NOTAS DO PARAÍSO LXXX

15 \15\UTC março \15\UTC 2012 at 12:20 1 comentário

Cá estou eu de volta. Estava desanimado, viajei para espairecer, fui à Itália e ao Natal Luz. Decidi dar um tempo nessas crônicas. Mas alguns leitores me mandaram e.mails ou me pararam na rua reclamando do silêncio e querendo mais notas sobre este paraíso tropical e tropicante. Voltei.

E começo falando de duas das singularidades dessa cidade enlouquecida pelos sons automotivos, que nada respeitam, nem os próprios ouvidos dos seus motoristas. Dizem as pesquisas médicas que som alto pode provocar infartos. Se assim fosse, muita gente já teria ido para o além. O cantor e compositor inglês Elton Jonh, avisou ao distinto público que estava sofrendo de deficiência auditiva por causa do som alto que era obrigado a produzir. Como a surdez é definitiva, se viu obrigado a usar aparelhos acústicos. Teremos em breve uma geração de surdos na cidade.

Voltando às idiossincrasias sanjoanenses, advirto que já falei sobre elas várias vezes e pretendo continuar falando por que quero entendê-las.

A primeira é nossa ojeriza a estátuas. Pelo jeito nenhuma autoridade local acha que os sanjoanenses que se destacaram merecem ser homenageados com um busto ou estátua. Lembro isso ao ler no jornal que a Bahia vai inaugurar, em breve, estátuas dos escritores Jorge Amado e sua mulher Zélia Gatai sentados num banco, tendo ao lado seu cachorro de estimação. Vejam, até o animal mereceu ser lembrado. Aqui, só temos estátuas de dois Aquino erguidas por Aquino. Nem uma estátua da poeta e jornalista Narcisa Amália ou do escritor e engenheiro Silva Coutinho. O professor e médico Caetano de Campos, nascido e criado aqui, tem nomes de ruas, de escolas e estátua em São Paulo, onde se fixou, aqui não. Em Campos, cercando o prédio da Academia Campista de Letras, no jardim de São Benedito, estão dezenas de estátuas de seus luminares. Aqui, joga-se mais um punhado de areia para que o esquecimento seja total.

Outra coisa interessante e ainda, a meu ver, sem explicação, é a ausência de nomes de ruas que lembrem personagens e fatos relevantes do país, como acontece em outras cidades brasileiras. Cadê a nossa Rua Pedro I, a Rua Tiradentes, a Rua Pedro II, a Princesa Isabel, a Getúlio Vargas, a Juscelino Kubstichek e as de outros brasileiros notáveis? Ou não estamos no Brasil? Na maioria das cidades ruas são nomeadas com as datas de sua fundação, como a rua 1º de Março, no Rio de Janeiro. Cadê a nossa Rua 6 de junho, data de criação do município, ou Rua 17 de junho, da elevação de vila a cidade? Por que não damos valor a isso?

É bem capaz de daqui a algum tempo termos a Rua Eike Batista, enquanto a Rua Capitão Agostinho, sanjoanense herói da Guerra do Paraguai, continuará inexistindo.

Estou cada vez mais impressionado com maneira desumana como estão sendo tratados os pequenos produtores rurais do 5º Distrito, arrancados de suas terras pelo Codin, com suas plantações destruídas, e transplantados para outros locais, longe do chão que os viu nascer e de sua rede social. Imagine você, tranqüilo em sua casa e de repente se vê deslojado, a casa desapropriada, desnorteado, tendo de refazer todo o tecido social em que estava inserido, para dar lugar a um incerto progresso, que pelo menos ainda nada trouxe de bom, nem mesmo os mirabolantes 20, 30, 40 mil empregos para peão, pois para cargos mais bem remunerados é preciso uma formação que os nativos não têm. Imagine o que você sentiria. Na edição de hoje, quarta-feira 14, do jornal O Globo, o jornalista Balbi relata mais um ato brutal de desocupação de terras em Mato Escuro, até com a prisão de um antigo proprietário que perdeu terra e roça e nem de reclamar tem direito. Isso é decente?

Para finalizar as notas de recomeço, volto a falar de O Globo, que conta na primeira página a prisão de bicheiros, antes poderosos e intocáveis, bem como a do Major Curió, famoso pelas maldades praticadas no Araguaia durante a ditadura militar, que também era blindado. Como se vê não há proteção eterna para criminosos nem impunidade para quem rouba dinheiro público. Um dia, como diz o ditado, a casa cai e a blindagem se rompe.

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Entry filed under: Crônicas.

A VIDA ALHEIA NOTAS DO PARAÍSO LXXXI

1 Comentário Add your own

  • 1. João Noronha  |  15 \15\UTC março \15\UTC 2012 às 20:45

    Infelizmente aqui em sua terrinha, alguns conterrâneos estão mais preocupados com o próprio bolso do que com o que acontece a sua volta. Preferem se iludir acreditando em quem não merece, diante da sua incapacidade de discernimento. Feliz retorno numa cidade de muitos cegos e surdos. Abs

    Responder

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