VELHAS CASAS

24 \24\UTC maio \24\UTC 2013 at 12:23 Deixe um comentário

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Quando passo pela rua dos Passos, em minhas caminhadas matinais, sinto um aperto no peito quando vejo o estado de abandono do casarão dos Graça, na esquina da rua Manoel Barreto. Uma casa da época em que o porto flúvio-marítimo estava a pleno vapor em nossa cidade e quando a prosperidade dos habitantes era maior que a deste tempo do porto do Açu. E não só por isso, mas por que toda velha casa guarda histórias, memórias afetivas de seus antigos donos e moradores, que imprimiram nela suas emoções, anseios, sonhos, desejos, frustrações, ilusões, desgostos e alegrias. Vidas que transformaram a cidade num ser vivo, pulsante, criativo que cresceu e a tornaram numa das mais importantes da região.

Olho e revejo crianças correndo, mães chamando pelos filhos, pais chegando cansados do trabalho, moças arfantes à espera dos namorados, rapazes galantes saindo para visitar suas amadas, avós de olhos cansados sentadas em cadeiras de balanço fazendo tricô ou croché mecanicamente, avôs tossindo, apoiados em bengalas com cabos de chifre encastoados, escarrando nos jardins onde belas flores reinavam. Vejo ainda empregados e escravos, animais de estimação, gaiolas de passarinhos, eterna mania dos homens da cidade de aprisionar os cantores da natureza.

E me pergunto: onde estão todos? Será que ainda vivem entre as carcomidas paredes? Ou suas almas passeiam pelos canteiros devastados? Será que ao derrubarmos uma velha casa não estamos destruindo oportunidades de seus antigos moradores reviverem as emoções? Será que ao morrerem esses homens e mulheres, que tanto amaram, sofreram, choraram e sorriram, viraram pó, como as paredes do casarões? Será que existe uma alma das casas, formada pelas almas dos que ali viveram?

Essas questões me acompanham desde a primeira vez que visitei Paratyi na década de 1970. Quando desembarquei e pisei nas suas ruas de calçamento desigual, com uma vala central para deixar a maré vazar, senti como se tivesse voltado à São João da Barra de minha infância, tão bonita, com parte de seu casario ainda poupado da fúria progresseira, uma cidade acolhedora, amável, tão boa de se viver. Quase chorei de emoção. Sou emotivo demais, reconheço, essa onda de choro quase me fez passar vexame quando me vi em frente ao túmulo de São Francisco, em Assis, ou diante da sepultura de Casimiro de Abreu, em Barra de São João, tão conservada e limpa.

Os sobrados de Paratyi eram do mesmo tempo dos sobrados sanjoanenses. Lá são mantidos inteiros e conservados; aqui quase todos já foram ao chão, substituídos por caixotes de cimento armado. Doloroso. Podíamos ter mais um atrativo turístico de incomensurável valor afetivo e histórico. Também senti essa diferença de tratamento do patrimônio histórico em algumas ruas – principalmente na beira do rio São João, em Barra de São João, em Tiradentes e mais recentemente em Diamantina, onde vivi momentos inesquecíveis.

Diamantina, terra de Juscelino Kubistchek e da lendária escrava Chica da Silva, aonde se chega pela Estrada Real, tem 1.300 imóveis tombados pelo Iphan desde 1938. E conservados.  Dá gosto andar por suas ladeiras, conhecer o Mercado Velho (ou do Tropeiro) visitar igrejas dos sécs. XVII e XIX, visitar a casa onde JK viveu seus primeiros anos, tudo mantido como era, com seu consultório médico de Belo Horizonte reproduzido num anexo. Visitar a casa da famosa ex-escrava Chica da Silva, que seduziu João Fernandes, o poderoso contratador de diamantes da coroa portuguesa e se tornou a mais poderosa mulher da região. Vale a pena visitar, apesar da distância o belo casario colonial praticamente intocado.

Aqui também teríamos muito a mostrar se a ânsia em derrubar o casario, que começou com um prefeito interventor, não continuasse ainda. Há pouco tempo foi-se uma casa do tempo do império na esquina da rua do Rosário com a Coronel Teixeira e de tempos em tempos um exemplar arquitetônico vai abaixo. Por sorte ainda foram salvos a Antiga Cadeira e Casa de Vereanças, o Grupo Escolar, o cineteatro e que mais? Nada. Dos 37 sobrados, anotados por um jornal da época do porto, da rua do Rosário, nem um restou. Dos sobrados de Peixe Frito, do Alecrim e de outro que ficava na esquina da rua Barão de Barcelos, em frente ao Centro Cultural restam fotografias. Poucas. Dos seis estaleiros, do hospital para doentes de beribéri, da Marinha e muitos outros não sobrou nem a poeira. Uma pena, uma perda irreparável. Vamos ver se alguém se lembra de reformar e reutilizar o sobrado dos Graça.

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