhar pela janela do ônibus, eu focado na careca do motorista.

No dia seguinte, ao chegarmos à sala de aula encontramos uma margarida enorme em nossas carteiras, inclusive na dele, que nos observava com um sorriso beatífico. Nada se comentou e durante uma semana agimos como colegas de escola.

– Acho que ele nunca mais vai nos convidar pra ir na sua casa, comentou ela.

Nada falei. Estávamos na calçada em frente à escola, por onde os alunos saíam me bando, parecendo colegiais do curso médio e não do superior. Escurecia e impaciente por chegar em casa, apertei os cadernos no sovaco e me preparei para partir. Então fui enlaçado por trás.

– Vamos lá em casa, ele murmurou, a boca roçando meu cangote. Ela já deve ter saído da crise mensal. Vamos?

Ela riu gostosamente e lhe jogou um beijo com os dedos.

– Hoje não dá, disse ela, não avisei em casa e o telefone está com defeito. E nosso amigo não pode ir porque vai me levar em casa.

Depois diria que receava me deixar sozinho com ele e que a deixássemos de lado. Muitas coisas foram explicadas depois, quando estávamos mais enovelados que cipós na mata virgem. Algumas me irritaram, outras me agradaram.

Quando se convenceu que não iríamos, ele sorriu, conformado:

-Vamos adiar o nosso dia.

– Nosso dia? estranhei.

– É, o dia da descoberta, do nosso conhecimento total.

– Como assim? perguntou ela.

– Vocês verão, ele desconversou, será uma epifania. Quando querem ir? Pra mim qualquer dia é dia, qualquer hora é hora.

A casa dele, linda e acolhedora, tornou-se nosso encanto, refúgio, paraíso, o lugar onde nos sentíamos livres e amados. Livres demais, sei agora, e mais que amados, desejados.

Uma banda de música nos esperava no dia em que, após uma semana de aborrecimentos pelos impedimentos que surgiam um depois do outro, voltamos lá. Talvez por isso ele tenha se esmerado nos preparativos para nos receber. Esta sala, cujas janelas se abrem para me olhar na rua e acendem recordações, fora decorada em tons quentes. A parede amarelo forte se conjugava às poltronas douradas, enfeitadas com almofadas de tecido que parecia bordado a ouro, e com tapete de tons castanhos dourados com fiapos entrançados cor de vinho. Ficamos deslumbrados. Sabíamos que o pai dele, um rotundo senador, sempre com fotos nos jornais, era rico, mas não tanto. Depois soubemos que nosso colega era filho de seu primeiro casamento, cuja mulher fora morta num assalto, a seu mando, como alguns de seus adversários políticos acusavam abertamente, pois o traía até com os seguranças encarregados de protegê-la e vigiá-la.

A nova mulher, uma loura esplendorosa, trinta nos mais nova, exigira que o filho para bem longe, o detestava, sentimento recíproco. Por conta disso, só de raiva nosso amigo fazia o que queria, o que o pai fingia ignorar, desde que não falasse a ninguém seu nome e filiação.

O filho dizia detestá-lo e nunca o chamava de pai nem pelo nome. Era o gordo com um ovo na boca, a porca velha, tia Nastácia – o pai era moreno – o barril de merda, peidão e nomes semelhantes. Nos disse uma vez que achava que o senador não era seu pai, o que desmentiu dias depois.

Quando chegamos à sua casa nos fez aguardar no jardim. Entrou, ligou a vitrola e a banda se pôs a tocar em tom muito alto, o que fez alguns vizinhos chegarem na janela. Ele sorriu sem graça e baixou o som. Entramos na sala das 1001 noites contritos e assustados, como quem entra num templo. Braços cruzados, ele nos observava sorrindo.

– Nunca mais, contou ele tempos depois, tive tanta satisfação na vida como naquele dia.

Ele era o mais baixo dos três e ao nos abraçar pelas costas, com as mãos em nossas cinturas, sorrimos, lembrando que dizíamos que formávamos uma capela, sendo ele a nave e nós as torres. Ele pareceu ter se lembrado, pois sorria enquanto nos empurrava com suavidade para a sala.

– Gostaram?

– Que luxo, murmurou ela, aturdida. Parece coisa de filme!

– Vocês merecem! exclamou dando um beijo no ombro de cada um de nós.

Foi o golpe final em qualquer resistência que pudéssemos apresentar. Fingindo-se de garçom, nos serviu comida japonesa que nunca havíamos provado, acompanhada de um vinho especial.

– Pedi a papai e ele me mandou essas garrafas, informou. Disse que era para um almoço íntimo com minha namorada. O que ele nem desconfia é que é um casal de namorados. E que sou louco pelos dois!

Daí em diante tudo aconteceu entre os três e tanto eu quanto ela perdemos a virgindade. Ele, como nos contou, tinha perdido a sua há tempos. Uma folia de amor, os três alucinados fazendo o que nunca haviam imaginado serem capazes de fazer em matéria de sexo. Todos os dias depois das aulas íamos para lá e justificávamos em casa dizendo que era um mutirão de estudos para passar de ano.

Perto das festas de fim de ano viajou para a casa do pai e lá ficou até março.

– É tradição, disse, os meus irmãos, filhos de papai com outras putas também vão para lá. Mas vou morrer de saudades.

– Nós também, ela garantiu com candura. E olha, prometemos que nada faremos sem você. Cada um vai ficar em sua casa, quietinho, esperando. Não deixe de escrever.

O ano seguinte foi de pura luxúria e se não fosse a cabeça fria de nossa amiga, que controlava os estudos, teríamos perdido de ano, o que não podia acontecer. Ele nos apresentou à maconha, enviada por um primo pelo correio. A loucura aumentava e comecei a temer essa progressão, sem saber até aonde poderíamos chegar.

Não me sentia bem. Achava que estava abrindo caminho para o inferno ao participar das orgias. Peguei uma gastrite, tinha constantes dores de cabeça e de barriga.

Não dava para continuar assim. Faltavam dois anos para terminar a faculdade e corri a buscar um estágio, sem remuneração, para diminuir o tempo disponível para as farras. Estava viciado em bebidas e maconha, e de vez em quando cheirava cocaína.

Os primeiros meses do ano seguinte foram tranqüilos. Ela também arrumara estágio e tinha pouco tempo para as orgias. Mas não deixávamos de ir lá algumas noites. Era difícil largar o prazer com o luxo e conforto que nos dava. Ele reclamava, exigia nossa presença, meu corpo, porém, se rebelava. Ela, que fora uma das mais entusiasmadas participantes da esbórnia, mostrava sinais de cansaço e irritação. As tiradas de humor dele que antes a faziam gargalhar provocavam agora sorrisos contrafeitos e comentários sussurrados do tipo:

– Lá vem o bestalhão metido a engraçado. O palhaço ridículo chegou.

E coisas do gênero. Nos seus dias de mau humor, de TPM, o chamava de “o filhinho idiota do senador”, “o riquinho depravado”, e coisas piores. Ela o culpava por tudo.

– Às vezes tenho vontade de sumir, me confessava, gostaria de não ter conhecido esse animal que só pensa em sexo. Tem horas que até a voz dele me irrita.

Como dizia o professor frenético, o amor é como um rio que arrasta tudo o que cai na corrente, e ia nos levando aos trambolhões, enfiando nossa cara na lama da margem toda a vez que tentávamos escapar. O pior é que nem sempre queríamos mesmo escapar. Independente do sexo, sentia certo carinho por ele, talvez amor, mas tudo parecia contaminado pela depravação que inundou nossas relações e enfeava os gestos de carinho. Isso me constrangia muito e provavelmente o mesmo acontecia com ela.

Antes do final do ano, que seria o penúltimo do curso universitário, ele recebeu o recado de que algo não andava muito bem com seu pai. Prestei atenção ao noticiário dos jornais, porque ele abominava televisão e não deixava que um aparelho entrasse em sua casa, e vi o retrato do rosto redondo, de olhos estreitos e aparência malévola, do velho político. O filho passou uns dias preocupado, não saía de perto do telefone, mas a ausência de notícias o acalmou.

Deu uma festa para comemorar, bebemos e cheiramos. Eu ficara um pouco mais esperto e precavido e não acompanhava totalmente os dois, jogava parte da bebida fora, só não resistia ao apelo da droga. Ela convencera os pais que nós dois éramos homossexuais, que podia dormir na casa sem correr risco e quando bebia demais, ficava para dormir. Preparava a monografia de final de curso, explicava aos pais, precisava de sossego para pesquisar e redigir a matéria, o que em casa não conseguia.

Comigo não havia empecilhos, há algum tempo fora liberado para passar as noites fora de casa, era homem, porra, havia mulheres à disposição. Minha mãe se conformou.

Íamos entrar de férias quando a bomba explodiu: o senador fora preso pela Polícia Federal como cabeça de um esquema de desvio de verbas federais, meu amigo ficou pálido, senti por ele, o pai, a princípio aparecia nos jornais em pose arrogante, ninguém podia acusá-lo de nada, sempre fora honesto, dizia, era um ferrenho defensor dos interesses de seus eleitores, tratava mal os repórteres, a quem chamava de abutres que viviam da destruição da honra alheia, impressionante sua performance.

O filho cerrava os punhos e os lábios de raiva. Todos os safados iam engolir cada insulto proferido contra o pai. Imprensa marrom, que vivia de denegrir reputações.

Um assessor do senador, insatisfeito com a pequena parte do butim que recebera, procurou as emissoras de televisão com um vídeo onde gravara o impoluto político recebendo maços de dinheiro. No escritório havia um aparelho de 14 polegadas onde assisti, estarrecido, a degradante cena passada em vídeo do pai do meu amigo receber o dinheiro com sorrisos de satisfação e enfiá-lo nos bolsos do paletó, da calça e até nas meias. Imagens terríveis que ele não viu mas certamente tomou ciência.

Chorou muito nesse dia e minhas palavras de consolo de nada adiantaram. Parecia como um recém-nascido com cólicas. Custou muito a dormir, drogou-se e embebedou-se a não mais poder e tive medo que morresse de overdose. Ela veio, sentou-se a nosso lado e deu-lhe a mão cálida. Ele a olhou envergonhado.

– Às vezes, comentou ele, me sentia mal com o que fazemos, as bebedeiras, os desregramentos sexuais, mas pensava que Deus havia de me perdoar porque só fazia mal a mim mesmo. A vocês também, é claro, mas eram adultos quando os conheci, sempre souberam o que fazem, cada um responde por sua auto-destruição, mas meu pai fez mal a muita gente, crianças ficaram sem merenda, doentes sem remédios, pobres passando fome, é muita maldade, e meu pai viajando para o exterior, comendo do bom e do melhor em hotéis caríssimos, é insensatez e crueldade demais pra mim.

Inconsolável, sentou-se junto ao telefone e ali ficou toda a noite, dormindo sentado, acordando sobressaltado e eu o amei por isso, senti que por baixo da degradação havia um ser humano que penava, se punia, que sofria ainda mais com o que o pai fazia. Abracei-o e dormitamos juntos, sentados ao lado do aparelho.

Apesar de tudo, da prisão, da confusão que grassava em seus negócios, o dinheiro para o filho chegou na data certa, com o recado que deveria voltar para casa o mais breve possível. Ele nos olhou como um cachorro batido e perguntou:

– Vocês querem ir comigo? Eu pago as passagens e garanto que serão bem recebidos. O meu pai não é esse monstro que estão mostrando, alguma tramóia foi feita pelos seus adversários para destruí-lo, nós vamos para uma das nossas fazendas, ficaremos longe dos comentários malvados desses jornalistas comprados pela oposição para destruir a honra de meu pai. Tenho certeza de que o que foi mostrado não corresponde à acusação, o dinheiro não é de fraude, ele vai me explicar, montaram uma armadilha e o pegaram, ingênuo que ele é. O tal assessor eu conheço bem, um crápula, uma bicha safada que pega homem em banheiro público, meu pai já o tirou da cadeia um monte de vezes.

Na crise saía em defesa do pai. Ou de seu provedor? Ouvimos em silêncio. Ela foi a primeira a falar. Não nos encarava, sorria sem graça.

– Ó, eu bem que gostaria, mas não sei se vocês se lembram, eu contei que meu chefe elogiou muito o meu trabalho, quer me transferir para uma filial em Los Angeles, garantiu que arruma para eu terminar o curso lá, parece que há faculdade para atender aos imigrantes legais latino-americanos, é uma oportunidade imperdível, meus pais adoraram a notícia. – Tentou se mostrar alegre e brincou – Quem sabe daqui a algum tempo vocês não vão me visitar, passar uma temporada comigo nos Esteites?

Ele e eu nos entreolhamos, duvidando da sinceridade do convite. Podia até ser verdade, mas como a viagem surgira numa hora tão oportuna, ficamos desconfiados.

– Tudo bem, ele disse, cauteloso, vamos guardar para sempre em nossa lembrança esses anos maravilhosos que vivemos juntos.

Ela sorriu mais sem graça ainda, nos beijou na face e se afastou, sem olhar para trás. Ele me perguntou depois que ela estava longe:

– Ingrata! E você?

– Vou não, quero terminar meu curso, arrumar um emprego. Quero mudar de vida.

E ele se foi. Também sem olhar pra trás e sem me deixar com remorso.

Poucos anos se passaram. Ele me escrevia contando seu monótono dia-a-dia na casa do pai, as brigas familiares, problemas com o pai, que se vira obrigado a renunciar ao mandato para não se tornar inelegível e passava o da em casa, implicando, cobrando, reclamando de tudo e de todos. E que voltara a pensar em campanhas políticas, queria ser reeleito. Falava horrores do pai, a baleia com cólicas. Estava com dificuldade em terminar o curso, não se dava bem com os colegas, odiava a faculdade, criava problemas com os professores, sentia muito a minha falta.

Dela, em todo esse tempo, recebi um cartão postal, dizendo que estava bem, sem dar o endereço. Ele recebera um cartão igual. Fiquei incomodado, mas passou.

Continuei com a vidinha tranqüila, me dava bem com todo mundo e não me ligava a ninguém, tive umas aventuras e namoricos, me formei, arrumei um emprego razoável, troquei-o por outro melhor pouco tempo depois. Tranqüilo e feliz, procurava esquecer os anos loucos vividos na casa que considerava encantada. Apenas uma vez, num domingo ensolarado, passei por ela, janelas e portas fechadas, bela adormecida a  esperar seu príncipe. Olhei-a por um tempo, como faço agora. E penso que pode ser que algum gênio do mal a habite e corrompa seus moradores. Uma boa desculpa.

Acho que se passaram mais uns dois anos, antes dele reaparecer. Eu havia recebido um cartão dela comunicando que se casara. Dizia que só para obter o greencard, sentia apenas amizade pelo marido. Não me afetou, os anos passados haviam amortecido meus sentimentos. Quando estava só nem conseguia me lembrar do rosto dela. Nem do dele. Precisava recorrer às fotos.

O telefone soou estridente na sala, da cozinha minha mãe me mandou atender. Meu pai tinha ido ao jogo de futebol. Nos primeiros momentos não reconheci sua voz, o que motivou uma repreensão:

– Pombas, já esqueceu a minha voz?

Há muito não o ouvia. Não sei se senti medo, raiva ou prazer em ouvi-lo. Sempre fui um poço de contradições. Isso me exasperava. Eu me perguntava por que encarava com naturalidade, sem remorso nem saudade, os anos loucos na casa encantada. Ela se fora, fugindo dessas lembranças. Ele continuava a querer revivê-las. Eu ficava indiferente, como se assistisse a um filme sem graça.

– Faz tempo, né? E depois, pouco falamos ao telefone.

Ele pareceu satisfeito com a resposta e sua voz se encheu de energia.

– E então, vamos nos encontrar?

Eu não estava a fim, fora pego de surpresa, pensara que nunca mais o veria. Respondi depois de alguns segundos:

– Hoje não dá, tenho compromisso.

– E amanhã? Amanhã à tardinha? Pode ser lá na casa mesmo, meu pai não se desfez dela. Nosso velho ninho de amor.

– Amanhã também não dá, respondi aborrecido com a referência ao passado.

– Que isso, cara – e a voz dele se irritava – está fugindo de mim?

– Não, quê isso?

A conversa continuou por um tempo, com investidas dele e jeitosas escapulidas minhas, jogo de gato e rato que não podia ter outro final senão meu consentimento em vê-lo. Optei não pela casa, mas por um restaurante na orla. Local neutro, sem lembranças. Não pretendia recomeçar a gandaia. Para mim aquilo era o passado, coisa de adolescentes, todos crescêramos e tínhamos de agir como adultos. Nova fase devia ser vivida.

Ele pouco mudara, a pele estava melhor, poucas espinhas, barba alourada e óculos de grau. Abraçou-me com força, quase perco a respiração. Correspondi fracamente e ele me olhou de lado, magoado. Não me importei, pretendia que fosse o nosso primeiro e último encontro.

Conversamos banalidades, fugi de tudo o que pudesse trazer lembranças das folganças. Ouvi mais do que falei, ele sempre a me contar das desavenças em sua casa, o pai fora reeleito, se divorciara mais uma vez, escolhera uma mulher linda e jovem, ex-miss de um país latino-americano, descarada, que dava em cima do enteado despudoradamente. Por isso o pai, sabido, o devolvera à velha casa, a pretexto de fazer uma pós-graduação.

– Babaca que ele é, eu não estava a fim dela. O velho nada na grana, como sempre. Tudo de roubalheira, maracutaias. A Polícia Federal já deu umas duas batidas em nossa casa e no escritório, mas ele é muito esperto. Já falei com ele, qualquer dia vai parar atrás das grades. Não me ouve. E ainda ri na minha cara, balançando a pança. Não sei como ainda não teve um infarto. Vaso ruim não quebra.

Consegui, diplomaticamente, manter o encontro em tom amigável, só amigável. Nada de papos dúbios. A qualquer menção aos antigos prazeres dava um jeito de sair de lado, sem magoar. Sei que ficou frustrado, mais tarde me contou, esperava que caíssemos nos braços um do outro, com tesão e ternura. Pra mim não dava mais.

Driblei-o durante quinze dias ou um pouco mais. Estava irritado, não suportava o som de sua voz. Um dia, porém, não sei como, ele apareceu no escritório onde eu trabalhava. Simpático, falante, elegante, conquistou os colegas. Sorrindo amarelo, apresentei-o como um velho colega da faculdade. Sentou-se a meu lado e murmurou:

– Ela voltou.

Juro que a princípio não liguei uma coisa à outra, o que pela minha expressão de espanto ele deve ter concluído e completou:

– Ela, porra, a nossa amiga que está nos esteites. Veio passar uns tempos, sem o marido. Ligou para você e para mim. Quer nos ver. Lá na casa.

Me senti desgostoso e aborrecido, quanto mais orava mais assombrações me apareciam.

– E aí?

Eu tinha avisado a meus pais para dizer a quem quer que me telefonasse que estava no trabalho, ia fazer serão, qualquer coisa. Em vista disso, ela procurou por ele.

– Daí que marquei para sábado à tarde. Sábado você folga, não é?

– Não sei se estou a fim de fazer esse programa de índio. Passado não se revive, está morto. Eu vou ficar noivo em breve, vou me casar.

– Mentira, disse, como se grifasse uma palavra. Contratei um detetive para pesquisar sua vida. Você não tem ninguém. Deixa de ser enjoado e mentiroso. Vamos nos encontrar lá sim, nem que seja uma única vez.

Foram dias de aporrinhação, mau humor, azia, dor de cabeça, insônia. Até entender que era um problema que precisava ser resolvido de uma vez ou me incomodaria por toda a vida.

Estranho como a vida gosta de pregar pecinhas nas pessoas. No jardim restaurado, eles me esperavam sentados num banco de pedra. Se levantaram ao me ver e ela estava linda, linda demais. Apertei os olhos,duvidando da visão diante de mim. A mocinha que eu tivera em meus braços, que dividira com o colega nas bacanais, se transformara num mulher muito bonita, elegante, de olhos brilhantes. Ali me apaixonei e senti raiva do cara que fui, que permitiu que ela participasse da nossa depravação.

– Bom, disse ele, contrafeito ao ver minha reação deslumbrada, agora tenho certeza que o passado não vai ser mais detestado.

Ela sorriu com doçura e me beijou no rosto. Não um beijo formal, de cumprimento de amigos ou conhecidos, embora só a ponta seus lábios me tocasse a pele. Não sei explicar, mas havia mais alguma coisa no beijo, uma declaração de afeto, de nítido interesse por mim. Pelo menos assim senti.

Ele redecorara a casa, dinheiro continuava a não lhe faltar. Tapetes persas e almofadas de seda, jarras com flores, velas coloridas acesas. Acendera incensos nos cantos da sala e cortinas de cores indianas dançavam movidas por ventiladores de teto. Guitarras ciganas ou coisa parecida, não sei distinguir sons, faziam a trilha sonora.

Feliz com a nossa presença, pareceu não notar o constrangimento.

– O que vamos beber?

– Pra mim nada, ela respondeu. Preciso perder peso e bebida engorda.

Ele arregalou os olhos:

– Você está perfeita, nunca esteve tão bonita!

Ela me olhou, faceira. Sorri, ela havia lido nos meus olhos a aprovação entusiástica. Baixou os olhos, modesta. Ele estava inquieto.

– Vamos fazer o quê, então? Conversar? Dançar? Trepar? Ainda é cedo pro almoço, né?

– Vamos conversar, ela sugeriu, falar do que estamos fazendo. Lembre-se que lhe disse que não poderia demorar muito, que iria embora logo depois do almoço.

– Ah, não pode ser, ele rebateu, nos olhando atarantado. Poxa, preparei tudo com o maior carinho, tudo do bom e do melhor… gastei uma nota! Não, nada disso, vamos aproveitar que estamos junto e relembrar nossas brincadeiras.

Ela brincava com as alças da bolsa:

– Vai dar não… viajo amanhã.

Antes que ela continuasse, ele deu um salto de polichinelo.

– Esperem um pouco, tenho uma surpresa. Passei alguns meses em casa de minha mãe, em Dresden, uma loucura! Aquilo é que é povo civilizado, sem preconceitos, me enturmei com um pessoal da pesada, fiz de tudo, ui! Aprendi a dança do ventre, acreditam? Lá estava muito em moda como estimulante sexual. Volto já.

Ficamos os dois perplexos, sentados nas almofadas, sem saber o que dizer.

– Eu também não quero ficar, falei em tom baixo.

Ele surgiu fantasiado detrás das cortinas, devia ter tudo preparado para a performance, pois trocou de roupa em segundos. Vestia-se de odalisca, véu cobrindo parte do rosto e véus coloridos pendendo da faixa que envolvia os quadris roliços. Engordara e sua pele clara luzia e tremelicava à medida que andava, buscando a graciosidade de bailarina. Com o controle remoto mudou a trilha sonora. Como pintara o rosto rápido demais, ficara manchado, grotesco.

Ela me olhou, surpresa, como se esperasse uma explicação. Que sabia eu? Estava tão aturdido quanto ela. A dançarina gorducha, coberta de véus, pôs-se a menear os quadris e a mover os braços semelhando serpentes. Olhava-nos fixamente, tentando encontrar expressões de encantamento ou prazer.

Durou poucos minutos a dança, percebendo que o riso ia tomar conta de nós, ele parou no meio da sala, nos lançou um olhar de desespero e um soluço sacudiu todo seu corpo. Tartamudeou:

– Eu queria… eu devia saber que era tolice, mas eu pensei…

Desabou sobre as almofadas e foi tomado violentamente pelo pranto. Estávamos cada vez mais desconfortáveis. Ela fez menção de se levantar, desistiu, mudou as pernas de posição. Ficou só olhando. Em outros tempos, iríamos consolá-lo.

Ele chorou muito. Muito mesmo. Seu corpo se sacudia em espasmos. Eu me mexia, inquieto, na sala onde ele nos apresentara à sexualidade, uma sexualidade permissiva, dividida, promíscua. Ele nos ensinara depravação. Só que não conseguia condená-lo. Nem eu nem ela éramos crianças quando descobrimos o prazer safado. Para usufruir dele mentimos, enganamos nossos pais e colegas, enfim, nenhum de nós era inocente, nenhum isento de culpa, se é que havia culpa. O amor, como um rio, nos arrastara por terras estranhas, montes e vales, areais e lodaçais. Mas, fora o amor?

Enfim me ergui e estendi a mão para ela se levantar. Passado o paroxismo da crise de choro, ele soltava um soluço de quando em quando, a espaços cada vez maiores.

– Vamos embora, suplicou ela.

Ele levantou o rosto molhado de lágrimas, a maquiagem borrada de atriz trágica.

– E o almoço?

Ela baixou os olhos para a bolsa.

– Quem sabe outro dia? Perdi completamente a fome.

– Sou uma besta, gritou ele, estraguei tudo.

Fiz um gesto de me aproximar dele, mas ela me deteve com a mão. Murmurou:

– Não faça isso, disse baixinho, não estimule a neurose. – E alto, para ele: Até mais ver, lhe telefono durante a semana. – Sabíamos que era mentira. Virou-se para mim – Vem comigo? Vou pegar um táxi.

– Não, estou de carro.

Ela pegou minha mão:

– Então me dê uma carona.

Ele ficou caído sobre o tapete, esfregando furioso a cara borrada nas almofadas. Estacionara o carro em frente à casa, mas antes que pudesse dar partida ele surgiu no muro:

– Vou voltar à Alemanha, disse, não tenho mais clima em casa de papai. Só voltei aqui para vê-los, queria recuperar aquele tempo. Pensei que a gente pudesse…

Liguei o motor. Sentada a meu lado, cabeça baixa, ela mexia nas alças da bolsa, cacoete.

– Vambora logo, ordenou, baixo. Estou sufocada.

A cara desolada de pierrô apoiada no muro implorava piedade. Meu coração ardia, meus sentimentos oscilavam. Era justo deixá-lo sozinho naquele estado?

– Venha à Alemanha comigo, ele disse, olhos implorantes. Ela sei que não vai, senti que me despreza, me odeia, mas você… nós sempre nos demos tão bem… Foi quem primeiro amei, lembra-se?

– Você será louco varrido se acompanhar esse neurótico num país estrangeiro, onde não conhece ninguém, rosnou ela. Pelamor de Deus, vamos embora!

– Neurótica é você, gritou ele com voz embargada, neurótica e ingrata. Esqueceu de todos os prazeres que lhe proporcionei?

– Você é nojento, gritou ela. Nos sujou com suas taras, nos corrompeu, é bem filho de seu pai, um corruptor irresponsável. Nunca mais quero vê-lo.

Arranquei com o carro antes que a situação se agravasse. Ele gritou uns impropérios e umas verdades que não gostaríamos de ouvir.  Ela cuspiu na rua pela janela.

– Vim na melhor das intenções, rosnou ela, para fechar com classe esse período negro de minha vida e o que encontro? Esse monstro desvairado. Ainda bem que não sabe meu endereço e nunca saberá. Vou sacudir as sandálias e viajar amanhã ou hoje à noite, ufa! talvez seja melhor.

Eu dirigia em silêncio, os olhos postos na rua. Me perturbava a idéia que talvez não estivéssemos sendo justos com ele. Não saberia explicar o que nos aconteceu, como fomos arrastados pelo rio do vicio. Sei que na época me sentia infeliz, ela também. Ele pior ainda, com o carma de suportar um pai corrupto. Na época conversamos muito sobre isso. Estávamos mal e nos juntarmos na farra foi a maneira de nos consolarmos.

Na despedida, em frente à sua casa, ela falou:

– Gostei muito de ver você. Sempre tive uma queda por… ah, deixa pra lá, nosso tempo passou, foi conspurcado por aquele cretino. Cheguei a pensar, quando você chegou, que talvez a gente pudesse começar uma relação séria, sabe, meu casamento foi uma farsa para conseguir o greencard, já me livrei do cara, aí eu pensei que a gente… mas não, não ia dar certo com esse passado nojento a nos perseguir. Quem sabe mais adiante encontro minha alma gêmea?

Sorri sem graça, tacitamente concordando com o que ela dizia. Pra mim também seria difícil manter um romance com ela. Ela sacudiu a bolsa pelas alças, ampliou o sorriso, curvou-se e me beijou de leve, nos lábios.

Nos dias seguintes a figura chorosa, o rosto manchado apoiado no muro, não me saía da cabeça. Me recriminava por deixá-lo num momento difícil. Custava a dormir, rolava na cama, desgostoso. Havia outros sentimentos misturados que me perturbavam.

Na quinta-feira ele me ligou. Voz calma, conversa articulada, sem recriminações. Num certo momento repetiu o convite para viajar.

– Você não vai gastar nada e minha mãe ficará feliz em hospedá-lo em Dresden. Ela mora numa bela casa, com quintal cheio de fruteiras, parece nosso país no passado. – soltou um riso curto – Prometo que vou me comportar, nada de bebidas e coisinhas.

– Vou pensar, eu disse, tem minha família, meus pais estão ficando velhos.

– Vocês nunca se deram bem, por que isso agora?

– Não sei, deixa eu pensar. Quanto tempo tenho para me decidir?

A voz dele perdeu a tensão.

– Amanhã à noite tem um vôo para Paris, vou passar uns dias lá antes de ir para a casa de mamãe. Lembra como a gente sempre sonhou em conhecer Londres, Paris, Roma? É nossa chance. Vamos!

– Não é uma má idéia.

– E se você não gostar, é livre para voltar quando bem entender. Vou comprar bilhete de ida e volta e esperar você no aeroporto. Agora tem uma coisa, se não aparecer, acabou, nunca mais vou insistir, nem aparecer, pode crer. Vou sumir de sua vida.

Durante o dia me retorci de ansiedade. O que fazer? O que ele dissera sobre meus pais era verdade, não havia afinidade entre nós, às vezes me sentia hóspede em minha casa.

Não pedi demissão, me conhecendo bem, sei que comigo as coisas mudam de uma hora pra outra. Se não gostar, volto e arrumo uma desculpa. Vou.

Arrumei a mala, só o essencial.

Pego dinheiro no terminal do aeroporto, pensei. Não cheguei a tempo, porém, ele partira.E agora ficava ali sentado, rememorando.

Uma das janelas da casa ficara mal fechada e o vento jogara a cortina colorida para a noite em movimentos suaves. O gato se espreguiçara e caminhava pelos muros. Estrelas demais brilhavam no céu, entre elas a luz do avião que levava meu amigo para o outro lado do mundo.

SJB, 18.02.2011

             O QUE VOCÊ ESTÁ OLHANDO NO CÉU?

– Estrelas, muitas estrelas, disse ela sem se levantar no telhado onde se deitara para melhor apreciar o céu. Depois de tantos dias de chuva, estava morrendo de saudade delas. Amo as estrelas, a lua, o sol, tudo que está no céu.

Ele passou os olhos rapidamente pelo céu estrelado.

– Coisa de quem não tem o que fazer. Veja se eu ia perder meu tempo olhando esse monte de pontinhos luminosos.

– Não são apenas luminosos, informou ela bem humorada, são coloridos. À medida que você fixa o olhar vão aparecendo as cores. Aquela estrela ali – e apontou para um ponto luminoso – está ficando verde, um verde água, lindo.Aqueloutra, lá adiante, é vermelha, quase roxa. As três marias, ali em cima, cada uma tem seu tom de cor, todas alaranjadas. Lindas! Só vê quem tem alma de poeta, como Olavo Bilac, que ouvia estrelas e entendia estrelas.

– Chi, lá vem você com suas leituras fora de hora! – Ele se impacientava – Não vejo graça nenhuma em ficar de cabeça dobrada pra trás a olhar o céu.

– Pois eu vejo. Acho que em outra encarnação fui serviçal na casa de Galileu Galilei e o ajudei na montagem de um telescópio. Ele ficou tão satisfeito com minha ajuda que me ensinou a olhar o céu e a conhecer as estrelas. Adoro astronomia.

– Mas isso não significa que ele teria lhe ensinado as cores das estrelas.

Ela sorriu, divertida.

– Bom, isso aí faz parte do lirismo da minha visão. Gosto de imaginar que as estrelas, além de luminosas, são coloridas. Um dia, algum astrônomo ainda vai provar a minha teoria das cores estelares. Quem sabe eu mesma? Gagarin não descobriu que a terra vista do espaço é azul? Até então ninguém pensara nisso. A terra é azul, olha que lindo! O Cruzeiro do Sul parece ser composto por diamantes.

– Você teria mais proveito se olhasse os pontos luminosos nos olhos de alguém…

Ela riu, entre divertida e debochada.

– E você acha que nunca fiz isso? Só que olho nos olhos errados, sem brilho nem cor.

Ele estava um tanto chateado, pescoço torcido para lhe falar, e pediu:

– Desce daí, venha ver se há brilho e cor nos meus olhos.

Ela soltou uma risada curta.

– Então é isso? Tá com ciúmes das estrelas?

– E não só das estrelas. Ah, desce daí, vamos conversar como gente normal.

– Suba você aqui.

Não foi difícil e pouco depois ele se sentava no telhado ao lado dela.

– Foi mais fácil do que encontrar o caminho de seu coração.

Mais uma vez ela soltou a risada curta que tanto o encantava e às vezes encabulava.

– Para chegar ao meu coração, disse, é só seguir o rumo das estrelas, como os grandes navegadores faziam para enfrentar os perigos do mar tenebroso. No momento você só está focando a estrela polar.

– Ai, lá vem você de novo com essas besteiradas. E sei lá do que está falando?

– Estou falando de uns marujos lusitanos, que com a cara e a coragem, viajando em frágeis navios de madeira, enfrentando tempestades e se guiando apenas pelas estrelas descobriram novos mundos – Seus olhos refletiam os pontos coloridos que brilhavam no céu – ah, como eu gostaria de estar com eles. Não existem mais homens corajosos como eles.

– Não? E os caras que entram num foguete e vão até os confins do espaço? São os cosmonautas, né?Tem até um brasileiro entre eles.

Ela respondeu, enfadada:

– Nem se compara. Os astronautas vão para o espaço cercados da mais eficiente tecnologia, o tempo todo se comunicam com a base na terra. Já os navegantes portugueses, meu caro, não tinham a menor idéia pra onde iam, navegavam assombrados pelas histórias do mar sem fim, que terminava, segundo as lendas, numa cachoeira que lançavam os homens no infinito. E sabe por que? – ela se empolgava ao falar – porque a maioria dos que se arriscavam no mar não voltavam. Então diziam ou que caíram no abismo ou foram devorados pelos monstros. Quero ver se hoje… ó, quer saber de uma coisa? Não vejo em toda a minha volta, não vejo no mundo, homens como aqueles e só por eles me apaixonaria.

– Vai morrer solteirona. Sua mãe conversou muito comigo, ela tem medo que você fique sozinha no mundo quando ela morrer.

– E daí? Estou estudando duro para ter uma profissão decente e me manter sozinha. Não vejo razão para esse medo.

– Viver só é muito triste. Já pensou chegar em casa do trabalho, cansada, não encontrar ninguém a sua espera, não ter com quem dividir as emoções, não ter quem faça um carinho,um amor por debaixo das cobertas.

Acompanhando as palavras sua mão ergueu-se e foi pousar sobre a dela. Delicadamente ela puxou a sua e apoiou na outra, sobre o ventre.

– Quer dizer que minha mãezinha querida está trabalhando para me achar um marido? Perguntou com ironia. Deixe ela comigo.

Ele se apoiou no cotovelo e curvou-se na direção dela:

– Pelamor de Deus, não vá dizer a ela que eu falei…

– Deixe comigo, conheço bem aquela senhorinha metida. E cuidado para não quebrar uma telha com esse cotovelo ossudo.- Ela estava ficando irritada – E quem lhe disse que quero essa vidinha boba? Pra sua informação, já fiz contato com diversos observatórios e assim que receber meu diploma embarco para fazer uma pós-graduação no exterior. Vou concorrer a uma bolsa de estudos. Se você ainda tem alguma ilusão a meu respeito, pode tirar seu cavalinho da chuva. Já lhe disse que não nasci para ser dona de casa nem para qualquer dessas profissões que tanto o encantam.

Ele voltou os olhos para a s estrelas, desanimado. O pisca-pisca celeste o enervava.

– Eu imaginei criarmos uma família, eu e você, com filhos, no futuro netos e quem sabe bisnetos e você… pensa que vai achar alguém melhor entre seus colegas cientistas, uns malucos de pedra? Sou trabalhador, honesto, ganho razoavelmente bem, mas estou progredindo na profissão, não sou feio, não tenho vícios nem vivo no mundo da lua, o que mais você pode querer?

– É verdade, suspirou ela, o que mais posso querer? No entanto, não quero você nem qualquer outro sujeito igual a você, por melhor e mais bonito que seja. – Abriu os braços em direção ao espaço. – Quero ser livre, ser dona do meu nariz, estudar e pesquisar muito, se me deixarem vou passar as 24 horas do dia diante de um telescópio. Você consegue entender isso?

Ele estava se sentindo desconfortável, tentou mudar de posição, quase escorregou. Ela riu, divertida. Ele adorava aquela risada e não era de hoje. Parecia o chacoalhar de pedras de gelo num copo. Desde criança, no tempo em que eram vizinhos, depois seu pai mudou-se com a família para outro bairro, quando ouvia a risada cristalina corria ao encontro dela.

Não só a risada, tudo nela o fascinava. O olhar de esguelha quando contava com malícia o que acontecera na escola, o grito de estímulo nas corridas pelas ruas do bairro, os saltos, as brincadeiras perigosas e desafiantes, tudo, a rapidez e clareza do raciocínio, tudo o deixava anelante, querendo abraçá-la, beijá-la, mordê-la, tinha certeza de que Deus a fizera para ele e sem dúvida iriam um dia se casar.

Nunca imaginara que ela pudesse se dedicar a esses estudos complicados, a via agarrada com os tratados de astronomia, as tabelas, os gráficos, ficava chateado, ela não ouvia ninguém quando estudava, viajava para o mundo das estrelas e isso o desesperava, gostaria de descobrir um modo de desviá-la daquela obsessão, era muito inteligente, seria ótima professora, médica, dentista, advogada, o que ela quisesse ser, profissões dignas que combinariam com a rotina de dona de casa, poderia cuidar dos filhos, dele, da casa e da carreira, seria perfeito.

– Olha, disse ela, vamos descer, você estragou minha diversão. Vou tomar banho, jantar e dormir. Por que não vai para casa?

Lépida, num instante ela estava no chão do quintal, tirando a poeira da roupa. Ele encontrava dificuldade para descer. Fingindo não perceber, ela entrou rápido em casa.

– Pois é, dona Cirinha, disse ele quando conseguiu entrar na cozinha, acho que é um caso perdido. Sua filha vai se casar é com as estrelas. Não quer saber de mim.

Ela fritava batatas e se sentia incomodada com a presença dele.

– Para certas pessoas é preciso muita paciência, meu filho. Se lhe serve de consolo, ela realmente não se interessa por outro rapaz. Só pensa em estudar, se formar, viajar, não sei a quem essa menina puxou.

Não lhe serviu de consolo, comprovou apenas que ela ia mesmo casar com as estrelas, com os sóis ou com algum maluco que gostasse disso, desses objetos sem vida que giravam no espaço.

.Descorçoado, andou pela rua de cabeça baixa, imaginando o que deveria fazer para reverter a situação. Em casa contou para a mãe, que conhecia a garota dês que ela era desse tamaninho, o que estava acontecendo.

– É, meu filho, pelo jeito você escolheu a moça errada. Uma bela moça, mas sempre vi que ela não era dessas moças comuns, ou você a aceita como ela é, ou…

– Mãe, eu quero uma mulher para casar, para me dar filhos, e não uma cientista , que um belo dia pode ir para o espaço e sabe Deus se volta. Quero estabilidade, um lar limpo e gostoso, como o seu, pra onde eu possa voltar depois de um dia exaustivo de trabalho. Já imaginou se passo o dia debruçado sobre um processo intrincado ou preparando a defesa de um réu e quando chego em casa…  recebo a notícia que ela acaba de pousar em Marte! Não dá!

A mãe riu:

– São os novos tempos, as mulheres de hoje são independentes, não são como a maioria das moças o meu tempo, para quem o casamento era um emprego. Ou você aceita a moça como ela é, ou desiste do casamento.

– Nunca, exclamou ele com veemência, ela é minha e vamos nos casar e ser felizes.

Para se certificar que ele havia partido, a admiradora das estrelas chegou na porta da cozinha e olhou desconfiada. A mãe continuava a fritar batatas.

– Cadê o chato, já foi embora?

A mãe confirmou com um gesto de cabeça. O cheiro bom de batatas fritas enchia o ar, ela o aspirou com volúpia.

– Esse enjoado ainda não entendeu que não quero nada com ele, reclamou. Quero é descobrir uma supernova – seus olhos se tornaram sonhadores – uma nova galáxia, quero explorar o espaço cósmico, nem que seja só com o telescópio. Por falar nisso, onde deixei minha luneta?

A mãe soltou um suspiro desanimado. Ela continuou:

– Serei uma cientista, mãe, vou lhe dar muitos motivos de orgulho.

– Mas não vai me dar netos…

– Ai, mãe, não chega meus irmãos?

A mulher tirou da frigideira a última porção de batatas.

– Já vi que não adianta falar nisso, os jovens nunca ouvem a gente. Agora vai tomar seu banho, vai, que daqui a pouco seu pai chega e vamos jantar.

A moça foi para o quarto sorrindo, sentou-se na cama e pegou a roupa que ia usar. Na mesa de cabeceira o livro “Buracos Negros, Universos-Bebês e outros Ensaios” do cosmólogo Stephen Hawking, esperava sua atenção. Ela o pegou com carinho e abriu-o na página marcada pela foto de uma bela mulher. Seu sorriso se ampliou. Com a ponta do dedo percorreu o belo rosto sorridente da foto.

– Minha linda supernova, murmurou com paixão. 

FIM

SJB, 22/02/2011

A MORTA NA CALÇADA

. Do seu quarto, situado no meio do sobrado, ouviu rumor de bate-boca na rua. Pensou em se levantar para ver o que estava acontecendo, mas ao olhar o mostrador luminoso do relógio de cabeceira e ver o avançado da hora, desistiu. Estava com muito sono. Cerrou a porta do quarto e não ouviu mais nada, seu sono era um mergulho nas profundezas de um abismo.

Acordou cedo, como de costume, e enquanto caminhava, se espreguiçando com volúpia pelo corredor em busca do banheiro, ouviu novamente o vozerio. Lá adiante, na parede da sala, luzes vermelhas criavam zonas de preocupação. Polícia ou bombeiro, pensou, e depois de urinar, sem trocar de roupa, usando a cueca samba canção velha, apressou o passo em direção à estreita varanda sobre a rua.

E lá estava, no meio de uma roda de curiosos, ladeado pelos carros da patrulha, um corpo coberto com um lençol. As chamas de duas velas bruxuleavam na altura da cabeça, uma de cada lado. Ele se persignou, hábito antigo, sempre que via um morto se benzia, e olhou em volta, procurando um rosto conhecido entre os espectadores.

Dona Salete, que morava na casa do outro lado da rua, conversava animadamente com os policiais e enxugava num pano de prato as mãos avermelhadas. Devia estar lavando a louça do café. Mais adiante, sentado no muro da casa, o filho mais novo dela, ladrão e maconheiro safado, olhava desconfiado os policiais que caminhavam de olhos postos no chão, em volta do corpo, na certa procurando pistas.

Quem teria morrido? Morreu como e quando? Acidente de trânsito ou crime na madrugada? Motoqueiros embriagados costumavam subir na calçada e se vira obrigado a calafetar seu quarto para não ser acordado pelos estrondos das descargas envenenadas, apesar de sua deficiência auditiva. Seria crime? Teria alguma coisa a ver com o bate-boca que ouvira de madrugada? As vozes eram de mulheres, os travecos que faziam ponto ali perto, na hora da briga falavam grosso, homens que eram.

Um policial levantou a ponta do lençol para um fotógrafo estourar seus flashes. Tivesse levantado um pouquinho mais e saberia quem era a vítima. Na hora de ajeitar o lençol os pés dela apareceram, pés pequenos, metidos em sapatos vermelhos de salto alto.

Quem costuma usar esse tipo de sapato aqui? se perguntou. Parece caro. Na rua havia muitas mulheres de vida dita fácil, os travecos, e umas poucas mulheres pobres, como dona Mirinha, que catava papelão. Podiam ser descartadas, não teriam dinheiro para comprar nada além de sandálias de dedo. Tinha a dona Dolores do 109, a velha Dodoca, do 320, a bunduda do fim da rua, nem sabia seu nome, e outras, não se lembrava de imediato de todas. Dona Salete, que ainda falava com os policiais, devia ser conhecida da morta, senão não teria tanto a dizer aos tiras. Também eram pobres.

Os desocupados continuavam a cercar a cena do crime, comentando, em qualquer lugar do mundo estariam trabalhando, ô gente folgada, e ele resolveu sair da varanda, lavar o rosto, trocar de roupa, tomar seu café e descer. Sua curiosidade precisava ser satisfeita. Será que os guardas o deixariam levantar a ponta do lençol e olhar o rosto sem vida para ver se reconhecia quem era? Como teria sido morta a infeliz, se foi crime, facada, tiros, porradas? No caminho do banheiro tirou a camiseta, deixando à mostra o peito magro, coberto de pelos brancos duros, emaranhados.

Pensava seriamente em se mudar dali, a violência aumentava a cada dia, os assaltos à mão armada, quase ninguém honesto ousava sair depois das oito da noite, os drogados a promover badernas, a barulhada, descargas abertas de motos e caminhões, buzinadas, gritos, sirenes. Quando decidira morar ali, logo depois de enviuvar, o aluguel era mais barato, saíra da doença da mulher com os bolsos vazios, os filhos não aprovaram. Darli viera uma vez, torcera o nariz, êta menina metida a besta e Marcelo não fez alarido mas sugeriu que procurasse um lugar melhor. Era o que ia fazer, agora que conseguira equilibrar as parcas finanças. Mas tinha tempo.

Tomou o café ralo que sobrara na garrafa, só ia fazer café novo no fim da tarde e ligou a televisão. Claro que o crime não ia ser noticiado, nada ali virava noticia, a não ser as esporádicas chacinas, resultado de guerra de traficantes. As notícias do país e do mundo já haviam sido dadas, começava um programa de entretenimento comandado por uma loura. Desligou, mudou a roupa e desceu a escada, imprensada entre a parede da fábrica desativada, de onde vinham levas de baratas cascudas e o muro da venda do Malaquias, fechada há meses, porque o dono ficara traumatizado com a violência do último assalto, que o jogara por meses num hospital, tanto que apanhara.

Abriu o portão e logo o aglomerado de gente, mais os polícias, se voltaram para ele. Precisava botar uma graxa nas juntas do portão, ele denunciava suas saídas e entradas. Dona Salete apontou em sua direção e se aproximou, escoltada por dois PMs, e um outro com roupas comuns, que devia ser detetive. Todos fortões, de cara amarrada, olhando-o como se tivessem encontrado o assassino. Ficou calmo, a mão direita segurando o portão.

– Quem é? ele perguntou para dona Salete, a que chegou primeiro perto dele, apontando a pessoa sob o lençol.

– Jandira, a manicure, sabe quem? Mora mais adiante, vinha pouco por aqui.

Ele desceu para calçada e com um pouco de nojo levantou a ponta do lençol. A mulher, quarentona, olhava sem ver o lençol manchado de sangue. O mesmo sangue que se espalhava em seu entorno. Deixou cair o lençol e olhou dona Salete, com asco. Os meganhas o observavam, calados.

– Já sabem quem foi?

Foi um dos policiais quem respondeu, com voz dura:

– Não, ainda não, estamos investigando. O senhor ouviu ou viu alguma coisa? Tem idéia de quem possa ter feito isso?

– Não, não sei de nada. Durmo como uma pedra.

Um polícia olhou para o outro, desanimado e guardou o bloco de anotações no bolso.

Ficou pensando que a voz de mulher que ouvira não era a da Dira, embora a visse pouco, tinha em mente seu registro de voz. Era nordestina, estava ali há anos e nunca perdera o sotaque.

– Nem quero, ela dizia, o decote deixando ver os peitos redondos, espero em Jesus e na virgem voltar um dia para minha terra e não quero chegar lá falando que nem carioca ou paulista. O povo vai rir de mim, Deus me livre!

– Pelo jeito, comentou o policial, houve discussão e briga, encontramos esse batom na rua, o senhor tem certeza de que nada ouviu?

Ele encarou o guarda com petulância.

– Nada. Por que? Acha que fui eu?

– Claro que não, respondeu o outro, impaciente, antes de ser morta ela foi imobilizada, seria preciso uma pessoa forte para…

– Jesus, interrompeu, dona Salete, o namorado de Suzana!

– O que tem ele?

– É um caboco parrudo, trabalha num caminhão de entrega.

– E quem é Suzana?

– A filha dela. Gente, temos que mandar avisar a coitada da morte da mãe!

– É por que não me disse que ela tinha uma filha? perguntou o polícia a paisana.

Só podia ser polícia para se dirigir às pessoas com tanta brutalidade e arrogância.

– Nem lembrei, peraí, Leo, meu filho, dá um pulinho na casa da Dira, chama a Suzana. Meu Deus ela vai ter um choque. Que tristeza.

– Espera aí, rapaz, eu vou com você, disse o policial à paisana.

Assim que saiu da roda de curiosos, ele deu uma paradinha e acendeu um cigarro.

– Barra pesada isso aqui, hein? comentou um sujeito parado no meio-fio, braços cruzados sobre o peito. Semana passada foi um tiroteio no bar da outra esquina, depois o morador de rua espancado e agora…

Não lhe deram atenção, esse tipo de gente, pensou o policial só serve para confundir.

– Não tem ninguém em casa da Dira, disse o policial ao retornar. Tô achando que a filha ou o cara dela tem culpa no cartório. Ô sargento, ponha um homem de plantão na porta da filha da morta. Qualquer movimento estranho me avise pelo celular. Vou indo, tenho outro caso pra ver.

Esperaram por muito tempo a chegada do rabecão. Ele se cansou de ficar em pé, segurando o portão e voltou para a varanda. Fizera bem em não contar que ouvira o fuzuê na madrugada.

Muito tempo depois da retirada do corpo a impressão que ele tinha é que ela estava ali, os olhos muito abertos, a boca flácida, pele amarela, a luz das velas tremeluzindo no lençol. Persignou-se de novo.

Tentou recordá-la viva, andando pela rua, conversando com as pessoas, rindo, chorando. Não se lembrava da filha dela, a Suzana, na certa era aquela cuja voz esganiçara durante a discussão. A mulher morrera esfaqueada, contara o policial, alguém a agarrara por trás, a imobilizara e outra pessoa lhe enfiara várias vezes a faca no bucho, daí a sangueira no chão. Muitas facadas, comentara o guarda, a raiva devia ser grande.

Quem seria o portador de tal raiva: a filha, o macho dela? E qual a razão da raiva?

Tão entretido estava com seus pensamentos que não viu o carro parar em frente de seu portão e a filha descer, nervosa, e virando o rosto ao ver sangue manchando o cimento, olhando para seu portão. Não tinha gente disposta a fazer a limpeza, teriam de esperar a boa vontade da companhia de limpeza urbana ou que o sol secasse o sangue.

Darli deixou o marido no carro – não havia muita simpatia entre sogro e genro – e subiu a escada correndo, botando os bofes pela boca. Tão nova e cansada. Culpa do crápula com quem se casara, incapaz de botar uma pessoa para ajudar a mulher e cuidar da casa e dos filhos. Sujeito imprestável!

– Ai, pai, ela falou, com a mão no peito, fiquei tão nervosa quando soube. Bem aqui, na sua calçada! Meu Jesus! O senhor ouviu alguma coisa?

Ele sorriu, grato pela presença dela.

– Nada, minha casa parece blindada, quase não ouço barulho da rua.

– Ainda bem. Me conta como foi, disse ela, se encostando na parede, não, não, o senhor já teve emoções demais por hoje, depois me conta, feche bem a porta e vamos lá pra casa, almoçamos, o senhor descansa um pouco, volta amanhã. As crianças vão adorar, há quanto tempo não vêem o avô.

O filho foi encontrá-lo na casa da irmã e foi bom porque juntos enfrentavam com mais facilidade o mau humor do marido dela. Como é que uma moça tão inteligente e bonita fora se embeiçar por um sujeito grosso como aquele? Nem com a falecida, pessoa doce, ele se dava bem. Um animal.

Mais uma vez Marcelo insistiu que devia se mudar dali.

– Lugar perigoso, pai, está sempre no noticiário policial, crime, drogas, prostituição. O senhor não precisa morar num lugar desses.

– Já ofereci para ele morar aqui comigo, disse a filha, de sobrancelhas franzidas. Dá até pra desconfiar… o senhor tem amante, pai?

– Que isso, menina, olha o respeito. Estou ali porque gosto de sossego, gosto de viver sozinho com meus fantasmas e minhas lembranças. Ali é sossegado, e fora essas coisinhas que em qualquer lugar acontecem e não me atingem, vivo muito bem.

Almoçou em casa da filha, comidinha gostosa, não se comparava à gororoba que comia na pensão da gorda dona Estela, uma comida sem gosto, preparada sem inspiração ou carinho. O genro, na ponta da mesa, de cara amarrada, não disse uma palavra sequer, grosseirão. Vê se eu moraria aqui. Só se estivesse entrevado. Os netos compensaram o mau recebimento, demonstraram prazer em vê-lo, pularam em seu colo. Gostaria que a falecida Nelita ali estivesse, curtindo a netaiada.

De barriga cheia, sem se despedir, o genro voltou ao trabalho como taxista e ele tirou um cochilo. No jantar ela insistiu para que passasse ali aquela noite.

– A sua rua ainda deve estar cheia de polícia, não é bom voltar hoje pra lá.

– Mas eu não trouxe roupa de dormir, filha, aliás, nem tenho pijama, pois morando sozinho posso dormir de cueca.

– Acho que o pijama de meu marido dá no senhor. Ele não vai se importar. Amanhã o senhor volta praquele lugar horrível. Por mim ficava comigo de vez.

Ao chegar, no dia seguinte, encontrou um desenho feito a giz na calçada em frente a seu portão, devia ser o contorno do corpo da mulher assassinada. O sangue secara e se misturara à poeira. Bem que a rua podia ser asfaltada, pensou. Um outro filho de dona Salete, esse trabalhador, saiu de casa pra ir pro serviço. Foi a seu encontro.

– E aí? Descobriram quem matou a manicure?

– Até agora não, ele respondeu. Estão achando que foi o cara que vivia com a Suzana, mas os dois sumiram. A polícia arrombou a casa dela, tudo está no lugar, se fugiram foram só com a roupa do corpo.

– Desagradável isso.

– As duas moravam juntas por conveniência, mas nunca se deram bem. Conheço a Suzaninha dês que ela era pequenininha, ela e a mãe sempre às turras.

Dona Salete surgiu na janela, viu os dois conversando e atravessou lépida a rua.

– Procuramos muito pelo senhor ontem, disse ela, a polícia queria lhe falar. Gritei até ficar rouca.

– Minha filha me levou pra casa dela, almocei e dormi lá. A polícia queria o quê?

– Queria confirmar que o senhor nada ouviu. Falei que devido à idade o senhor estava meio surdo, nem sei se é verdade.

– Falou certo, disse ele, aliviado. Não ouvi nada mesmo. Até o maldito cachorro da vizinha de trás, que parece estar pedindo socorro, essa noite não escutei. Tenho sono muito pesado. E agora, em que pé está a coisa?

Ela deu de ombros.

– Sei lá, eles não dizem nada direito, a gente só fica sabendo das coisas pelo jornal. Hoje veio a notícia, arrumaram uma foto dela, do tempo que era nova, não sei onde acharam, esse povo de jornal é muito intrometido, mas sem eles de nada a gente ficava sabendo.

– E a notícia disse o que?

– Parece que andaram indagando na vizinhança, gente mais fofoqueira não há, e uma vizinha, não deram o nome, mas acho que foi a agiota da dona Esmeralda, contou que elas brigavam muito, a filha não parava no emprego e gastava sem medidas. Ainda por cima arrumou um cara malandrão, desocupado, cheio de vícios e aí…

– Será que foi ele?

– Quem sabe? Pra mim foi, ele tem uma cara de safado, deve ter pedido dinheiro pra velha, ela não tinha…

Do mais recôndito de sua consciência ele pinçou uma frase, na certa ouvida durante a discussão:

– “Quem sustenta essa casa sou eu!”

Depois um grito, talvez, nada mais. Uma frase solta, que nem podia ter sido dita naquele bafafá, mas em outras ocasiões, elas sempre discutiam em plena rua, não tinham um pingo de vergonha.

Dona Salete falava, dava detalhes, mas ele não escutava, lutando com seus escrúpulos. Devo contar à polícia? Vai adiantar o quê? Eles vão me levar pra delegacia, posso ficar lá sentado por horas, com fome e com sede, até prestar depoimento, que de nada vai valer, ninguém ouve os velhos direito, ficam com cara de impaciência enquanto a gente está falando, muito chato isso. O pior é que nunca mais me livraria desse aborrecimento.

Calar a boca é o mais certo. Testemunha nesse país sofre tanto quanto os suspeitos.

– Uma tragédia, né, dona Salete? Eu gostaria de poder ajudar, mas por causa dessa minha surdez…

– Eu falei isso pra eles. A polícia sempre acaba descobrindo. Ou inventando um culpado pra mostrar serviço. O pessoal do jornal não dá uma folga, o chefão cobra, eles ficam desesperados. Agora estão querendo saber onde o genro se meteu. Se fugiu é porque tem culpa no cartório. E cá entre nós, a filha dela, a tal Suzana é uma boa bisca. E seus filhos, como vão? E os netinhos?

– Tudo ótimo, graças a Deus. E que comida gostosa minha filha faz. Se meu genro fosse mais amigo, podia trazer a comida para mim todo dia, ele tem táxi. Por que me mudar daqui é que não vou, gosto do lugar, gosto do povo, coisas como essas acontecem em todo lugar, até nos condomínios dos bacanas. Até mais, dona Salete, qualquer coisa, me avise, por favor.

                                         FIM

SJB, 25/02/2011

INDISPONÍVEL PARA O AMOR

Quando o viu deixar a sala das bagagens, empurrando o carrinho lotado de bobagens, com o ar aéreo e abobalhado de quem volta a um lugar conhecido e se espanta por encontrá-lo tal qual deixou, imaginou que o giro pela Europa, aonde ele não ia há séculos, como enfatizava com um suspiro sempre que tocava no assunto, achou que valera a pena. Avançou uns passos e lhe acenou. Teve a impressão de que, por uns segundos, a expressão dele se tornara opaca e aborrecida. Rápida como um relâmpago, a expressão mudou e ele foi a seu encontro com o inefável sorriso de sempre.

Pensou que estava imaginando coisas, a impressão devia ter sido causada pelo ciúme que sentia quando estavam juntos, e ficou imaginando que nessa viagem à Europa ele havia conhecido e amado um sem número de mulheres e não se prendera a nenhuma. Como sempre. As mulheres viviam em seu rastro, perdiam a compostura por causa dele, lembrava-se das inúmeras vezes em que, como amigos, sempre como bons amigos, saíram para jantar e o garçom não parava de lhe entregar torpedos enviados pelas mulheres sentadas em mesas próximas, que o comiam com os olhos. No princípio, quando ainda tinha ilusão de conquistá-lo, ficava muito irritada, e algumas vezes reagira com impaciência e mesmo com grosseria. Perda de tempo.

– Não tenho culpa, ele dizia sorrindo, você é testemunha que não dei bola pra nenhuma delas, só olhei, como olho pra todo mundo.

– Reclame, pombas, dê um fora nelas, ela dizia, enfurecida.

– Por que faria isso, perguntava com ingenuidade, se não me estão fazendo mal nenhum, pelo contrário, só levantam o meu astral?

– Qualquer dia eu vou tirar satisfações com elas, ameaçava.

– A troco de que? Somos só amigos, se esqueceu? Não há razões para ciúmes.

– E se eu fizer? ela provocava.

– Vou perder uma companhia tão agradável para meus jantares, ele respondia sério

Compreendera o aviso e nunca mais fizera cenas. Fingia que não via. Quando podia interceptava discretamente um torpedo e o jogava fora, sem que ele percebesse. Vai que, de repente, ele se interesse por uma dessas piranhas, pensava, aflita.

– Sou boazinha e compreensiva, dizia às amigas, mas se pegar ele com outra, nem sei!

Custara a aceitar e ainda não entendera que aquele homem lindo pudesse ser indiferente a sexo. A princípio acreditara que só com ela ele era assim, mas com o passar do tempo e conhecendo outros amigos e amigas dele, verificara que não, ele não se interessava mesmo por sexo. Não havia mulheres, nem homens, freqüentando a cama dele. Havia uma história nebulosa de um romance no passado distante, diziam que ele se apaixonara pela amante do pai e saíra com ela sem saber da ligação paterna e isso provocara o afastamento de pai e filho. Achava pouco para tão grande trauma. Pior teria sido se ele fosse Édipo e tivesse transado, sem saber, com a própria mãe.

O certo é que a vida íntima dele era um mistério. Ele aparecia em muitos lugares com pessoas diferentes, no rosto a mesma atenção carinhosa, o sorriso caloroso, a expressão de quem está, não apaixonado, mas interessado na companhia. Ele gostava de praia e de academias, onde exibia o belo corpo torneado em aparelhos de ginástica, freqüentava eventos culturais, vernissages, lançamento de livros, era ouvinte atento e participante, ia a debates e coquetéis, ao teatro e ao cinema, a festas de todo tipo, do forró à temporada lírica, enfim um homem do seu tempo, vivendo seu tempo.

Como fora se envolver com o belo indiferente, com o deus grego, que tornara carne o mármore, deixando de fora apenas o coração? Aliás, concluía, estátua não costuma ter coração. E não se envolvera por vontade própria, uma série de circunstâncias, a começar pelo inusitado conhecimento nas areias da praia os aproximara.

Lembrava-se da manhã de outono, ainda quente, ela na praia se distraindo com um best-seller que não exigia muita atenção, como novela de televisão, que se podia deixar de assistir por um tempo, que ao voltar à tela pouco teria mudado, e meio enfadada, de vez em quando suspendia os olhos do livro para observar em torno e numa dessas vezes vira um homem grande, os olhos escondidos por óculos escuros, arrastando toalha e cadeira, a caminhar mancando pela calçada. Ao invés de traje de banho usava calça de moletom e achou que um defeito na perna o obrigava a mancar. Teve pena. Um ídolo de pés quebrados, concluiu e voltou à desinteressante leitura. Não queria pensar no namorado que na festa a que haviam ido na véspera tomara um porre de gente grande e se vira obrigada a levá-lo pra casa, sob protestos de sua mãe, e o largara no sofá da sala, onde devia estar dormindo até aquela hora.

Detesto bêbados, pensou, e levantou os olhos novamente para esbarrar no homem que mancava. Talvez cansado pelo esforço de caminhar na areia, ele se sentara no banco e olhava o mar. E ainda estava na mesma posição quando, tempos depois, deixou o livro e se levantou para ir para casa aturar seu bêbado do momento. Sentia que tinha um faro especial para detectar bêbados namoráveis. Ô, saco!

Um pedra safada, deslocada do mosaico da calçada, atrapalhou sua caminhada. Não chegou a se estabacar nas pedras, mas saiu catando cavaco, tentando recuperar o equilíbrio sem deixar o livro cair. O livro caiu, claro, e justo em cima do colo do homem que mancava e descansava no banco de pedra e ela se equilibrou a custo. Ficou vermelha, azul, cor de abóbora, cores variadas ao vê-lo sorrindo e lhe estendendo a mão com o livro. Antes dera uma olhada o título.

– Desculpe, disse ela, essas pedras…

Pegou o livro e só então viu como perfeito era o rosto dele, tudo se encaixando para produzir o efeito magnífico de obra de arte viva. Já se acostumara, nesse país tropical, numa cidade cheia de sol e mar, a conviver com corpos esculpidos e caras de capas de revista e não se impressionava à toa. Admirava o monumento humano e só. O que a conquistara e prendera a ele para sempre fora a mistura de ternura e sensualidade de seu olhar e o traço infantilmente diabólico de seu sorriso de dentes perfeitos. Ele parecia transmitir uma paz cheia de promessas, de abraços apertados e beijos alucinantes, numa redoma de prazer e silêncio.

– Desculpe, repetiu, nervosa.

Apertou o livro contra o peito.

– Esse autor, disse ele apontando o livro, não é boa companhia para uma garota linda como você.

Cada vez mais atrapalhada, sentindo o rosto arder, deu um meio sorriso e se afastou depressa. Com seu elogio o sujeito a devolvera aos tempos de adolescente. Que ódio!

Custou a reencontrá-lo. Trabalhara duramente toda a semana e aproveitara a noite da sexta-feira para dar uma volta. Sozinha, o namorado não passara no teste do pós-pileque. Um restaurante pequeno na orla era seu lugar favorito para começar a noite. Dali telefonava para uma amiga ou pessoas interessantes para procurarem com que se divertir. Conhecia todo mundo, do dono ao faxineiro, o garçom já sabia até o que ela ia comer e que deveria trazer um chope antes da comida. Mal sentara, porém, e erguera-se gritando, em pânico, na porta do corredor que levava aos banheiros surgira um rato. Tinha pavor de ratos, ainda mais em restaurante. Nunca mais voltaria a comer ali, se prometeu. De um salto alcançara a rua, derrubando cadeiras na passagem. Seus olhos arregalados nada viam e na calçada esbarrara num peito largo que passava. Por coincidência era ele, o homem lindo que mancava. Assustado, passou-lhe o braço em volta dos ombros e olhou enfezado a sala em polvorosa.

– O que aconteceu?

– Um rato, gemeu ela, um rato no banheiro. Vamos sair daqui, pelo amor de Deus. Ah, a minha bolsa, deixei pendurada no espaldar da cadeira. Pode pegar pra mim?

Acalmou-se enquanto caminhavam, ele sempre a ampará-la com o braço forte. Tudo o que sonhei, ela pensara, um belo homem forte para me proteger. Não entendera muito bem o que ele dizia, mas sua voz pausada, tranquila, acalmou os seus nervos e diminuiu o ritmo das batidas de seu coração.

– Vamos tomar uma água de coco?

Aceitara, envergonhada, não tinha coragem de olhá-lo de frente, dera um feio vexame, e o seguira de cabeça baixa.

– Era um rato muito grande?

A pergunta foi em tom jocoso. Ela sorriu, ainda contrafeita.

– Desse tamanho, disse mostrando um pequeno espaço entre o polegar e o indicador.

– Um camundongo, concluiu ele. Terrível.

– Pra mim é como se fosse um dragão, retrucou ela, de olhos arregalados, tenho pavor de ratos, lagartixas, baratas, ui, pavor e nojo.

Seus ombros tremelicaram. Ele aumentou a pressão de leve.

– Então, vamos esquecer isso. Assim como eu, você deve estar com fome. Vou levá-la a um pé-sujo aqui perto, sem ratos, posso garantir, onde poderá escolher entre sanduíche de pernil com abacaxi e o de presunto importado com queijo. Garanto que vai adorar.

Ali começara a louca história de seu amor não correspondido pela estátua incapacitada para o amor, como toda estátua. Ah, como o amor é lindo, pra não dizer o contrário.

Durante alguns meses, não sabia dizer quantos, vivera ao lado de um ser absolutamente amável e incapaz de amar. Indisponível para o amor. E ela cheia de amor pra dar.

Ele a deixara na portaria do edifício e sumira por algumas semanas. Nunca chegou a saber onde ele se metera, e na verdade nessa primeira semana não lhe interessara, pouco pensara nele, havia muito o que fazer no escritório e em casa, sua mãe adoecera, tivera de assumir a rotina caseira e cuidar dela e só de vez em quando se lembrava dele com divertida ternura. Não ia ter continuidade, acreditara.

Surpreendida, na manhã do sábado recebeu o aviso pelo interfone de que um homem a esperava na portaria.

– Quem é? perguntou.

– Ele mandou dizer que é o cara do rato, respondeu o porteiro.

Um soco sem muita força a atingiu no estômago. Franziu as sobrancelhas e pediu ao porteiro que o fizesse subir, mas ele se recusou.

– Já desço então, avisou e correu a se arrumar, aquela não era uma hora apropriada para receber visitas, irritada mas satisfeita, trocou de roupa, ajeitou o cabelo e desceu.

Será ele mesmo? Se indagava, duvidando. Desceu correndo pelas escadas e da portaria, num relance, viu o sorriso e o olhar sensual. Estremeceu de leve. Era ele. Estava na calçada, assoviando, e não havia mulher que não lhe desse uma segunda olhada ao passar. Ele lhe sorriu, tranqüilo.

– Que houve? ela perguntou sob um olhar avaliador.

– Está mais bonita hoje, ele disse. Só queria lhe falar. Como não tenho seu telefone, vim pessoalmente. Tem compromisso pra hoje à noite? Quer jantar comigo? Sem rato, eu prometo.

Foi um dos centenas de jantares em companhia dele, que dizia detestar comer sozinho.

A noite seria perfeita, ele a cercara de gentilezas, escolhera num restaurante badalado a melhor mesa, mandara o garçom trocar a rosa por uma mais viçosa, a afogara em olhares carinhosos e cheios de tesão, não olhara uma vez sequer para outras mulheres, se não terminasse melancolicamente com ele a deixando na porta do edifício com um casto beijo na testa.

Aturdida, sem saber o que pensar, entrou debaixo das cobertas. Custou a dormir. Eu devia neste momento estar sendo acariciada na cama redonda de um motel, subjugada pelo corpão do homem do rato. E como num filme, em sua mente surgiram as cenas subseqüentes, os beijos, os amassos, a posse, o gozo e o sono reparador. Ardia de desejo. Por que me conquistou, droga?

Ficou mais um tempo sem procurá-la, ela ansiosa e com um plano para levá-lo para a cama já estruturado. Por fim, outra vez um convite para jantar no sábado, dessa vez por telefone, tudo mais ou menos se repetindo. Era outro o restaurante, noite linda e fresca, mesa na calçada, o perfume suave que vinha dele, que se acentuava a cada gesto a lhe despertar as mais loucas fantasias, mas ele, com uma incrível habilidade, tinha de reconhecer, mantinha a conversa cordial, em tom de namoro, de fase de conhecimento, quem é você, quem sou eu, as perguntas fluíam naturalmente assim como as respostas, e ele ficara sabendo tudo sobre sua vida, seu dia a dia, seu trabalho, seus sonhos, suas lutas e perspectivas. Dele só conseguira saber que os pais eram separados, viviam em cidades diferentes e quase nunca os visitava.

– Falta de tempo, dissera, e de vontade de me envolver em conflitos familiares.

Não tinha profissão definida, embora tivesse cursado pelo menos duas faculdades e trabalhava como autônomo, fazendo o que queria e quando queria. Não fumava, não bebia, não jogava, nunca se casara, um modelo de homem.

– E como se justifica, perguntara-lhe, que um homem como você permaneça solteiro?

– Sei lá, nunca me senti com ânimo para casar. Vai ver minha metade da laranja ainda está no pé.

Coisas simples, ditas de forma despretensiosa, aumentam a vontade de ter mais, de saber, de consumir. Nas noites de sábado, após cada jantar, rolava na cama, querendo os trechos da história que faltavam. Eram muitos os porquês. Cada vez, porém, que ousava entrar na sua intimidade, com sua habilidade assombrosa, ele mudava o rumo da conversa sem que ela percebesse. Só ao ficar sozinha percebia que fora driblada.

Sua melhor amiga, a única a quem contava tudo o que lhe acontecia, formulava mil hipóteses para a aparente frieza, ou desinteresse por sexo, do belo.

– Tem alguma coisa errada nessa história, concluíra. Me apresenta a ele, pediu.

 Combinaram que a amiga os esperaria num certo restaurante pra onde o arrastaria no sábado seguinte. Como que por acaso se encontrariam, ela a convidaria para se sentar à sua mesa e conversariam.

– Gay ele não é, disse a amiga no dia seguinte. Sinto cheiro de viado de longe, tem um olhar franco, sem mistérios, vai ver está esperando uma oportunidade. Nem é tímido. Tem muito homem brocha por problemas de saúde, mas ele me parece sadio até demais. Pode ter sido castrado, quem sabe um acidente na infância lhe amassou os ovinhos? Seria uma pena.

– Isso é besteira, castrados têm ereção, já li sobre isso, só não fazem filho. Os eunucos eram castrados e usados pelos sultões para tomar conta e acalmar suas mulheres que não cabiam na agenda amorosa. Os eunucos davam prazer a elas, só não faziam filho, o sultão não havia de querer um herdeiro de paternidade duvidosa ou filho de eunuco.

– Então, o quê está acontecendo? O que está segurando esse homem, impedindo que ele desfrute de um petisco como você, mesmo que seja para comer e dar o pira?

Foram a uma cartomante, as coisas de sempre, uma mulher fizera um trabalho para que ele ficasse indisponível para o amor e resolver o problema custaria tanto. Muito caro, fora de cogitação. Em seguida consultaram famoso tarólogo, vidente das maiores estrelas do cinema, teatro e televisão, manequins e modelos. Pouco acrescentaram ao que sabiam as informações obtidas nas cartas coloridas.

– O negócio, concluiu a amiga, é insistir. Leve-o a um baile desses de dançar colado, se esfregue nele o mais que puder e veja se ele reage.

Reagiu, ela sentiu o desejo dele crescendo e pressionando suas coxas. Ficou delirantemente feliz, previu o delicioso fim de noite que se seguiria ao baile, abençoou a amiga em pensamento. Dormiu sozinha, mais uma vez, acalentada pelo fogo que o olhar dele despejou em sua arfante figura antes de se despedir.

A cada dia a urgência da realização do amor aumentava. Ficava nervosa, ansiosa, impaciente, irritada. O ouvido da amiga estava cansado de ouvir queixas, reclamações, resmungos.

– Pô, amiga, abre o jogo com ele. Fica meio deselegante, mas pior é esse seu sofrimento.

– Tenho medo dele se assustar e fugir. Não quero perder esse homem maravilhoso.

– Olha, vai ver ele não é tão maravilhoso assim. Sacumé, quando a gente gosta de um cara projeta nele as nossas qualidades ou as qualidades que gostaríamos que ele tivesse. Que que há com esse seu namorado, menina? Deve ser um anjo que caiu na terra e não consegue voltar lá pra cima e enquanto isso fica zoando mulheres românticas como você. Por que comigo minha santa, essa história já estava resolvida.

Num desses jantares, que tanta saudade causaram quando ele foi girar no exterior, ela tomou coragem e tornou a lhe perguntar:

– Como é que você, bonitão, saudável, financeiramente estável, não se casou até hoje?

– Por que não quis.

– Não quis?

– Não, estive bem perto de cometer essa temeridade, mas recuei a tempo. Gosto de ser livre, dono de meu tempo e de minhas pernas.

Ela se remexia na cadeira, incomodada, mas tinha de ir em frente.

– Tá, só que ninguém vê você com ninguém, e com todos esses hormônios circulando em seu corpo, como é que você faz?

– Normal.

– Normal, como? ela se exasperava. Sem mulher?

– Bom, não tenho que obrigar uma mulher a suportar meu peso e nem eu a suportar o peso de um homem só para me satisfazer sexualmente.

– Existem mil outras posições, o kama-sutra demonstra isso.

– Não sei por que você se preocupa tanto com isso. E sempre me cobra uma posição, disse tranqüilo, entre garfadas. Desde que nos conhecemos fui sempre muito claro, quero ser seu amigo, acho você uma garota bonita, charmosa, inteligentíssima, uma companhia muito agradável, mas não quero sexo. Sexo estraga tudo, a meu ver. A partir do momento em que se faz sexo com alguém começam as desinteligências. Só por ter tido prazer com um homem, a mulher se arroga o direito de saber tudo sobre a vida dele, controlar cada minuto, estar presente em cada um de seus pensamentos e vice versa. E essa paranóia chega ao assassínio em muitos casos. Eu não quero isso pra mim.

– E se a mulher prometer…

– Pára! Senão retiro o inteligentíssima de agora pouco. Prometer que nem político? O sofrimento é parceiro do sexo. E o ciúme é o regente da relação.

– E se houver apenas satisfação de desejo, sem emoções, compromisso?

Ele a olhou de esguelha, com um sorriso gaiato:

– Acredita nisso?

Agora, andando ao lado dele pelo saguão do aeroporto, interceptando sem prazer os olhares que o acompanhavam, sentiu que em parte ele estava certo, pois mesmo sem ter feito sexo com ele, sentia uma vontade doida de voar nos pescoços de quem o secava com seus apetites.

– Vamos pegar o ônibus para a cidade? perguntou ele.

– Não, eu vim de carro, vamos pegar no estacionamento.

A noite surgia por trás dos morros que escureciam os limites inferiores do firmamento. Poucas estrelas piscavam, distraídas, tinham acabado de acordar. O trânsito estava bom.

– E aí, ela perguntou, como foi a viagem? Muitas mulheres?

Ele soltou uma risada curta, com laivos de irritação.

– Você acha então que gastei esse dinheiro, que fiz essa viagem maravilhosa só para caçar mulheres lá fora, como se aqui elas não existissem?

E disparou a falar, como se com isso impedisse que ela fizesse perguntas idiotas. Falou dos passeios, das visitas aos amigos, das mudanças que tinha sentido nos lugares e nas pessoas, falou como nunca, os olhos brilhando de excitação.

Numa parada para respirar, ela ousou então indagar:

– E de mim, sentiu, sentiu saudades?

– Claro.

Na curta resposta ela sentiu que se tornara um mero elemento da paisagem interna dele, um móvel, um quadro na parede, nada além disso. Sentiu vontade de chorar.

Antes de dormir convocou a amiga para um chope regado a queixas e recriminações.

– Ele falou muito da filha de um amigo, que conheceu menina e que, agora, a seus olhos, se transformou numa mulher magnífica, sedutora, irresistível. Babou por ela. Será que finalmente ele se apaixonou por alguém?

Paciente, morrendo de sono, tendo que disfarçar os bocejos que quase lhe destroncavam os maxilares, a amiga ouviu por algum tempo, até que a interrompeu:

– Seguinte, o cara maravilhoso, o anjo perdido na terra, não está a fim de você, vamos ser claras. Cabe a você tomar uma decisão: ou o imprensa contra a parede, exige, eu disse exige, uma definição sobre a situação de vocês, o que, aliás, ele já definiu há muito tempo, só você não quer acreditar, ou continua tudo como era antes, jantando juntos algumas noites por semana, você empatada, sem arrumar alguém por causa dele, e ele a ditar normas e comportamentos e a se divertir à sua maneira. Decida-se.

Foi outra noite de intenso sofrimento. Só conseguiu dormir quando amanhecia. Olheiras profundas, rosto vincado por rugas de desencanto, teve um dia de cão. Não vou mais vê-lo, decidiu. Ele que fique com sua masturbação, porque só assim ele deve se satisfazer, e me deixe em paz. Cansei de ser dama de companhia, ele que arrume outra pra jantar.

Dias de alívio, sentiu-se leve, foi ao cabeleireiro, manicura, comprou roupas novas, levantou o queixo e andou com firmeza e sensualidade. Era uma nova mulher.

No sábado seguinte, ao chegar da feira, cansada e suada, as bolsas pesando, recebeu a notícia que ele, o homem do rato, lhe telefonara.

– Azar dele, disse pra a mãe, tenho outros planos para hoje à noite. Estou farta de alisar o ego de um sujeito indisponível para o amor.

Apesar de tudo jantou com ele, que escolheu o velho restaurante do rato, que sofrera uma reforma revitalizadora, onde saborearam suculento filé com fritas acompanhado de vinho tinto, enquanto ele descrevia mais uma vez as maravilhas européias. Que saco!

                                     FIM

SJB, 05.06/04/2011

 

 

 

 

ÍNDICE

 

 

Poema a título de prefácio                                                  2

Dedicatória                                                                          3

1. Noites de lobisomem                                                    4/9

2. Isabel, a solteirona                                                     10/15

3. O belo adormecido                                                     16/19

3. O mundo vai acabar                                                    20/22

4. Recorte de vida                                                             23

5. Zeca                                                                            24/25

6. Quem conta um conto….                                             26/30

7. Aprendendo a amar                                                       31

8. A pescaria                                                                    33/34

9. O fantasma assustado                                                  35/38

10. Conto fonado                                                               39

11. Amor-te                                                                     41/47

12. O amor como um rio                                                  48/58

13. O que você está olhando no céu?                               59/62

14. A morta na calçada                                                             63/67

15. Indisponível para o amor                                            68/73

 

 

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JOGOS DE AZAR O ROTEIRO DOS SETE CAPITÃES

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