VESPERA DE NATAL – conto publicado no livro O PAI DA MENINA NUA, ed. Cátedra, Rio, 1974

14 \14\UTC dezembro \14\UTC 2013 at 09:36 Deixe um comentário

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 Uma das coisas de que mais se orgulhava – com orgulho infantil, reconhecia – era sua capacidade de fazer a barba em metades exatas, a começar do lado direito. Divertiu-se ao olhar no espelho um lado do rosto cheio de espuma e o outro bem escanhoado, numa divisão perfeita. Nesse momento a luz se apagou. Uma pequena balbúrdia do lado de fora fê-lo perceber que a falta era geral. E agora? Não tinha sequer uma vela em casa, estava sempre para comprar e sempre esquecia. O remédio era aguardar a volta da energia elétrica, apesar de estar em cima da hora para sair. Culpa de sua preguiça: dormira toda a tarde, acordara já de noitinha, mesmo sabendo que teria de passar em casa da garota para levá-la à ceia. Não contara com a falta de luz.

Sentou-se na privada depois de acender um cigarro. Era só o que podia fazer: esperar. Sentia a espuma secar na face não barbeada e começou a amaldiçoar a ideia de concordar com a sugestão de comparecer a uma ceia de natal, coisa que não fazia há bem uns dez anos. Normalmente convidava uma guria para ir a seu apartamento, comprava vinhos – a única concessão ao espírito natalino – coisas de comer, e fazia a comemoração a seu modo. Mas Maria Antônia era especial, conseguia dele o que queria, inclusive levá-la a uma detestável e familiar ceia de natal. E por isso ali estava, ridiculamente sentado na privada, uma toalha envolvendo-lhe os quadris, metade da cara ensaboada, um cigarro entre os dedos.

Jogou o cigarro no vaso e recostou-se na parede de ladrilhos. A válvula da descarga não lhe permitia uma posição cômoda, mas preferia ficar por perto do espelho para reiniciar o corte da barba tão logo a luz voltasse. Se não chegasse a tempo Maria Antônia não o esperaria e se mandaria para a festa, onde o desconheceria acintosamente, por melhor que fosse a desculpa. Era geniosa e retaliadora.

Através do basculante um cheiro se infiltrava. Um cheiro muito antigo, que fazia pensar em coisas esquecidas, um cheiro de… de que mesmo, gente? Aspirou o ar seguidas vezes até lembrar-se: cheiro de lampião, de querosene queimado, cheiro bom de roça, de infância, de saudade. E a imagem de Maria Antônia zangada se esfumou, substituída pela de uma negra velha, curvada sobre um fogão de lenha, pegando um tição para acender o pito de barro. As janelas abertas mostravam um céu pontilhado de luzes e deixavam entrar uma brisa com cheiro de mato, o cricrilar incessante de grilos, o rouco coaxar dos sapos e mil outros ruídos de animais. Sentado a uma mesa de tábuas lisas e brilhosas pelo uso, ele tomava café com leite acompanhado de rosquinhas de milho. Fora do alcance de seu pequeno braço um lampião atraía mariposas e ele não cansava de observar suas investidas contra o vidro em busca da chama.

Da sala da frente vinha um ruído difuso de vozes e risos. Os homens jogavam baralho enquanto as mulheres botavam os filhos para dormir. Apenas a avó zanzava pela casa, vendo uma coisa e outra e naquele instante apareceu no umbral da porta que se abria para o corredor e perguntou com sua voz gordurosa:

– Já acabou, meu filho?

Com as pontas dos dedos ele amassou as migalhas caídas na mesa, fez um bolinho e jogou-o na boca, Tomou o último gole de café com leite, levantou-se e bocejando deu a mão à avó.

– Dá boa noite a Nhá Dita.

Voltou a cabeça e cumprimentou a preta velha entre dois bocejos, Sem parar de pitar ela o abençoou:

– Drome com Deus, meu fio.

O trecho do corredor até seu quarto foi percorrido quase dormindo e nem viu a avó cobri-lo com a colcha de retalhos. No dia seguinte encontraria os brinquedos nos sapatos. No almoço haveria peru com farofa e os grandes tomariam vinho, dariam grandes risadas, e dormiriam toda a tarde enquanto os pequenos disputariam espaço no terreiro com as galinhas e cachorros para brincar com os presentes recebidos.

Quando fora aquele natal? Durante sua infância os natais eram passados na fazenda do avô. Será que essas noites existiram realmente? Às vezes duvidava quando via os novos natais com árvores de papel com enfeites brilhosos, castanhas e nozes. Lá na fazenda não havia nada disso e era tão mais gostoso. Lembrou-se de um ano em que obteve permissão para esperar papai Noel acordado e dormiu no banco de madeira ao lado dos homens que jogavam. Lembrou-se, nitidamente, de ser carregado pra cama nos braços fortes do pai. Eram fortes mesmo os braços desse homem que vive hoje tossindo, escarrando nos cantos da casa, sempre procurando os óculos? Terá tido algum dia a risada estrondosa, a ligeireza em montar no cavalo e perseguir uma vaca brava?

Engraçado é que todas as suas recordações vinham carregadas de dúvidas, de perguntas. As casas de marimbondos que infestam a vigas do teto da casa da fazenda já existiam naquela época? As galinhas ciscavam em cima da mesa ou pelos cantos esburacados da casa procurando baratas? Havia tão grande contraste entre a decadência da velha fazenda que visitava ocasionalmente e a fazenda de suas lembranças que achava incrível que um dia houvesse existido. A despensa, por exemplo, lembrava-se dela cheia de sacos de milho, de batatas e de outros cereais, de prateleiras pesadas de queijos enformados e linguiças enrodilhadas. Hoje aquele cômodo diminuíra de tamanho, não havia mais os latões cheios de soro de leite pros porcos, apenas algumas batueras que atrapalhavam as corridas dos ratos e latas de banha com as beiradas se enferrujando.

O cheiro de querosene queimado que vinha do vizinho, a escuridão do banheiro, e o súbito silêncio da cidade levaram-no de volta àquelas noites mágicas, cheias de estrelas cricrilantes e expectativas. Debruçado na janela, o menino olhava os pastos misteriosos, envolvidos em sombras, onde bois fantasmas mugiam de vez em quando sem se deixar ver. Mais tarde saberia que o sumiço dos animais se devia à necessidade de óculos, essas miseráveis cangalhas que ainda cavalgam seu nariz. Engolidos pelo negrume os bois eram apenas sons e manchas e qualquer claridade dava aos canaviais formatos estranhos, quase sempre fantasmagóricos, criados pelas histórias de assombração que nhá Dita contava. Nessas noites custava a dormir, assustado, e os latidos dos cães em volta da casa deixavam-no hirto de medo, pois era sinal de que  alguma coisa perigosa rondava a casa, provavelmente lobisomens. Um frio súbito fazia com que se embrulhasse mais nas cobertas, batendo queixo. Dormia do cansaço de suportar a tensão por tanto tempo e ao acordar com galinhas cocoricando e porcos grunhindo se espantava por nada lhe haver acontecido.

Ainda agora sente um medo infundado ao atravessar à noite as estradinhas que levam à fazenda, mesmo ao volante do carro. E se nos matos um animal corre entre as folhagens  ou uma ave assustada levanta um voo barulhento, sente calafrios percorrerem lhe o corpo. Irrita-se com o que considera fraqueza e se esquece do menino solitário e impressionável que foi e da velha pitadeira que lhe contava histórias apavorantes. O cheiro do lampião consegue trazer tudo de volta e de olhos muito abertos tenta distinguir na escuridão do banheiro vultos ou sombras movediças.

Ah, havia as noites de roda e pique, quando todos os primos estavam de férias e aproveitavam o luar para continuar as brincadeiras do dia. Vinham uns meninos da vizinhança, filhos dos trabalhadores do avô e faziam rodas enormes e cantavam, cantavam, cantavam até as mães chamá-los para dormir. Juntos não tinham medo de nada e se sentiam capazes de ir mijar lá nos pés de jenipapo. Ou brincar de esconder no meio das selas amontoadas no barracão ou dar a volta no curral procurando esconderijos. Eram fortes e destemidos. Principalmente pela presença das meninas.

E por falar em meninas, Maria Antônia, a essas horas já deve estar a caminho da festa. Que vai adiantar chegar lá e ficar procurando agradar-lhe, inventando mil desculpas? Se só amanhã ou depois, quando mais calma conseguisse raciocinar, voltaria às boas?

Levantou-se, sentindo as pernas dormentes, soltou a toalha da cintura, enxugou o que restara de espuma no lado não barbeado do rosto e tateando saiu do banheiro. O cheiro do lampião o acompanhava. Sentiu-se alegre por estar nu e só. Como quando nasci, pensou. Foi à pequena cozinha, derrubou coisas até encontrar um garrafão de vinho e um copo, e sempre com o cheiro de querosene no nariz bebeu o primeiro copo com avidez, depois sentou-se no chão, sentindo o frio dos ladrilhos nas nádegas. Riu e tomou mais um copo. Parecia ouvir vozes e risadas de homens. Que besteira, pensou.  Passou a mão no rosto, sentindo uma face áspera e outra lisa como de um menino. Papai e eu, falou alto, já meio tocado pelo vinho. Soltou um riso que lhe fez doer a garganta. Mais um copo. Papai e eu em mim, os dois num só. Sou papai e sou eu. Ouviu o arrastar de chinelos da avó e a velha nhá Dita remexendo no fogão. A garganta estava apertada, ardendo do riso que deveria ter sido choro. Apalpou os braços e murmurou: os braços de papai. Teve uma pequena crise de choro, soluços curtos e doloridos, sem lágrimas. Bebeu mais, queria chorar e não podia. O chão frio era gostoso na noite quente de verão. Apoiou-se nos cotovelos e aos poucos foi se deitando, as pernas dobradas, os braços cruzados no peito e antes de adormecer, murmurou:

– Hoje eu vou esperar papai noel acordado.

 

 

 

 

 

 

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O RIO * ** RETROSPECTIVA 2013

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