CAUSA MORTIS

9 \09\UTC julho \09\UTC 2012 at 15:41 Deixe um comentário

A gripe aviária, ou H1N1, tem matado muita gente no país, apesar do governo federal ter posto vacina específica à disposição da população. São muitos os que, como no século XVIII, acham que a vacina “atrai” as doenças, outros temem o espetar da agulha e outros ainda se acham imunes.

A gripe, qualquer gripe, é uma infecção causada por vírus, altamente contagiosa. Até o século passado uma epidemia de gripe dizimava parte da população de uma cidade, onde a falta de saneamento básico, as ruas estreitas e casas mal planejadas facilitavam o trabalho do vírus.

Em São João da Barra, segundo jornais antigos, as epidemias eram muito comuns. Nos anos de 1883 a 1890 a varíola e o sarampo mataram muita gente, especialmente crianças, apesar de a Câmara Municipal, cujo presidente administrava a cidade – era o prefeito – ter posto a serviço do povo um médico, que promovia a vacinação aos sábados, do meio dia a uma hora. Se hoje há recusa em se vacinar, imagine-se naquele tempo, quando até uma revolta contra a vacina estourou no Rio.

E por isso, só no mês de novembro de 1883 aqui morreram 15 crianças e dois adultos com varíola; no mês anterior haviam morrido sete crianças com sarampo e em dezembro a varíola matou nove crianças. Dado o alto potencial de transmissão da doença, a Câmara instalou um isolamento numa casa junto ao “trapiche velho” no trecho entre a cidade e Atafona.

A Santa Casa de Misericórdia, cuja instalação começou com uma doação em dinheiro feita pelo imperador Pedro II quando visitou a cidade de 1847, já funcionava, mas receber esses doentes poria em risco a vida dos pacientes que ali estavam sendo tratados, então a cidade criou esse hospital “para variolosos” junto ao trapiche velho.

Atafona, com seu ar puro, sempre foi considerada importante para o tratamento de doenças. Provavelmente no local onde existiu o isolamento dos variolosos, anos depois a Marinha instalou outra espécie de sanatório para receber os marinheiros atacados pela beri-beri, doença provocada pela falta de vitamina B no organismo. Ali ficavam os doentes que toda a manhã eram levados até à praia onde cobriam as pernas – principal parte do corpo atacada pela doença – com as areias monazíticas. A cura vinha em menos de um mês. Comprovei isso pessoalmente quando meu pai montou uma farmácia na avenida dos Campistas. Foram muitos os doentes de beri-beri que vi sendo levados para a praia nos braços de amigos ou parentes para o tratamento e tempos depois vinham à farmácia andando.

Em 1925, atraído pelas notícias dessas curas, um grupo de médicos norte-americanos passaram alguns dias na praia, verificando o fato in loco, e coletando amostras das areias escuras com reflexos prateados. Meses mais tarde o relatório preparado pela comissão promoveu Atafona a local a ser recomendado mundialmente para a cura da beri-beri.

São João da Barra não sofreu apenas dessas doenças. No meu tempo de garoto ainda havia na cidade casos de febre tifoide e lembro minha avó me recomendando  não brincar na água que eescorria junto ao meio fio com barquinhos de papel ou pisar em águas empoçadas nas ruas para não pegar tifo. Ela era traumatizada pela perda de dois irmãos pequenos vitimados pela febre tifo.

E talvez seja essa mesma febre que aparece nos jornais antigos como causadora de mortes na cidade. Só em março de 1883 a imprensa noticiou 29 mortes causadas por “febres”. Era comum, no obituário  de então, encontrar óbitos por febres sem especificação da doença.

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