VALEU, DEMOCRACIA

30 \30\UTC setembro \30\UTC 2012 at 10:43 Deixe um comentário

Em abril de 64 estava chegando de um passeio às cidades históricas de Minas Gerais quando soube que havia estourado o golpe militar que se transformaria numa ditadura cruel por mais de vinte anos. O prédio da UNE, na praia do Flamengo, estava tomado pelas chamas.

Fui testemunha ocular de muitas manifestações, pró e contra, dos comícios relâmpagos de Vladimir Palmeira em cima de um caixote junto à estátua do pequeno jornaleiro, na avenida Rio Branco, das perseguições de estudantes por cavalarianos, da marcha dos 100 mil, tendo à frente  artistas famosos como Chico Buarque e outros, da missa na Candelária, um tumulto total com PMs a cavalo imprensando quem não coube na nave contra as paredes da igreja, do ardor do gás lacrimogênio, das cacetadas nos passantes, dos tiros, dos ameaçadores tanques, enfim todo o aparato repressivo.

Passou, graças a Deus. Estamos em plena democracia, sem dúvida o melhor regime de governo que conheço. Democracia sonhada nos terríveis anos de chumbo, onde não se podia falar contra medidas do governo, onde não havia direito de opinião nem liberdade de expressão, com o Congresso fechado, jornais censurados, livros, filmes e peças teatrais proibidos, mortes e desaparecimentos, a vida pela metade, com os principais direitos do cidadão cerceados.

Custou mas a democracia chegou.  Concessões tiveram de ser feitas, algumas execráveis figuras públicas suportadas, dolorosa transição para o paraíso. Vieram governos como os de Sarney e Collor, meu Deus, o que fizemos da liberdade conquistada? Vemos hoje o meio político infestado de celerados, de gananciosos, de ambiciosos capazes de tudo para se manter no poder, o exercício da política, essencial para a democracia, só parece atrair gente que devia estar atrás das grades. A corrupção, como epidemia, se alastra por todo o tecido social, terrível infecção que abate crianças, velhos e doentes com o desvio criminoso das verbas da educação e da saúde para a construção de palácios, para pagamento de viagens internacionais de lazer e escárnio, gente sem qualquer escrúpulo em postos chaves dos governos.

Aí vem um gaiato e diz (ou escreve) : o povo tem o poder de, nas próximas eleições, afastar esses bandidos do poder e votar nas pessoas certas. E vem a pergunta: como, se não se  pode votar em quem acha que merece e sim nas figuras manjadas e manchadas que os partidos apresentam? Se quiser votar em   X, um homem probo, cheio de boas ideias para beneficiar a população, disposto a fiscalizar o uso do dinheiro público e lutar para fazer o país crescer, só se ele entrar para um partido político, fizer acordos espúrios, aceitar determinadas práticas e se deixar envolver pelos que só lutam pelo próprio progresso e para se manter no poder.

A política partidária virou um foco de corrupção. Para bancar campanhas milionárias, comprar votos e eleitores, é preciso criar um Caixa 2 e para isso…  todos sabemos como isso é feito, taí o julgamento do mensalão aberto ao público que se horroriza com as práticas apresentadas. O dinheiro é o grande eleitor. As campanhas são milionárias, com milhares de caros adesivos, cartazes e santinhos, rostos melhorados pelo fotoshop, um escárnio diante dos bolsões de miséria do país. Carros de som estuporam nossos ouvidos, candidatos a vereador que mal  sabe ler e desconhece o que pode fazer se eleito, prometendo realizar o que é da competência exclusiva do Executivo, é cansativo enumerar todos os ônus financeiros e morais de uma campanha eleitoral. Sabe-se que tudo isso custa um dinheirão. E de onde ele vem?  Não importa. Parece que o dinheiro dos impostos é de quem for mais esperto.

A ânsia de poder é tão grande que em algumas cidades a campanha descamba para a violência verbal e física. Segundo o jornal O GLOBO da segunda 3 de setembro, mais de 200 candidatos e cabos eleitorais sucumbiram até agora. A que ponto chegamos.

Os comitês eleitorais permanecem vazios e se alguém os procura é para receber santinhos e promessas. Mas o que os candidatos têm para oferecer? A maioria está ali já sabendo que não será eleita, que sua função é agregar o maior número de votos possível para sua legenda para depois sentir-se em condições de pleitear um cargo, uma boquinha, um tráfico de influência em favor de um filho, de uma vaga para um parente doente num hospital público, tudo serve de moeda  de troca para garantir a permanência u ascensão ao poder.

Quando e como conseguiremos mudar isso? Como poderemos fazer com que a democracia realmente valha a pena? A ficha limpa foi um avanço, mas é preciso mais, muito mais, para a gente poder gritar a plenos pulmões: valeu, democracia!

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