TEMPOS IDOS E VIVIDOS

8 \08\UTC novembro \08\UTC 2011 at 20:41 Deixe um comentário

A imensa mulher morena, com banhas se derramando sobre os sapatinhos boneca, contrastando com seu vozeirão, com seu rosto franzido e brilhoso, nos chamava, a todos, indiscriminadamente, de cavalgaduras. E na verdade éramos, por tolerar calados, assustados, a falta de educação de quem se dispusera a nos educar. O professor de uma língua morta, ex-seminarista que não resistira aos apelos de uns olhos brejeiros, ficava na ponta dos pés não só para alcançar a parte superior do quadro – que então era mesmo negro – mas para explicar melhor as declinações; e um outro, ao desenhar cones cortados e linhas destinadas  a nunca se encontrar, levantava tanto os braços que as abas do paletó viraram asas da borboleta que muitos alunos achavam que ele era. Essas e outras são figuras que emergem das brumas do passado, esbatidas, as vozes transformadas em esgares faciais, inaudíveis. Algumas figuras ainda irritam, outras provocam risos, outras se envolvem numa nuvem de carinho e ternura como a professora de ciências, diáfana e pudica, que ficava com as faces ruborizadas ao tratar de certos temas.

Às vezes tive a impressão que todas as lembranças ficaram para trás, soterradas pelas emoções que os anos seguintes trouxeram. Encontro razões para esse olvido. Tinha entrado em novas fases da vida e no princípio tudo é assim mesmo, são tão novos e excitantes os caminhos que passei a percorrer, e as emoções primeiras ficaram ultrapassadas, bobas e anacrônicas e até a menina do 1º ano ginasial para quem colhi e guardei por tanto tempo o botão de rosa vermelha que murchou no fundo da pasta, amassado pelos livros e cadernos e pela timidez, se reveste do tom sépia desgastado que não permite distinguir direito os traços de seu rosto que era tão lindo.

Da rua sobem gritos esganiçados, vozes que escorregam do grosso adulto ao fino infantil e o sobe e desce traz de volta a professora magra, de óculos fundo de garrafa, ligeiramente corcunda, que tirava do diapasão notas que raros alunos reconheciam e poucos conseguiam seguir. Ela se irritava e seus cabelos enrolados, de um louro embranquecido que simulavam uma auréola, se eriçavam de desgosto. Às vezes ela se jogava na cadeira dura e nos olhava, desalentada, exausta, desanimada. Risinhos ecoavam pelas paredes e então ela respirava fundo, fechava os olhos e quando os abria nos olhava sem raiva, decidida a levar seu martírio até o fim.

Pássaros cantavam no arvoredo que cercava o vetusto colégio. Não os feios pardais, inimigos do canto orfeônico, mas pássaros que sabiam as notas do diapasão e cantavam bonito, sabiás laranjeira, sanhaços, papa-capins, melros e coleiros, até o arrulhar das rolinhas era harmonioso. Nunca mais vi papa-capins soltos.

O que não faz a mente ociosa de um cronista de blog numa tarde ensolarada do outono sanjoanense. Há, no entanto, um núcleo maligno que insiste em lembrar que o rio Paraíba do Sul nunca esteve com tão baixo nível de água, que é quase impossível encontrar vivo e cantando algum desses pássaros que citei, às vezes nem mesmo uma cambaxirra ou tizil. Só bem-te-vis a dedular nos fios. E os indefectíveis pardais. As garças ponteiam as margens do rio a intervalos de quilômetros e os peixes que saltavam do espelho dágua em busca de insetos desapareceram, levando em seu rastro os miuás ou biguás, que se encontram aos bandos em Macaé, Rio e outras paragens aquáticas com peixes suficientes para alimentá-los. Recordações que arrancam suspiros magoados desse peito usado, para não dizer velho.

É nisso que dá ficar se entregando às delicadas lembranças de um tempo em que tudo era esperança. O Brasil era menos desenvolvido, mas a corrupção existia em níveis toleráveis. Hoje tenho nojo e vergonha desses homens e mulheres que surrupiam o dinheiro das merendas escolares, dos remédios dos pobres, de tudo que faria desse país quase um paraíso,

Pra que existe memória, hein?

SJB,08/11/2011

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NOTAS DO PARAÍSO LXXIX RELEMBRANDO ZENRIQUES

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