A AVENTURA DE POMBOTE – O livro (sete histórias infantis)

23 \23\UTC novembro \23\UTC 2013 at 15:11 Deixe um comentário

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CARLOS AA DE SÁ

 

        A AVENTURA DE POMBOTE

 

 

 

 

 

 

 

   A AVENTURA DE POMBOTE

 

e outras histórias para crianças de qualquer idade

 

   

 

             

 

 

 

 

 

 

 

@ 2007 by Carlos Augusto Abreu de Sá

                                       

                                

 

 

 

                                  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dedicatória:

Este livro, escrito para os filhos, Gabriella e Rafael,

 é dedicado a Pedro e Ana, meus netos, sonho realizado

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1 

 

 

    Quando o antigo casarão começou a ser demolido, Pombel, um pombo cinza-pérola, nascido e criado em seus beirais, ficou apavorado, assim como as dezenas de pombos que tinham no prédio sua moradia. As pombas viram, transtornadas, que junto com os tijolos e o reboco, caíam seus ninhos, com ovos e filhotes. Voaram aflitas, desarvoradas e desesperadas, e tentaram se aproximar dos destroços de seus ninhos e dos borrachos que piavam.

       Pousados nos galhos das árvores próximas, os pombos machos, de olhos arregalados e arfantes, se lamentaram ou imaginaram bravatas, como um ataque de bicadas aos trabalhadores que com suas picaretas e britadeiras iam reduzindo tudo a pó. Aos poucos foram se conformando e voaram para os prédios próximos, onde tentariam recomeçar suas vidas.

     Passados os primeiros tempos de confusão e tumulto, barulho e poeira, Pombel resolveu sair voando, vendo coisas novas, visitando velhos amigos, fazendo novas amizades e azarando pombinhas descomprometidas. Era solteiro, ia gozar sua liberdade.

     Os pombos vivem disseminados pelas cidades, em grupos grandes, concentrados em velhos casarões, igrejas e edifícios, onde possam fazer seus ninhos. Onde via uma dessas comunidades Pombel pousava, ficava alguns dias, depois partia em busca de novos horizontes. A vida o presenteara com a liberdade e queria usufruir dela.

    Voando sobre uma das ruas mais antigas, avistou um bando de pombos que vivia nos beirais de uma velha escola. Encantou-se com o lugar, que lhe lembrava o velho casarão onde nascera. A mesma familiar cor cinzenta, manchada pela chuva e pelo tempo, recantos penumbrosos, enfeitados por teias de aranha e picumãs, árvores antigas pejadas de ninhos de outros pássaros. Gostou até da zoeira dos alunos. Mas o que realmente o prendeu, foi o tímido olhar de uma pombinha.

 

    Pombita era quase toda branca, com manchas pretas nas pontas das asas e em volta dos olhos doces. Tímida e muito romântica, ainda não escolhera seu par, queria um pombo especial para casar.

    Pombel cercou-a de atenções, lhe conseguia insetos, grãos de milho quebrados e pedacinhos de casca de pão, rondava os alunos que lanchavam para pegar as sobras. Ela se sentia uma rainha. Pombel elogiava-lhe a elegância, o olhar, o andar, a maneira delicada como se catava, tudo. Estava apaixonado.

   Inflando o majestoso pescoço e arrastando pelo chão a cauda aberta em leque, arrulhou-lhe um pedido de casamento. Ela aceitou, emocionada e disse:

– E vamos morar aqui, no telhado da escola. Assim, nossos filhotes poderão aprender muita coisa. Vou levá-los para o peitoril da janela da sala de aula. Vai ser bom para eles.

– Mas e os meninos? Podem jogar pedras neles, assustá-los e até feri-los.

– Eles se acostumarão, como me acostumei. Não quero filhos analfabetos.

    Escolheram um recanto ventilado e pouco iluminado, ideal para o desenvolvimento dos borrachos. As semanas que se seguiram ao casamento foram utilizadas para levar gravetos, pedaços de papel, folhas secas e fiapos de pano para forrar o ninho.

 

Dos ovinhos que Pombita depositou no ninho nasceu um casal de filhotes, Columba e Pombote. Mil cuidados os pombos dispensaram aos borrachos, que cresceram fortes e sadios. A pombinha era dócil, um tanto tímida, mas Pombote era muito levado. Era preciso que estivesse sempre sob vigilância, para não fazer muita arte.

    O que mais preocupava Pombita era a travessia da rua em frente à escola, muito movimentada. Como Pombote ainda não tinha segurança em voar, ela temia que ao atravessar a rua, ficasse tonto e pousasse no asfalto, onde poderia ser atropelado. Só em pensar nisso sentia um arrepio.

   E Pombote vivia de olhar comprido nos pombos adultos que passavam o dia na fachada externa da escola, cruzando a rua, brincando nas sacadas e janelas. E não se cansava de pedir aos pais que o deixasse brincar com eles.

– Nem pensar, respondia Pombita, nervosa. Não saia daqui.

– Por que não posso? Tenho asas como eles, e se eles podem eu também posso.

– Eles são adultos, respondia ela, paciente. Dominam a arte de voar. Borrachos como você e seus amiguinhos ainda não sabem escapar dos perigos. Tenha paciência, mais um pouco e você vai poder brincar à vontade.

– Droga, sô! resmungava ele. Aí estarei muito velho. Eu quero é agora!

– Agora não pode e ponto final. Volte para o ninho.

 

Omedo da mãe só aguçava a curiosidade do filho. O que havia de tão perigoso na rua? Pombote ardia de curiosidade. Por diversas vezes, aproveitando-se da distração dos pais, se aproximara da borda do telhado. Era descoberto em segundos e obrigado a voltar ao ninho. Só conseguia uma fugaz visão da rua e o movimento entrevisto aumentava sua curiosidade. Um dia, na ausência prolongada do pai e com a mãe ocupada, ensinando a filha a fazer ninho, voou para a rua.

    Nos primeiros momentos ficou atordoado e assustado. Logo se refez e misturou-se aos outros pombos, cruzando a perigosa rua de um telhado a outro. Viu? pensou, empolgado pela liberdade, sou capaz de voar como os outros. Nada como fazer o que a gente tem vontade. E pousava nos fios, fazia piruetas entre os postes, caía em parafuso ou em queda livre. Um pombo radical. Era demais!

   O ar morno deslocado pelos veículos em movimento acariciavam suas penas. De repente, sem aviso, o vento aumentou de velocidade, sacudindo os galhos das árvores, levantando muita poeira. Os pombos maiores fugiram para os beirais com rapidez. Apanhado em cheio pela ventania, Pombote foi levado de roldão. Visto de longe parecia uma bolota cinzenta, carregada aos trancos e barrancos, dentro de um novelo, onde se misturavam folhas, papéis e lixo de toda a espécie.

    O céu escurecera rapidamente e Pombita, preocupada ao perceber a ausência do arteiro, saiu a sua procura. O vento forte a impediu de sair. Nervosa, procurou o filho nos ninhos vizinhos, onde ele costumava brincar. Ninguém sabia dele. Um pombo velho, que por ter dificuldade em voar passava o dia espiando a rua, lhe contou o sucedido. Pombita desmaiou.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2

 

 

Sufocado, tonto, cambalhoteando no rodamoinho, Pombote fechou bem os olhos para evitar a poeira.  No seu desespero pensava na mãezinha, na família, que deveria estar em polvorosa. Não conseguia pensar no que lhe estava acontecendo. Girava no ar.

    Ia perdendo a consciência quando sentiu que batia em algo áspero, talvez uma parede ou uma árvore e ficava preso, pressionado pela ventania. Sentiu, por muito tempo, forte opressão, respirando mal, ouvindo o vento zunir à sua volta. Mais tarde sentiu a pressão diminuir e seu corpo escorregar até o chão. Arfando, entreabriu os olhos e ao clarão de um relâmpago, viu que estava num campo, encostado a uma árvore e rodeado de lixo. Chovia muito. Deixou-se ficar ali esperando a tormenta passar.

   Um temporal havia seguido o vendaval e a chuva grossa ensopou suas penas. Tremendo de frio e medo, ficou quietinho, sem nem piar, até que a chuva transformou-se em chuvisco. Abriu os olhos: era noite fechada e no horizonte relâmpagos ainda cortavam a escuridão. Encolhido entre as raízes, chorou até se cansar. Por fim, apesar da fome e do frio, dormiu.

 

Acordou com os primeiros raios de sol batendo em suas pálpebras. Abriu os olhos e mal conseguiu acreditar no que viu: um mundo novo, todo verde, cheio de árvores e flores. Nem uma casa, nada que lhe lembrasse o lugar de onde viera. Maravilhado, olhou para os lados e viu o campo verde pontilhado de árvores se estendendo em direção às montanhas distantes. Plantas estranhas cercavam um riacho de águas claras. Borboletas multicoloridas se embarafustavam por entre as moitas, pássaros que nunca vira cruzavam o céu, ruídos estranhos vinham do mato.

    Apesar de assustado, sentiu-se bem e respirou fundo enquanto abria as asas para que o sol as secasse. Sentiu fome, caçou pequenos insetos. Quase enxuto, caminhou pelo capim, procurando algo mais sólido para comer. Viu então um animal esquisito, enrodilhado, olhando-o fixamente, silvando e exibindo uma língua bipartida. Ficou fascinado, olhando, até que seu instinto o alertou e levantou vôo no instante em que a rodilha se desfez e a estranha criatura se lançou sobre ele de boca arreganhada.

– Ai, meu Deus! pensou, acho que esse bicho era a tal cobra. Ela é do mal! Papai já me contou uma porção de histórias sobre ela. Ainda bem que escapei!

    As asas pesadas de chuva e pouco afeitas a vôos maiores, só lhe permitiram pequenos vôos. Com o coraçãozinho batendo acelerado, saltitou para longe, lançando de vez em quando miradas para o bicho feio que avançara sobre ele.

    Assim que se viu distanciado do perigo, sacudiu as asas para se livrar do resto da chuva. De algum ponto vinha um grito aflito, como se alguém gritasse bem te vi, alertando-o. Nervoso, deu outro vôo curto até um tronco grosso caído, batido pelo sol. Precisava pensar, enquanto o sol acabava de enxugar suas penas.

    Quando sentiu as asas secas e leves, beliscou larvas no carcomido tronco. Sentiu sede, e ao sair para procurar uma poça, viu um outro animal, parecido com os gatos que os perturbavam na escola, só que mil vezes maior e com o pelo amarelo com pintas escuras. O pássaro continuava a gritar bem te vi. Desta vez o pombo agiu rápido e voou para o galho de uma árvore. O gatão, em passadas lépidas, alcançou a árvore e subiu em sua direção. O pombo voou um pouco mais para cima e o gatão subiu atrás. Pombote voou então para uma árvore vizinha e o bicho, num salto, o acompanhou.

 

Tremendo de pavor, Pombote parou na ponta de um galho, bem no alto, vendo o gatão avançar, com os dentes arreganhados. Um bicho medonho. Pombote chegou a pensar que era melhor se deixar pegar de uma vez do que continuar numa fuga que parecia impossível. O animal escalava a árvore devagar, sem tirar dele os olhos amarelos e raivosos.

    Súbito, num vôo rasante, uma pequena ave passou rente à carantonha do gatão, que perdeu o equilíbrio e despencou. Não fosse ágil e teria se esborrachado, mas no meio da queda, com uma virada de corpo, se prendeu a um galho com as garras. E olhou para cima, disposto a continuar a caçada. Mas a ave, pequena e pardacenta, barriga cor de laranja, foi até Pombote e o guiou para um lugar seguro através da galharia.

    O pássaro, um sabiá-laranjeira, chamava-se Sabião e levou-o a um ramo onde podiam pousar tranquilos. Pombote agradeceu e disse estar com fome e Sabião levou-o a uma árvore carregada de pequenas e gostosas frutas vermelhas. Enquanto comia, o pombo contou ao pássaro o que lhe acontecera.

– Ah, concluiu Sabião, você veio da cidade. Logo vi. Há muito tempo fui levado para uma cidade dentro de uma gaiola, vi como é. Muito barulho, não gostei. Consegui fugir e não volto mais lá. Aqui é melhor.

– E como posso voltar pra lá? perguntou Pombote.

– Você quer voltar para aquela barulheira? Que mau gosto! Bom, vai ser difícil e cansativo, você veio parar muito longe. Vai ter que seguir o regato até o rio. Já viu um rio? Não? É um mundo de água que corre, muito perigoso. Depois vai seguir o rio até chegar ao mar. Conhece o mar? Também não? Cruzes! Pelo que vejo você não conhece nada. O mar é um rio imenso, salgado. Chi, é tanta, mas tanta água, como nunca viu na vida. Não chegue nem perto. Voe beirando o mar até encontrar as casas de gente. Cuidado com os alçapões.

– Puxa, é complicado. O que é um alçapão?

– Mais do que você pensa. Alçapão é uma armadilha que os homens usam para prender pássaros. Não se iluda com as comidas nos potes, se entrar ali a tampa cai e você fica preso. E tem outros perigos lá. Se eu fosse você ficaria por aqui, é mais bonito, pouco barulho, não tem aquela fumaceira, nem carros correndo… nem gaiolas nem meninos com atiradeiras.

– É, mas aqui tem aquele gatão malhado e um bicho comprido que vive enrodilhado.

– A onça e a cobra. Em todo lugar existe perigo, a gente aprende a se livrar deles.

– Nesse caso, prefiro enfrentar os perigos da cidade que já conheço. Gosto muito de voar entre os carros, gabou-se. E estou com tanta saudade do pombal, de minha mãezinha.

– Se é assim, eu o acompanho até o rio. Não acha melhor esperar crescer um pouco mais? É tão novinho, não sei se vai agüentar a viagem.

– Não, eu quero voltar pra casa. Já!

– Se é assim… vamos em frente. Pelo caminho irei ensinando como evitar os perigos.

 

E pela manhã clara lá se foram os dois, voando e conversando. Pombote se divertia olhando sua sombra no chão, ao lado da sombra menor do amigo. Iam tão distraídos que não viram que a sombra de uma ave maior se aproximava velozmente e só deram por ela quando estava junto das deles. O sabiá soltou um pio de susto:

-Ai, é um gavião! Estamos perdidos!

    Ao ver que Pombote o olhava sem entender, gritou espavorido:

– Fuja, se esconda em qualquer lugar. O gavião é mau, vai nos estraçalhar com suas garras e nos comer. Fuja, se não quer virar almoço!

   Desesperado, o sabiá embrenhou-se numa moita espinhosa, onde ficou encolhidinho. Pombote o seguiu, mas seu tamanho não lhe permitiu entrar pela pequena abertura. O gavião, faminto e implacável, voava em círculos, olhos cruéis cravados nele. Sabião gritou:

– Se esconda, pombinho. Depressa, senão ele pega você!

   Sem alternativa, Pombote continuou voando por entre as árvores, buscando uma bem galhuda e enredada de cipós, sem se afastar para não perder o riacho de vista. Nos claros entre os galhos o gavião investia, descendo como uma flecha. Numa das vezes arrancou-lhe um chumaço de penas, noutra as garras lhe roçaram a cabeça. Impelido pelo pavor, Pombote desviava-se, driblava os troncos e se metia no meio dos galhos.

 

    Então avistou uma casa e sem pensar duas vezes traçou um vôo direto ao telhado. O gavião baixou feito foguete. Pombote escapou por um triz, se enfiando sob as telhas. Arfando e tremendo pelo terror, ouviu o alarido no quintal, o cacarejar assustado e lancinantes pios. Depois soube que o gavião havia agarrado um pintinho.

  

 

                            O gavião vigiava Pombote e o sabiá escondidos na folhagem.

 

 

 

 

 

 

3

 

 

 

Acasa era acolhedora e ficava junto ao riacho. Por ser velha oferecia lugares ideais para um pombo se esconder. Ou uma coruja, como a que morava bem perto da cumeeira e com quem travou boas relações. Também ela o aconselhou a desistir da viagem.

– Morar aqui é ótimo, você vai gostar. A família é legal e as galinhas, patos e porcos não se importam em dividir a comida. O cachorro só sabe latir e o gato está muito velho.

– É? E as gaiolas? Tem passarinho preso ali.

– Só os que cantam, explicou ela, e pelo que me consta, pombos não cantam.

– E o gavião? Quase me pegou.

– É só ficar atento. E na cidade, quanto perigo existe? Também conheço a cidade.

– Nós, pombos, estamos acostumados. Não vou me acostumar a viver aqui. É tudo muito bonito, mas…como costuma dizer minha maninha: cada um com seu cada um. Meu lugar é na cidade.

    Por conta do gavião, que morava nos galhos secos de uma árvore não muito distante, Pombote ficou por ali mais de três meses, descansando, se fortalecendo e se informando para enfrentar a viagem de volta. Sempre apareciam pássaros que haviam escapado de gaiolas e suas informações eram preciosas. Pombote crescia. O gavião vigiava.

    Fizera amizade com a turma do terreiro, só o galo o olhava de banda. Com os porcos não se dera bem, eram gulosos e mal educados. Muitas crianças moravam na casa e se encantaram com sua chegada. Davam-lhe milho nas palmas das mãos.

   Por aquela época Pombote enfrentava sua primeira muda, período difícil para as aves, quando as velhas penas caíam e as novas, cor de pérola, as substituíam. Aos poucos seu pescoço se recobriu de penas verdes metálicas que rebrilhavam ao sol. Suas asas estavam maiores e seus músculos rijos. Ensaiou vôos mais longos e seguros.

   O gavião investia sobre o quintal de tempos em tempos, apesar dos latidos do cão. Durante a época da muda o pombo se manteve sempre perto do telhado, onde podia se esconder. Quando voltou a voar, por duas vezes o gavião o perseguiu. Na terceira, aborrecido, viu que era tempo de partir e numa manhã ensolarada, bem cedinho, se certificou que o gavião caçava bem longe dali e depois de despedir-se de todos, retomou a viagem. A coruja lhe fez mil recomendações, ela o tratava como se fosse sua mãe. Voou de coração apertado, ia sentir saudade da casinha da roça e de seus amigos.

 

 

 

 

 

                                                  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

4

 

 

 

Enquanto voava, Pombote mantinha-se alerta contra qualquer tipo de ataque, lembrando-se da conversa que tivera com a coruja. Depois da última incursão do gavião no terreiro, o pombo, indignado, fez um verdadeiro comício contra a maldade do predador.

– Por que ele tem tanta raiva de nós? perguntou, desolado e irado.

   A coruja estalou o bico duas vezes, como fazia sempre que falava de coisas sérias:

– Ele não tem raiva de ninguém, não ataca porque quer destruir, está com fome e segue seu instinto de caçador. Eu também caço pequenas cobras, ratos e não é por maldade.

   E continuou, filosofando:

– Todos nós, ao nos alimentarmos, destruímos uma vida, seja animal ou vegetal. Você não come insetos, não engole caroços de milhos, impedindo que germinem? Não somos ruins ao fazermos isso, simplesmente a natureza determinou assim. O homem é o único animal que caça por prazer e não apenas por necessidade.

    E como Pombote a olhasse sem parecer estar convencido, ela perguntou:

– O que devem achar de você as larvas que devora? Já imaginou que para elas você é tão assustador quanto o gavião? É a vida. Agora vá e tome muito cuidado, os perigos estão no ar e na terra. Fique muito atento. Quando pousar, verifique se não tem cobra ou onça por perto ou mesmo um menino com uma atiradeira. Vá, boa viagem.

 

Após um dia de vôo quase sem descanso, parando apenas para se alimentar, o pombo encontrou-se diante do rio. Extasiou-se com a visão do corredor de água a rolar macio, carregando barcos e plantas. Pousado num coqueiro, ficou um tempão vendo peixes pulando em busca de insetos e pássaros mergulhando para pegar peixes e entendeu a coruja.

    A viagem continuou sem incidentes. Na primeira noite dormiu no galho de um jenipapeiro, ao lado da casa do joão-de-barro, onde se abrigara uma juriti. Conversou com o casal e com a ave, sua parente distante, que se chamava Jurema. Papo agradável, relaxante, e dormiu tranqüilo.

   Jurema foi sua companheira de viagem por um bom trecho. No dia anterior, perseguida por um carcará, fora parar ali, bem longe de onde morava. Também estava voltando para casa. Jurema ensinou mais coisas a Pombote, lhe ensinava o nome das aves e plantas que ele não conhecia e o fazia apreciar os diversos tons de verde da mata, os formatos das árvores e a beleza das flores. Uma companhia gostosa e instrutiva.

    Quando ela chegou a seu destino ele continuou. Quando se cansava, parava de preferência nos casebres de palha que pontilhavam as trilhas. Quando quis se divertir, juntou-se a um bando de alegres e irrequietas piaçocas, barulhentas e bem humoradas. Faladeiras, elas sabiam de tudo o que se passava nas cercanias. Ele se sacudiu de rir com os comentários que fizeram sobre as marrecas irerês, que consideravam bobas e desajeitadas.

– Só são bonitas voando, disseram. Andando são mais desajeitadas que patos.

    Os únicos problemas foram causados por meninos. Quando encontrava algum armado de bodoque ou colocando milho em arapucas, bem instruído, desviava-se. Mesmo que os caroços de milho estivessem apetitosos e ele com fome. Viu alguns pegando uns papa-capins grudados no visgo que colocaram num galho de árvore. Um bando de maritacas xingou os meninos malvados. Só que eles não entenderam a linguagem delas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

5

 

 

E voando sempre, Pombote alcançou o mar. Era maior e mais bonito do que imaginava, porém, assustador e, surpreso com o barulho das ondas estourando na praia pousou na areia, olhando bicoaberto a espuma branca que se desfazia a seus pés. Gaivotas sobrevoavam o mar, sem medo, grasnando e mergulhando em busca de peixes. Estava tão entretido, que não viu uma delas pousar a seu lado e assustou-se quando ela lhe perguntou:

– Você é um pombo?

– Sou, respondeu ele, pondo-se em guarda.

– Ué… e o que está fazendo aqui? Pombos não mergulham nem pescam…

– Estou vindo de muito longe e querendo saber que rumo tomar para chegar à cidade, de onde fui arrancado por um vendaval.

– Ah, é? Tá certo. Tem uma cidade aqui, passei lá uma vez, mas fica longe.

– E o que gaivota foi fazer na cidade?

– Pescar, ora essa, que outra coisa a gente faz? Fomos acompanhando um navio grande, uma gaivota disse que tinha muito peixe lá. Se tinha, não vi quase nenhum, era uma mentirosa aquela gaivota, acho que queria me afastar daqui. Depois a tal gaivota, que na verdade estava com medo de ir sozinha e contou essa lorota para que um grupo fosse com ela, disse que houve um tempo em que havia sim muito peixe perto da cidade, mas os homens jogaram tanto óleo e outras porcarias no mar que os peixes fugiram de lá.

– Mas a cidade é muito bonita.

– Eu não como beleza, meu bem, como peixes. E voltei. Bobagem você voltar pra lá, mas já que quer ir…tá vendo aquele morro, onde a praia faz uma curva? Quando chegar lá, pouse numa palmeira magrela que tem lá e verá a cidade. Não é grande coisa, muita fumaça e barulho.

                       

                                   A garça deu informações preciosas a Pombote

 

   Pombote agradeceu, deu umas bicadas na areia para sentir seu gosto e seguiu o desenho das espumas. Houve um momento de pavor quando a sombra de uma ave gigantesca, muito maior que um gavião, passou sobre a sua. Olhou de relance, era um pássaro estranho, de metal, e voava muito alto. Sem dúvida era o avião que sobrevoava a cidade onde nascera. Portanto, não representava perigo. Riu de alívio.

    Era noite quando pousou na palmeira. Deslumbrou-se com o amontoado de luzes que divisou, mas estava tão cansado, tão cansado, que deixou para satisfazer sua curiosidade no dia seguinte.

 

 

 

6

 

 

 

 

A primeira coisa que fez ao despertar foi procurar alimento. A mata rala que recobria o morro estava repleta de frutinhas saborosas. Afora isso, havia muitos insetos, larvas e sementes caídas no chão.

    Passou dias ali, se recuperando, e sentiu pena em ter que abandonar aquele mundo verde, afeiçoara-se a ele e a seus habitantes. Era um mundo estranho, cheio de perigos e mistérios, mas fascinante.  Ficou zanzando, conversando com os pássaros, se divertindo com as travessuras dos micos, vendo cobras rastejar, camaleões correrem por entre as raízes, sempre assustados, ouvindo feras urrar, uma sinfonia de sons e cores que fazia os colibris dançar e as borboletas bailar como folhas secas. Ia sentir falta de tudo.

   Quando em certa manhã o sol venceu a neblina que envolvia o morro, voltou ao topo da palmeira mais alta e distinguiu, ao longe, as casas espalhadas pelo vale e encostas. A cidade, seu mundo! Seu coração palpitava de alegria e chegou a sentir ternura pela fumaça que saía das chaminés. Era outro mundo, também belo e perigoso, mas seu mundo.

   Alçou vôo e alcançou as primeiras casas antes da noite chegar. Eram pobres e pequenas, algumas de madeira e lata, com árvores mirradas. As cercas estavam cercadas de lixo, de sacos plásticos, latas usadas. Achou estranho. Lembrava-se das casas grandes de sua infância, das ruas movimentadas. Poucos automóveis passavam ali, uns bois pastavam distraídos. Voou mais até achar uma casa de tamanho razoável, com o quintal cheio de animais. Ali encontraria comida e companhia. Estava ficando esperto.

     Passou a noite sob o beiral, conversando com uma cambaxirra faladeira e inquieta. Não conseguiu prestar atenção ao que ela dizia. Seu coração batia descompassado pela idéia de que em breve veria os pais e a irmãzinha. Só pensava nisso. Custou muito a pegar no sono. Fechava os olhos e via seu ninho, sua família, os amigos, e lágrimas de saudade molharam suas penas. Quanto tempo se passara!

 

No outro dia, guiado pela cambaxirra faladeira que morava no beiral, conheceu os animais do quintal. Além do gato de olhos frios e do cachorro malhado, havia muitas aves, algumas em gaiolas. Riu da voz engrolada do peru e teve pena do papagaio gritador preso numa corrente. As galinhas

também estavam presas num cercado. Não quero ficar aqui, pensou, todos vivem confinados. Nem esperou ver os donos da casa e foi embora.

    A cambaxirra lhe contou que na redondeza, um pouco distante, moravam uns pombos. Não sabia bem onde, mas se ele quisesse aguardar, toda tarde, quando o sol baixava, alguns passavam por ali. Vinham também umas andorinhas.

– São muito metidos esses pombos, comentou ela, não são simpáticos como você. Não piam para ninguém, uns bocós. Por isso nunca me interessei em saber onde moram. Detesto bicho arrogante. Somos todos iguais, não somos?

– Vai ver estavam com pressa, falou Pombote.

– Que nada, são bestas mesmo. Mas como eu disse, você é simpático, e apesar desse tamanhão não esnoba os pequenos.

   Voou com ele até um mourão da cerca, bem distante da casa. Falou por bastante tempo, ao mesmo tempo em que caçava umas larvas. E não o largou, o que em parte foi bom, pois diminuía sua ansiedade. Pombote só ouvia. E à tardinha os pombos surgiram em revoada pelo céu. Seu coração deu pulos de alegria. Que bom, pombos! Nem se despediu da nova amiga e subiu como um foguete ao encontro deles. A cambaxirra comentou, despeitada:

– Ora, pombos! São todos iguais!

 

Reconhecido e bem recebido pelo bando, acompanhou os pombos até o casarão que habitavam, em frente a uma praça maltratada, onde havia um jardim com uma pequena igreja. As casas se pareciam com as da rua onde vivera. Respirou aliviado, estava perto de seu destino.

    Decidiu que partiria tão logo se sentisse descansado e conseguisse saber ao certo em que direção ficava sua velha casa, mas uma pombinha marrom, de olhar brejeiro e doce, o reteve.

    A cada vez que se preparava para partir, Paloma, a pombinha, o prendia com seu jeito cativante. Chegava bem juntinho dele e pedia, num arrulho irresistível:

– Conta de novo como foi que venceu o gavião…

– Eu não venci, Paloma, eu fugi dele.

   Ela arregalava os olhinhos:

– E escapar de um gavião medonho não é uma vitória? Você foi maravilhoso!

   Ele sentia-se um herói e recontava o caso com mais detalhes que  inventava. Mas a saudade da família aumentava, queria rever o pai, a mãe, a maninha. Seu olhar se perdia no horizonte e Paloma se achegava, toda ternura:

– Estou com tanta vontade de comer uma mosquinha… será que podia caçar uma pra mim?

   E lá se ia ele num vôo elétrico atrás da caça. De outras vezes ela lhe perguntava, tristonha:

– Acho que está com saudade de alguma pombinha bonita que conheceu nas suas andanças e não me contou…

– Não, Paloma, juro que não.

– E a juriti, você não disse que era bonita? Aposto que se apaixonou por você.

– Ela era velha pra mim, meu bem.

– Você me chamou de meu bem! Você gosta um pouquinho de mim?

– Um pouquinho, Paloma? Estou caidinho por você.

    Descobriu que não podia mais viver sem ela e inflando o pescoço que resplandecia ao sol e arrastando a bela cauda, arrulhou-lhe coisas de amor. Ela suspirou. Era tudo que queria.

    Casaram-se logo, mas ele impôs uma condição: não fariam ninho enquanto não reencontrasse sua família.

    E um dia depois do casório, voaram juntos por sobre casas e ruas em busca da velha escola.

 

 

                                                        

 

 

 

 

 

 

 

                              

   F I M

 

 PEDRINHO, ANINHA E A VACA FULU

 

 

Sentado na sombra do frondoso pé de ingá, no sítio de seu avô, Pedrinho olhava as vacas e cabritos que pastavam tranquilamente o verde capim. Estava chateado porque não tinha com quem brincar, já que seu avô estava consertando as cercas e a avó preparava a mamadeira de sua irmã, Aninha, que da varanda apreciava as galinhas e pintinhos ciscando a terra.  Gaviões rondavam no ar, olhos cruéis fixos nos pintinhos. Um galo vermelho e amarelo passeava orgulhoso pelo terreiro e cacarejava alto para espantar os gaviões. O peru, pomposo, abria a roda da cauda como se fosse enfrentar o galo. Patos rebolavam em direção ao tanque. Ao longe, galinholas gritavam tô fraco, tô fraco! Um coleiro cantava numa gaiola pendurada na parede da casa do avô. Pedrinho e Aninha iam passar uns dias com os avós enquanto seus pais viajavam.

Pedrinho achava que as galinholas eram manhosas, gritavam que estavam fracas só pra ganhar mais milho. Ele adorava ficar observando os bichos. Uma vaca malhada de preto e branco se afastou do rebanho que pastava e veio calmamente na direção dele, que ficou atento, caso ela estivesse com más intenções correria para a varanda ou subiria na árvore. A vaca, porém, andava bem devagar e parecia sorrir, e ele continuou sentado, esperando. Era uma vaca grande e gorda, de pelo branco com manchas marrons, tetas gordas, chifres pontudos e olhar bondoso. Chegou bem perto dele, bocejou e dobrou as pernas, arriando o corpão até ficar assim, meio deitada, meio reclinada, na sua frente, olhando para ele e mastigando. Esperou o que viria a seguir sem demonstrar o medo que sentia. Num dado momento ela lhe perguntou:

– Por que você fica aí tão quietinho e não está brincando, correndo atrás dessas galinhas alvoroçadas ou jogando a bola pro cachorro pegar?

Ele tomou um susto por que sabia que vaca não falava. Mas ali no sítio Quiriba tudo era possível e ele aceitou que ela falasse. Ela continuou:

– É, garotinho, aqui não tem muita diversão, né? A televisão não pega bem e não tem meninos por perto pra jogar bola e brincar de pique. Bom, quanto à televisão acho ótimo que não tenha, porque as crianças precisam correr, pular, subir em árvores, rolar no capim, soltar pipa, jogar bola e brincar com os bichos para crescer com saúde. Por que não pede a seu avô para atrelar o cabrito na carroça para você dar uma voltinha pelo sítio? Andando devagar, você pode até levar sua irmãzinha. O cabrito é muito bonzinho.

– Eu bem que gostaria, disse Pedrinho, mas meu avô está ocupado, ontem um cavalo arrebentou o arame da cerca e se machucou. Ele botou remédio no machucado do cavalo e agora está consertando a cerca.

A vaca balançou a cabeça de um lado para o outro:

– Esses cavalos são uns tontos. Saem por aí, de noite, correndo, e se machucam. Então você é neto do nosso dono? Qual o seu nome?

– Meu nome é Pedro e aquela ali, sentada na varanda, é minha irmã Ana. E o seu?

– Me deram o nome de Fulustreca, horrível! Prefiro Fulu, é mais carinhoso. Ou melhor, dona Fulu, pois já tive um bezerro, aquele bonitão lá, tá vendo? Ele é malhado como eu porque minha mãe era uma vaca holandesa, completou, orgulhosa. Mas meu pai era um touro zebu. Sou uma mestiça raçada.

– Vaca serve pra quê? perguntou Pedrinho.

– Você não sabe? Meu Deus, quanta ignorância! Somos os animais mais importantes do mundo, os hindus nos adoram! Sem nós os homens não viveriam, respondeu ela, cheia de empáfia. Com nosso leite gordo eles fazem queijo, iogurte, coalhada, mingau, mamadeira, café com leite e bolo e com a nossa carne fazem hambúrguer. Quer mais?

– Hum, você é meio metida a besta, né? Aposto que aquela cabra ali é tão útil quanto você.

– Tão útil não, as cabras são úteis, mas nós somos muito mais. Você já viu bois puxando carroças cheias de canas cortadas para levar para a usina de açúcar? Tá vendo? Cabrito não agüenta trabalho pesado. Não fossemos nós e os homens não teriam açúcar para fazer doces e sorvetes.

Ela deu uma risadinha maliciosa:

– E você sabe qual é o nome daquele cabrito?

– Não, qual é?

– Não digo.

– Ué, não diz por quê?

– Não, seu bobinho, o nome dele é não digo. E o nome do carneiro que está pastando perto da cerca é já disse. A esposa de nosso dono, sua avó, é muito espirituosa e brinca com as pessoas que perguntam os nomes dos seus bichos.

– E o cavalo, como se chama?

– Um nome comum, Brilhante. Tudo por que o pelo dele brilha no sol, disse com desprezo. Todo cavalo é bobão.

– Você não gosta de cavalos?

– Mais ou menos. São desprezíveis, bobos, se acham o máximo. Gostam de dar coices nos outros bichos. Os homens montam neles para nos perseguir. Quando a gente sai pra passear, eles vão também com um homem montado em cima. Nós não deixamos ninguém montar no nosso lombo, o cavalo deixa, é um bicho imbecil.

A vaca revirou os grandes olhos, aborrecida. E disse mais:

– Mas o bicho que não suporto mesmo é o tal do cachorro. Quando a gente se afasta um pouquinho, nem que seja para espiar do outro lado da cerca, lá vem o chato do cachorro latindo, mordendo nossas patas, tem medo que a gente fuja, só param quando voltamos para o curral. Até parece que é nosso dono. Detesto esses puxa-sacos. Quando um deles vêm pro meu lado, eu abaixo a cabeça e dou uma chifrada! Estão pensando o quê, que sou boba que nem o cabrito e o cavalo?  Comigo não tiram farinha!

– E o carneiro, serve pra que?

– Serve pra mesma coisa que nós, dar leite e carne e puxar carrinhos. Dizem que os árabes gostam de carneiro ensopado, não gostam de carne de boi. Suspirou. Adoro os árabes! Queria tanto morar lá! O carneiro é teimoso e cabeçudo, mas é bonzinho. Ah, também serve para dar lã pros homens se cobrirem com mantas e agasalhos.

Um sabiá pousou no galho do pé de ingá e ficou parado, só escutando a conversa. Era muito curioso.

– Meu Deus, disse o sabiá, que vaca faladeira! Não tem mais o que fazer do que ficar chateando o menino?

Um bem-te-vi que pousou num galho mais acima, também deu seu palpite.

– Ao invés de inventar histórias sobre outros bichos, dona Fulu, a senhora devia era se contentar em ruminar. É a única coisa que sabe fazer direito.

– Tá vendo, Pedrinho, como esses bichos são encrenqueiros? A gente estava aqui conversando sossegados e vêm esses passarinhos intrometidos encher nossa paciência. Vão catar mosquitos, vão. Será que nem pra isso vocês servem? Que coisa mais chata!

– Chato, eu? Sou uma das maravilhas da natureza, canto muito bem, disse o sabiá inchando o peito, por isso os homens vivem a me caçar, armam alçapão nas gaiolas. Como não sou bobo, aprendi a evitar armadilhas. O bem-te-vi é que só serve pra pegar mosquitos e moscas, e gritar que nem aquele quero-quero lá no meio do campo que parece meio maluco. Vê se tem algum garoto querendo prender o bem-te-vi ou o quero-quero na gaiola? Só sabem gritar.

– Por que o quero-quero vive gritando? indagou Pedrinho.

– O Quequé é outro boboca, disse o sabiá. Sabe voar, podia fazer o ninho nos galhos das árvores mais altas, como o bem-te-vi e eu, mas ao invés disso faz um buraquinho no meio do pasto e ali bota os ovos. Aí, ficam ele e a fêmea dele o dia inteiro nervosos, a tomar conta do ninho, e a gritar para ninguém pisar sem querer e quebrar seus ovinhos.

– O quero-quero, seu passarinho falador, cuida do ninho dele, lembrou dona Fulu. Você sabe muito bem que o gavião vive de olhos nos filhotes dos passarinhos. Fora as cobras, os lagartos e os homens.

– Se o quequé acha, zombou uma pequena garça que se aproximara do grupo, que os espinhos que têm debaixo das asas vão assustar o gavião, são realmente uns tolos.

– Quem é essa? perguntou Pedrinho.

– É a tal da garça boiadeira, uma implicante, que vive bicando a gente, disse a vaca, irritada. Aonde eu vou e ela vai atrás.

– Sua mal agradecida, reclamou a garcinha, levantando o comprido bico. Passo o dia catando os carrapatos que infestam suas orelhas e você ainda reclama. Pateta!

– Cata porque gosta de comer carrapato, respondeu a vaca com desprezo, não pedi nada.

– Garça enjoada, disse o sabiá, gosta de se fazer necessária e nem brasileira é.

– Sou sim, gritou a garça, sou tão brasileira quanto você, seu enjoado. Meu bisavô nasceu na África e para fugir dos crocodilos voou para a ilha de Fernando de Noronha e depois para cá. Nasci aqui. Somos muito úteis sim, catamos carrapatos e outras pragas, como os grilos e lagartas, que atacam plantas e animais e limpamos os campos.

– Isso os anus faziam, zombou o bem-te-vi. Vocês são garças falsificadas, garças de verdade são as belas imperiais, que vivem na beira do rio e só comem peixes. Vocês morrem de inveja porque elas são lindas e não dão pelota para seus olhares de despeito.

– Não enche, senão lhe dou uma bicada, ameaçou a garcinha.

– Não quero saber de brigas aqui, interveio Pedrinho. Quero é saber quem é que está piando tão triste ali naquela moita.

– É a juriti, só vive resmungando, respondeu o sabiá.

A juriti deu um vôo curto e pousou num galho um pouco acima.

– Tão falando de mim, é? Resmungo sim, disse ela, e com razão. Fico triste quando vejo os homens pegarem machados e serras elétricas para derrubar árvores. Estão acabando com as matas.

– Nisso você tem razão, disse o sabiá. No ano passado sofri muito quando os homens derrubaram um lindo pé de jacarandá onde tinha feito meu ninho. Ainda bem que minha companheira ainda não tinha posto os ovinhos, senão, nem sei. Mas uma rolinha minha amiga perdeu tudo.

– Os homens precisam preservar a natureza, alertou o bem-te-vi, para o nosso bem e para o bem deles também, pois sem plantas o ar fica cheio de gás carbônico e o oxigênio é indispensável à vida de todos nós.

– Eu que vivo num garceiro na margem do rio, ainda fico mais preocupada, pois os homens jogam um monte de porcarias no rio e poluem as águas. O rio vira esgoto.

– O que é garceiro? perguntou Pedrinho.

– É uma árvore grande, onde nos reunimos para dormir. Um lugar tranqüilo, silencioso. Toda tarde voamos para lá.

Aborrecida, por não ter assunto para conversar com as aves, a vaca Fulu começou a se levantar, com dificuldade. Era muito pesada. Firmou os joelhos no chão e suspirou.

– Não dá pra conversar com bichos ignorantes, ela comentou, desgostosa. Eles só sabem reclamar e discutir, são um tremendo baixo-astral. Não gosto disso. Vou curtir a sombra do pé de jenipapo, ruminar em paz. Espero que ninguém me siga.

– O que é ruminar? perguntou Pedrinho.

– Uma coisa nojenta, disse o sabiá. Ela come o capim, mastiga, mastiga até virar papa, engole, a massa vai para o estômago e ui! volta pra boca uma porção de vezes. Nojento!

– Deixa de ser tolo, sabiá! A nossa comida é bem mastigada para não dar dor de barriga. Sabe o que é, Pedrinho? Inveja desses cantadores de meia tigela. O estômago dos animais ruminantes, como o boi, o cavalo, o cabrito, o carneiro, a zebra, o búfalo, a gazela, o camelo, a rena e outros, tem quatro compartimentos. Cada vez que engole o capim mastigado, a comida vai para um desses compartimentos para ser bem digerida. São quatro mastigações. Pior são vocês que não têm dentes e são obrigados a engolir areia para moer o que comem. A mesma areia onde fazemos cocô, que nojo!

– Então é isso, exclamou a coruja buraqueira, lá de sua toca no chão, quando eu via que a sua boca não parava de mexer, pensava que estava mascando chicletes.

– Cala a boca, sua feiosa. Não dê atenção a esses patetas, disse vaca a Pedrinho. A nossa refeição é demorada e bem mastigada, porque o capim tem muita celulose, alimenta bem, fortalece. Por isso nós somos grandes, fortes e bonitos, não somos mirrados que nem essa cambada de pássaros metidos. Sabem cantar, e daí? Isso serve pra quê?

– Em compensação, disse o bem-te-vi, entre risadinhas, vocês não podem voar. Quá, quá, quá.

– Bobão! Voar pra que? Eu, hein! Quem gosta de voar é mosca, mosquito e maribondo, uns insetos horríveis, que só servem para perturbar as pessoas. Não servem para mais nada, que nem vocês. Eu não, sou um animal útil. E muito bonito sim, até participo de concursos de beleza e ganho medalhas. Sou vaca de raça e não passarinho da roça.

– Olha como ela pretensiosa, disse a borboleta, que acabara de chegar. Não é mais bonita que eu. Sacudiu as asas azuis com manchas amarelas. Você tem asas coloridas como eu, tem? Presunçosa!  

– Essa vaca é muito besta, pensa que é bonita, quá, quá, quá!

– E vocês são uns idiotas que riem fazendo quá, quá, quá, como se fossem patos, retrucou dona Fulu.

A vaca, irritada, acabou de se levantar, ergueu a cabeça, sacudiu a poeira, balançou o rabo e piscou para o garoto.

– Está vendo, Pedrinho, não dá pra conversar com esse pessoal invejoso. Só cuidam da vida dos outros. Gostei de você, bem que gostaria de conversar mais um pouquinho, mas com esses bichos chatos a encher nossa paciência não dá. São tão mal educados que se metem na conversa alheia. Que coisa!  Xô, entojados!

– Tá bom, disse o menino, conformado, mas sempre que eu estiver aqui sozinho, venha conversar. E depois, meu avô está vindo ali, vou encontrar com ele e me distrair, vou ajudá-lo a cuidar do sítio. Quando eu crescer também vou ter um sítio assim, cheio de árvores e de bichos com o nome de Quiriba, igual ao sítio do meu avô.

 

 

 

 

FIM                 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

         CAPUIA QUER CASAR

 

 

 

Ruminando próximo à cerca, olhar curioso percorrendo a rua larga de uma ponta a outra, Capuia, bela cabra de cor bege claro, chifres não muito grandes e olhar bondoso, esperava ansiosamente o dia terminar. Seu instinto lhe dizia que chegava o verão que adorava. Não pelo calor, muito pelo contrário, sua pele grossa se cobria de pelos no tempo frio e mantinha seu corpo aquecido, mas pelas crianças que viriam lhe fazer companhia, brincar, correr pelo pasto.

Capuia se sentia muito só durante grande parte do ano, quando seu dono estava na cidade e as crianças na escola. Só ela ficava no cercado da propriedade, ouvindo ao longe o barulho das ondas do mar na areia. Todo dia um empregado do dono vinha vê-la, o que não a confortava. Seus grandes amigos era o casal de siriris.

Capuia era muito mansa e se deixava montar pelos pequenos ou ser atrelada a uma carrocinha para levá-los a passear. Era forte porque se alimentava bem, adorava comer de tudo, folhas de abóbora, de pitanga, restos de comida, mas o que apreciava mesmo era o capim verdinho do pasto. O mais gostoso era o que nascia bem junto à terra e não se importava em roçar o focinho na areia para arrancá-lo. Depois ruminava, barriga cheia, satisfeita. O que lhe faltava era companhia. Quando havia crianças ficava tão contente que cabriolava pelo pasto.

Quando sentia sede ia ao riachinho que atravessava a propriedade levando a água do rio para a lagoa. O riacho era raso em boa parte do tempo, o volume de água só crescia quando chovia ou o rio transbordava. Quando estava raso podia se ver peixes nadando, esfregando a barriga branca na areia do fundo. Quis entabular conversa com as traíras grandes que nadavam rebolando e balançando a cauda. Não entenderam ou não ouviram o que disse. Não lhe deram bola.

De outra vez, chegara tão sedenta e distraída que não vira que um jacaré de papo amarelo, chamado ururau, se arrastava pela areia e a olhava fixamente. Tomara um baita susto, dera um salto enorme e se afastara berrando como uma doida. Morria de medo de jacarés, diziam que atacavam os bichos, mas aquele era pequeno, um filhote, e achou ridículo o seu medo. Era exímia saltadora, indo a alturas que outros bichos não alcançavam, não precisava ter medo Contou o caso ao casal de siriris e bravateou:

– Fiquei com pena do pobrezinho do jacaré, disse ela desdenhosa, que me olhava tão assustado.

– Assustado, o jacaré? estranhou um dos pássaros. Você é muito pretensiosa.

– Claro, replicou ela, arrogante. Ele sabe que se abrisse a bocarra pro meu lado eu partia pra cima dele aos pinotes e era capaz de transformar sua casca dura em purê de abóbora.

– Rá, rá, rá, riu uma garça, parada com a perna dobrada na beira do córrego, esperando os peixes pequenos passar para pegar com o longo bico. A cabra não lhe deu importância.

– É ruim, gritou a siriri. O jacaré é muito perigoso, capaz de engolir você de uma vez só.

– Quero ver, zombou Capuia, dou-lhe um catiripapo!

E saiu cabriolando, prosa. Depois do encontro com o ururau, para evitar conflitos, já que não gostava de violência, antes de chegar observava o lugar de longe, para ver se havia animais estranhos. Apareciam anus, cambaxirras, rolinhas ou bem-te-vis. Até um casal de sabiá da praia ia saciar sua sede. Casal simpático, cantava maravilhosamente bem. Corujas e gaviões pousavam, bebiam e voavam para longe, não eram de muita conversa.

Capuia ouviu barulhos pros lados da rua e viu, satisfeita, que o empregado chegava acompanhado por outras pessoas, com vassouras, baldes e material de limpeza, sinal que o dono estava para chegar. Todo verão era assim. Um grupo entrou na casa baixa e comprida que ficava na ponta esquerda do terreno, onde o dono passava as férias, abriu o portão da cerca e seguiu para a varanda dos fundos. Os outros foram para as casas de aluguel, balançando as chaves.

– Oba, pensou Capuia, vamos ter muitas crianças para brincar nesse verão.

Os dias se passaram e ninguém chegava. Capuia ia para a moita de boas-noites e ficava horas olhando a rua. A solidão não lhe agradava. De vez em quando se afastava para comer e logo voltava. Queria ver animais interessantes, conversar, fofocar.

 

                       

                                       Capuia se apaixonou pelo belo bode

 

 

Numa bela tarde, seu coração disparou. Viu um cabrito de pelo marrom com malhas brancas, barbicha e chifres recurvos que vinha pela rua, puxado por uma corda. Olhou sem piscar o belo animal que a encarava, sem poder balir de tão nervosa. Encontrara o cabrito de sua vida!

Num impulso quis pular a cerca de arame farpado, mas a corda que arrastava, presa a seu pescoço, se enroscou num mourão e ela caiu, pernas abertas, ofegante, numa pose ridícula. O bode acompanhara, aflito, o seu esforço, se sensibilizara e forcejara para ir na sua direção, mas o homem puxou a corda com força e o obrigou a voltar a caminhar a seu lado. Até desaparecer na esquina ele andou forçado, olhando constantemente para trás, soltando balidos sentidos. Também ele se apaixonara pela cabrita desastrada.

Capuia deslumbrou-se com o lindo cabrito que surgira em sua vida. Já tinha visto outros passarem em frente ao cercado, nenhum com a pose altiva, olhar desassombrado, corpo esbelto e pernas fortes do cabrito de seus sonhos. Ao mesmo tempo ficou triste, com a sensação de que ele fora levado para muito longe, para um lugar desconhecido e que nunca mais o veria. Duas lágrimas desceram de seus doces olhos. Suspirou, queria se encontrar com ele, se ver refletida nos doces olhos castanhos, roçar seu pelo no dele.

Acordou antes do sol se elevar no horizonte. Dormira bem, sonhara que saltitava com o belo cabrito por verdejantes pastos, pastavam e ruminavam juntinhos, olhos no olhos, cabeça com cabeça, entrelaçando os chifres. Pastou com vontade, distraída em observar o trabalho das pessoas que preparavam as casas para o verão.

Sentiu a garganta seca e foi ao regato. A garça se ocupava em pescar os barrigudinhos. Podia pegá-los enquanto conversava. Estranhou o silêncio da cabrita, sempre faladeira.

– O que houve, Capuia? Está taciturna, séria.

A cabrita soltou longo e sonoro suspiro que atraiu a atenção das siriris que namoravam num galho do pé de cambuí e da coruja buraqueira que espiava da sua toca no chão.

– Ai, não quero balir sobre isso, me deixa desesperada, resmungou a cabra.

– Como assim? indagou a siriri com ironia. Está com dor de barriga?

– Não enche, reagiu a cabrita, chateada com a brincadeira. Estou apaixonada e desiludida, nunca mais verei o bode da minha vida.

– Por que não? estranhou a corujinha.

– Porque ele foi arrastado, tadinho do meu amor, pela rua afora por um brutamontes e não faço a menor idéia pra onde foi levado. E não posso sair daqui para encontrá-lo, com essa corda no pescoço e a cerca me impedindo de chegar na rua.

– Você não pode, disse a garça depois de esperar que o barrigudinho pescado descesse por seu longo pescoço, mas seus amigos alados podem. As siriris, que não fazem nada além de namorar e de atacar as pessoas que se aproximam de seu ninho quando estão chocando ovinhos, podem muito bem dar uma volta por aí até achar o seu galã.

Capuia arregalou os olhos e sorriu.

– Não é que é mesmo uma boa idéia? Vocês fariam isso por mim, siriris?

– Claro, piaram elas, excitadas. Vamos começar agora mesmo.

Capuia voltou ao posto de observação junto à moita de flores arroxeadas e com o coração alegre se dispôs a esperar. Esperou o resto da tarde. Não viu as amigas chegar, tão tarde retornaram. Na manhã seguinte, ao conversar com elas, ouviu insistentes buzinas e viu um carro parado. Atrás do vidro da janela distinguiu as carinhas lindas de Pedrinho e Aninha, que chegavam com a família para passar o verão na praia. As aves perceberam que a amiga tinha de dar atenção aos recém-chegados, piaram que voltariam a buscar o bode e se perderam no azul do céu.

 As crianças acordaram cedo no dia seguinte e os pais as levaram para a praia. Antes de subir no carro Aninha correu até onde a cabra estava, alisou seu pelo e olhou-a cheia de ternura. Depois lhe jogou um beijo e foi ocupar a cadeirinha em que viajava. O sol brilhava intensamente.

Impaciente, Capuia cabriolou até o riacho. Lá estava a garça, como uma estátua branca, a vigiar os barrigudinhos. A coruja não estava presente. Nem as siriris. Que aflição!

Foi uma manhã frustrante, as crianças e as siriris com notícias do cabrito dos seus sonhos não apareceram. No meio da manhã viu caminhão chegar com a mudança de uma das casas. Nenhuma criança. Observou que, enquanto tiravam os móveis, os homens deixavam o portão do cercado semi-aberto. Como quem não quer nada ela foi para lá, ia sair andando pelas ruas até achar seu cabritinho. Estava quase no portão quando sentiu um puxão forte na corda e se viu amarrada num mourão da cerca, longe da saída.

As crianças voltaram horas depois. Desceram do carro no maior alarido e foram até ela. Pedrinho subiu no seu lombo e Aninha tornou a lhe alisar o pelo. Daí a pouco a mãe deles surgiu no portão da cerca de bambu da casa e gritou:

– Venham pra casa tomar banho e almoçar. Depois vocês brincam com a cabrita.

Brincaram a tarde toda. Viram chegar mais um caminhão de mudanças para a outra casa. Também não viram crianças e sim um cachorrão irritado que não parou de latir para a cabra. As crianças se abraçaram com ela. O cachorro, com a coleira presa a uma grossa corrente, foi levado para trás da casa e continuou a latir ameaçadoramente. Os músculos das costas de Capuia tremiam e as crianças a alisavam para que se acalmasse.

– Fica tranqüila, Capuia, com a gente por perto, esse cachorro não vai fazer nada contra você. Vou pedir a meu pai para você dormir no cercado do quintal.

No dia seguinte Capuia se encontrou com as siriris no riacho. A garça se apoiava na perna e a coruja apareceu no buraco onde vivia. Os sabiás da praia pousaram no galho do cambuí. A cabra olhou ansiosa para os amigos com asas.

– E aí, perguntou, viram meu cabritão?

– Custou, disse uma delas, mas encontramos. Demorou porque ele estava escondido no meio do mato. Ele me disse que não gosta de onde está, seu novo dono é muito bruto.

– Ah, meu Deus, ele continua lindão?

– Pra quem gosta, resmungou a outra. Como posso achar que ele é bonito se não tem asas nem penas coloridas?

– Não importa, disse a coruja. O importante é que vocês expliquem onde ele está.

– Isso, baliu a cabra, ansiosa. Me contem antes que as crianças acordem.

Devagar, com palavras simples, as siriris explicaram onde o belo bode se achava preso.

– É bem perto, disseram, só que ele fica atrás de um monte de lenha cortada.

– Obrigado, disse a cabra com olhos úmidos. Preciso descobrir como chegar lá. A última mudança chegou, o portão fica fechado e não consigo me livrar dessa corda que arrasto pra baixo e pra cima. Como vou fazer?

Todos ficaram em silêncio, pensando. A sabiá se comoveu com o dilema que a cabrita vivia: como se encontrar com o belo bode?

– Fácil, disse ela. É só usar as crianças.

E explicou seu plano com detalhes. Todos aprovaram e Capuia voltou, triunfante, para o pasto verdinho e comeu muito. Daí a pouco as crianças surgiram, correndo e gritando.

Capuia brincou com elas como se nada estivesse acontecendo. Num certo momento o pai das crianças veio ao cercado. Capuia esfregou a cabeça na mão de Aninha várias vezes e mordeu a corda que arrastava. Finalmente conseguiu pegá-la e encostá-la na mão da menina, que a olhou surpresa.

– Papai, disse Aninha, acho que Capuia quer que eu dê um passeio com ela. Posso?

– Vamos juntos, concordou ele. Criança e bicho soltos na rua representam perigo.

Mal atravessaram o portão e a cabra se virou para a direção onde o cabrito estaria, segundo contaram as siriris, que os seguiam, pousando nos arames e muros do caminho.

Foram pelo acostamento coberto de capim. Capuia não resistia e se abaixava para abocanhar um tufo do verde pitéu. As siriris gritavam:

– Vambora, Capuia, não vamos perder tempo.

Ela lambia os beiços e continuava até um pouco mais à frente, onde o capim estava verde e viçoso, quando se abaixava novamente e pegava outro bocado.

– Estamos perto, avisaram as siriris, ele está logo depois do pé de espirradeira rosa.

O coração da cabrita acelerou e ela se preparou para executar o resto do plano. Aninha seguia conversando com o irmão e o pai, quando a cabra passou a andar mais depressa, mais depressa e depois a correr, quase arrastando Aninha.

– Minha filha, gritou o pai, puxe a corda com força.

Mas a cabra embalara na corrida. As siriris gritaram:

– Dobra no portão depois da espirradeira.

Foi o que fez, esbarrando na lenha empilhada, que ocultava o amado. Berrou desesperada e ele respondeu com força. Todos entraram no quintal, um cachorro latiu e o dono e um menino surgiram na porta da casa.

– Ei, que é isso?

O pai de Aninha pediu desculpas pela invasão e explicou o que havia acontecido. Capuia se juntara ao bode e se esfregava nele com paixão. As crianças e o menino da casa olhavam sem entender. Pousadas na beira do telhado, as siriris piavam com força.

– Papai, disse Pedrinho, acho que Capuia está apaixonada por esse bode.

– É, disse Aninha, acho que Capuia quer casar.

Os adultos olhavam a cena sem entender o que acontecia e o que fazer. O pai de Aninha pegou a ponta da corda presa no pescoço de Capuia e puxou. Ela resistiu, berrou, o bode  também, as siriris se exaltaram. O dono da casa mandou o filho levar o bode pro fundo do quintal, ele pegou a corda mas não conseguiu puxar o animal, que cravou as patas no chão. Cena cômica: o menino e o pai das crianças, cada um puxando seu animal, que não queria se desgrudar do outro. Esfoladuras surgiram nos pescoços dos bichos.

– Papai, murmurou Aninha, eu acho que Capuia quer se casar. Por que você não compra o bode?

Todos a olharam, surpresos, e as siriris, alegres, piaram em coro.

– É, papai, disse o menino, o Pipoco também não quer largar dela.

– O nome dele é Pipoco? perguntou Pedrinho.

Acho lindo esse nome, pensou a cabra. É o meu pipoquinho querido. Cansados de puxar a corda, homem e menino pararam. O dono do animal olhava sem saber o que pensar ou fazer.

– O pai de Aninha falou a ele: só vejo um jeito de resolver a questão. Me venda o bode.

O homem coçou a nuca, olhou o filho, que concordou balançando a cabeça, e aceitou.

No caminho de volta, Capuia e Pipoco se olhavam com carinho e as crianças sorriam. Uma siriri pousou na cabeça de Pedrinho e outra na de Aninha, como se agradecessem.

As espirradeiras sacudiram as flores cor de rosa saudando o amor correspondido.

 

 

 

 

 

 

                                    FIM

 

 

 

 

           A FUGA DAS PIABAS

 

 

Pedrinho preparou com cuidado uma bolinha de miolo de pão e a prendeu no anzol. Sentado na beira do cais, na margem direita do delta do rio Paraíba do Sul, se divertia pescando piabas. Andorinhas davam vôos rasantes na superfície da água antes de entrar nos ninhos, em buracos escavados entre as pedras da parede do antigo cais. Ao lado do menino, um balde com água. O vento estava forte e eriçava as águas barrentas do rio que ondulavam em banzeiros. Pedro preparou e lançou seu anzol com isca o mais longe que seu braço permitiu.

Um cardume de piabas freqüentava as pedras daquele cantinho do cais protegido do vento pela parede de pedra. Os barcos de pesca que ali ancoravam depois da pescaria, jogavam na água restos de comida. O que peixe pode comer não polui rios e lagoas e as piabas se esbaldavam. Riscos eram pequenos, as garças pescavam do outro lado, na margem da ilha e peixes grandes preferiam nadar no meio do rio. Como andorinha não come piabas, só insetos, sentiam-se tranqüilas em seu refúgio. E nadavam alegremente perto das pedras.

Os meninos, sempre inquietos e em busca de emoções, eram o maior perigo. Petita, a mais velha das piabas do cardume, sempre alertava as outras:

– Cuidado com o que cai na água! Olhem bem, antes de meter a boca, porque pode ser um anzol disfarçado por uma bola de miolo de pão ou um pedaço de camarão.

Algumas não prestavam atenção no que ela dizia ou achavam que com elas nada de mau aconteceria pois se consideravam muito espertas e percebiam o engodo de longe. Graças a esse excesso de autoconfiança os pescadores faziam a festa e sempre iam para casa com uma porção de piabas para fritar.

Na manhã fria de primavera ninguém havia aparecido para jogar restos de comida e pedaços de pão na água. Duas traineiras, que são barcos apropriados para pesca em alto mar, estavam ancoradas no cais vazio, onde apenas um rolo de redes aguardava conserto. Paratis mais afoitos e filhotes de robalo sem experiência davam saltos para fora da água tentando ver se algum inseto aparecia para matar sua fome. Poucos eram os insetos que se aventuravam a pousar na superfície da água para se dessedentar. Uma libélula, que o povo conhece como papa-fumo, voou distraída alguns metros beirando a água e logo foi engolida por um bagre faminto que por ali passava. Os peixes, de qualquer espécie, estão sempre com fome.

Pedrinho jogou o anzol e não reparou que perto dele, escarrapachado num banco de pedra, um belo gato branco com malhas pretas e olhos esverdeados, fingia cochilar, mas estava atento a seus movimentos. Cada vez que Pedrinho retirava o anzol da água o gato abria os olhos pela metade e observava se o anzol vinha vazio, indicando que a bolinha de farinha caíra ou fora roída por um peixe muito sabido, como a velha Pepita. Ela sempre conseguia comer o que estava no anzol sem se machucar. Aprendera a bicar a bolinha por baixo, de leve, arrancando pedacinhos sem mexer muito com o anzol.

O pescador, quando sente que o peixe pinica a isca, dá forte puxão no anzol e muitas vezes a piaba é agarrada pelas guelras ou barbatanas. As esganadas eram as maiores vítimas, pois não tinham paciência para comer aos pouquinhos ou tinham medo que outro peixe maior viesse e pegasse a comida na sua frente.

Pitu, um camarão cascudo que vivia nas pedras submersas junto ao cais, ria ao ver uma desses comilonas ser içada pelo pescador.

– Bem feito, ele dizia, quem manda ser fominha!

Pepita sacudia a cabeça desaprovando tanto o camarão como o peixe apressado.

Pedrinho estava ficando cansado de segurar a varinha com o anzol quando sentiu um leve tremor e rápido puxou o anzol. Seus olhos brilharam e um sorriso aflorou em seus lábios ao ver, se sacudindo na ponta do anzol, uma linda piaba. Com a ajuda do pai e de um alicate soltou o peixe e se preparava para jogá-lo no balde quando o gato, num gesto de atrevimento, deu um salto e antes que o menino se desse conta,  nhaco, abocanhou o peixe e fugiu pela rua.

Pedrinho não queria chorar, queria parecer forte, mas a decepção foi tão grande que lágrimas inundaram seus olhinhos. Seu primeiro peixe fora traiçoeiramente roubado por um gato malandro. O pai tentou consolá-lo:

– O importante, filho, é que você já pescou um peixinho e de agora em diante vai ser mais fácil.

– Mas eu queria era aquele que o gato pegou! choramingou o menino.

– Aquele é impossível, virou almoço do gato. Vamos jogar o anzol de novo.

Emburrado, o menino observou o pai colocar a isca e lançar o anzol.

– Agora é segurar e aguardar. Logo, logo, vai pintar uma piabinha.

Na corda que amarrava uma das traineiras estava pousada uma das andorinhas que moravam nos buracos da parede do cais, esperando aparecer um mosquito ou uma mosquinha para caçar. Também estava surtando de fome. Nisso, uma das garças que voavam por ali, através da água viu o brilho do peixe que se encaminhava para o anzol de Pedro e pousou da corda, assustando a andorinha, que levantou vôo e foi pousar num galho de uma frondosa amendoeira, que fazia sombra um poucos adiante.

– Vamos ficar de olho naquela garça, alertou o pai, que ela está de olho na gente.

Não deu outra. Assim que a piaba beliscou a isca, o menino puxou com força o anzol com o peixe que antes de chegar às suas mãos descreveu uma ampla curva no ar e foi agarrado pelo bico da garça num vôo certeiro. Por pouco o anzol e a varinha não vão junto. Prevenido ao perceber a intenção da garça, o pai tinha segurado a vara e apenas o peixe foi levado por ela.

– Parece que está todo mundo com fome nessa beira de rio! estranhou ele.

Mais uma vez Pedro se invocou e largou a iba, que é como os ribeirinhos chamam a fina vara de pesca, e se encostou na amurada, de braços cruzados e cara amarrada. O pai pôs nova bolinha de farinha no anzol.

– Vamos lá, filho, e jogou a isca na água.

– Não quero mais pescar, resmungou ele.

– Ah, deixa de bobagem, vem. Acho que uma nova piaba está pinicando a isca.

Sem muita vontade Pedrinho pegou a iba e logo em seguida sentiu a forte beliscada do peixe na isca. Animado, puxou o anzol e outra linda piaba brilhou na manhã. Dessa vez não havia bichos famintos por perto e ela foi jogada no balde cheio de água. Nos momentos seguintes uma porção de piabas foram içadas da água e lançadas no balde, para alegria do garoto. Entre elas, a piabona Petita!

– Não sei como isso foi acontecer, contou ela mais tarde às amigas. Acho que além de estar distraída, observando um camarão esquisito no meio das pedras, a água estava turva e não vi o brilho do metal do anzol. Foi uma lição, nunca mais vou facilitar com esses pescadores.

Quando Petita se viu voando, puxada pelo anzol preso em sua boca, quase morreu de susto. E nem acreditou quando foi segurada e jogada no balde onde outras piabas se debatiam. Ela arregalou os olhinhos e concluiu que tinha de fazer alguma coisa para se livrar e ajudar as outras, que eram meio patetas e inexperientes.

Sua primeira providência foi dar um salto e olhar onde o balde estava pousado. Era no capim ralo, bem perto de um muro baixo, onde o menino e o pescador mais velho apoiavam os pés. Com mais outros saltos, cada vez mais altos, se assenhoreou da situação e traçou um plano de fuga. Os pescadores estavam concentrados no movimento do anzol.

Como era uma das mais velhas piabas daquele trecho de rio, sentiu-se cansada após os saltos e encostou-se um pouco na parede do balde para se recuperar. Chorosas, as piabas se amontoaram a seu redor. Mais piabas continuavam a cair na água do balde com estrondo. Todas tremiam de medo.

– Nós vamos promover uma fuga em massa, anunciou Petita para acalmá-las.

Nesse momento mais um peixe caiu no balde, dessa vez um filhote de robalo.

– Você também vem conosco, disse Petita.

– Mas como vamos fazer para escapar? perguntou uma piaba, desesperada.

             Sem o menino perceber, as piabas fugiram do balde.

 

– Desse lado aqui fica a amurada, bem baixinha. Basta a gente dar um pulo, torcendo o corpo para fora e vamos cair bem no murinho. Vai dar uma dorzinha, que logo vai passar. Do muro damos outro salto e vamos cair de novo no rio. E aí e só mexer as barbatanas com vontade e estaremos livres.

E assim elas fizeram, uma por uma. Os pescadores assistiram, assustados, as piabas, como lâminas prateadas que refletiam o brilho do sol, darem saltos precisos e logo nadarem para o meio do rio, bem longe do anzol.

Pedrinho chorou ao ver a fuga das piabas. Não desistiu, porém, e daí a pouco o balde estava cheio de novo. E como a velha Petita não estava entre elas para por em prática sua experiência, daí a pouco eles levaram o balde para casa e comeram as piabinhas fritinhas, que estavam uma delícia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                     NHÁ, A GARCINHA

 

 

A garça boiadeira estava se sentindo cansada de dar pulinhos, tentando pegar o carrapato que se agarrara ao interior da orelha do bezerro. Ela não gostava de caçar sua comida em bezerros muito novos, sempre inquietos e nada colaborativos. Impacientes, sacudiam a cabeça ou davam patadas, incomodados porque muitas vezes, para pegar o carrapato, ela beliscava sua orelha. Os garrotes e os bois sabiam que era aborrecimento necessário, uma espetadela, uma dorzinha que indicava que tinham ficado livres dos sugadores carrapatos, sempre sedentos de seu sangue. Os animais mais velhos se colocavam numa posição que facilitava a captura dos insetos. Mas os bezerros…

– Ah, essa bezerrada, suspirava ela, está cada vez pior.

Nhá não via a hora de se sentir saciada e voltar para o garceiro na beira do rio. Estava ficando velha e cansada e agora o que mais gostava de fazer à tarde era ficar de prosa com outras garças, cansadas como ela, pousadas nos galhos da árvore, cercadas por ninhos e filhotes piantes, sempre reclamando mais comida. Já passara por isso e guardava boas recordações desse tempo. Hoje, seus filhotes eram garças adultas, pais e mães bem sucedidos, com ninhos e ninhadas próprios.

Em outros tempos ficava zanzando pelo pasto até o sol baixar de todo no horizonte, junto com o animado bando de garças jovens, que catavam carrapatos e grilos até o papo não agüentar mais. Adorava voar no meio das outras, formando uma espécie de branco véu semovente no céu rosado do fim da tarde. Ainda curtia apreciar esse espetáculo, só que pousada no seu galho, os olhos quase fechando de sono.

Nhá gostava de observar a vida dos passarinhos a seu redor. Não que fosse fofoqueira, que quisesse meter o bedelho ou dar palpite na vida dos outros, gostava era de bater papo, saber das novidades, acompanhar o que acontecia em seu amplo mundo aero-aquático. Apreciava ver as andorinhas fazendo piruetas, as garças reais em seus vôos majestosos e até mesmo o vôo retilíneo das máquinas humanas que cruzavam seu céu de tempos em tempos. Era curiosa e amante de novidades.

Nhá fez mais algumas tentativas de pegar o carrapato na orelha do bezerro irrequieto e se cansou. Desistiu.

– Chega de perder tempo com esse bezerro enjoado.Vou ver se pego uns grilinhos, decidiu.

Grilos, caracóis, larvas, peixes barrigudinhos, besouros, pequenas pererecas e outros bichinhos miúdos estavam no seu cardápio alternativo, para o caso dos carrapatos ficarem escassos ou difíceis de serem apanhados.

Em duas ou três pernadas foi até próximo a uma poça dágua onde os grilos e pererecas costumavam fazer baderna. Ficavam tão entretidos em sua gritaria e saracoteios que não percebiam sua chegada. Num instante seu papo regurgitava de saltitantes petiscos, a se acalmar enquanto eram digeridos. 

Encontrou à sua espera o casal de furiosos quero-queros e as nervosinhas piaçocas que se consideravam donos do pedaço e implicavam com quem fosse caçar ali. Nhá pouco se lixava para os chiliques das aves.

– O campo é de todo mundo, pensava, os grilos e insetos não tem dono, são de quem chegar primeiro, ora bolas!

A comida era a principal fonte de brigas no pasto. Os animais grandes nem brigavam tanto, mas os pássaros brigavam sem parar, piavam alto, histéricos, bicavam uns aos outros, agitavam as asas nervosamente, ameaçadores.

Ela não tinha medo de nenhum, travara guerra de nervos com um gavião carrapateiro e saíra vencedora. Conseguira meter nas cabecinhas de um casal de siriri com ninho no pé de jamelão, que o gavião estava de olhos nos seus filhotes recém-nascidos e como existe uma rixa muito antiga de gaviões e siriris, as pequenas e valentes aves não hesitaram em partir pra cima do predador, com a velha tática de procurar atingir seus olhos maus com bicadas, até que o enxotaram para bem longe.

Outra briga, não só dela, mas de todo o bando de garcinhas que freqüentavam o pasto, foi com os anus, uns desgraciosos pássaros pretos, que passam metade do tempo se equilibrando nos finos galhos onde pousam por causa de seu rabo grande, facilmente desequilibrados por qualquer brisa um pouco mais forte. Os anus eram aliados contra os gaviões, mas eram concorrentes na caça de carrapatos, grilos e outros alimentos muito apreciados pelas garcinhas. Viviam refestelados em cima dos bois, com um apetite digno de aves muitas vezes maiores que eles. Não havia carrapato que chegasse, as garcinhas ficavam irritadas quando eles desciam em bando sobre os animais onde elas catavam seu alimento.

De repente o número de anus diminuiu drasticamente e Nhá não soube o que pensar. Conversando com seu companheiro, o único macho que tivera em sua vida e em quem confiava cegamente, ele lhe contou que próximo dali, numa lavoura, o dono havia plantado sementes banhadas em veneno contra pragas. Os anus, gulosos, ansiosos, e sem se preocupar com mais nada, se atiraram nas carreiras plantadas, ciscaram a terra até as sementes aflorarem e as comeram vorazmente. No dia seguinte, ao lado de cada carreira plantada havia uma carreira de anus mortos. Só escaparam os que procuraram alimentos longe dali.

Nhá bem que quis demonstrar tristeza, mas no fundo do coração exultou com a eliminação dos concorrentes.

– Por que ser hipócrita? perguntou às amigas. Quanto menos anus no mundo, melhor.

A partir daí poucos pássaros pretos vieram buscar comida no pasto. Nhá concentrou-se em bicar carões, saracuras e outras aves que atacavam insetos que chegassem perto. Pouco adiantava. Sem saber como fazer para espantar as aves bicudas, preferia evitá-las.

– Quem se mete com adversário maior ou mais forte quer apanhar, justificava.

Na beira da poça, o cardume de barrigudinhos, que sua bisavó dizia que eram chamados de gargaús pelos índios que ali viviam, sacudiam as caudas e barbatanas translúcidas ao nadar. De uma só vez Nhá engoliu dois peixinhos. Os quero-queros se exaltaram e gritaram e as piaçocas avançaram decididas. Indiferente, deu-lhe as costas e continuou a pescar com bico ágil.

– Vamos, dê o fora daqui, gritou a piaçoca macho, abrindo o bico e as asas para mostrar-lhe os esporões nas pontas, como se isso a assustasse. Esse lugar tem dono.

A fêmea vinha logo atrás , na mesma atitude belicosa. Um dos quero-queros voou pra perto, na certa para dar apoio moral ao casal miúdo. Também exibindo acintosamente seus esporões. O quero-quero piava alto.

– E quem é o dono daqui, pode me dizer?

– Nós, as piaçocas e os quero-queros. E não queremos intrusos se aproveitando do que é nosso. Dê o fora, já!

Nhá estalou o bico amarelo mostrando desdém.

– E quem foi que fez vocês donos daqui? Papai do céu?

– Claro, gritou a piaçoca, abrindo mais as asas.

– E vocês tem como provar isso?

A garcinha a olhava de cima para baixo, na maior demonstração de desprezo.

– É só perguntar a todo mundo há quanto tempo vivemos aqui.

– Perguntar a quem, piaçoquinha metida a sabida, aos sapos, às pererecas, aos deliciosos grilos? Como todos eles.

O quero-quero aproximou-se, de cara zangada:

– Comadre piaçoca, se precisar de mim é só dizer. Vamos botar essa garcinha besta pra voar. Está pensando o quê?

A gritaria chamou a atenção dos outros animais que estavam no pasto. Os bois e seus companheiros apenas sacudiram as cabeçorras, demonstrando irritação com o alarido da discussão, mas as outras garças boiadeiras se chegaram aos saltos.

– O que está acontecendo aqui? perguntou uma garcinha de peito largo, pernas fortes e olhar desassombrado, a primeira a chegar.

– São essas piaçocas imbecis, contou Nhá, que não querem deixar que eu cate grilos e besouros alegando que essa terra é delas.

– O quê? estranhou a garcinha forte, arregalando muito os olhos. Que novidade é essa? Desde quando?

Com a chegada das garcinhas dispostas a brigar, o quero-quero, cauteloso, virou-se e deu um pequeno vôo até onde a fêmea vigiava seu ninho. As piaçocas não souberam o que responder e olharam uma para a outra, desconcertadas. A garça forte assustava.

– Foi um mal entendido, disfarçou a femeazinha, encolhendo o corpo avermelhado sob as asas escuras. Vamos, meu bem, sugeriu ao macho, lá perto do pé de aroeira está cheiinho de alevinos. Deixe esses bobocas pra lá.

– É bom mesmo, blasonou a garça brigona, que era conhecida por sua fanfarronice, se continuarem a importunar quem está quieto vou lhes dar uma lição. Todos  temos o direito de pegar alimentos aqui. Não me irritem. Com meia dúzia de bicadas e algumas fortes asadas mando vocês pra cucuia. Entenderam? Pequeninas abusadas, sô! Fora daqui!

E num piscar de olhos as piaçocas alçaram vôo e seguiram para o local indicado. Nhá agradeceu às solidárias garcinhas.

– Tem nada o que agradecer, fiz isso por todas nós que queremos viver e comer em paz aqui. Nós não implicamos com elas, por que se metem conosco? Além de gananciosas são burras, não sabem escolher os inimigos.

E lá se foi, altaneira, se reunir com as companheiras. Pacientes, os bois esperavam que elas retomassem o serviço e os livrassem dos carrapatos.  Nhá viu o bezerro rebelde e foi na sua direção. Dessa vez vou pegar o carrapato de jeito, pensou. Quando chegou junto ao bezerro, porém, e olhou sua orelha, viu que o bichinho não estava mais lá, alguma garcinha mais persistente o caçara. Suspirou.

– Bom, fazer o quê? pensou ela. Estou mesmo de papo cheio, acho que não vou esperar a turma e vou seguir no rumo do garceiro. Já fiz bastante por hoje.

Entediada, Nhá abriu o bico várias vezes, passou os olhos pelas aves espalhadas no pasto em busca de seu parceiro. Não o viu. Depois de algum tempo se lembrou que ele havia voado com a outra parte do bando para perto do rio, que prometia bons carrapatos. – Estou ficando tão esquecida, lamentou-se ela. A vida é assim mesmo, já guardei coisas demais na minha cabecinha.

Bocejou de novo algumas vezes e levantou vôo. A tarde chegava ao fim.

 

 

                                                                                                                                                                          

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

UM AMOR DE PARDAL

 

 

Dois pardais amigos, Al e Júnior, se apaixonaram perdidamente por uma pardoca linda e cheia de charme. Tztli era o seu nome e vivia nos telhados de um antigo prédio. Geralmente são as pardocas que elegem seus parceiros, mas Tztli era muito jovem e não pensava em casar. Gostava de flertar, sair com outros pardais, sem esquecer os dois amigos que viviam encantados com sua alegria e energia. Isso deixava os dois cheios de esperança.

Buliçosa, provocante, e muito simpática, Tztli parecia estar em todos os lugares ao mesmo tempo ou em lugar nenhum. Tinha para todos os jovens pardais um olhar onde misturava ternura e malícia. Seu biquinho gracioso não parava de se mexer e quando não estava conversando com os amigos e conhecidos estava chilreando, eufórica, ou cantando sua alegria de viver. Fascinados, os dois amigos a seguiam de galho em galho, de beiral em beiral, tontos e felizes. Com seu jeito brejeiro e sensual ela os estimulava. Era como se dissesse: vou escolher um de vocês dois para ser meu companheiro, mas por enquanto… E pousava no fio de energia elétrica depois de lhes lançar um olhar sedutor. Eles a acompanhavam.

Al era atirado, ousado, metido a sedutor; já Junior era discreto, observador, equilibrado. Os dois se completavam. Eram amigos desde sempre, os ninhos de seus pais eram vizinhos no mesmo beiral. Sempre voaram juntos, ciscaram nas mesmas ruas, sempre paqueram pardocas amigas… até conhecerem Tztli.

Tztli era mais nova que os dois e custou a se enturmar com os jovens pardais da rua, seus pais eram severos e demoraram a permitir que deixasse o ninho. Dentre os pardais que a cercaram quando surgiu, cheios de entusiasmo por sua figurinha arrebatadora, de olhos brilhantes e bico pipilante, ela dedicou mais atenção aos dois amigos e isso quase provocou o fim da amizade. Não fosse o gênio calmo e o caráter de Júnior e teriam se engalfinhado na conquista da belezinha voadora.

E assim os dias se passavam alegremente, com ela arrastando os dois para voadas e brincadeiras. No dia em que se atrasou, Júnior surpreendeu o amigo e a amada num galho florido de buganvília, conversando baixinho e trocando bicadinhas. Aproximou-se sem fazer ruído, pousou num galho próximo  e o que ouviu o deixou enciumado. Falavam da construção de um ninho e Tztli reclamava de uma cambaxirra que cismara de fazer seu ninho no cantinho de um beiral que ela reservara para quando fosse construir o seu.

As pardocas escolhiam o local, construiam o ninho e elegiam o parceiro para gerar filhotes. Para Júnior aquela conversa significava que Tztli já decidira se casar e como trocava ideias sobre o ninho com Al, já o escolhera. O coração de Júnior se apertou tanto que o deixou tonto. Achou que podia morrer de tristeza e ciúme. Em nenhum momento pensou em brigar pelo amor dela. Além de respeitar os sentimentos da pardoca amada, pensava no amigo querido, com quem não gostaria de romper, embora estivesse muito magoado com ele, que lhe ocultara o quanto seu amor por Tztli estava adiantado. Fora surpreendido com a conversa e isso o melindrou. Triste, sentindo-se traído, resolveu voar para longe a fim de esquecer.

Voou sem parar até se cansar e sentir sede. Pousou numa faixa de areia na margem do rio. Depois de saciar a sede viu que tinha fome e compreendeu que desgosto de amor não interrompe as funções vitais do corpo. Olhou em volta e viu sementes num tufo de capim. Regalou-se. O sol brilhava e sentiu necessidade de um banho. Fechou os olhos, rolou na areia, abriu as penas para que os grãos atingissem todo seu corpo e sentiu grande alívio. Nada como um banho de areia para acalmar. Refeito, decidiu voar mais um pouco, sabia que cansar o corpo diminuía seu sofrimento.

De volta aos ares, curtindo o azul do céu e os verdes da natureza, sentiu-se muito melhor. Não queria imaginar o que seu amigo e sua amada estariam fazendo naquele instante. Se fechava os olhos via o casal a cada momento mais carinhoso, ela alisando as penas de Al, escolhendo as mais macias de seu peito pra forrar o ninho que, por certo, já havia começado. Mais uma vez se coração se apertou de tristeza.

Quando o sol se pôs a descer atrás das ilhas, percebeu que era hora de voltar. Seus pais deviam estar preocupados, enquanto não tivessem nova ninhada para cuidar estariam pensando nele.  Sabia que ia causar preocupações não só aos pais, mas aos amigos, à comunidade de pardais onde vivia e até… bom, não era hora de pensar nisso, estava precisando de um tempo para pensar, analisar os últimos aconteimentos e tomar decisões acertadas.

Dormiu tranquilo num galho alto de um pé de limão galego onde acreditava ficar livre de predadores. Sonhou com sua bela pardoca, mas a cada vez a imagem do amigo Al se metia na história e ele se sentia muito infeliz, pois no sonho amigo o hostilizava, chegando ao ponto de expulsá-lo do fio onde pousavam ao lado da belezura. De manhã tinha os olhos inchados de chorar. Achava que não merecia tamanha traição.

Com fome, procurlou sementinhas ou frutinhas em curtos voos exploratórios. Numa desses quase esbarrou numa andorinha que perseguia um suculento mosquito. Num giro de corpo pousou no meio do capim. A andorinha veio pousar a seu lado, ainda engolindo o mosquito.

– Você não é o tal pardal que desapareceu? Não é o que chamam de Júnior?

Ele tomou um susto e não soube negar. A andorinha o encarou:

– Tá todo mundo pensando que você caiu num alçapão para papa-capins ou que foi devorado por um gavião. Por que fez isso, sumir assim, deixando todo mundo nervoso?

Júnior não soube o que responder, não queria dizer a razão real do seu sumiço. Baixou a cabeça, já arrependido. Saber que provocara tanta comoção no bando era sinal de que era muito querido. Sentiu lágrimas nos olhos, mas nada falou. A andorinha sacudiu as asas, desanimada.

– Bom, você deve ter razões fortes pra fazer  tal loucura e se não quer falar respeito sua decisão. Vou indo, tenho muito o que caçar, o dia mal começou.

E levantou voo. Durante algum tempo ele a acompanhou com os olhos, pensando que bem poderia ter desabafado, aberto seu coração, quem sabe ela lhe daria um bom conselho? Algum tempo depois, preocupado com a possibilidade de uma cobra ou um gavião o atacar, voou para um pé de cambuí, repleto de frutinhas. Decidiu retornar ao seu bando e para isso teria de atravessar o rio, largo e fundo. Sentia-se fraco e comeu as frutinhas que pode, até se sentir empanzinado.

Uma canoa, com as velas desfraldadas vogava próxima à margem. O canoeiro olhava a corrente de água, distraído. Júnior decidiu pegar uma carona e voou até  ao mastro principal. Estava de barriga cheia, e o suave marulho das águas o induziu ao sono. Uma brisa não muito forte impeliu a canoa pelo canal e Júnior só acordou com um estacão da corda de ancoragem. Confuso, viu-se diante de uma povoação que não era a de onde viera. Onde viera parar? Num dos paus do cais uma ave grande, cinza e branca, sacudia as asas. Vou perguntar a ela, decidiu.

– Ué, não sabe? Aqui é Gargaú. Se veio em busca de peixe ou camarão, desista, só as gaivotas e urubus daqui podem pescá-los. E acho bom ir dando o fora antes que algum urubu o ataque. Eles são cruéia com os forasteiros.

Junior tremia de medo. Explicou à gaivota o que lhe acontecera, sem dizer porque fugira de casa..

– E você quer voltar pro seu bando? Tudo bem, eu lhe digo como. Aqui também temos pardais, uns intrometidos, mas ficam mais para o centro da cidade. Se quiser, eu o levo até eles…

– Não, quero ir para casa, se apressou em afirmar.

– Então me siga, acho que tem uma lancha que leva passageiros para sua cidade perto de zarpar onde você pode pegar uma carona. Você é tão pequenininho, tão insignificante, que nem vão notar sua presença. Basta não se mexer muito.

Júnior não se incomodou com o desprezo na voz dela, a seguiu e voou para a embarcação cujo motor roncava, pronto para partir. A gaivota, porém, se equivocara. Júnior havia se acomodado no fundo do convés e só depois de ver os homens entretidos com os trabalhos de navegação ousou voar para a borda do barco para curtir a paisagem durante a viagem. Tomou um baita susto, estavam atravessando a barra do rio em direção ao alto mar. Aquela não era uma lancha de passageiros, mas uma traineira que seguia para mar alto para cumprir mais uma jornada de pesca. Seu coração voltou a se apertar, estava se afastando cada vez mais de seu lar, de sua família e de seus amigos. A terra ficava mais longe a cada avanço do barco. Júnior chorou.

Foi um tempo de muita tensão. Dias, horas? Não sabia dizer. O mar agitado jogava o barco de um lado para outro, para cima e para baixo, como se fosse um brinquedo. Ele estava tonto, mareado. De onde estava só via as ondas estourando na borda e molhando o chão. Nuvens dançavam no céu. Gaivotas e fragatas cortavam o ar em busca de alimentos. Os homens falavam, cantavam, gritavam, riam. Ao anoitecer, sem que o barco se detivesse, prepararam a refeição. O medo tirava a fome de Júnior, que nem se preocupou em pegar as migalhas que caiam das bocas dos pescadores e rolavam no chão. Ele tremia de frio e medo e passou quase toda a noite em claro. Estava cheio de sono, mas não coneguia dormir. Nem pensar na traição da namorada e do amigo e no desespero de sua família conseguia. O pânico o dominava.

O grito das gaivotas e o sol em seus olhos o acordaram do cochilo que o venceu na madrugada. O barco balançava suavemente. Júnior sacudiu e abriu as asas molhadas. Os homens ressonavam, apenas um vigiava o mar. Com cuidado o pardal voltou a pular para a borda. O mar se estendia até o horizonte num verde sem fim. De vez em quando um peixe saltava fora dágua.  Nenhuma terra à vista. Júnior voltou para o fundo do barco e se dedicou a catar e comer as migalhas meio encharcadas de água salgada.

O dia inteiro passou-se assim. Os homens se revezavam na vigia. Júnior encontrou um trapo e se enroscou nele para vencer o frio. Mais tempo se passou até que a agitação voltou ao barco. Debruçados na amurada os homens puxaram redes que vieram cheias de peixe. Alguns peixes escaparam das redes e se espalharam pelo convés e Júnior teve de saltar de um lado para outro para não ser atingido por um deles. Um pescador levou a mão até onde ele estava e puxou o trapo com força. Junior, surpreendido pelo movimento, foi junto. Não fosse a movimentação frenética dos peixes e teria sido descoberto.

O cheiro do pescado era forte e o tonteava. Voou de volta para o mastro onde o cheiro era mais fraco. Desolado só via mar para onde quer que olhasse. No barco o movimento era contínuo, o motor voltou a roncar, deslocou a proa para o lado e iniciou uma curva. O coração do pássaro se alegrou, Será que estamos voltanto para casa? se perguntoiu.

Durante horas navegaram no verde mar. As gaivotas apareciam com mais frequência e as ondas ficaram mais fortes. Júnior se equilibrava no mastro, perto de uma bandeira. Os homens se sentaram no chão para almoçar e desta vez, assim que teve oportunidade, avançou sobre as migalhas. No meio da tarde avistaram os cocares de algumas palmeiras e Júnior só não saiu voando ao encontro delas porque se sentia fraco. Uma onda de esperança o envolveu e seguiu com atenção os sinais que a terra próxima lhe enviava. Do alto do mastro viu casas surgirem aos poucos e incapaz de segurar sua ansiedade, quando se viu mais perto da terra voou em sua direção.

Ainda não era sua cidade, constatou, decepcionado. As poucas casas ficavam numa ilhota, mas pelo menos era um lugar onde podia descansar e se alimentar melhor. Em volta das casas havia muitos bichos e isso o tranquilizou. Desceu para o terreiro e travou conhecimento com as galinhas. Eram simpáticas mas não sabiam dizer em que direção ficava sua cidade e ficaram muito surpresas ao saber que existiam outras casas habitadas no mundo. Para elas o mundo se restringia às casinhas onde moravam seus donos. O cachorro, um tanto velho, já tinha ido até à beira do rio, nada mais. Sugeriram que consultasse um bentevi que aparecia por ali de vez em quando. Quando não sabiam, nem estavam interessadas em saber.

Júnior não podia esperar. Alguns dias já haviam se passaado desde que fugira de casa e só Deus sabe o que podia estar acontecendo por lá. Pôs-se a explorar a ilha, mas a noite chegou rápido e teve de procurar um lugar para dormir. Instalou-se no beiral da casa onde uma detestável cambaxirra já se havia acomodado e travou forte discussão com ela para poder dormir em local protegido do vento e do sereno. Dormiu bem e acordou muito cedo. Viu a dona da casa abrir a porta, fazer uns ruídos estranhos com a boca e logo os animais estavam à sua volta. Ela jogou punhados de milho e as galinhas e frangos se atiraram esganadamente. Depois que ela entrou, Júnior voou para o terreiro e participou da refeição matinal comendo os grãos quebrados.

Estava nessa agradável tarefa quando ouviu, vindo de muito longe, o grito do bentevi. Seu coração deu pulos de alegria e alvoroçado voou na direção de onde viera o som. Em vão procurou pela ave. Voltou descorçoado para o terreiro e ouviu a risada casquinha da cambaxirra.

– Pardal burro, ela chiou, quem gritou foi uma pocaçu. É um grito diferente, mas sua vontade de encontrar o bentevi é tanta que misturou os sons e pensou que era ele.

Mais dois dias se passaram. De uma árvore na beira do rio podia ver a cidade ao longe, mas tinha medo de se enganar e ir parar em outra povoação. Decidira que arriscaria nova travessia quando tivesse certeza do caminho a tomar. E isso aconteceu numa radiosa manhã, quando um risco amarelo cortou o espaço e desceu no terreiro gritando o tão esperado bem te vi. Júnior não perdeu tempo e desesperado pediu à ave que o ajudasse a voltar pra casa. O bentevi o olhou, sombranceiro, hesitou e ia se afastar quando o pardal se jogou na sua frente e implorou.

– Tá bem, concedeu o bentevi, mas hoje não, que estou muito cansado dessa voada.

Feliz, Júnior decidiu que não arredaria pé dele até conseguir o que queria. A ave dourada ficou por ali mais um dia e o pardal teve de conter sua impaciência para não perder a oportunidade.

– Vamos lá, coisinha feia, me siga em silêncio e não me atrapalhe. Minhas asas são mais potentes que as suas e não vou parar ou diminuir meu ritmo porque você vai reclamar que não aguenta, certo? Antes de mais nada é bom saber que antes de ir para a cidade vou parar em outras duas ilhas onde tenho sérias missões a cumprir, entendido?

A primeira das duas ilhas era praticamente uma coroa de areia no meio do rio, com uns tufos de capim colonião e pequenas moitas de aguapês arrancadas da margem do rio. Ali o bentevi parou, tomou um demorado banho de areia, no que foi seguido pelo pardal e seguiu adainte. Então essa é uma de suas importantes missões? se indagou o pardal. Mas não disse nada, temia perder a chance de encontrar o caminho para sua casa. Um outro bentevi passou sobre um tufo de aguapê que a corrente carregava para a foz. Esses matos flutuantes costumavam abrigar muitos insetos, prato predileto dos bentevis, que era capaz de arrebatá-los em pleno ar em voos certeiros.

A outra ilha era bem grande e ficava no meio do rio. Atravessá-la foi cansativo e fizeram uma parada num galho de árvore para recuperar as forças. Júnior arfava, o biquinho aberto para captar um pouco mais de ar, mas se o outro não tivesse parado ele o seguiria sem reclamar.Queria era chegar logo em casa, apesar de algumas vezes a imagem dos traidores se afagando ocupasse sua mente.

– Daqui é fácil você continuar sozinho, disse o bentevi. Tirando uma reta daqui vai dar na beira do rio. A cidade fica em frente. Só cuidado com a travessia, se alimente e descanse antes de iniciá-la. Vá, não posso continuar a ser seu guia, tenho coisas muito importantes para fazer. Vai logo.

Seguindo na direção indicada esbarrou com um pasto cheio de bois, um curral vazio e um cavalo amarrado numa árvore. Onde havia animais havia moscas, mosquitos e restos de ração. Fez uma suculemta refeição e voou para a beira do rio. A corrente estava cheia de banzeiros. Alguns botes passsavam, transportando pessoas e mercadorias. Dessa vez preferiu atravessar o rio voando a pegar carona em qualquer bote. Desceu na prainha da ilha em frente à cidade e quando se sentiu bastante descansado, alçou voo sobre as águas. Pouco tempo depois aportava na praça de sua cidade. Ao reconhecer sua terra natal e as vestustas palmeiras imperiais que a enfeitavam, soltou um fundo suspiro.

O céu de azul muito claro parecia uma redoma a proteger a cidade do vento. Andorinhas voavam sobre as águas em busca dos ninhos cavados na amurada do antigo cais, onde meninos pescavam com ibas de bambu. Poucos peixes saltavam para cima em busca de insetos. Todo o corpinho de Júnior fremia de alegria e impaciência. Tanta emoção e esforço afetavam o viajante e ao alcançar a praça ele resolveu dar uma pousada numa árvore para descansar, acalmar seu coração e organizar suas ideias. Como justificaria sua fuga impensada? Que desculpa daria?

Mal havia acabado de pousar quando um pombo seu conhecido veio pousar a seu lado, de olhos arregalados e bico entreaberto.

– O que você faz por aqui? perguntou com a voz alterada. Tá todo mundo no seu rastro, até no lixão foram lhe procurar, acharam que podia ter morrido, seu corpo recolhido pelo varredor de rua e jogado no meio dos trastes. O que lhe aconteceu?

Perturbado, sentindo-se envergonhado e com vontade de chorar, Júnior respondeu:

– Nada de mais. Apenas quis conhecer o mundo.

– Que maluco! Sua família já sabe que você voltou?

Júnior decidiu se apresentar aos pais. Em voos curtos, pois ainda não se achava recuperado, foi se aproximando de seu antigo ninho. Seu pavor era dar de cara com o casal de ex-amigos safados e não saber o que fazer. Dar-lhes umas boas bicadas? Uma esculhambação? Virar-lhes as costas?

E foi exatamente o que aconteceu. Ao pousar na cumeeira do sobrado onde vivera, quem estava lá, flanando? Ele mesmo, o Al. Apesar de sentir muita raiva dele, teve vontade de recuperar sua amizade. Mas não naquele momento, precisava de mais um tempo. Quis retroceder, mas não deu tempo. Os pardais são muito ágeis e no instante em que encostou as patinhas nas telhas, Al virou o rosto e gritou:

– Júnior, meu amigo! Que felicidade ver você! Por onde você voava?

O piado de Al fora tão alto que toda a comunidade pardáica o escutou. E como era muito curiosa, no momento seguinte o cercava, cheia de perguntas. Júnior, atordoado, respondeu como pode e sem mais delongas entrou no ninho dos pais, onde a mãe chocava nova ninhada. Com o bico molhado de amor e saudade ela eriçou as penas do pescoço do filho, sinal de que nada tinha a censurar. Ele choramingou, ela bicou seu rosto de leve, carinho maternal inesquecível. Depois de lhe fazer um resumo de sua aventura, sem dizer a razão de sua fuga, ele decidiu enfrentar seu povo. Desde que chegara não vira Tztli. Por onde ela andaria?

Al o esperava impaciente, pousado no fio. Outros pardais o ladeavam. Tztli não estava entre eles. A l balançou as asinhas, eufórico.

– Meu amigo, ele piou, emocionado. Há dias que o procuramos. Você voou sem dizer para onde ia, não deu mais notícias, ficamos loucos de apreensão! O que lhe aconteceu?

Junior o olhava escabriado, sem saber o que dizer. Al continuou a piar:

– Para descobrir seu paradeiro fomos a tudo quando é lugar. Até o mar eu conheci.

Foi a deixa para Júnior falar de seus passeio pelo mar e pelo rio. Só não disse por que fora parar tão longe de casa. Não queria mexer em feridas quase cicatrizadas. Al e os pardais escutaram atentos sua narrativa. Já entardecia quando terminou. Os pardais debandaram para suas casas. Foi a hora de Júnior perguntar com voz sumida:

– E Tztli, por onde anda?

– Deve estar no ninho, chocando.

Júnior se constrangeu ao perguntar:

– Seus filhos?

– Meus, não, dela e de Dom.

– Dom, e quem é esse tal de Dom?

– É um pardal que veio de longe, de outra cidade. Muito bom pássaro. Em pouco tempo se enturmou, começou a namorar Tztli e parece que estão bem.

Foi como se tirassem um peso das asinhas de Júnior. Ele ainda indagou?

– E você? Eu pensei que vocês estivesem apaixonados.

– Eu com Tztli? Nem pensar. No princípio fiquei entusiasmado, depois perdi o interesse, ela era muito leviana. Ela é quase nossa irmã. Eu estou namorando uma pardoca linda, que mora aqui bem perto. E você, arrumou alguém nessa viagem?

Júnior pipilava de alegria. Seu amigo não o traíra, a amizade poderia continuar. Havia entendido que a pardoca nunca os enganara em seu jeito descontraído e carinhoso. Eles é que haviam se enganaPiou:

– Não vi um pardal sequer nos lugares onde andei. Foi bom, fiquei livre e agora vou escolher alguém para amar.

F I M

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

INDICE

 

1.A aventura de Pombote                                         4

 

2.Contos para crianças de todas as idades                    35

 

3. Pedrinho, Aninha e a vaca Fulu                              36/39

4. Capuia quer casar                                                    40/43

5. A fuga das piabas                                                    44/46

6. Nhá, a garcinha                                                        47/49

7. Um amor de pardal

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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PASSEANDO PELA HELLAS V – AS ILHAS QUASE UMA RETROSPECTIVA

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