DEIXA QUE EU CHUTO

1 \01\UTC abril \01\UTC 2012 at 19:12 Deixe um comentário

Deixa que eu chuto veio para brincar, saímos alegres pela rua a passear. Eram os primeiros versos da marcha que o bloco passava cantando e dançando pela rua 13 de maio, esquina com João Pessoa, em Campos. Domingo de carnaval, final da década de 40. Cerca de 20 ou 30 rapazes, fantasiados ou travestidos, berravam a melodia. Era um tempo que essa festa popular era carnaval mesmo pro povo se divertir e não um produto turístico para ser consumido.

Deixa que eu chuto também... um menino de 8 ou 9 anos, sentado no portal de sua casa, no meio da rua João Pessoa, gostou da música alegre e do grupo de foliões e sem pensar muito se levantou e foi apreciar de perto. A manhã de domingo, calma, não ostentava os muitos carros do dia a dia, era uma rua comercial, perto de se transformar na rua da Alfândega campista de hoje. O bloco seguia em frente e muita gente o acompanhava. Automaticamente o menino se misturou ao povo, rindo e batendo palmas. Menino de 8, 9 anos daquele tempo era como um menino de 5, 6 anos de hoje. E como resistir ao apelo da música, da dança, da alegria? Lá foi ele atrás do bloco.

Fazer parte do cordão, para alegrar… a música, grande sucesso carnavalesco na voz de Albertinho Fortuna, chamava-se Marcha dos gafanhotos. Alguém a transformara numa paródia alegre e buliçosa. O menino andou por ruas por onde nunca havia passado, e nem percebeu. E quando espantou estava de volta à esquina da rua de sua casa, só que do outro lado, na rua do Sacramento. E continuaria seguindo o bloco se alguém não o pegasse pelo braço e o tirasse da corrente foliã. Aturdido, como quem acorda de um sonho bom, o menino foi puxado para casa, sempre olhando para o bloco que se afastava.

Os rapazes todos são direitos, nós queremos é brincar… continuava a cantoria. O menino tinha duas irmãs que aniversariavam no mês de fevereiro e quase sempre um desses dias era carnaval, como no ano dessa história. O pai do menino, comerciante extrovertido e muito estimado, resolvera dar um almoço para os amigos e comemorar os aniversários das filhas. A casa inteira se envolveu nos preparativos para o festejo e ninguém tinha muito tempo para ficar vigiando as crianças. As meninas se distraiam com as bonecas e o menino, meio entediado, foi pra porta da rua observar o movimento. De vez em quando fazia isso e como nos finais de semana a rua não oferecia perigo, os pais não se importavam A qualquer momento, um grito da mãe e ou da empregada o levava para dentro. Ele ia, era um menino tranqüilo, obediente.

De repente, na hora de servir o almoço, se lembraram do menino, largaram pratos e panelas ao ver que ele não atendia aos chamados e correram para a porta. Lá estava o portal onde ele costumava se sentar vazio. O pai e amigos que já haviam chegado para o almoço foram mobilizados na procura do menino, uma vez que os vizinhos, que no domingo calmo estavam na igreja ou no quintal, não o haviam visto. Pânico, choro, desespero. Na semana anterior ciganos haviam rondado, ou melhor, andado pela rua e diziam que eram acostumados a roubar crianças. A mãe se jogara na cama, aos prantos, abraçada ao travesseiro, lamentando o sumiço. As filhas, sem entender bem o porquê, a acompanharam no choro. A festa virara um caos.

No meio da balbúrdia, quando já se pensava em chamar a polícia, eis que surge o fujão, olhos arregalados, sem entender o que acontecia, rebocado pelo amigo da família. Não sei se depois de lavado pelas lágrimas maternas e sufocado pelos abraços de todos, o menino levou uma surra ou cascudos – muito em moda na época – ou apenas se sentou para almoçar com os convidados.

Deixa que eu chuto, somos da folia, queremos paz e muita harmonia...

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