NO HOTEL – conto*

15 \15\UTC junho \15\UTC 2013 at 10:25 Deixe um comentário

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Subiu a escadaria, atravessou o saguão, apanhou a chave na portaria, tomou o elevador e saltou em seu andar, mecanicamente, sem despregar os olhos do artigo “Os excessos de exageros sobre a política ambiental – uma nova visão do problema”, do seu mais renhido opositor. Ficou parado em frente à porta do seu quarto por mais quinze minutos, chave na mão, acabando de ler os últimos parágrafos.

Não restava dúvida que o autor desenvolvia com excelência a sua tese, mas as conclusões, inteiramente distorcidas, pecavam já na sua formulação. Seria facílimo, pensou com satisfação, com meia dúzia de frases bem concatenadas, desmontar o castelo mal alinhavado. E era o que ia fazer antes de almoçar. Sabia exatamente o que dizer para lançar o inimigo no ridículo.

Rosto iluminado pela decisão, um laivo de impiedade a repuxar-lhe os lábios, enfiou a chave e abriu a porta do quarto. Ao invés do famigerado carpete cor de fumo se encontrou diante de uma cena comovedora: um lago tranquilo, cercado de relva e arbustos admiravelmente distribuídos. Os pequenos saltos dos peixes procurando alimento lhe provavam que a superfície brilhante era água e não um imenso espelho.

Sorriu encantado. Nunca poderia imaginar que a direção do hotel teria sensibilidade para homenageá-lo daquela maneira. Ah, se sua mulher estivesse ali! Era a prova cabal de que seus esforços haviam ido reconhecidos. Era um ambientalista de valor.

Precisava cumprimentar o autor de tal ideia. Estava desvanecido. Enviaria um cartão com fartos elogios e agradecimentos não só ao decorador como ao gerente do hotel. Que beleza! Mil tons de verde invadiam suas retinas. Tinha de cumprimentá-los também pela rapidez na execução do cenário. Na certa o gerente do hotel soubera que era um eminente ecologista e que participava, ou melhor, que pontificava num congresso de sua especialidade e, ouvindo os ecos de seu sucesso, sensível, resolvera homenageá-lo transformando seu quarto no recanto paradisíaco por que sempre batalhara.

Atravessou o umbral e pisou em grama úmida e macia. Um cheiro gostoso de mato invadiu-lhe as narinas. Que delicioso! Fechou a porta, abriu os braços e aspirou profundamente o ar puro e vivificante. Ah, oxigênio in natura, que beleza! Sentiu ganas de arrancar toda a roupa e deitar-se nu na grama, as mãos roçando as pequeninas flores que despontavam aqui e ali. Borboletas amarelas e azuis revoluteavam à beira dágua; o céu estava azul como se fosse uma cúpula, isolando aquele pedaço de paraíso do mundo poluído. Seus olhos devoravam cada detalhe do ambiente e se admirou da perícia e do carinho do executor.

Ficou um bom tempo imaginando a terra inteira transformada, por um passe de mágica, num lugar assim digno de viver. Até que os papeis pesaram em sua mão e se lembrou do artigo que devia ser escrito para que o globo terrestre não ficasse pior do que estava. Naquele lugar teria centuplicada a força de seus argumentos e perguntou-se se não fora essa a intenção do imaginativo autor da decoração. Ali, o que pretendia ser um pequeno rebate se transformaria num libelo.

Agora, ao trabalho! À dura luta de convencer homens corroídos pela ambição desenfreada que o mundo em que viviam merecia ser salvo!

O que havia sido feito da mesa e de suas coisas? Com certeza teriam sido estrategicamente  colocadas em algum belo recanto oculto pela folhagem. Mas como encontrá-lo?  À sua frente pedras limosas atravessavam o lago num gracioso caminho e na certa era por ali que o descobriria. Com o coração exultante, os lábios abertos num sorriso, pisou na primeira pedra. Não estivesse com o outro pé plantado na terra firme e teria caído de borco na água clara, pois as pedras estavam escorregadias. Até que não seria ruim dar um mergulho e se imaginou envolvido pela água límpida, onde não boiava nenhum saco plástico, lata vazia ou cocô. Ficar completamente imerso, observando o voo leve das borboletas azuis e amarelas. Bom de pensar, impossível de fazer. A hora era de trabalho em benefício daquela mesma natureza. O mergulho ficaria para outra hora, quando o dever de colaborar para a salvação do mundo estivesse cumprido. No momento precisava localizar a máquina de escrever, não gostava de usar computador. Onde a enfiaram?

Cautelosamente iniciou a travessia. Ao longe cantavam pássaros e a brisa repuxava levemente a superfície do lago. Prefeito! Maravilhoso! Quase gritou de emoção. Nada havia a ser criticado. O autor pensara em cada pedacinho da paisagem, compusera uma sinfonia silvestre. À medida que caminhava, a vegetação se adensava e árvores de médio porte se misturavam aos arbustos, como na natureza. Uma garça voou serenamente de uma margem à outra. Havia um silêncio cheio de pequenos e agradáveis ruídos de animais. O ambientalista saltitava de pedra em pedra, olhos arregalados de prazer, deslumbrado, um pouco esquecido de seu objetivo. Aqui, avançava um pontão de terra branqueado por garças em repouso; ali, uma árvore chorosa molhava as pontas de seus galhos; acolá, um bando de flamingos passeava majestosamente. Certa hora julgou divisar o focinho de uma capivara entre a folhagem, noutro instante se extasiou com o passar álacre de um grupo de periquitos verdes.

Às vezes se distraía tanto que escorregava no limo das pedras e quase mergulhava. Ria, deliciado. Eu seria capaz de beijar quem bolou isso – pensou. Aves aquáticas ciscavam na areia, um macaquinho avermelhado, quem sabe um sagui, pendurou-se num cipó. O professor parou para observá-lo. Gostaria de possuir maiores conhecimentos de zoologia para classificá-lo. Bobagem – se disse – você deve é usufruir desse raro momento. Girou a cabeça em busca de outros animais e viu o caminho percorrido. Puxa, como havia andado! Nem divisava mais a porta do quarto! E, coisa estranha, não encontrara a escrivaninha nem via o fim do caminho das pedras.

Será que na ânsia de lhe agradar haviam camuflado tão bem os móveis e seu material de trabalho que ficara impossível encontrá-los facilmente? Ou usaram o artifício de colocá-los bem distante para que pudesse percorrer toda a extensão do cenário que haviam criado para lhe agradar? Provavelmente imaginaram que passado o primeiro momento de êxtase, ele mergulharia no trabalho e quiseram lhe proporcionar o prazer total. Deve ser isso, imaginou.

Sua atenção foi desviada do problema pelo barulho de um chapinhar diferente. Voltou-se e viu horrorizado um jacaré que saíra da praia e navegava em sua direção. Estava ficando perfeito demais para o seu gosto. Apressou o passo, escorregou algumas vezes, continuou impávido, movido pelo medo de ser alcançado pelo bicho. A não ser que fizesse parte da brincadeira, calculou, e que houvesse alguém ali a postos para salvá-lo, se fosse o caso. E se o socorro falhasse? Por cima do ombro podia ver a cara medonha deslizando alguns metros atrás.

E se procurasse alcançar uma das margens? Era bem possível que houvesse um caminho mais acessível à espera de sua inteligência em descobri-lo? Quem sabe o joguinho era esse? Sem parar ficou observando as margens, que ora se apresentavam relvadas, ora arenosas, procurando um lugar para aportar num salto, um ponto ideal, longe do lamaçal cercado de tabuas.

As margens pareciam se afastar, será que poderia atravessar o lago a pé? Raso não devia ser, já que o jacaré nadava só com parte da cabeça de fora dágua. Como haviam conseguido criar um lago assim em seu quarto? Precisava alcançar a margem. Se fosse nadando o jacaré, bem mais rápido que ele na água, o alcançaria antes que se pusesse a salvo. Como se em resposta às suas indagações, dentre a ramaria surgiu um barulhento bando de macacos. Pareciam enraivecidos, gritavam muito e passaram a lhe atirar cocos ou pequenas pelotas. Pelo barulho que elas faziam ao mergulhar na água podia calcular como era fundo o lago.

Perseguido pelo jacaré e pelo bando de macacos furiosos, estugou o passo. Saltava de duas em duas pedras de um caminho sem fim e num escorregão mais forte se encontrou de quatro, as mãos cortadas pelas arestas das pedras e um dos sapatos fora do pé, arrancado pela queda e afundado. Levantou-se com esforço, arquejando. Todo seu corpo, acostumado a uma vida sedentária, tremia de cansaço e tensão. Queria pensar, mas só conseguia imaginar que o jacaré deveria estar bem próximo. Suado, mãos ardendo, recomeçou a caminhada, agora mais difícil e dolorosa a cada vez que o pé, mal protegido pela meia batia numa das pedras. As mãos sangravam.

Desesperado, via a cada pulo a mata se tornar mais espessa e cheia de ruídos assustadores. Misturadas aos cipós, algumas cobras balançavam-se tranquilamente. Seu coração era uma bolinha apertada por mãos de angústia e de pavor.  Aquilo ali, via então, não fora homenagem coisa nenhuma. Devia ser um infernal plano de algum louco, inimigo seu, quem sabe alguns dos poluidores do mundo, inconscientes e ambiciosos  desmatadores e caçadores, haviam se reunido e planejado aquele pesadelo mortal com o único fim de provar-lhe a tese do professor ganancioso que afirmava ser a natureza a mais feroz inimiga do ser humano e fazê-lo desistir de seu propósito de combater os vilões da natureza? E ele, ingênuo, com sua inabalável fé na bondade intrínseca do homem, caíra como um patinho, atraído pela beleza e bucolismo da cilada. Que mente infernal a armara?

Culpa também de sua descomunal vaidade, diria sua mulher, víbora nojenta. E quem sabe ela também não tomara parte no complô para desacreditá-lo? Não era ela que vivia repetindo que gostaria que algo lhe acontecesse. Algo suficientemente forte para devolvê-lo à sua condição humana? Bruaca invejosa.  Na verdade, tinha de reconhecer, se imaginava um campeão imbatível na luta pela preservação do planeta, pela defesa de melhor qualidade de vida para o mundo, e que todos os infelizes poluídos deviam se sentir gratos a seu trabalho, a ponto de prestar-lhe uma homenagem maravilhosa como aquela. Louco e presunçoso é o que era. Tudo não passava de um plano diabólico para destruí-lo e às suas teses vitoriosas.

Escurecia. Não podia afirmar se era porque o dia avançava ou se porque as copas das árvores, que se curvavam sobre sua cabeça, faziam que escurecesse mais depressa. Sentiu algo caminhando pelo seu pescoço. Acertou-lhe um tapa e uma aranha cabeluda caiu na água. Arrepiou-se e não pode conter um grito de pavor. Passou desesperadamente as mãos por todo o corpo.

Devo voltar e procurar a gerência, decidiu. Daqui pra frente a situação só vai piorar e preciso do meu material de trabalho. Parou ofegante, o coração doendo de tanto bater. Voltou-se para estudar a melhor maneira de fazer o caminho de volta. Não podia parar agora e não podia voltar. Na fraca claridade do fim de tarde pode ver o incansável jacaré se aproximando. Da mata vinham urros, miados, gritos, esturros. Pássaros voavam baixo e roçavam as asas em seu rosto suado. Sentiu o medo virar pavor.

Não dava para voltar agora, pensou desconsolado, nem podia parar. Quem sabe lá adiante as árvores voltariam a se abrir e a paisagem a se amenizar? Devia perseverar, ou… não queria imaginar o que poderia lhe acontecer. Devia tentar uma saída. Reunindo o que lhe restava de forças e coragem, voltou a saltar sobre as pedras.

* Publicado no livro “Em todo e qualquer lugar”, da Editora Shoongn, Revisto em 16.05.2013

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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HOMENAGEM HISTÓRIAS DA BOA MORTE

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