RELEMBRANDO ZENRIQUES

17 \17\UTC novembro \17\UTC 2011 at 16:19 Deixe um comentário

Há mais de 120 anos nascia em Paços de Brandão, da freguesia de Santa Maria da Feira, em Portugal, aquele que viria a ser um dos mais polêmicos jornalistas sanjoanenses, cuja vida e obra retratei no livro “Zenriques, um jornalista político na província fluminense” (Cultura Goitacá, Rio, 1995). O título saiu com o erro de revisão que se repetiu no miolo, um N a menos e um acento a mais, saiu Zériques.

Com 11 anos de idade Zenriques atravessou o Atlântico sozinho, pois o tio que o acompanharia adoeceu e ficou retido em Portugal. Desembarcou no Rio de Janeiro e a ficha de imigrante que indicaria sua chegada não encontrei no Arquivo Nacional, deve ter sido queimada como outras num acidente naquela repartição.

Fui a Paços de Brandão, localidade pequena, cuja economia se baseia na colheita de azeitonas e fabrico de sacos de papel. Não achei qualquer parente dele, a família se havia mudado, desde as primeiras décadas do século passado, para a cidade do Porto. Nem vestígios encontrei no cemitério, sequer a sepultura de um familiar.

Zenriques tinha, pelo que descobri, três irmãos: Joaquim, que veio para o Brasil pouco depois dele e se fixou em São Francisco de Paula, então localidade de São Francisco de Itabapoana, onde se casou – Zenriques e vovó América foram os padrinhos – e dali se mudou para Morro do Coco, que tinha deixado de pertencer a São João da Barra onde, segundo apurei, tornou-se professor. O outro irmão, Júlio, foi para Manaus e se tornou mestre de obras. Era a época do apogeu da borracha e ele trabalhou lá até que veio a crise com o plantio de seringueiras na Ásia e conseqüente esvaziamento econômico do Amazonas. Os irmãos se correspondiam e Julio pensava em rever o irmão e conhecer sua família, mas com a crise mal teve dinheiro para voltar a Portugal.

Ana era única filha do casal e ficou ao lado dos pais. Ela escrevia para o irmão que deixara a casa paterna bem pequeno. Zenriques nunca reviu a família.

Quando Zenriques chegou a São João da Barra o porto tomava novo impulso, depois de ter quase afundado por causa do canal Campos – Macaé, que acenara aos comerciantes e passageiros com viagens sem os riscos do canal instável do rio Paraíba do Sul. Umas poucas ocorrências de tempestades e enchentes mostraram que o melhor seria voltar às águas barrentas do Paraibão velho de guerra.

A cidade e o porto eram regidos pela política dos coronéis e outras patentes menores da Guarda Nacional, o que impedia o seu desenvolvimento. Nesse caldeirão de poder meu bisavô se meteu e ocupou todos os postos que um homem sem recursos podia almejar. Do comércio, como caixeiro do coronel Teixeira, chegou a ser o principal orador e jornalista da cidade, o que lhe acarretou inimigos e invejosos. Com o pequeno capital adquirido com a venda de toucinho e apoio do barão de Barcelos comprou a gráfica do jornal Hyparano, onde trabalhou por algum tempo, e com seu talento fundou o bi-semanário S. João da Barra, que findou com a chegada da república. Ele aqui chegara semi-analfabeto.

O fato de nos seus últimos anos o jornal ter sido ameaçado por atentados a bomba pelo poder municipal não o intimidou e poucos anos depois ei-lo à frente de outro jornal, o Combatente, dos coronéis da navegação, que editou até 1914, quando foi seqüestrada pelos adversários a máquina impressora Marinoni. Com a morte de dois coronéis uma patranha jurídica tirou-lhe o jornal. A Marinoni, por ironia, veio a ser seqüestrada na calada da noite e jogada no canal do Porto Escuro, onde está até hoje, atrapalhando os pescadores, quando devia estar no meio de uma praça, homenageando os jornalistas sanjoanenses. Sugeri isso – é fácil tirar a impressora de onde está – quando foi aberta a praça da Nova São João da Barra, mas aqui ninguém curte homenagear ninguém, vide a parcimônia de estátuas. Apenas duas, ambas de Aquinos, erguidas por Aquinos.

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