A CASA – conto

9 \09\UTC maio \09\UTC 2013 at 16:33 Deixe um comentário

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Naquela noite choveu tanto que o piripiri ficou alagado, coisa que há muito não acontecia.  Chovera a semana inteira. Mas foi a chuva daquela noite que encheu o brejo e ilhou a casa de Antero da Quininha.

Os últimos jacarés tinham secado, encarcerados na lama dura de tantos meses de seca e às vezes meninos afoitos espetavam os pés em seus dentes encravados nos calhaus. Saracuras, marrecas e piaçocas eram lembranças de tempos idos. Havia era um vento constante, frio pela noite, trazendo areia e um ou outro bem-te-vi perdido. O arvoredo do mangue virou lenha, uma lenha retorcida e fumacenta. E os caranguejos, os que se demoraram a cair no fio dágua, eram casquinhas avermelhadas pelo sol.

Tô narrando isso tudo para que se entenda a situação que veio depois. Muita gente havia partido em busca de lugares mais proveitosos e os que ficaram, derrubadas as cercas pelo vento e ferrugem, foram se sentindo donos da terra esturricada.

E então choveu.  Uma semana de chuvinha fina e uma noite de trovoadas e relâmpagos e muita água. Um raio fendeu o esgalhado pé de manga, sem muito prejuízo, que as mangas eram poucas e azedas, mais foi o susto, que fez muita criança saltar da cama e mulher velha queimar palma benta. Na manhã seguinte a chuvinha persistia, o céu escuro se clareava e um cheiro bom vinha do capim que brotava devagarinho, pontilhando de um verde aguado o lamaçal.

Antero mais Quininha se levantaram cedo para ver caranguejos correndo no meio das poças. Seu Joaquim Mãozinha chegou a rir da dorzinha nos cotocos de dedos causada pela mudança de tempo. E Amaro Birro torto, assim chamado somente pelos amigos mais chegados e nunca diante de uma mulher, saiu andando amarelo pela chuva, semeando ao acaso uma mancheia de milho brocado. Só pelo gostinho de plantar de novo.

E chuviscou por um tempo infinito. Quando se enxugou, o lugar pareceu um tapete verde crivado de pontas secas, algumas brotadas, restos do passado. Não que as cercas se levantassem e florissem tufos de farpas, os donos é que, sentindo cheiro de mato molhado, tocaram os cavalos na direção e foram dizendo “té aqui é meu’, “minha cerca ficava aqui”, “esse pastinho eu vou alugar”, “volto amanhã com a família, se me faz favor, desocupe a casa.”

Jacarés e cobras eram perigos menores que pau e pedra espantavam. Quando não uma boa carreira ou uma bala 44 no olho do bicho. Agora com gente, gente morrinha que larga quando não presta e volta se fica bom, posando de dono de tudo, é que se tem de se acautelar. Perigo grande, olho maior que a boca, ambição desmedida.

Cazuza Martins tinha um casebre perto do brejo, água quase na soleira da cozinha. Uma mosquitada do inferno, as crianças sempre endefluxadas, a restinga maninha produzindo no muito uma melancia sem cor e uma abobrinha minguada, que mal davam para o sustento da casa. Seu Antão Ribeiro, grandão, de cara vermelha, com casa na curva da boiada, tinha partido da noite pro dia, levando tudo, só deixando uma chaleira furada e um prato de lata amassado. Ora, a casa lá, novinha e abandoada, batida de sol por todos os lados, quase 20 braças longe do mangue fedorento, quem resistiria?  Não Cazuza, com a criançada de nariz sempre escorrendo e a mulher prenha de novo. Nem qualquer criatura de Deus que não gostasse de desperdício. Antes ocupada por um homem pobre mas de bem que virar ninho de cobra e bicho brabo ou coito de assombração.

Casinha boa, aquela. Nos chocalhos prenderam as galinhas botadeiras e os frangos mestiços. O cabu bem que merecia uma gaiola, tratamento fino, que ele prometia, mas pelo menos… O abacateiro secou, mas as moitas de jura eram cheias de verde e o restante da criação se abrigava ali. A cacimba não era lá essas coisas, água salobra e pouca, mas sempre dava pros banhos e lavagem de roupa que não fosse branca. Besteira fizera seu Antão.

Depois da chuva a casa se afogou em pasto. Tudo brotava, até a cumeeira, se duvidasse muito. “Agora me faço na vida”, pensou Cazuza e se enganou. Ainda o chuvisco não acabar de passar e seu Antão apontou na cancela. Cazuza estava na roça semeando uns carocinhos de feijão e milho, coisas pouca, só pro gasto de boca da família. Os dois filhos mais velhos preparavam a terra prum roçado de mandioca. Com o tempo pretendia levantar um dinheiro com o compadre Clarindo e fazer uma plantação de sustança.

Cazuza viu um de seus garotos chegando na correria, pensou que boa coisa não era, soube que era chamado em casa e deixou os outros filhos trabalhando de orelha em pé. Um chegou a lhe falar, cabisbaixo: “Percisando de nóis, pai, é só gritá.” Homem valente aquele filho, apesar de manso e ser de pouco falar. Pena que qualquer dia tenha de ir pro Exército. Perder um braço daquele, que não enjeitava serviço, era botar fora metade da colheita. Enfim, Deus sabe.

Seu Antão só esperava por ele para aceitar o cafezinho. Fumaram um cigarro comentando o tempo, o causo de Antero mais a mulher não poder sair do brejo onde se meteram. “Mosquitada deve de tá comendo eles.” E então veio a pergunta esperada:

“Quando pode me desocupá a casa?”

A mulher encostada na porta, cercada de filhos, olhava. O cachorro, que seu Antão também deixara, cabeça nas patas cruzadas, olhava.

Seu Antão, ficou de pé, quase batendo o cocoruto no batente da porta.

“Sei não. De repente é que não posso, disse Cazuza.”

“Isso daqui é meu.”

Cazuza continuou sentado, enrolando outro cigarro.

“Cê largou tudo, nem olhô pra trás. Deixô até o cachorro.”

Seu Antão olhou o animal com desgosto. Cuspiu.

“Bicho ruim, serve pra nada. Nem pra pegá rato. Tá bonito agora,”

Um dos garotos se despregou da saia da mãe e se sentou ao lado do animal.

“Os meninos cuidaram dele. Percisava era de trato.”

Seu Antão, impaciente, raspando a bota no chão batido.

“Animal pra mim só bom de caça. Capaz de levantá codorna só no faro. Isso aí é de raça que num presta, A mãe morreu munada. Carqué dia… “

Lá fora um sol fraco de tardinha desbotando a verdura.  De onde surdiram tantos sapos? Antão se perguntava. E pernilongos zunindo na sala escurecida?

“Tava esperando chovê para vortá. Fazê uma roça de mio hibro, aperpará a terra prum roçado de mandioca…”

“Já tô fazeno”…

“E vai tê de deixá, né? Quem planta em terra dos outros…

“Num tinha ninguém aqui. Virou terra sem dono.”

“Sem dono por perto, mas tinha dono. Tinha cerca, benfeitorias.”

Escurecia mais. Galinhas atravessaram a casa em busca de poleiro.

“Mulher, acende a lamparina. As cerca o vento tombô, isso aqui ia virá ninho de cobra ou pouso de assombração.”

“E não virô?”

“Assim tá me ofendendo.”

Tô sozinho aqui, pensou seu Antão, nem arma trusse, e disse: “Tô nervoso, releve.” E pensou em seguida: depois nois veremos.

“Também tô. E minha casa na beira do brejo virô tapera,”

“Se conserta, ara.”

“A famia cresceu, tem mais dois mininos depois que tô aqui.”

“Le ajudo a fazê uma puxada.”

“E a rocinha?”

“Nem brotô.”

“Mas vai brotá. E despois?”

”Cê colhe. Num mexo em nada, é tudo seu.”

O cavalo rinchou. Tanto capim sobrando e ele sugigado pela rédea. Seu Antão cuspinhou no terreiro,

“A cada um o que é seu. Cê plantou, né? Apois cerca o lugar do plantio, é seu até a colheita.”

Cazuza coçou a cabeça sem tirar o chapéu de palha.

“Mas num posso deixá a casa assim, duma hora pra outra.”

A mulher trouxe a lamparina. Fungava baixinho.

“Tenho pressa, disse seu Antão. A famia tá mal acomodada, doida pra vortá.”

“Agora que choveu…”

“E in antes pra quê?”

Um comichão por dentro de Cazuza, vontade de brigar.

“E se eu num quisé sair?”

“Tenho escritura passada em cartório. Serventia de polícia é pressas horas. E se num arresorvê…  A gente sempre encontra uma maneira, né? Essa terra foi do meu pai, agora é minha por direito…”

Na porta apareceu um dos filhos mais velhos, enxada no ombro, cara amarrada. A vontade de brigar esmoreceu. Podia estragar a vida do filho.

“Toma a bença a seu Antâo e vai guardá a enxada,” ordenou,

“Tão grandes os seus fios.”

“E bãos no trabaio. E os seus?”

“Bãos tombém.  Dois bitelões. O mais velho deu baixa, já tá em casa, doido pra tocá uma lavorinha. O outro é mais taludo, mas por causa daquele dedo não serviu. Tão me esperando na venda do compadre Onofre.”

“Não vinhero por que?”

“Acho que foram tomá uma pinga escondido de mim.” Riu manso, condescendente. ”Daqui a pouco aparecem por aí.”

“Faz mais café, mulher. Tem mistura em casa?”

“Tem percisão não, já tô de saída.”

Desceu para a noite que chegava depressa. Mão na sela, perguntou:

“Cumé que a gente fica?”

“Vamos a ver. Me dá um tempinho.”

“Perciso de uma resposta té o fim da sumana.”

“Antes disso le digo carqué coisa.”

“Vô deixa um dos mininos na casa do compadre Onofre. Na sexta-feira espero ele com a resposta.”

O cavalo sacudia os arreios, apressando. Seu Antão passeou o olhar pela escuridão.

“Vô têm munto trabaio pra botá isso aqui a meu gosto. Se le interessá, vô percisá de gente. Pelo menos a você e a seus fios mais graúdos dô serviço. E óia, pode ficar com o cachorrinho, viu? Tá bonito o bicho, inté dá pena…Só munto cuidado que a mãe dele morreu munada.”

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AS DONAS NA HISTÓRIA VELHAS CASAS

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