JULIETA NO BALCÃO – miniconto

23 \23\UTC novembro \23\UTC 2012 at 09:58 Deixe um comentário

No fim da tarde largou o computador, levantou-se e de olhos fechados se espreguiçou com vontade, estalando juntas e esticando músculos. Respirou profundamente, satisfeito com o silêncio reinante no escritório. Era sua rotina: assim que o último companheiro de trabalho se despedia e batia a porta iniciava o ritual de relaxamento. Trabalhara duro o dia inteiro, apenas uma folga maior para o almoço e idas rápidas ao banheiro e ao cafezinho.

O cafezinho! Era o que estava faltando. Caminhou para o outro lado da sala, para a mesinha cambaia onde ficava a garrafa térmica e as xícaras. Enquanto andava olhava pela janela a tarde que se esvaía. Ao se despedir o sol manchava os telhados com tons ferrugentos. Poucos carros circulavam, a maioria, que ficara o dia todo estacionada na beira das calçadas, já tinha levado seus donos embora.

Serviu o cafezinho que no fim do dia não devia estar lá essas coisas, bebia mais por vício que por prazer e ao tomar primeiro gole viu, num balcão da casa assobradada que ficava a alguns metros dali, uma mulher debruçada, os cotovelos apoiados na mureta, falando com alguém na calçada. Ela sorria, fazia caras e bocas, falava sem parar, em tom baixo, acenava, convidando-o a entrar e pelo jeito não estava sendo atendida.

No dia seguinte, por curiosidade, no mesmo horário olhou o balcão e lá estava ela, ombros de fora, a fazer os mesmos trejeitos. Conhecia a mulher de vista, já cruzara com ela algumas vezes, um tipo comum, entre 30 e 40 anos, cabelos sempre mal penteados, roupas discretas, não parecia alguém capaz de se expor num balcão em atitudes suspeitas. Mas, pelo visto…

Quem seria o objeto de sua sedução? Lembrou os rapazes que moravam ou trabalhavam na rua para ver se adivinhava. Tinha o garoto de cara crivada de espinhas que fazia entregas do supermercado. Não, muito jovem para ela. Tinha também o motorista de taxi que morava na vila no fim da rua, um sujeito novo mas relaxado, a barriga quase estourando o cinto, a barba sempre por fazer. Será? Não, só mesmo a mulher dele lhe daria atenção. Tinha também o porteiro da firma de utensílios de plástico, um negro jovem e musculoso, com um sorriso de luz. Podia ser. Tinha ainda os rapazes dessa mesma fábrica, uns desanimados, mal vestidos, sempre reclamando de tudo. Nenhum deles deveria interessar a Julieta, como apelidara a mulher que do balcão seduzia alguém sem êxito.

Finalmente se lembrou do estudante de medicina, devia estar perto dos 30 anos, pois suas têmporas se agrisalhavam, alto, bonito, um belo tipo. Não devia ter muito dinheiro, morava numa pensão da vila, ideal para ela seduzir. Também podia ser o gayzinho que morava na mesma vila, um homossexual sem trejeitos, só se revelava em alguns olhares sugestivos. Quem sabe ela entrara na onda de curar os gays se oferecendo como remédio? Por que não? Ela vivia só, não custava… não, não podia ser isso. Mas podia ser uma lésbica, como a moça que andava numa moto envenenada, de casaco de couro e botas cheias de pregos de aço. Podia, mas…

Durante a semana ele observou Julieta em seu assédio, penalizado. A pobre mulher merecia a chance de um novo amor, no máximo, um companheiro gentil ou fogoso. Tinha vontade de descer para ver quem era o Romeu relutante, que resistia a tantos chamados carinhosos. Mas essa era a hora que aproveitava para resolver os pepinos, analisar propostas e tabelas sem o alarido dos colegas e não podia sair. Certo dia tivera de fazer uma visita a um cliente enguiçado e ao invés de voltar para seu escritório depois do almoço seguira para o escritório dele, não muito longe dali. Passara a tarde analisando com ele as propostas de negócio e se espantara ao ver que a tarde escorrera rápido como água de chuva em bueiro desentupido.

O sol avermelhava os reflexos dos paralelepípedos enquanto voltava para a firma, preocupado, a turma já deveria ter saído e quem ficasse para esperá-lo, pois era quem tinha a chave da porta da entrada, estaria de cara amarrada, reclamando da sua demora. Eta povo impaciente, pensou, não sabe esperar um pouquinho. À medida que se aproximava do seu prédio lembrou-se da Julieta. Olhou o balcão: lá estava ela, debruçada, olhando para baixo, a boca em bico. Agora ia conhecer o galã, a quem ela oferecia os lábios despudoradamente. Apressou o passo e firmou a vista: sobre o muro, lambendo o alvo e espesso pelo, um gato angorá ignorava solenemente, os apelos de Julieta. Que gato esnobe, pensou com desgosto.

 

 

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ANTIGAS CANTIGAS INFANTIS TENENTE DA GUERRA

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