NOS TEMPOS DO ACORDEOM

9 \09\UTC dezembro \09\UTC 2012 at 18:35 Deixe um comentário

A memória da gente é como uma caixinha de segredos que fica fechada até a vida inteira, a não ser que um mero acontecimento a acione. Um simples toque, como um dedo mindinho roçando numa tampa de cristal, provoca sua abertura e a liberação de emoções e sentimentos a reboque das lembranças. Às vezes dói muito, às vezes provoca sorrisos de tímida felicidade. Reviver, diz o ditado, é viver novamente.

A enxurrada de lembranças, matérias em jornais e revistas, fotos e programas de televisão por conta da celebração do centenário o cantor e sanfoneiro Luiz Gonzaga levantou a tampa de minha memória e me trouxe de volta os anos 50/60, quando eu morava na avenida Maria Silva, na rua Formosa, em Campos.

Além das lembranças de uma infância movimentada, gostosa, com muita brincadeira, ficaram gravadas as imagens de moças bonitas tocando acordeom. Eram muitas, foi como uma febre que atingiu moçoilas e outras nem tanto, e as levava a sobraçar e dedilhar um instrumento pesado, de fole, que muita gente chamava de sanfona. Claro, para as jovens valia o nome acordeon, bem mais fino. Sanfoneira era rústico, acordeonista era sofisticado. Além de carregar aquele instrumento pesado que tinha de ser preso ao tórax por uma espécie de suspensório, e exigia força e destreza para manuseá-lo, tinha de ter esse nome pobre? Como garotas lindas, usando saias enfunadas por amplas anáguas, iam se apresentar em festinhas infanto-juvenis com o nome de sanfoneiras? Cansei de ouvir belas e cheirosas musicistas gritando:

– Mamãe, olha o Maneco me chamando de sanfoneira. Manda ele parar!

A bela e buliçosa Adelaide Chiozzo entrando nas telas dos cinemas de todo o país envergando um acordeom e lembrando com voz cariciosa o beijinho doce que alguém havia lhe dado facilitou a aceitação do acordeom. De repente, em todo o Brasil, as belas passaram a empunhar os foles com galhardia seus instrumentos. Em quase toda família havia alguém estudando acordeom. Até uma academia, a Mascarenhas, foi criada e formou mais de mil alunos e desenvolveu um método próprio de aprendizado para tocar o instrumento que vendeu muito. Vencidas as resistências sociais, até rapazes passaram a se realizar como instrumentistas. Não havia festas de adolescentes que um galã ou uma gatinha, que na época era chamada de broto, não se apresentasse com um acordeom. Era um sucesso indiscutível.

Mas o tempo indiferente vai descartando o que é fruto de modismo. Os grandes artistas, como Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Caçulinha e outros não foram afetados por esse descarte e continuam a brilhar, mesmo os que faleceram. A doce e sapeca Adelaide Chiozzo, que além de estrelar, junto com Eliana, muitos dos filmes que passaram a ser chamados de chanchadas e que divertiram muita gente e também participou de novelas de televisão, foi deixada de lado. Uma injustiça, pois seu beijinho doce, sua cama na varanda e outras foram a trilha sonora de muitos romances.

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NOVELAS E NOVELÕES ERA BEM MAIS FÁCIL

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