HISTÓRIAS DA BOA MORTE

24 \24\UTC junho \24\UTC 2013 at 12:59 Deixe um comentário

Normal
0

21

false
false
false

PT-BR
X-NONE
X-NONE

/* Style Definitions */
table.MsoNormalTable
{mso-style-name:”Tabela normal”;
mso-tstyle-rowband-size:0;
mso-tstyle-colband-size:0;
mso-style-noshow:yes;
mso-style-priority:99;
mso-style-parent:””;
mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt;
mso-para-margin-top:0cm;
mso-para-margin-right:0cm;
mso-para-margin-bottom:10.0pt;
mso-para-margin-left:0cm;
line-height:115%;
mso-pagination:widow-orphan;
font-size:11.0pt;
font-family:”Calibri”,”sans-serif”;
mso-ascii-font-family:Calibri;
mso-ascii-theme-font:minor-latin;
mso-hansi-font-family:Calibri;
mso-hansi-theme-font:minor-latin;
mso-fareast-language:EN-US;}

A quase bicentenária igreja de Nossa Senhora da Boa Morte está sendo reformada pela comunidade local, dizem, apesar de pertencer à mitra de Campos dos Goytacazes. A reforma começou com a pintura dos detalhes em azul e amarelo de sua bela torre, que ganhou iluminação fluorescente de um azul violáceo. Está muito bonita, mas os melhoramentos contrastam com o estado geral de decadência do prédio, com paredes descascadas e problemas no telhado. Na parte de trás da torre que recebeu a pintura nasce um robusto arbusto que pode provocar a derrubada do seu reboco. Parece que este tímido início foi só para receber os símbolos religiosos da Jornada Mundial da Juventude que por cá passaram.

A torre exibe no frontíspicio a data em relevo de 1818 que muitos pensam ser a data de fundação da igreja. Não é. Segundo o escritor João Oscar, em seu livro “Apontamentos para a história de São João da Barra” (Ed. do autor, Teresópolis, 1977) a data indica o traslado da imagem da santa, que ocupava um nicho na capela de Nossa Senhora do Rosário, na Matriz, desde que fora trazida da Bahia pelo marujo Antônio Alberto de Vasconcelos, em 1802, para o altar mor da nova igreja. Como a devoção à santa crescera muito, a irmandade ergueu em 1813 um templo de madeira na praça para abrigar a imagem. Há exatamente 100 anos. A construção do templo em pedra e cal, contou o historiador, foi obra do comendador Joaquim Thomaz de Faria, traficante de escravos, em 1847. A bela torre, uma das poucas no Brasil em formato de coroa, foi levantada em 1865. Na torre existe um relógio inglês, de pêndulo, que marcava as horas com o sino. Na reforma feita em 1976, depois que a parede traseira ruiu, espalhando caveiras na calçada e criando lendas de assombrações, foi construída uma laje inteiriça que tapou o buraco por onde desciam os pêndulos. O relógio nunca mais marcou as horas e está largado no alto da torre.

As caveiras que se desprenderam das paredes, por ordem do então pároco, foram colocadas numa caixa de cimento construída perto do altar mor, como contou Hélio Abreu, presidente da Irmandade na época. O pároco era o espanhol João Bermudes Perez que, com o apoio da comunidade, recuperou os documentos da irmandade, que estava inativa, e decidiu reformar o prédio que havia se transformado em granja de corujas e lavoura de maracujá, cujos frutos pendiam das tábuas colocadas para segurar o teto, presas a troncos de eucaliptos. Assim como as caveiras as imagens dos santos são muito antigas, de madeira, do tempo em que se enterravam defuntos nas igrejas, antes da secularização dos cemitérios. Conta ainda Hélio Abreu que as imagens, após ruir a parede traseira, foram relegadas a um canto da parte baixa da torre, jogadas umas sobre as outras, empoeiradas e algumas atacadas por cupins. Hélio e Laís Azevedo, também da irmandade, as recuperaram com o auxílio do carpinteiro Custódio Lopes, de Atafona. Custódio já recuperara o rendilhado de madeira do altar de Nossa Senhora do Rosário, na Matriz.

Na época a igreja ficava num dos lados de um imenso terreno baldio, quadrado, que tornou-se realmente uma praça ao ser urbanizado no primeiro governo do prefeito Genecy Mendonça (Dodozinho), segundo informou o ex-presidente da Irmandade na época, José Cintra. Algum tempo depois, na década de 1980, a igreja passou para o domínio da Cúria, em Campos, a segunda igreja sanjoanense nessa condição. A outra é a capela memorial dos Sá, em Pipeiras, doada à Cúria por sua construtora, Isabel de Sá Cardoso.

A igreja da Boa Morte sempre foi a substituta nos impedimentos da matriz, uma espécie de vice.  E entre os santos ali cultuados, confeccionados em madeira, estão São Joaquim e outros. Apesar do valor como antiguidades, não existe nenhum esquema de proteção contra roubos. Ninguém se lembra que a igreja matriz já foi saqueada e que a pesada imagem de São Pedro foi levada de seu altar numa noite chuvosa e nunca encontrada. Antigamente, na nave da Boa Morte eram realizados velórios, proibidos desde que o Santíssimo foi instalado na igreja.

Além da comoção causada pela queda da parede que revelou as caveiras, outra história alimenta o folclore da igreja. Segundo o escritor e memorialista Célio Aquino, há muitos anos um cidadão sanjoanense recebeu numa sessão espírita a notícia de que o mundo ia acabar em determinado dia e hora e que o povo deveria se reunir no terreno em frente à igreja. Não sei se era para serem salvos ou se para terem uma visão privilegiada do apocalipse. O fato é que as pessoas acreditaram, foram para lá e nervosas ficaram esperando. Algumas rezavam, outras choravam, outras contavam piadas para vencer o nervosismo. Crianças pequenas, talvez contaminadas pelo clima de horror, se agarravam às mães, choramingando. As mais velhas corriam entre os expectantes, alheias. Cenário de horror, de caos.

O tempo passou, a hora marcada não trouxe a novidade anunciada, o povo se revoltou e decidiu dar uma lição no anunciador, que aguardava o fim do mundo no alto da torre. Foi um tremendo corre-corre, mas por sorte o homem percebeu o movimento, foi mais rápido e se escafedeu.

SJB, 21.05.2013

 

Anúncios

Entry filed under: Crônicas.

NO HOTEL – conto* MANIFESTANDO-SE

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Últimos Posts


%d blogueiros gostam disto: