VALIDADE VENCIDA

23 \23\UTC dezembro \23\UTC 2012 at 06:40 Deixe um comentário

Vou fazer 75 anos no segundo bimestre do ano que vem e o IBGE surge com a notícia que a expectativa de vida para o homem brasileiro é de 74 anos e mais alguns meses. Puxa vida, estou com minha validade vencida? Votar não voto mais, pois a partir dos 70 anos o eleitor brasileiro está liberado de escolher entre candidatos que não merecem ser eleitos, na minha opinião. Pelo menos não sinto remorsos de ter votado num ser abjeto capaz de desviar verbas públicas da saúde ou da educação.

Pelos cálculos do IBGE, tudo que eu viver a partir dagora é lucro. Posso viver mais um, cinco ou dez anos, mas serão os últimos anos de minha vida. Tá na hora de escrever minhas memórias? Bobagem, tenho contado tantas coisas nessas minhas crônicas que pouco sobra para contar. E depois, escarafunchando minhas lembranças, vejo tudo muito confuso, principalmente a fase anterior ao acidente que me quebrou o nariz.  Foi um momento para mim tão significativo que tudo o que veio antes se apagou da minha mente. As pessoas costumam dizer que não se recordam do acidente que sofreram e suas circunstâncias, recurso usado pela natureza para diminuir o sofrimento. Comigo o apagão foi mais intenso e as memórias que tenho do nascimento aos sete anos, me foram plantadas na mente por narrativas de parentes ou amigos.

A significância do acidente em questão é que ao quebrar o nariz perdi meu rosto. Não estou sendo melodramático ou exagerado, mas tudo o que acontece com a estrutura de nosso rosto no tempo em que ele está sendo formado o modifica. Como seria meu nariz? Aquilino, como o dos Henriques ou bulboso como os dos Sá?  Se alguém tem deformidade em alguma outra parte do corpo é fácil de disfarçar, mas quando é no meio da cara… Além disso, é duro ouvir durante a adolescência e a mocidade as pessoas comentando, a título de consolo: homem não precisa ser bonito, tem que ser inteligente, trabalhador e honesto… ou rico, dizia um piadista infeliz. E um outro comenta: hoje operações plásticas são comuns e deixam a cara perfeita. Tudo bem, só que se vai conviver com uma cara que não é a sua.

Voltando às memórias, dizem que basta acionar o botão que as lembranças voltam.  Não é bem assim. Fatos e pessoas retornam de forma confusa, fragmentada, e fico pensando como os memorialistas conseguem recuperar até mesmo diálogos que produziram ao longo da vida.  Já li muitos livros de memórias de gente famosa e sinto que elas são montadas para enaltecer. Ninguém vai querer contar os micos e gafes que viveu ao longo da existência, as decisões erradas, os amores equivocados, as atitudes reprováveis e coisas tais. Nas biografias não consentidas isso pode ser encontrado, nas memórias não. Ninguém ergue um monumento para si mesmo em que aparece de cabeça para baixo. Todos são príncipes na vida, anotou o poeta Fernando Pessoa.

Por isso, apesar da validade vencida não vou escrever minhas memórias. Posso trazer de volta um ou outro fato que julgar importante para que alguém me entenda, coisa que nem eu consigo.

 

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ERA BEM MAIS FÁCIL POEMA III OU DA QUEDA

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