ANTIGAS CANTIGAS INFANTIS

18 \18\UTC novembro \18\UTC 2012 at 09:20 Deixe um comentário

“Corre corre, cavaleiro, vai ao campo avisar, que dom Jorge faleceu e é preciso enterrar”.

Este era um dos versos de uma cantiga muito em moda entre as crianças do meu tempo. Contava a triste história da moça que traída pelo namorado, o tal dom Jorge, o convida para entrar em sua casa e tomar uma bebida que estava envenenada. Ele morre, claro, e ela convoca alguém para anunciar sua morte na cidade. E mais tarde ela ainda canta: “bate o sino da matriz, não se sabe quem morreu, quem morreu foi o dom Jorge e quem matou ele fui eu.”

Terrível, né não? Mas havia outras do mesmo teor como a da mãe que manda a filha ensinar o caminho a um falso ceguinho para que ele possa raptá-la. A gente cantava essas tragédias com o maior entusiasmo. Havia ainda a da viúva que sentada num rochedo muito alto chorava o marido que havia morrido “entre flores” e encerrava a melódia chamando seu bem para lhe dizer que tristezas de amor são capazes de matar, ora vejam só! Pior era a da moça enterrada viva por ordem da madrasta, e como havia madrastas aquele tempo, fruto da falta de exames pré-natal, certamente. Pois bem, quando pai da moça voltava da viagem, e perguntava pela filha recebia uma resposta evasiva. Tipo “foi pra casa da avó” , “saiu por aí” ou semelhante, o pai se conformava, mas ao ver o capinzal que nascia no quintal mandava o jardineiro cortá-lo. Aos primeiros golpes da enxada uma voz feminina se ouvia dizendo “Jardineiro do meu pai, não me corte meu cabelo, que a madrasta me enterrou pelos figos da figueira.”

Já imaginaram crianças impressionáveis, e toda criança é impressionável, ouvindo essas tragédias? Na hora de dormir se encolhiam, abraçadas ao travesseiro e de olhos arregalados relembravam os causos cantados. E toca a correr pro quarto dos pais, se metendo na cama, entre eles, impedindo, quem sabe, uma cena amorosa.

E não eram só as músicas que nos assustavam. As histórias, meu Deus, as histórias infantis com lobos devorando avozinhas, bruxas que adormeciam a mocinha porque não foram convidadas para seu batizado, madrasta – olha ela aí de novo! – que dava uma maçã envenenada à jovem que vivia com anões depois de ter encomendado sua morte a um empregado, exigindo que ele lhe trouxesse seu coração, é mole? E o sapo que era um príncipe encantado? E o terrível Barba Azul que decapitava as esposas após a noite de núpcias e com quem a mocinha ia se casar? E o pai que largava João e Maria sozinhos na floresta onde morava a bruxa que os prendeu? Que pais esses, hein? Se não fosse a esperteza do menino, estavam  fritos.

Que falta fizeram às crianças daquele tempo os bobinhos desenhos animados de hoje! E é de admirar que tantas pessoas crescessem nervosas e desconfiadas? A educação era baseada no terror, palmatórias, castigos, esporros públicos, beliscões, cachaços e cascudos.  Fórmula que vinha desde os tempos medievais e tinham apoio e aplicação pelo clero. As escolas religiosas, santo Deus, eram verdadeiros purgatórios, algumas, infernos. E os internatos?

Os tempos mudaram, ainda bem, já não se acredita que a violência e o terror são necessários para moldar um cidadão. Nunca bati nos meus filhos e aí estão eles, formados, acredito que felizes. Concordo que uma palmadinha às vezes é necessária, nunca as surras que humilham, machucam e envergonham as crianças e servem apenas para aliviar a frustração dos pais por não terem sabido educá-los. SJB, nov.12

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