TENENTE DA GUERRA

23 \23\UTC novembro \23\UTC 2012 at 10:21 Deixe um comentário

Quando fui estudar e trabalhar no Rio de Janeiro morei num apartamento na Cruz Vermelha com mais dois rapazes, que conheci no dia em que me mudei, amigos de meu cunhado. O local não era lá essas coisas, muito movimentado, com muitos hospitais, uma pracinha decadente, frequentado por gente da pesada, mas o prédio estalava de novo e ficava bem perto do meu trabalho. Dava para ir andando.

Aos poucos novos moradores se mudaram para o prédio de 10 andares. Com apenas apartamentos conjugados, a grande maioria dos moradores era de homens e mulheres solteiros e casais sem filhos. Silencioso durante toda a semana, ele se animava aos sábados e domingos. Dava até policia. Ao lado do apartamento onde morávamos viviam três estudantes de medicina que estagiavam nos hospitais – eram quatro – e costumavam ser visitados por garotas belas e acessíveis. No andar de baixo moravam duas lindas mulatas, maiores de 30 anos, secretárias e sambistas, com quem fizemos amizade. E no andar de cima vivia um militar, ex-combatente da 2ª guerra mundial. Não lembro seu nome embora fosse sempre convidado para as festinhas que ele promovia com muita bebida e belas mulheres. Era um homem educado, sempre de terno, sorridente, altura mediana, cabelos e olhos castanhos, com mais de 40 anos de idade. Morava sozinho, uma mulher ia lá durante o dia, arrumava a casa, cuidava de sua roupa e fazia sua comida. Era desquitado e tinha uma boa situação financeira.

O tenente da guerra como o chamávamos, tinha horror à solidão e pavor do barulho de foguetes e bombas, mesmo as joaninas. O estouro de um simples traque lhe dava tremor no corpo e secura na boca. Em junho ia se refugiar na casa de um parente na roça. Ele contava que seguira num dos batalhões de soldados para a Itália. Na viagem de navio fizera amizade com um jovem negro, muito brincalhão, valentão de fachada, que ia para a guerra sem a menor noção do perigo. E fora o primeiro a morrer. Nem chegara a combater. Ao saltar numa praia o batalhão fora atacado pelos alemães e seu amigo fora atingido no rosto, morrendo na hora. Isso marcou para sempre o nosso tenente, que nem era oficial, era assim chamado, com carinho, pelos frequentadores de sua casa. E ele apreciava a homenagem.

Para fugir às lembranças doloridas ele bebia bastante, mas nunca se embriagava. Seus olhos estavam sempre acesos, como em permanente guarda. O tremor das mãos era visível no chacoalhar do gelo no copo com uísque. Apesar do sorriso vivia tenso. Tinha sempre muito dinheiro no bolso e alguns dos frequentadores da casa, espertinhos, se aproveitavam para lhe pedir pequenos empréstimos que nunca eram devolvidos. Ele n]ao reclamava. Muitas vezes, em épocas em que estava muito agitado, o que a gente percebia ao vê-lo andar sem parar pela casa, reunia os presentes e os levava para uma casa noturna, onde ficava até o fechamento das portas. Pagava a conta e se ainda não havia amanhecido saía em busca de outro lugar com bebida farta e mulheres fáceis.

Um dia ele sumiu. A mulher que cuidava da casa não sabia dizer para onde ele fora e daí a alguns dias foi dispensada. Um homem de poucas palavras, que ela não soube explicar quem era, lhe pagara o salário do mês e mais um pouco, fechara a casa e se fora. Dias depois um caminhão veio buscar os móveis e roupas do tenente, que nunca mais foi visto. Disseram que tinha sido internado numa casa de repouso ou que estava internado num hospital. Dias mais tarde nos mudamos para um apartamento menos apertado não muito longe dali. E nunca mais soubemos dele.

 

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