O AMANTE DO FUTEBOL

25 \25\UTC julho \25\UTC 2012 at 10:26 Deixe um comentário

Evaristo era o seu nome. Altura mediana, cabelos cortados a príncipe Danilo, sempre bem penteados, era o 8º ou 9º filho de meu avô. Nasceu na roça, em Valetas, e adolescente foi morar em nossa casa, em Campos, onde continuou seus estudos e se graduou como contador. Durante o curso ajudava meu pai na farmácia. Depois foi trabalhar no escritório de uma usina de açúcar até se aposentar. Raramente visitava a fazenda onde nasceu. Tornara-se essencialmente urbano.

Não se dava com minha mãe, acho que por ter, de alguma forma, repreendido a gente, o que ela não admitia. Brigar e bater nos filhos só ela podia. Se não me engano, quando papai teve de encerrar suas atividades farmacêuticas em Campos, passando o ponto, Evaristo voltou a morar com vovô, que havia comprado casa numa avenida da rua Formosa, vizinha da casa que meu pai comprara.

Foi pouco o tempo, cinco ou seis anos, que viveu ali; com a morte de vovô a família se mudou para uma casa no Turf-club, bairro que se expandia. Ele foi junto e viveu com vovó até quando seu gênio irascível permitiu. Depois morou em casa de familiares até falecer, aos 62 anos, na casa de uma sobrinha. Sua dificuldade para falar o deixava muito sensível. Confessou aos irmãos que era um dos infelizes da família.

Evaristo nunca se casou. Sofria de gagueira. Mas quem o ouvisse cantar, jamais imaginaria como gaguejava ao falar. Cantando a voz saía límpida e sem tropeços. Não sei se era gago por ser nervoso ou se a gagueira o deixava irritável. Tinha rompantes que abalavam suas amizades. Sofria muito com sua deficiência. Lembro uma noite, quando morávamos na avenida Maria Silva, de ouvi-lo andando pelo quintal, desesperado, com forte dor de dente, mão apertando o rosto, gemendo e murmurando: se Je-je sus Cris – cris – to so – so- freu tan – tan to, por que não po – posso so – so – sofrer também?

Sua grande paixão era o futebol. Torcia ardorosamente para o Fluminense no Rio e para o Americano em Campos.  Ajudava o clube campista comprando lanche e uniformes para os jogadores mais novos. Gastava com o futebol todo o seu salário e vivia cercado pelos rapazes, o que ensejou comentários, até mesmo na família, de  que fosse homossexual. Se foi, era platônico, pois nunca se soube de caso seu com homem.

Todo o tempo de que dispunha fora do trabalho era dedicado ao futebol. Nos dias de jogos do Americano ia para beira do campo gritar até ficar rouco. Sofria demais com os revezes de seu time, ficava deprimido, e alcançava o paraíso quando ele ganhava. Quando o Fluminense jogava curtia demais. Não era muito religioso, mas gostava de acompanhar procissões, e quando o tricolor jogava levava um rádio de pilha para escutar o prélio durante o caminhar, às vezes irritando os outros fiéis que gritavam para ele desligar o rádio.

Não sei Evaristo mereceu algum reconhecimento por sua paixão futebolística, mas pelo menos o Americano devia lhe prestar uma homenagem.

 

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CAUSA MORTIS CHUVA REDENTORA

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