A SIRIRI

2 \02\UTC março \02\UTC 2013 at 08:43 Deixe um comentário

Toda manhã, quando vou comprar o jornal, nos encontramos. A siriri e eu. É uma alegria, sinto como se ela estivesse me esperando. No meio de um bando de pardais pardacentos e de alguns pombos de cores sóbrias, o amarelo da siriri é um grito, um bom dia caloroso. Normalmente o encontro se dá no trecho de capim que fica numa das cabeceiras da academia de ginástica inconclusa na praça de N. Sra. da Boa Morte. Se estou distraído ela se posta na minha frente com uma corrida graciosa e me olha entortando a cabecinha.

Ela procura me distrair porque sabe que me entristece e irrita ver o dinheiro dos royalties e dos impostos sendo gasto sem critério, pagando uma academia que poucos vão frequentar. A academia, que custou R$238 mil, fica na praça onde foi cortado um belo pé de acácia para dar espaço a um projeto de urbanização. Por vandalismo e falta de conservação, seu parque infantil está depredado, com os brinquedos quebrados e o carpete que finge ser grama rasgado, pontas levantadas, o que pode provocar queda das crianças ou adolescentes que invadiram o espaço infantil.

A siriri não tolera abusos. A primeira vez que vi uma siriri foi em Quiriba, no sítio que foi de meu pai. Era um casal alegre e inofensivo, até que se acasalavam e faziam seu ninho numa das árvores próximas da casa. A siriri gosta de gente, mas não admite que alguém de aproxime de seu ninho. Sabe que seus ovinhos são frágeis e um esbarrão pode impedir que a ninhada nasça. O casal ficava atento e se alguém se aproximava dos limites de sua proteção dava uma rasante em direção ao rosto do invasor.

É muito brava a siriri. Quando os filhotes piavam forte, exigindo comida e companhia, e eram vistos por um gavião, ela não hesitava: em dupla com a fêmea partia para o ataque, uma de cada lado, visando os olhos do predador. Ele recuava, voava para longe, mas elas não sossegavam, voavam atrás, numa perseguição incessante, até que ele desaparecia no horizonte. Não sei se algum gavião, por um descuido das avezinhas, conseguiu pegar algum filhote, espero que não. A siriri é um exemplo de coragem na defesa de sua família. A pequena ave afugenta um gavião muito maior que ela.

A siriri é parente do bem-te-vi, eu acho, mas seu amarelo é cor de gema de ovo de galinha caipira e o do bem-te-vi é gema de ovo da galinha de granja. A diferença marcante é que a siriri não pinta os olhos como o bem-te-vi, à moda de um faraó. Enquanto o bem-te-vi faz seu ninho no alto das palmeiras, a siriri busca árvores mais baixas, no meio de muitos galhos para dificultar o acesso dos predadores.  A siriri da roça é braveza pura, a da cidade é tranquila, não dá os tais voos rasantes nos curiosos.

Ela olha com certa tristeza os pássaros engaiolados. Sua sorte é não ter canto mavioso. O canto dos outros é belo, mas aprisiona; ela ama a liberdade. A presença da siriri é única e marcante. Tem manhãs que nos desencontramos, ela procurando insetos para seu desjejum e eu com pressa para tomar meu café.

Daí a pouco ela surge em algum lugar onde eu possa vê-la, elegante, altiva, cabeça erguida, e me olha como se dissesse: demorei, mas estou aqui. Sonho com o dia em que ela virá comer na minha mão. Aí seremos felizes para sempre.

SJB, 27.02.2013

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